Ferreira, Martins e Lobo falam (muito!) sobre Zumbi

Zumbi – Guerreiro dos Palmares é uma HQ com roteiro de Carlos Ferreira (Os Sertões – A Luta), desenhos de Moacir Martins (Strip Comics) e edição de S. Lobo (Copacabana) que está atualmente buscando arrecadar, até o dia 9 de julho, no Catarse, o valor de 39 mil reais. A história busca trazer, com uma riqueza de detalhes e ambientação que muitos livros de História esquecem, o episódio da criação, ascensão e queda do quilombo lendário.

O álbum, entretanto, quase virou lenda antes disso. Em 2013, o Universo HQ abordou a questão: o livro, originalmente encomendado pela editora Nemo e então editado por Wellington Srbek, não saiu em 2012, como deveria, e os autores foram acionados pela empresa na Justiça. Segundo Ferreira e Martins, isso teria ocorrido por conta de uma divergência quanto ao final planejado pelos autores. Na entrevista a seguir, há novos detalhes sobre o caso. 

Conforme entrevista dada por Carlos ao portal na época,

O final faz referência ao terremoto de Lisboa, em 1755. Também é apresentada a cabeça de Zumbi em praça pública. O editor argumentou que isso ia contra a ideia de apresentação didática do álbum. Quando fatos históricos vão contra a história?

Como os direitos de publicação foram posteriormente cancelados no processo, a obra continuou com os autores, para que pudessem publicar o que agora, caso tudo dê certo, deve ocorrer pelo financiamento coletivo.

Procurada pelo Terra Zero para responder a algumas questões sobre o caso, repercutindo a entrevista a seguir, a Nemo não quis se manifestar neste momento. Também procurado, o ex-editor da Nemo, Wellington Srbek, declarou que não se manifesta mais sobre o assunto, por não mais trabalhar na editora.

Os valores a serem enviados via Catarse para Zumbi começam em R$ 15 (PDF do livro + card exclusivo). Para receber o álbum impresso, é necessário contribuir com pelo menos R$ 40. Os valores vão até R$ 2.000, incluindo brindes variados, entre pôsteres, camisetas, canecas, pinturas em aquarela, algumas das páginas originais da obra e ate mesmo uma escultura.

O livro terá duas edições, ambas com 80 páginas coloridas: a Simples, com capa cartonada; e Especial, com com capa dura, em tecido, com serigrafia. A edição Especial é exclusiva da etapa de financiamento.

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No Facebook, também está sendo divulgada a tira Orixás, uma trama que tangencia os acontecimentos de Zumbi recheada de referências aos deuses das religiões africanas, que chegaram ao Brasil junto com os então escravos da então colônia.

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O Terra Zero conversou com os envolvidos em duas oportunidades: com Carlos e Moacir, num primeiro momento; e posteriormente, com o editor S. Lobo. Confira ambas a seguir, nessa mesma ordem.


Entrevista: Carlos Ferreira e Moacir Martins

Terra Zero – O Catarse de vocês está até com um valor um pouco acima da média em relação a outros projetos que estão por lá. Quem são os autores de Zumbi – Guerreiro dos Palmares? Como é, para vocês, a questão do valor do financiamento?

CF – Eu sou o Carlos Ferreira, o roteirista dessa graphic novel, Zumbi – Guerreiro dos Palmares, que é o título provisório. Existe a possibilidade depois, quando o projeto realmente vingar – ou se não vingar, em outro momento – [dele] ser chamado apenas de Zumbi. Mas enfim.

Esse projeto é uma graphic novel que num primeiro momento seria publicada pela editora Nemo. Mas a Nemo, nos últimos segundos do final do segundo tempo, veio com uma versão com a qual nós não concordamos, que seria um final mostrando um negro, na sociedade de hoje, superado do conflito na Guerra dos Palmares e da escravidão brasileira. Então seria um final… assim, Branca de Neve. E nós não concordamos. Lutamos por aquilo que achamos que era o correto, que era manter o final idealizado pelo livro e conhecido pela editora… E um dia recebemos cada um uma carta de citação na Justiça nos cobrando o retorno dos direitos autorais, o que nós achamos um pouco injusto, pelo tempo que nós ficamos produzindo.

Mas enfim, essa instância vai para a Justiça e se resolve. Porque, na verdade, por parte da editora, na minha opinião, é que a editora quis nos castigar por não termos feito a alteração pedida. Até tinham nos declarado que pagariam um extra para isso e nós também recusamos esse extra, porque não era uma questão financeira. Era uma questão do que eram nossos direitos como autores.

Partimos para tentar outras editoras; essas não vingaram por n motivos. Inicialmente as editoras estavam bem financeiramente, depois fecharam… Houve mudanças de diretrizes de algumas editoras, também. E chegamos à conclusão de que não teria outra melhor forma de fazer esse livro se não nós mesmos – de repente, era a própria natureza da história que pedia, de ser essa luta autoral. Nós temos um apoio do Lobo também, que ele entra nesse projeto numa parceria como editor, mas é um editorial autoral. Não tem uma outra forma de definir.

Sobre a questão dos valores: eu acho que nós temos essa característica de, talvez, não ser um dos valores mais peculiares dentro do Catarse. Mas, pesquisando, vi que tem uns valores ligados a quadrinhos que circulam entre nosso valor, que é R$ 39 mil de captação. Mas existiram outros projetos que foram justamente aprovados com valores de até R$ 69 mil, né? Então eu acho que isso tem muito a ver também… Sem desmerecer os projetos menores. Mas acho que isso tem a ver, talvez, no meu ponto de vista, com uma idealização, com uma prospecção mais natural. Acho que nós temos uma questão, que é uma questão histórica que nós estamos contando. Uma história que já tem uma natureza de ser escondida na nossa cultura brasileira. Então tem uma pesquisa que foi forte para ser reproduzida no livro.

Mas existe outra qualidade que é o resgate da [questão] orgânica. E o conceito de uma HQ que explora mais fatos históricos e acho que busca uma narrativa que um pouco se diferencia mesmo que exista nos quadrinhos. Eu acho que existe uma questão naturalizada, existe uma sensibilidade. Se fosse música, não é a música pop, seria um jazz e buscar esse jazz mais de raiz. Acho que o Moacir pode acrescentar mais aí…

MM – Pois é, eu sou o Moacir Martins. Sou o responsável pela arte. É isso, acho.


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TZ – Tem toda essa questão de autoralidade que é forte e muito ligada à pesquisa histórica, a trazer à tona, talvez de forma mais detalhada, uma história que se conhece, mas não tanto talvez quanto se deveria. Em relação à história, não só das lutas, das questões raciais no Brasil, mas do país enquanto cultura, enquanto vivência. O que que tudo isso reflete na tua arte para essa graphic novel, Moacir?

MM – É que assim: a arte foi uma coisa muito apaixonada, sabe? Porque esse seria o meu primeiro álbum mesmo, então eu me atirei de cabeça. E o tema me é muito caro, então eu achei que tinha que ter uma responsabilidade com esse tema, de buscar uma riqueza pra isso, caprichar na pesquisa e tal. Até porque não é a história, digamos, dos vencedores. Os que foram as vítimas, geralmente, ficam meio de lado. Então, tinha muito pouca informação a respeito de como funcionava o Quilombo dos Palmares. Isso originou também muita invenção que a gente teve que fazer, de buscar fontes e recriar coisas e imaginar coisas pra suprir essa falta.

CF – Isso que o Moacir comenta, que é interessante, é que a história é sempre contada através dos vencedores. E a História Brasileira é uma história mutilada. É justamente isso: a versão dos vencedores. E a História universal sempre é uma versão dos vencedores, né? Pouco se sabe das culturas que são dizimadas. O Quilombo dos Palmares foi uma cultura dizimada.

Mas eu acredito que não foi exatamente uma guerra perdida. Explico o porquê: no meu ponto de vista, o Quilombo dos Palmares é a nascente do Brasil. Essa cultura que nós temos de tolerância, um povo com culturas diferentes… Óbvio que existem problemas raciais e culturais, mas também existe uma característica desse nosso povo de ter essa tolerância. Tanto cultural como até religiosa. Isso nasceu no Quilombo dos Palmares. Por quê? Porque é errado a gente pensar que o Quilombo dos Palmares era somente um gueto negro, um gueto de ex-escravos, de africanos. Na verdade, o Quilombo dos Palmares era dirigido por essa classe, por essa raça, por esse povo africano; mas existia, sim, a presença de índios e de brancos que não se identificavam com o sistema da época. Porque o sistema que existia naquela colônia que era chamada de Brasil era um sistema de exploração. Eram vermes comendo a carne podre. Não tem outra forma de definir. E eu acho que essa resistência e essa cultura que nós temos hoje veio justamente do Quilombo dos Palmares.

Então, é por isso que eu acho que existe um ponto a favor do quilombo. E essa história, como contada até então, por uma facção. Eu nem vou falar questão de raça, mas eu vou colocar como a velha e clássica facção dominante, exploradora de um gueto que vai passando pelo tempo e quer consumir ele e se nutrir de qualquer força que pense diferente naquele gueto. Que é a velha história, né? Da lei do mais forte. Mas os que foram dizimados, essa ausência, esse hiato que ficou no tempo, de alguma forma ela ficou no nosso inconsciente, na memória. Não tem como se dizer que não. E não tem realmente: o quilombo foi dizimado, as cerâmicas foram destruídas… Casas, não se tem informação. O tipo de tecido, como era… Mas ao mesmo tempo, o que era antes do quilombo, nós tínhamos essa informação. O que é a África está lá, as informações sobre a África se mantém. Então para nós imaginarmos o quilombo, a gente começou a pensar nessa miscelânea de culturas: a indígena brasileira, a africana… E essa mistura foi a forma que nós criamos para representar o que teria sido o Quilombo dos Palmares.

TZ – Talvez não seja uma recriação histórica, mas uma imaginação dentro dos parâmetros todos que existiam e que existem, recuperados para a HQ?

CF – Quando eu coloco como recriação, é mais a estética. Não é como nós iríamos desenhar e como seriam as personalidades desse povo. Então existiu essa brincadeira de imagética. Óbvio que tudo com base na pesquisa. Para chegarmos mais ou menos a imaginar como seria essa região, as tribos que estariam e como seriam os adereços dessas tribos, a gente buscava informações de indígenas, de tribos africanas, do homem branco da época…. De como seria essa mistura.

Uma coisa que sempre nos passa em qualquer outra forma estética, no cinema, na literatura e até mesmo nos quadrinhos – quando tem, porque são pouquíssimas vezes que mostram o negro – sempre é o negro vestido de branco, né? Com aquela roupa de saco de batata ou aquela cor meio terra. E era uma coisa que tínhamos imaginado. Não, pensa bem: se os caras escravos se vestiam assim, quando deixavam de ser escravos tudo o que eles não iriam querer é continuar com aquelas roupas. O que que eles iam fazer? Eles iam resgatar a sua forma colorida de ser africano. Então trouxemos isso para o livro. A presença das máscaras indígenas, por exemplo; a presença das máscaras africanas também. Elas são elementos trabalhados no livro.

TZ – Até hoje a gente tem isso: a questão do Carnaval, da cor, da faceirice… Talvez seja maior em alguns lugares e menor em outros. Mas será que o Quilombo dos Palmares não está hoje em dia acontecendo na favela, na vila, em todo lugar que a gente está vivendo situações assim, com o perdão da comparação histórica? Talvez as mesmas coisas acontecendo de formas diferentes… Tu enxerga isso?

CF – Esse conflito do Quilombo dos Palmares é uma coisa que se perpetua até hoje. É ridículo a editora Nemo, por exemplo, nos pedir um final mostrando o negro hoje assim: “ah, isso é uma coisa do passado, não faz mais parte da cultura”, porque é uma grande mentira! Faz parte da cultura brasileira. Basta ligar o noticiário, que, por pior que seja, tu vai ver que a maioria que é morta nesse país é negro. Começa por isso. Então ainda perpetua a mesma caça ao negro de 500 anos atrás. Ainda existe essa classificação que o pobre é ignorante e que as classes favorecidas são as mais intelectualizadas. Isso é uma outra barbárie, porque se a gente for parar para pensar na música popular, ela começa justamente nos guetos. A nossa cultura começa pelo pobre, começa pelo lado que esse pensamento reaça discorda. Começa por baixo.

Não que eu acredite que existe realmente essa gravidade de alturas e níveis sociais. Na verdade, eu acho que todo mundo tem que lembrar que todo mundo aqui é pré-cadáver. Essa é a nossa verdadeira raça: nós somos pré-cadáveres. Então ninguém sai daqui com algum trocado no bolso. Mas a sociedade faz a gente pensar que não, que é o contrário, né? Há essa presença da Guerra dos Palmares, como sempre existiu, nesse ciclo. Desse conflito de um gueto menor ser dizimado por uma cultura maior. Pode ter visto isso dentro da literatura, como faço um exemplo: Os Sertões. Não deixa de ser a mesma história. O Coração das Trevas, que não deixa de ser a mesma história… A gente pode ver também em ficções como Star Wars: também, se tu vai ver, existe esse conflito também. A gente pode pensar que o que o Bush fez com o Iraque não deixa de ser também esse mesmo conflito – isso sem pensar e sem aprofundar ideologias, de dualidades, de bem e mal. É que a questão é que o ser humano adora fazer merda! Não tem outra forma de pensar; humano adora fazer merda.

Catarse_PAG_5_copyTZ – Aliás, tu citou Os Sertões, que é uma obra que tu já abordou anteriormente. Então tem toda essa questão envolvida.

CF – Tem uma questão dos Sertões que é importantíssima: quando a editora Nemo e o editor Welilngton Srbek me procuraram para fazer a Guerra dos Palmares, a abordagem foi justamente essa. “Venha fazer o irmão gêmeo dos Sertões.” E aí me vieram com uma versão, no final, quase: “Venha ser um autor do Pato Donald da década de 50”, sabe?

TZ – Já volto nisso. Mas, até para não perder o fio da meada… O Carlos tá aí, fazendo quadrinhos desde antes de eu ser nascido, né? Este redator faz 27 anos no mês que vem… E, ao mesmo tempo, o Moacir vem pra sua primeira graphic novel, tem uma vivência mais de trabalhar com a questão dos sindicatos, também dentro dessa questão social. Mas como é essa relação entre vocês, que têm experiências diferentes, com características distintas, mas que, talvez, sirvam a pontos comuns?

CF – É, agora que eu parei para pensar quanto tempo… Todas as parcerias que eu faço nos quadrinhos tem um elemento que as move, que é a amizade. O Moacir e eu somos amigos há… antes de tu nascer, assim. Inclusive quando éramos crianças, no segundo ano do atual Ensino Fundamental, nós éramos colegas e o Moacir produzia quadrinhos geniais. Ele é da mesma geração que eu quanto ao interesse no quadrinho. Mas, desde o momento que estudamos juntos até os nossos 16 ou 17 anos, a gente tinha perdido o contato.

Quando nós nos reencontramos, a força foi o quadrinho. Então sempre nos acompanhamos e até já tínhamos produzido, naquela época, juntos. Só que existiam diferenças estéticas (porque eu desenho também). Ele é um desenhista barroco e eu me considero um desenhista mais expressionista. Mas essas diferenças nos alimentavam. E existiu um autor, que era o grande peso no mundo, que era o Alberto Breccia. Ao conhecer uma gama de desenhistas aqui do Sul, ele deu uma atenção maior ao desenho do Moacir e ao meu, no sentido de ter olhado esses dois desenhistas, os desenhos deles, e querer conversar e expressar boas críticas em relação a esses desenhos quando esteve no Brasil. E acho que a partir daquele momento essa parceria nasce.

MM – É, a partir daí a gente começou a fazer. A gente fez um monte de coisas que tão engavetadas. Claro que eu tenho muito material assim. Eu produzo quadrinhos há muito tempo, só que aquela coisa: acabei me enveredando mais, por questões financeiras, para o lado da ilustração, principalmente para sindicatos, o que fiz bastante. E o Carlos já sempre levantou mais essa bandeira. Porque o Carlos já tem meio essa coisa de ser um produtor, que corre atrás, que resolve. Eu já sou um cara muito de bastidores, sabe? (risos) De construir as coisas mais atrás. E o Carlos sempre usou isso mais, foi o carro-chefe. Mas eu produzo há muito tempo. Nunca parei de produzir quadrinhos.

CF – Existiu, na década de 80, no final dela, uma revista cujo projeto eu considero muito bom. Era uma revista chamada Histórias Sobrenaturais. Era uma revista em quadrinhos de um programa de rádio chamado Histórias Sobrenaturais, que era produzido pelo… Acho que era o Luiz Braz, o radialista [da Rádio Farroupilha, do Rio Grande do Sul, famoso no estado pelos seus programas assistencialistas]. E no programa as pessoas mandavam cartas de contatos, de horror. E ele pensou: “Por que não transformar isso em quadrinhos?” E o Moacir foi um dos desenhistas autores da revista. Ele fazia umas histórias de horror populares que eram maravilhosas!

Então, sempre me atraiu a ideia de fazer alguma história com o Moacir e foram várias tentativas, mas enfim, né? Nós éramos mais jovens, tínhamos mais toda uma vida para conquistar… Sexo, drogas e rock’n’roll. A gente também precisava se achar como personalidades, enfim. E eu acho que os projetos também ainda estavam naquela Era Collor. Não tinha como fazer quadrinhos. Não tinha Internet, não era a mesma coisa. Então a Internet da época era a gaveta. Então demorou até acontecer a possibilidade de um financiamento para um projeto em parceria.

Quando a Nemo me procurou, eu até acredito que inicialmente o plano de chegar em um outro desenhista. Só que eu relutei. Eu disse: “Não, eu quero que essa história seja desenhada por um autor daqui, que não é muito conhecido.” E aí eu apresentei o trabalho do Moacir. Eu então idealizei o livro todo aquarelado e a editora não queria isso: eles queriam que fosse a toque de caixa. Nanquim, cor, Photoshop. Nada contra quem trabalhe com isso e nada contra essa estética. Só que uma história de época, na minha opinião, tu tens dois caminhos: ou tu faz em preto e branco, ou tu faz em orgânica, né? Pinta, de preferência, porque daí tu traz mais elementos. E o elemento que eu imaginava do livro eram as aquarelas mais próximas do [Jean-Baptiste] Debret, mas numa leitura do Moacir. Eu sabia que ele ia conseguir aprofundar isso. Então quando o Moacir apresentou as primeiras páginas após eu ter idealizado isso, eles aprovaram de primeira. Depois, queriam brigar ao máximo para ficar com esse material na versão deles. Eles viram que era o potencial correto para a história, né? O potencial estético.

TZ – Essa questão do final: tem alguma ideia do por quê disso? Essa HQ, por exemplo, estava selecionada para alguma distribuição em escolas, alguma coisa assim? Apesar da imprecisão histórica desse final sugerido por eles? Sei lá, tentar ser didático? Botar uma questão de auto-estima?

CF – A maioria das editoras do Brasil, tirando a do Mauricio de Sousa e mais a Cia dos Quadrinhos, na minha opinião… Ainda acho que posso estar sendo um pouco injusto, que tem mais a Zarabatana que eu posso citar como exemplo. Posso estar esquecendo de outras. Eu sei que editoras como – não tou cuspindo no prato que comi, hein? – a Ediouro, a LeYa, a Saraiva, como a própria Autêntica – porque a Nemo é um selo da Autêntica. A maioria dessas editoras não tão pensando nos quadrinhos; essas editoras tão pensando no PNBE [Programa Nacional Biblioteca da Escola]. Quadrinho é um artifício para sacar grana do PNBE, entende? É negócio para eles. Eles querem essas grandes tiragens. Só que parte do meio editorial nem sabe exatamente o que é quadrinho. Ele só sabe que quadrinho está ali.

Às vezes, há projetos de quadrinhos que ficam legais porque o editor ainda não tem aquela noção do que pode ou não pode. Talvez agora que o PNBE já não é mais um garoto, já começa a ficar meio adolescente, ele já sabe que, como qualquer outro adolescente, pode gerar crise. Então é melhor a gente começar a podar, entendeu? Mas o interesse das editoras é esse. Pode parecer até pessimista, mas mercado de quadrinhos no Brasil é uma coisa que não existe. Então eu me questiono: aonde é que está o mercado de quadrinhos?

Existe uma linha de produção que é super bacana, popular, do Mauricio de Sousa, e deveriam existir outras linhas do gênero. Isso é mercado. Assim como eu acho que hoje o autor está fazendo a diferença porque ele está sabendo que não basta ele somente desenhar a história: ele tem que desenhar a história e fazer a feira dele. É um outro pensamento. Não é um pensamento que se tinha nos anos 80, por exemplo. Então o mercado no Brasil é que nem aquele filme, A Bolha. É aquela gosma que vai tentando se moldar e nunca se molda, continua uma gosma.

Logo, logo, ou agora mesmo, neste ano, isso já vai se apresentar: vai começar a ter um declínio em relação ao PNBE, porque é o governo que dá esse alimento. Não sei como vai ficar em relação a essa crise. Tanto que foi notificado que o governo vai tirar 90 bilhões, vai economizar na educação. Então… se isso é cortado, a gente já volta a viver aquela situação que é meio um não-mercado de quadrinhos de novo. Esse é o perfil, na minha opinião: se pensa MUITO em venda para o governo; e quem edita não tem, na maioria das vezes, um perfil de leitor de quadrinhos.

Porque, para tu ser editor de quadrinhos, antes de tudo tem que ser leitor de quadrinhos. Tem que ler ali desde Mônica, Marvel, DC… Ler os autores independentes. Tem que saber, tem que sacar a mesma coisa que o editor de literatura. Editor bom é aquele que lê. Aquele que não lê, não tem sentido de ele estar ocupando espaço. E existem aqueles que também leem. Mas aí ficam muito na questão da sua coleção, entende? Na minha opinião, um autor de quadrinhos tem que ter a mente aberta. Não pode simplesmente: “Ah, isso que eu tenho na minha biblioteca é bom e o resto das coisas não é”, sabe?

TZ – Como diz um outro quadrinista porto-alegrense, “a sua cronologia pessoal”.

CF – Exatamente. Acho que tu tem que, como editor, ter uma visão o mais aberta possível. Acho que não pode ser um gueto. Mas existem bons editores, assim. Eu considero o [Sidney] Gusman um bom editor; considero o Lobo muito bom editor também… Acho que esses são os perfis. Acho que o André Diniz seria um belíssimo editor também. Ele tem uma visão para as coisas. O Rafael Coutinho é outro que tem essa pegada de autor e também de editor muito bacana… Pena que não tem uma editora maior financiando. Aí sim, teria mercado. Se tivesse investimento.

E mais uma outra coisa: falta no país, no Brasil, uma figura, para ver como essa história de mercado é tão estranha. Falta a figura do publicador.

TZ – O Publisher.

CF – Exatamente. Falta essa figura e não tem. Não existe isso. Não existe e eu sinto falta. Seria uma outra pegada na cultura dos quadrinhos no Brasil.

[Lembrando aos leitores: publisher é mais ou menos como a figura do Dan DiDio e do Jim Lee na DC Comics, do Axel Alonso na Marvel (que é editor-chefe, mas é mais para esse lado também). Dependendo da editora, pode ser chamado de uma coisa, pode ser chamado de outra.]

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TZ – Mas como as editoras não ajudam, como falta editor, quem entenda… Será que o financiamento coletivo é a saída? Já que a gente tem visto tanto, especialmente agora, no início de 2015, teve uma avalanche de projetos no Catarse?

CF – Eu acho que esse casamento ninguém previa, né? Catarse e o autor de quadrinhos. Esse casamento é o casamento perfeito. Por quê? Porque elimina várias coisas no meio do caminho. Elimina do teu caminho editoras ruins. Editoras boas e editores bons, isso continua. Mas você elimina o mau editor e elimina um outro problema, que é a distribuição.

Mas também eu tenho uma visão diferenciada: ele é oficialmente isso, mas também pode ser encarado como uma assinatura. Ali tu olha o projeto, escolhe o prêmio que tu quer, “ah, esse”, e está comprando. É quase como uma assinatura. Se vinga o projeto, recebe, está tendo retorno enquanto leitor. E o bacana é que tu tens contato direto com o autor, né? Tem um outro entrosamento, existe uma outra relação. E eu acho que isso vai para uma instância maior. Porque não tem como fugir do filtro da Internet hoje. Para a gente conhecer um bom autor, a melhor coisa é ir pra Internet, para saber quem é o cara. Quando a gente conhece, a gente curte o autor, a gente quer conhecer mais daquele universo.

Nós estamos, por exemplo, fazendo uma história paralela para divulgar mais o Catarse do Zumbi – Guerreiro dos Palmares. Foi uma ideia que me ocorreu de pensar: vamos fazer uma tira, em vez de sempre estar colocando texto, vamos sair dum formato frio e vamos num formato latino, quente. Vamos contar uma outra história, que de alguma forma é interligada com aquela história, mas não é a mesma.

Como é que as pessoas reagem? Nós postamos e, em uma hora, tínhamos quase três mil visualizações. Então isso é uma ferramenta ótima. Sem o filtro da Internet, não existiria isso.

TZ – É como você mesmo disse: a gaveta hoje é a Internet. Nenhum trabalho precisa ser feito e não ser utilizado. No mínimo tu pode mostrar para todo mundo e dizer: está aqui. Falando em gaveta, Moacir: essa tua gaveta que tu tem bem cheia… Dando certo ou não a questão do Catarse e tudo o mais, tem planos pra essa gaveta aí? Eu fiquei curioso com ela!

MM – Não, com certeza. Inclusive eu edito uma revista, que é a Strip Comics, que é um material dessa gaveta. E a princípio eu comecei como um trabalho só meu. Editei o primeiro número e o segundo número já trouxe outras e outros desenhistas. Trabalho só meu no desenho, porque no roteiro tinha algumas colaborações, alguma coisa. Mas o segundo número já trouxe outras parcerias aqui de Porto Alegre. Então essa é uma das coisas da gaveta que já está até saindo. Mas tem mais ainda. Tem muito trabalho que ficou inconcluso, que a gente inclusive pensa nessa plataforma do Catarse para fazer essas coisas aparecerem, porque é uma maneira de quem não tem uma visibilidade muito grande conseguir colocar seu trabalho na roda.

CF – Moacir certamente vai sair do armário! (risos gerais)

MMStrip Comics é uma revista erótica, então…

TZ – Então é isso aí. Envolve armários, envolve camas, envolve todo o mobiliário.

MM – Exatamente!

TZ – Antes de nós terminarmos, uma última. Bem, está um valor aí, pelo que eu vi, em torno de 2 mil reais ainda…

CF – É, isso dá 5%.

TZ – É que falamos no Terra Zero com vários autores e eles sempre comentam sobre a questão da reta final. O pessoal tem aquela coisa de deixar para a última hora, é cultural nosso. Vocês estão animados? Como é que vocês tão vendo essa evolução do financiamento?

CF – A minha visão é: o épico acontece dentro do quadrinho. Eu tenho uma visão mais realista. Tinha uma euforia para o projeto estar, mas para mim ainda é uma aprendizagem. Eu tenho uma teoria que pode ser meio onda de tsunami, entendeu? Se tu começa a analisar, o tsunami é uma ondinha de pouquíssimos centímetros, mas a coisa pode se tornar progressiva.

Na primeira semana, acho que o nosso trabalho foi mais intenso, e acho que, por exemplo, por eu ter ficado gripado, mal mesmo, no início dessa semana [semana passada], eu fui muito mais o Vigia da Marvel. Fiz o que eu podia até então fazer, mas eu fui muito mais observador. E eu percebi que o movimento está se construindo. Eu acho que as pessoas estão descobrindo ainda o projeto, e eu acho que as pessoas tão entendendo o que é o projeto. Porque não tem melhor publicidade do que o projeto estar acontecendo. Então a minha visão é: fechou duas semanas, agora nós temos seis semanas para acontecer mais coisas.

Mas eu não me preocupo muito com a ideia do valor. Eu me preocupo mais é com o projeto se expandindo. Ele tem que se expandir para mais pessoas. O valor não importa. Se ele se expandir e der interesse em mais pessoas, se nós tivermos alcance em mídias mais abertas ainda, nós podemos atingir a meta. A questão é construir isso. Mas aí nós dependemos muito do boca a boca, muito da polêmica do projeto, entende? Muito da conversação, muito do diálogo e, quem quiser conversar, a gente está aberto para responder.

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Entrevista: S. Lobo

Terra Zero – Como é que se deu a sua entrada no projeto Zumbi – Guerreiro dos Palmares?

S. Lobo – Na verdade, eu e o Carlos já temos uma história de trabalho juntos fazendo Kardec. Mas essa história se deu agora, nesse novo momento, com ele levando a história para o Catarse. Ele me chamou para ajudar, para dar uma arredondada nas coisas.

TZ – Qual é o trabalho que se pode fazer como editor em cima disso, sendo que muitos projetos no Catarse nem editor tem? Qual é a tua intenção enquanto editor nesse trabalho?

SL – Na verdade, para mim isso muda muito pouco, né? Não importa muito de onde vem a fonte do dinheiro e para onde o dinheiro vai. O trabalho de edição é um trabalho que tem que ser feito; a partir do momento em que você publica um livro, alguém tem que estar editando ele. Alguns autores fazem autopublicação, eles mesmos se editam. Outros preferem chamar alguém para editar, para ter uma visão de fora. Eu acho que foi o que aconteceu com o Carlos.

TZ – O Carlos também é um cara que tem uma certa experiência em edição e que está no mercado há bastante tempo, assim como você. Além de ler e consumir a mídia em si, o que você acredita serem as características essenciais na hora de editar? Não de um editor, mas na hora de editar, já que cada um também pode editar o seu próprio trabalho?

SL – Cara, eu não tenho muito isso, porque cada trabalho tem as suas necessidades. Cada trabalho de edição é diferente: você aprende uma coisa nova, descobre um novo jeito de fazer alguma coisa… E cada trabalho tem os seus pressupostos iniciais, que são diferentes uns dos outros. A única coisa que é comum no trabalho do editor é que você normalmente pega o trabalho do autor e tenta alcançar ele para o público de uma forma mais coerente. O objetivo é tornar o trabalho mais vendável, facilitar a compreensão do leitor em relação ao trabalho.

TZ – O Carlos e o Moacir tão inclusive fazendo uma tirinha, Orixás, para ajudar a divulgar o projeto. Como você vê não só essa iniciativa que vocês estão realizando, mas todas essas outras que diferem de simplesmente jogar o endereço do financiamento coletivo nas redes sociais, criando essas narrativas laterais ao projeto principal?

SL – Acho que é como eu disse, cada trabalho tem as suas necessidades. Em função das necessidades, vem a criatividade. Então eu acho que essa solução deles, das tirinhas, é um outro jeito de divulgar o trabalho do Zumbi. Então esse processo é mais uma forma de divulgar, de uma forma criativa e interessante, dando ao público um pouco mais de conteúdo.

TZ – Para além de Zumbi: você está trabalhando em mais coisas atualmente, Lobo?

SL – Em breve vai ter o relançamento de Copacabana, pela editora Aeroplano – publicado anteriormente em 2009, pela Desiderata. Eu estou trabalhando numa nova história, na estética spin-off, de Copacabana, que em breve vou divulgar. E a gente acaba de ganhar um Prodav [Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro] para desenvolver Copacabana como uma série de animação.

TZ – Poxa, parabéns! Interessante, como falava desses produtos laterais, do transmídia chegando também às HQs e à produção brasileira de ficção. Tem também o longa-metragem do RIO: Zona de Guerra, do Leo Lopes. No caso do Copacabana, era algo que você buscava, ou aconteceu?

SL – Cara, isso são quinze anos de trabalho. Se eu for contar, de Copacabana, vinte anos de trabalho. Eu trabalho com quadrinhos profissionalmente desde 2003, então aí já são doze anos. Eu escrevi Copacabana há vinte anos, pelo menos – talvez 25. Então são coisas que a gente vai agregando no dia a dia, né? Cada vez a gente vai chegando um pouquinho mais perto do objetivo final. Algumas coisas elas atravessam, elas realmente acontecem do nada. Mas a grande maioria, não tem desculpa: é trabalho. Não tem glamour. É todo dia levantar e fazer uma partezinha.

TZ – É que nem o Terra Zero, cada um vai doando o seu tempo o quanto pode etc.

SL – É que nem dar essa entrevista para vocês. É um trabalho que me leva a algum lugar, para falar do que eu estou fazendo, e me abre novas portas. Isso tudo é importante. Você dá uma entrevista, você conversa…. Manda uma proposta de negócios, uma proposta que dá errado, mas em função dela, você começa outra história…

TZ – De cada acerto participam vários erros, então? Um projeto que não dá certo nunca é jogado fora, tanto que está o Zumbi aí, não é verdade?

SL – É, agora estou editando só para amigos, em projetos que me interessem, e estou principalmente focado na minha carreira autoral. Estou voltando a escrever, e em breve terei mais projetos por aí para divulgar.

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