[Editorial] Toda forma de amor

Somos a favor do amor. Somos contra o ódio.

Daria para resumir a posição central deste editorial às duas frases acima. Porém, neste Dia dos Namorados, o Terra Zero decidiu trazer para você um dia especial, lembrando dos amores dos quadrinhos e, também, que hoje é um dia de celebração e não de confronto. Quem busca o confronto e o conflito, acreditamos, não fala em nome do amor.

Calvin e Haroldo, de Bill Watterson
Calvin e Suzie se amam. Por Bill Watterson

Debater as origens do amor e do romantismo não nos cabe aqui (a Wikipedia já faz um trabalho excelente nesse sentido). Nem fazer um tratado sobre o tema ou encher este texto com exemplos e mais exemplos, tornando esta peça enciclopédica. Mas este editorial (e este especial) foi imaginado a partir de uma polêmica: o já memorável comercial televisivo de O Boticário para comemorar a data em 2015. Vale perguntar: se somos a favor do amor, somos a favor de toda forma de amor?

Barbarella, por Jean-Claude Forest.
Barbarella transando um robô no futuro, há mais de 50 anos. Por Jean-Claude Forest.

Se há no mundo narrativo dois gêneros que abraçaram a liberdade total na expressão das formas de amar, estes são a ficção científica e os quadrinhos. Apesar de haver pontos de toque entre os gêneros, os caminhos para se ilustrar essa liberdade são muito distintos, até mesmo pela natureza gráfica da arte sequencial, que permite uma gama de abordagens mais ampla que a palavra escrita pura. O amor interracial é mostrado nas HQs há décadas. As relações homoafetivas são sugeridas desde os tempos de William Moulton Marston nos primórdios da Mulher-Maravilha, para darmos um exemplo no mundo dos super-heróis. O amor nos quadrinhos existe também interespécies, intertecnologias, extradimensionamente, extraterrestrialmente, interuniversalmente e, virtualmente, entre quaisquer pares de seres viventes que já apareceram nas páginas desenhadas e roteirizadas ao redor do mundo.

Luke Cage se casa com Jessica Jones. Arte de Olivier Coipel
Luke Cage se casa com Jessica Jones. Arte de Olivier Coipel

Os quadrinhos quase sempre gozaram de grande liberdade e, por isso mesmo, se tornaram um canal perfeito para a discussão social. Mesmo durante os terríveis anos do Comics Code estadunidense, houve muita margem para o debate social. E o amor, meus caros, sempre encontrou o seu caminho, mesmo naqueles anos negros em que o sexo e o amor tiveram sua expressão censurada. Ele é como a natureza: mesmo em ambientes áridos e inóspitos, dá um jeito de florescer, como a flor vitoriosa de Carlos Drummond de Andrade, do poema A Flor e a Náusea, que tomo a liberdade de reproduzir aqui, por sua dura e persistente atualidade:

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

_19-133148

Quando um país precisa parar o que está fazendo para discutir duas pessoas de mesmo sexo se beijando num capítulo de novela ou mesmo apenas se abraçando amorosamente em um comercial, algo está muito errado. Porque, veja, o terreno narrativo é território livre e, normalmente, ele reflete ou antecipa as mudanças sociais que afetarão a humanidade (ou o que a humanidade vier a ser no futuro). Se há um casal gay se beijando numa tela, na ficção, quantos você acha que existem na vida real? Se há um casal lésbico se abraçando ou de mãos dadas em uma peça publicitária, não seria uma inocência tremenda fechar os olhos para uma realidade que está claramente sendo reproduzida, e não criada, nesta peça?

O beijo de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Reprodução TV Globo.
O beijo de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Reprodução TV Globo.

Está claro que a polêmica reside no fato de uma parcela da população brasileira insistir em negar a realidade do amor em todas as suas formas, em tentar impor regras sobre o sentimento, colocando grades no carinho. Esperando contaminar a pureza do amor.

Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh
Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh

O amor é como a flor de Drummond. Fura os asfaltos de uma sociedade que tenta nos impor modelos morais religiosos em um país constitucionalmente laico. Rompe o tédio monotônico das vozes uníssonas em um coro dissonante que apenas abrilhanta esse coral imaginário. Confronta o nojo estampado nos rostos conservadores que tentam rejeitar os sentimentos bons escondidos em armários há muito tempo. Enfrenta o ódio alheio de cara limpa, sem máscaras, sem medo, como sempre foi e como sempre deve ser.

O amor de Brian Epstein em O Quinto Beatle. Arte de Andrew C. Robinson
O amor de Brian Epstein em O Quinto Beatle. Arte de Andrew C. Robinson

Hoje você lerá, no Terra Zero, histórias sobre o amor nos quadrinhos e devido aos quadrinhos. São relatos pessoais, posições particulares dos nossos colaboradores, aos quais foi dada toda a liberdade temática para que escrevessem sobre o amor em que acreditam. A história está aqui, a cronologia está aqui, o sentimento está aqui.

Apenas o amor importa.

Feliz Dia dos Namorados.

28 Comentários

Clique para comentar

1 × 4 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com