Entrevista: Pedro Cobiaco e sua Ilha do Tesouro

Ontem (05), Pedro Cobiaco lançou online sua nova obra, Aventuras na Ilha do Tesouro. O jovem artista, filho do talentoso Fabio Cobiaco (coautor de V.I.S.H.N.U. e vencedor, por esta obra, de um Prêmio Jabuti), trilha seu próprio caminho nos quadrinhos há alguns anos, sendo Harmatã (recém relançado pela Mino, após uma vitoriosa edição independente) sua obra de maior vulto até aqui. Seu novo trabalho, que será serializado até sua conclusão (quando será compilado em álbum pela mesma Mino), já promete em poucos páginas continuas com a quase obsessão do autor pelo novo e pelo desafio.

Numa entrevista exclusiva e sem cortes concedida ao editor-chefe do Terra Zero, ele fala um pouco sobre a parceria original com uma editora, sobre sua visão muito particular sobre o processo criativo e, claro, conta pelo menos um detalhe constrangedor de sua vida pessoal pregressa.

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Terra Zero – Me conta como começou e como está sendo essa parceria com a Mino.

Pedro Cobiaco – Começou com uma carona de carro do Lauro e da Janaina (os editores), que já estavam trabalhando com meu pai na época, onde eles me ofereceram, com esse charme de gente doida que esses dois tem, de publicar um quadrinho meu. De cara eu dei um pouco pra trás, não tinha muita vontade de trabalhar com editoras, queria fugir disso e ficar sempre no independente. Acabou que eu fui conquistado: eles são doidos (vou continuar frisando), me deram uma liberdade imensa, e tem me ajudado pra caralho com o processo desse quadrinho. Tá sendo uma experiência caseira, divertida pra caralho e muito gostosa.

Me lembra das coisas incríveis que eu li por aí, de editoras pequenas e escritores malucos que tinham uma relação de amizade e parceria, coisa de família mesmo, de saírem todos pra festa juntos e depois trabalharem todos em equipe com ressaca, hahah, é realmente bem foda. Eles viraram uma segunda casa pra mim. É bem bonito tá perto dessa gente, não só desses dois como de todo esse grupo de malucos que orbitam a editora, todos apaixonados por gibi (gibi mesmo, no sentido mais gostoso e divertido da palavra).

Uma bela gangue, isso dá pra dizer com certeza, e só dá doido. Não podiam ser gente normal mesmo, esses psicopatas, pra aguentarem trabalhar comigo.

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Ilha do Tesouro é a sua Hora de Aventura particular?

Cara, sem dúvidas o desenho entra na lista de influências do trabalho. Até porque a Ilha do Tesouro começou como uma tira infantil na Folhinha, eu devo ter feito umas 20 ou 30, e os personagens eram crianças e tudo. Tinha um elemento semelhante ao dos primeiros episódios do desenho, antes de entrar o caos e o mistério na trama, de personagens sendo jogados em aventuras divertidas, com um humor meio de não explicar nada e simplesmente ver como eles reagem às situações.

Em certo ponto, eu decidi que queria ir além com o projeto, pra um quadrinho longo e aí, no meio do processo, eu acabei decidindo que queria fazer algo mais rasgado e agressivo do que era a tira pra Folhinha. Troquei os protagonistas por adolescentes anárquicos e comecei a criar em cima disso. Tava ouvindo muito Clash na época, e queria personagens que pensassem e agissem igual as letras das músicas do London Calling, e que parecessem saídos de um clipe do Stray Cats, uma porra assim, hahaha.

Mas, conforme a produção foi avançando, entrou um dos principais elementos da criação dessa HQ pra mim: essa tentativa de criar um universo fantástico, uma sensação de coisa única e exótica. Nesse ponto é que entra a inspiração de paradas como Adventure Time mesmo, porque é uma criação de universo muito bonita que eles fazem ali. Divido também com o desenho a influência de RPGs de mesa na construção de algumas coisas da história. Eu poderia até dizer que a Ilha do Tesouro tem semelhanças com o desenho, mas puxa pra uma coisa mais crua e punk — só que, pensando bem, esse desenho é porra louca pra caralho, mesmo passando em horário nobre num canal pra crianças. haha!

Além de tudo, na parte visual, diversos artistas que trabalham/trabalharam em HdA me influenciam imensamente — um deles, o Michael Deforge, é uma das principais influências no meu trabalho nos últimos tempos.

Então o álbum é uma continuação direta das tiras da folha ou é um reboot, no fim das contas?

É bem bizarro, mas acho que nem um nem outro, hahha. Ao mesmo tempo em que ele se passa numa época pra frente da que a tira está, ele muda bastante os personagens, a origem deles, essas coisas. Tem uma conexão entre as duas obras, mas acho que está bem mais perto do reboot do que da continuação. Eu abandonei o universo da tira (em parte, alguns elementos continuam) e estou recriando ele no quadrinho mais longo.

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Esse é teu primeiro álbum colorido, certo?

É, sim! Sem dúvidas, a coisa mais longa que eu já fiz com cores também (na verdade, vai ser a coisa mais longa que eu já fiz no geral). A chance de trabalhar com cores tem sido do caralho, acho que eu passei muito tempo nesse último ano tentando desvendar onde eu queria chegar com cores (em especial, cores digitais) em quadrinhos, e tenho percebido que todos os testes interminados, as pesquisas, as experimentações em quadrinhoa curtos, tudo isso tem culminado na Ilha do Tesouro. Cor, pra mim, virou um elemento praticamente indispensável nessa tentativa de criar um universo fantástico.

Sim, porque as cores têm muito de inspirar o fantástico. Ao mesmo tempo, o seu trabalho com o preto e branco continua muito consistente. A combinação entre as duas coisas, para mim, cria algo muito novo, principalmente em termos de publicações nacionais.

Agradeço muito, velho! Não sei se é algo novo em qualquer círculo que não o do meu próprio trabalho (isso a gente vai descobrir ainda), mas só o fato d’eu estar sentindo um sopro diferente dentro do que eu faço me anima muito com esse quadrinho.

E como você lida com a experimentação? É algo que faz parte necessariamente do seu trabalho?

É, sim. É, inclusive, algo que eu volta meia reaprendo: eu nunca consigo trabalhar por muito tempo em nenhum projeto que não envolva buscar e executar algo de novo, dentro do que eu construí com meu trabalho até aqui. Simplesmente me entendia imensamente. Essa corda bamba, esses desafios, isso tudo são coisas que importam muito pra mim, que me mantém animado pra continuar trabalhando. Eu não sei quão boas são as coisas que eu fiz até aqui, as histórias que eu contei, mas fico muito feliz sempre que dou uma olhada pra trás e percebo que ao menos existe uma variação muito grande entre elas, que são todas bem diferentes num sentido (e bem parecidas em outros).

Você me disse, à época do lançamento original de Harmatã, em 2013, que pensou em abandonar os quadrinhos, que não sabia se era isso mesmo o que você queria pra você. Em 2015, esse pensamento evoluiu, se dissipou, se transformou?

Esse pensamento é nulo, isso eu te digo com certeza. Acho que foi importante passar por essa crise, e desde então eu lido com bem mais calma (dentro dos limites do possível, haha) com esses períodos improdutivos. No fundo, eu sabia que tava pensando besteira: eu nunca conseguiria parar de fazer quadrinhos. É o que eu mais amo, eu penso e enxergo em quadrinhos, tudo pra mim é sobre quadrinhos. E tem algumas vezes, na minha vida, onde eu sinto que é a única coisa que eu sempre vou conseguir fazer direito, quando o resto todo desabar. Poucas coisas me deixam mais feliz e vivo do que terminar uma página boa, fechar uma história, é satisfação pura.

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Sobre as aventuras de Capitão e companhia: o que a gente pode esperar, sem dar muito spoiler?

Hm, difícil. Eu diria: buscas, peregrinação. E também festas, magia, encontros bonitos e místicos com pessoas e criaturas que valem a pena. Ou seja: todas essas coisas que fazem aventuras (e a vida) valerem a pena.

A última é bem pessoal. Tu responde se quiser.

Sim, eu tenho saído com o [Felipe] Nunes. Hahahahaha! Mas foi só um caso. Uma noite, na manhã seguinte ele sumiu com meu cigarro e meu dinheiro.

Eu vou publicar isso!

Hahahahahaha! Por favor, publique!

Não era tão pessoal. O que eu quero saber é: um dia teremos, em sua opinião, uma obra feita por Pedro Cobiaco e Fabio Cobiaco?

Porra, tomara! Já conversamos algumas vezes sobre, planejamos uma coisa ou outra, acho bem difícil não acontecer um dia.

Esse viejo lobo do mar é a culpa d’eu fazer quadrinhos, amo ele e o trabalho dele. Ele é a força motriz por trás dessa minha vontade imensa de trabalhar uma história de aventura. Me apresentou Corto Maltese, tivemos grandes conversas sobre a vida, e pronto: as sementes foram plantadas.

Se o quadrinho dele (Mayo, também pela Mino!), que também tem uma pegada de aventura, (eu diria ainda mais clássica, forte e obviamente muito melhor trabalhada) sair esse ano também, vai ser bem bonito, não vai? Tou ansioso, como leitor mesmo.

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