[Do Contra] Guy Gardner: Warrior

Bem-vindo, Zeronauta. Ou será que não?

Este é o Do Contra: além de ser a coluna do Grisa, também será o espaço onde você provavelmente vai ler o que não quer. Ou talvez queira. Afinal, este é o espaço para caçar tudo de bom que existe em obras consideradas ruins – e por consequência, todas aquelas imperfeições que a consagração de público e crítica nos impede de enxergar.

Será fácil ou difícil? Só o tempo dirá se esta viagem nos levará para algum lugar digno de sua apreciação. E desculpe-nos pelo Grisa, se é que isso é possível.

Ass: Equipe Terra Zero Marcelo Grisa falando de si mesmo na terceira pessoa. Fazer o quê? É divertido!


Capa de Green Lantern 59. Arte de Gil Kane.
Capa de Green Lantern 59. Arte de Gil Kane.

Guy Gardner foi criado em 1968, por John Broome e Gil Kane, e teve sua primeira aparição em Green Lantern #59, de março daquele ano. Professor de Educação Física, ele quase foi escolhido no lugar de Hal Jordan para ser Lanterna Verde do setor 2814 – Hal só ficou com o anel porque estava mais perto do local onde Abin Sur caiu na Terra. Sua vida até poucos anos atrás nos quadrinhos foi uma sucessão de estágios transitórios: Lanterna substituto; detentor do anel amarelo de Sinestro; último vuldariano etc. É justamente sobre o começo desta última fase citada do personagem fase que se passa a fase do Warrior.

A famigerada revista Guy Gardner: Warrior durou 44 edições, mais duas anuais, entre outubro de 1992 e julho de 1996. O #1 é sequência direta de Guy Gardner Reborn, sobre o qual falamos no ComicPod 134. Na minissérie, ele obtém o anel do corpo de Sinestro em Oa depois de uma batalha mental contra o espírito do falecido inimigo da Tropa. As primeiras edições da série são justamente sobre as descobertas de seu novo poder, que tinha a fraqueza ao amarelo que os anéis verdes ainda tinham naquela época.

Há pelo menos dois pontos altos nesta primeira fase. Os oito primeiros números da revista são produzidos por Gerard Jones (roteiro, Liga da Justiça Europa, Magnum) e Joe Staton (arte, E-Man, Mulher Maravilha) – a mesma equipe de Reborn.

A edição #3 é a melhor dessa passagem, por mostrar, de uma forma suficientemente expressiva e sem diálogo algum, o confronto entre Guy e outro alienígena não-identificado. Já que o tom de chacota já estava implantado há seis meses, porque não simplesmente não entregar uma boa porradaria noventista? Melhor do que muitas frases de efeito que o próprio Gardner viria a insistir em usar em cada luta enquanto Warrior. O melhor é o título, que ficou para o final: No Espaço, Ninguém Pode Ouvir Você LUTAR!

Depois disso, há aquela que provavelmente é a melhor fase da revista: ainda com Joe Staton nos desenhos, Gardner é escrito por Chuck Dixon (Batman, Justiceiro) dos números #11 a #19. O melhor arco é o primeiro, Pecados do Passado. Na história, para produzir uma duplicata de Guy depois de capturá-lo, uma raça de alienígenas (que parece com os monstros “beholders” ou “observadores” do RPG de mesa Dungeons & Dragons) usa pequenas criaturas para buscar suas lembranças e copiá-las. Isso força o herói a ter um flashback de sua vida desde a infância até a fase como Lanterna Verde. É interessante ver o uso dessa narrativa, não só como ferramenta de trama nesse arco, fazendo com que isso seja ao mesmo tempo necessário para os vilões e, mais tarde, nas edições seguintes, útil a uma evolução do protagonista. Assim, Guy Gardner decidiu ser (um pouco) menos violento e egoísta.

A partir da edição #22, entretanto, ele perde os poderes do anel, destruído em uma luta contra Hal Jordan. O antigo rival, já sob o codinome de Parallax, havia recentemente dado cabo da Tropa dos Lanternas Verdes no também conhecido arco Crepúsculo Esmeralda. Na edição seguinte, buscando novos poderes para recolocar-se na comunidade super-heroica, Guy começaria a descobrir, totalmente por acaso (ou roteirismo) sua herança alienígena ancestral com os vuldarianos, dos quais ele seria o último sobrevivente, para lutar contra os tormocks.

Guy Gardner: Warrior #21. Arte de Mitch Byrd.
Guy Gardner: Warrior #21. Arte de Mitch Byrd.

Essa fase é escrita por Beau Smith (Wynona Earp), que pegou a revista a partir da edição #20 e vai até o final, em 1996, com poucos fill-ins nesse meio tempo. A arte, da mesma forma e desde o final da passagem de Dixon, foi desenhado por Mitch Byrd (Miss Fury, Darkstars), com eventuais edições com Marc Campos (Extreme Justice) e até Phil Jimenez (Mulher-Maravilha, Tropa Titã).

A fase do Warrior vuldariano certamente fica aquém da primeira, mas, considerando que estes eram os anos dourados do começo da Image Comics, com Spawn, Youngblood e Cyberforce, não é tão ruim assim. Há que se analisar tudo isso em relação ao momento histórico das HQs de super-heróis, que estavam, talvez, em seu momento de maior regressão em relação à forma, à anatomia e outros fatores visuais, dada a prevalência de artistas como Rob Liefeld, considerados os melhores do mercado à época.

Isso sem contar que Warrior foi uma decisão editorial, segundo Smith, para tentar capitalizar na febre dos Power Rangers em 1994. Será por isso que ele parecia tão bombado em algumas edições que parecia um Megazord?

Há, portanto, boas edições nas quais temos boas ideias em execução. A primeira é a #29, com arte de Phil Jimenez. Foi uma ótima escolha, já que esta é a edição de abertura do restaurante Warrior’s, com muitos e muitos humanos (ou quase) a serem desenhados. O local é financiado pelo aventureiro e ricaço Buck Wargo para ser administrado por Gardner e servir de base para seu grupo de exploradores. Tudo vira uma imensa briga de bar no final, já que Buck convidou não apenas os amigos, mas toda a comunidade super-heroica, incluindo desafetos de Guy Gardner, tais como o Capitão Átomo, que agora estava namorando Gelo, seu antigo amor.

A edição #41 também tem uma ideia bizarra o suficiente para dar certo: durante grande parte da edição, as páginas são cortadas pela metade, com a parte de cima mostrando o que está acontecendo (nos anos 90, então era daquele jeito ali mesmo). Na metade de baixo, a história é contada de forma inocente e boba, como num desenho animado de sábado pela manhã. No final da revista, que se passa durante uma feira de brinquedos, descobrimos que segunda parte é justamente o piloto de uma animação do Guy Gardner, parecido o suficiente com o episódio que ocorreu no Universo DC para colocar a situação em perspectiva. No mínimo engraçado. No máximo, completamente surreal.

E claro, temos a imagem abaixo. Achou que eu ia me esquecer de Gal Gardner?

Capa de Guy Gardner: Warrior #42. Arte: Marc Campos.
Capa de Guy Gardner: Warrior #42. Arte: Marc Campos.

Na edição #42, o herói foi transformado em mulher por um de seus vilões, o senhor dos pesadelos Dementador. É uma edição cheia de piadas boas, nas quais Gardner se dá conta de como é ser uma super-heroína nos quadrinhos nos anos 90 – e não, não falo da cintura tão fina que quebra a espinha. Não é nem de perto algo feminista; mas já era, para a época, algum começo.

Apesar de tudo, é possível dizer que até mesmo os diálogos fora de combate de Beau Smith não são ruins, e estabelecem um personagem que parece finalmente estar crescendo. Ele enfrenta perigos muito maiores do que ele mesmo (e do que muitos heróis do Universo DC è época suportariam) e sobrevive. Se o tom galhofa do começo da revista dava a impressão que ele era apenas uma grande criança, ao menos, no final, temos alguém que usa muito mais a bravata em batalha do que fora dela.

Ao irem lutar contra os tormocks, apesar de ter descontroles sobre seus poderes, os membros da Liga da Justiça que o ajudam percebem que Guy cresceu como pessoa. Talvez à força, devido às circunstâncias; talvez não da melhor forma possível; mas cresceu. E crescer é um negócio que acontece quando precisa e nem sempre é mesmo como o que queríamos ser. Mas é só o que temos; acho que a revista é muito honesta nesse sentido.

Guy Gardner: Warrior #36. Arte: Marc Campos.
Guy Gardner: Warrior #36. Arte: Marc Campos.

No final, isso fica evidente quando ocorre o retorno de Joe Gardner, o seu clone maligno que fora gerado no primeiro arco de Chuck Dixon. Joe ainda é o babacão do começo da revista; Guy, por sua vez, apesar de parecer ridículo com as tatuagens vuldarianas, sabe quando e porque destravar a língua e os punhos… Ou talvez nem sempre. Mas é um avanço.

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