3ª Parada Gráfica POA: Independência ou morte

No último fim de semana, Porto Alegre recebeu pela terceira vez a Parada Gráfica. O evento levou centenas de pessoas ao Museu do Trabalho, às margens do Rio Guaíba, para apreciar (e comprar) álbuns, adesivos, fanzines e cartazes de artistas gráficos de todos os cantos do país. Apresentando quase que exclusivamente artistas/expositores independentes, a 3ª PG trouxe novamente algumas das características que marcam o complicado mercado de produção de quadrinhos no Brasil: comunhão, parceria e força de vontade.

A Internet trouxe um novo fôlego á produção independente de quadrinhos. Mesmo trabalhando em um meio antes destinado ao ostracismo e ao underground, é possível acompanhar a formação de pequenos astros dos quadrinhos independentes – capazes de levar grandes públicos por onde vão. É o caso de Bianca Reis, a quadrinista responsável pelo fenômeno das redes sociais Anna Bolenna – A perturbada da corte.

Álbum de trabalho da quadrinista Bianca.
Álbum de trabalho da quadrinista Bianca.

Lançando seu bem sucedido projeto do Catarse no evento, Bianca diz que esse formato beneficia os criadores que não possuem apoio de grandes editoras, e é essencial para que o artista permaneça independente criativamente.

Vale muito a pena você trabalhar com o Catarse, compensa mais do que você trabalhar com editora. Foi por isso que eu pensei nessa proposta de fazer lançamentos, já fui pra Rio de Janeiro, São Paulo, pretendo ir pra Recife. É uma maneira de eu conhecer a pessoa e ainda entregar pessoalmente o livro. É quando conhecemos as pessoas, que vemos que o nosso trabalho faz a diferença.

Bianca não tem intenção de trabalhar com editoras, já tendo inclusive recusado propostas. Se sente confortável apenas com o Facebook. Nesse sentido, o papel de intermediador entre artista e público, antes desempenhado pela editora, foi para o espaço. O contato é direto e o feedback é imediato.

A partir dessas conversas com os fãs, vem até inspirações para novos trabalhos: Bianca está trabalhando no que ela chama de “Pé na Bunda”.  O novo projeto no qual a artista se concentra é escrito a partir de relatos de fãs enviados pessoalmente à quadrinista mineira.

Mensagem de Bianca para seus fãs gaúchos. E nem tava tão frio, vai!
Mensagem de Bianca para seus fãs gaúchos. E nem tava tão frio, vai!

Outro caso de trabalhos completamente autorais e temáticos é visto quando entrevistamos o gaúcho Adri – que trouxe em seus quadrinhos inúmeros temas, mas principalmente a homossexualidade. O artista tem trabalhos em vários gêneros, tendo até escrito um conto para a coletânea Monstros Gigantes, da Editora Draco. Entretanto, ao falar da falsa doçura de suas obras hiper-sexualizadas que Adri demonstra mais entusiasmo.

Elas (suas histórias) podem até podem ter um visual mais fofinho, mas eu acho bacana elas terem um elemento mais duro, mais ácido, e quebra isso que aparece em um primeiro momento mais fofinho. Eu tenho predileção pelo esquisito, pelo estranho, pelo horror sarcástico.

Você pode conhecer o trabalho de Adri na sua fanpage.

Alguns trabalhos de Adri.
Alguns trabalhos de Adri.
barata
O Barato da Bia, obra escolhida por este escriba para investimento de suas suadas Dilmas :)

Artistas com trabalhos novos também encontram sua maior chance para divulgar seus projetos em eventos como esse. É o caso do coletivo brasiliense Aerolito, que começou em setembro, e foi à Porto Alegre divulgar os três volumes da publicação lançados até agora. Nas capas, figuras como Falcão, Chico Xavier e Serginho Mallandro roubam a cena. Lucas Marques, representante do coletivo na Parada Gráfica, falou um pouco sobre o conceito da arte produzida pelo grupo, constituído de estudantes de artes plásticas da Universidade Nacional de Brasília. “Cada edição representa uma pedra. Selecionamos alguns tipos de pedras com conceitos esotéricos, como a olho de falcão, a raulita e a brita, e se baseou para fazer as histórias”, afirmou.

Aerolito volume um...
Aerolito volume um…
aero-2
…e dois.

O trabalho de Lucas e de seus companheiros de coletivo podem ser acompanhados pelo Facebook.

O mercado de quadrinhos independentes no Brasil continua firme, e eventos como a Parada Gráfica vem a afirmar isso. Cada vez mais convictos da confiança do público em seu material, os artistas conseguem se manter sozinhos, dispensando o trabalho de corporações de entretenimento e ajudando a criar uma nova lógica de mercado – e a julgar pela presença do público e dos artistas (foram mais de 100 expositores, além das oficinas), ela parece estar dando certo.

Fotos: Pedro Kobielski, Divulgação.

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