Alan Moore diz que super-heróis impedem avanço da cultura no século XXI

No que ele mesmo declarou ser sua última entrevista, o autor inglês Alan Moore, consagrado por obras como Watchmen, Tom Strong, Promethea (que deve sair em breve no Brasil pela Panini) e A Piada Mortal, afirmou que os super-heróis, enquanto fenômeno cultural, são uma catástrofe que impede o desenvolvimento de uma nova cultura no século XXI.

O escritor deu as declarações em 26 de novembro do ano passado, em um encontro com Pádraig Ó Méalóid, um blogueiro irlandês, em um evento chamado An Evening Wtih Alan Moore (Uma Noite com Alan Moore, numa tradução livre). As declarações encontram eco em outras muito semelhantes, que foram veiculadas no jornal inglês The Guardian nessa mesma época.

Colecionáveis da Liga da Justiça. Reprodução.
Colecionáveis da Liga da Justiça, para efeito ilustrativo.

Segue a fala de Alan Moore com mais detalhes:

Eu dei a minha sincera opinião de que eu acho preocupante o fato de que o público de filmes de super-heróis seria hoje composto quase completamente de adultos, homens e mulheres em seus 30, 40 ou 50 anos, que estariam alegremente enfileirando-se para assistir personagens e situações que foram expressamente criados para entreter os garotos de doze anos de 50 anos atrás. Eu não apenas sinto que este é um ponto válido, eu também acredito que qualquer observador desinteressado pode comprovar isso por si próprio. Na minha mente, o fato de abraçarmos personagens que, de forma não-ambígua, foram feitos para serem absorvidos por crianças da metade do século XX parece indicar um retrocesso das complexidades opressoras que admitidamente fazem parte da existência moderna. Para mim, parece que uma porção significativa do público desistiu da tentativa de entender a realidade na qual nós vivemos e, em vez disso, racionalizou o que ao menos pode ser capaz de compreender dos universos alastrantes, sem sentido, mas, ao menos, finitos “universos” apresentados pela DC e pela Marvel Comics. Eu ainda poderia observar que isso é potencialmente uma uma cultura própria, relevante e suficiente para este tempo.

Moore ainda declarou-se cansado de repetir temas em suas entrevistas, tais como o uso de racismo e violência sexual em suas obras. Por isso, e por também estar chegando aos 70 anos de idade, pararia de fazer aparições públicas e de dar entrevistas, apenas continuando suas produções diretamente de Northampton, na Inglaterra, sua cidade natal e onde mora. Segundo ele, “é mais fácil deixar que o meu trabalho fale por mim nestes assuntos”.

A entrevista para Pádraig Ó Méalóid, muito extensa, cobriu boa parte da carreira de Moore, com destaque para The League of Extraordinary Gentleman, a violência sexual contra mulheres (incluindo o caso retratado em A Piada Mortal, mas não só) e diversas pinceladas sobre aspectos de suas obra. Além, claro, de alfinetar seu aparente desafeto, Grant Morrison.

Capa de A Piada Mortal, Edição Especial de Luxo, da Panini
Capa de A Piada Mortal, Edição Especial de Luxo, da Panini

A Piada é do Moore

Muitos deram suas contribuições nas reações às declarações de Alan Moore em redes sociais como o Twitter. Um dos grandes nomes dos quadrinhos a dar seu pitaco, J. M. DeMatteis (Liga da Justiça 3000, Liga da Justiça Internacional) apontou para o óbvio ululante: um debate sobre o tema.

Grant Morrison e Alan Moore já debateram os méritos dos super-heróis? ESSA seria uma conversa fascinante.

De fato, provavelmente seria. Entretanto, o mais curioso é que, com o anúncio da animação de A Piada Mortal nesta semana, ficou até difícil para este redator encontrar menções à visão de Alan Moore acerca do papel dos meta-humanos dos quadrinhos na cultura ocidental. A versão animada da clássica graphic novel do inglês, originalmente desenhada por Brian Bolland, será feita por Bruce Timm, que recentemente retornou à DC Entertainment e retomou suas produções com Justice League: Gods and Monsters.

No fim das contas, o uso intenso e transmidiático dos quadrinhos de super-heróis que Alan Moore produziu acabou por ofuscar a nova publicação de uma demonstração de sua opinião a respeito desses mesmos produtos culturais que vai diretamente contra esse mesmo fenômeno.

A ironia está nestes detalhes.