Homem-Aranha: Azul – Não existem rosas dessa cor

A vida de Peter Parker sempre foi bonita de se ver, mas consiste, basicamente, numa sucessão de pequenas vitórias e grandes perdas. Porque, claro, grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Jeph Loeb, Tim Sale e Steve Buccellato lembram disso com as seis edições de Homem-Aranha: Azul. A minissérie foi publicada pela Marvel Comics entre 2002 e 2003 nos Estados Unidos, e saiu recentemente no Brasil na coleção de Graphic Novels Marvel da Salvat.

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A narrativa fala de como começou o namoro entre Peter Parker e Gwen Stacy – que mais tarde viria a ser morta pelo Duende Verde. A revista é narrada numa gravação do herói, lembrando da época em que, começando a ter a aproximação de Gwen, passa por uma série de desventuras até o começo do relacionamento.

Além de lutas contra vilões, a série também contrasta o lado mais humano das histórias de ação ao dar destaque às pessoas comuns, tais como a família do Dr. Curt Connors, o Lagarto; a chegada de Mary Jane Watson; o relacionamento de Harry Osborn com seu pai, Norman, enquanto ele não se lembrava que era o Duende; e até as mudanças de comportamento do até então bully Flash Thompson.

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Esta é uma das melhores obras de Jeph Loeb – que passou por uma fase muito criticada mais tarde. Talvez por abordar a morte, a tristeza e a desventura com um otimismo perpassado pelo amor à vida e às pessoas. Ela é sensível, tem suas doses de ação e romance e não cai para nenhum melodrama excessivo. Isso mesmo trazendo marcas de seus roteiros que seriam repetidas naquela mesmo época – como no arco Batman: Silêncio, que começou ainda no final de 2002 nos EUA.

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Também no mesmo ano em que Azul estava sendo publicada, o filho de Jeph, Sam Loeb, descobriu que tinha câncer nos ossos. Ele veio a falecer em 2005, após três anos de batalha contra a doença. Talvez o Homem-Aranha tenha sido também a válvula de escape para que o autor pudesse falar, num estágio bastante inicial, de como encarar as tarefas frente ao fim iminente o tempo todo, como muitos super-heróis fazem em seus universos ficcionais. Com uma preocupação com quem está perto e com o estado do mundo – ou pelo menos o mundo próximo -, Loeb coloca o dilema da dicotomia entre o Aranha e Peter Parker muito próximo da abordagem da era pós-Steve Ditko, na qual os dramas que originaram o personagem iam se tornando a dinâmica geral da vida dele dali por diante.

spider-man_blue_int-e1384899102715A arte também simula muito bem a segunda metade dos anos 60, com Tim Sale aproximando seus desenhos das poses e da arte de John Romita, mesmo os desenhistas a partir dos anos 90 tendo incluído as poses verdadeiramente aracnídeas de Todd McFarlane ao estilo do personagem. Há um cuidado para que a história também se pareça visualmente, mesmo nos detalhes: numa página dupla, a Tia May ajeita coisas na cozinha enquanto Peter faz seu café da manhã, e há destaque em cada utensílio, para que nada ali pareça deslocado.

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O colorista, Steve Buccellato – irmão mais velho do agora artista da DC Brian Buccellato, que atuou com Francis Manapul no Flash dos Novos 52 -, executa bem as cores com aspecto retrô dos anos 60, sem precisar fazer a qualidade dos anos 2000 baixar. Ao mesmo tempo, os tons de azul nas cenas mais modernas, no começo e no final da série, se sobressaem justamente pela aplicação do conceito do álbum, sobre o qual não darei maiores detalhes por ser spoiler. Mas de qualquer forma, as páginas em tons de azul, nas quais seria mais fácil de se perder e causar confusão, talvez sejam as mais claras da história, que fazem mais sentido visualmente também neste aspecto.

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No mais, neste Dia dos Namorados, e tendo como base essa leitura, pode-se considerar que mesmo quando se sabe que uma hora as pessoas possam um dia ir embora, nenhum amor deixa de valer a pena. Não deixem de viver o amor só porque a vida é complicada, porque existe distância ou há dificuldades. Vivam e amem não porque a vida pode ser ruim, mas apesar disso. E seja por eventualidade, fatalidade ou por esfriar uma relação, nunca será tarde para encontrar aquele ou aquela que te cativas.

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