Boom! Studios reflete sobre os últimos dez anos

O Boom! Studios completa dez anos em 2015 e aproveita a data para rever o que aconteceu com a editora e com o mercado ao longo deste tempo. Durante o painel do Boom! na SDCC, o presidente de publicação e marketing Filip Sablik, inspirado pelo criador da empresa, Ross Richie, ao invés de apresentar as novidades para o resto do ano, resolveu abrir um debate com os criadores que ocupavam a mesa, buscando saber o que cada um pensava a respeito desta última década para a indústria onde trabalham.

Estavam presentes no painel o artista e roteirista Asaf Hanuka, a escritora Mairghread Scott, o escritor James Tynion IV, o editor-chefe Matt Gagnon e o próprio Ritchie. Mark Waid entrou na roda um pouco mais tarde, mas não deixou de colocar suas opiniões.

Sex Criminals. Arte de Chip Zdarsky.
Sex Criminals. Arte de Chip Zdarsky.

Sablik anunciou a intenção do painel e colocou como indícios das mudanças na indústria não só o aumento do número bruto de leitores, mas também da diversidade de fãs que hoje podem ser encontrados em eventos como a SDCC. Ele citou Ms. Marvel, Sex Criminals e Saga como grandes exemplos do que tem sido produzido hoje e que não teria espaço dez anos atrás.

Filip colocou ainda uma questão interessante e particular. Ele é imigrante polonês e os quadrinhos, para ele, foram uma forma de entrada na sociedade, uma maneira de entender a cultura e os valores de um povo que ele estava descobrindo. E completou: “Agora que eu tenho duas filhas, quero que elas tenham a mesma experiência, quero que elas se inspirem por aquilo que tem sido o trabalho da minha vida. Como uma comunidade, queremos que cada um de vocês se sintam representados nos quadrinhos que vocês consomem”. O que é interessante em si e coloca uma mudança de paradigma na maneira como se criam histórias em quadrinhos e novos mitos.

Só para lembrar, a gigantesca maioria dos artistas e escritores que criaram a indústria dos comics norte-americanos era formada por judeus, filhos de imigrantes. O que eles construíram foram mitologias muito pautadas pela cultura na qual foram criados, refletindo a necessidade de representação. Por isso o comum uso das histórias calcadas em dramas familiares e em “estrangeiros” que chegam a uma nova terra. As necessidades representativas de hoje em dia são diversas e isso têm-se colocado nas novas histórias contemporâneas, para o desespero dos conservadores e felicidade de leitores que nem seriam leitores de quadrinhos se não se identificassem com os rumos diversos que a mídia tem tomado.

Painel da Boom! na SDCC. Foto: iDigitalTimes
Painel da Boom! na SDCC. Foto: iDigitalTimes

Entre os criadores presentes, houve o reconhecimento de uma sensação a respeito da abertura de horizontes que os últimos dez anos apresentaram. Para Scott, autora de HQs dos Transformers, quadrinhos cobrirão uma gama de assuntos tão variada quanto filmes e livros. Para Tyron, autor de The Woods, os Estados Unidos estão se dirigindo para o modelo japonês em termos de diversidade de material, que apela para diferentes públicos, idades, gerações etc. Scott também acha que este movimento não é uma moda passageira. O fato de “minorias” estarem ganhando voz e demandando representatividade, apresenta, na verdade, novos mercados e novas possibilidades de lucro para as empresas. Foi ela quem lembrou que, antes do código de ética dos quadrinhos, existiam gibis de romance, de humor, de terror, faroeste, infantil etc. Parece que somente agora o mercado começa a se restabelecer, depois da queda definitiva do código. Tyron disse que, quando estava compondo o elenco de The Woods, uma de suas preocupações foi fazer as crianças do modo mais diverso possível, deliberadamente pensando em inclusão de diferentes grupos e de diferentes estilos de vida.

Ritchie disse que estas questões sempre estiveram à frente do pensamento da empresa desde sua criação, especialmente no que diz respeito à linha infantil, Kaboom!: “Eu fui o cara que gostava de diferentes estilos de quadrinhos e achava que já existiam super-heróis demais. Se eu pudesse fazer alguma coisa que atraísse crianças para o meio, seria uma coisa muito legal”.

Mark Waid entrou na discussão dizendo que ele também é um escritor que se interessa por muitos estilos diferentes, citando especificamente o Boom! Studios – do qual ele já foi editor-chefe – como um exemplo de empresa que se esforça para não ficar presa à fórmula colante-e-capa. Segundo Waid: “enquanto mais leitores entram para o meio com mais interesses distintos, os quadrinhos têm que começar a espelhar estas vidas”. Waid é também o dono do site Thrillbent, que publica quadrinhos digitais e, apesar de não ter feito propaganda específica do seu serviço, outros criadores do painel lembraram que as webcomics são uma enorme porta de entrada para novos leitores e servem como uma gigantesca vitrine de novos talentos.

Quando foram abertas as perguntas do auditório, um dos presentes indagou a respeito do porquê das editoras hoje estarem se dedicando tanto aos fãs diversos, uma vez que sempre existiram fãs mulheres ou representantes de minorias. O que mudou para que agora as editoras se importem com o fato de existirem, por exemplo, gays compondo o fandom?

Waid respondeu:

“Porque nós vivemos [no passado] em uma era onde uma gigantesca parte da população não teve voz. E esta parte agora tem, e isso é espetacular. Além disso, a compreensão de que nós, caras branquelos que achavam que entendiam, de repente, não estamos fazendo um trabalho tão bom quando pensávamos. Temos que calar a boca, escutar e prestar mais atenção”.

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