Super-Mercado: Fevereiro de 2015

Na nova coluna do Terra Zero, Super-Mercado, Bruno Nascimento analisa o mercado internacional de HQs, focando menos nos números e mais nas tendências. O que vende, quem se beneficia, o que faz o mercado crescer ou estagnar e quem está acertando ou errando são perguntas que serão feitas, mês a mês, tão logo os dados oficiais sejam divulgados. Esta coluna é analítica mas, como seu redator, jamais imparcial.


 

Sendo esta a primeira edição desta coluna, é importante ressaltar as diferenças entre o mercado norte-americano e o nacional, assim como os dados usados.

  • Não há comércio de HQs em bancas de jornais nos Estados Unidos, salvo raras exceções. As HQs são vendidas quase que exclusivamente em comic shops, livrarias ou digitalmente.
  • As vendas no mercado americano são calculadas com base nos pedidos feitos pelos lojistas, não por vendas realizadas ao consumidor final. Sendo a maioria das revistas não retornável, é impossível estimar a sobra de produto nas lojas especializadas.
  • Recentemente, o serviço de bens aleatórios Loot Crate mudou o panorama no que tange ao topo da lista de mais vendidos. O Loot Crate é um serviço de produtos aleatórios enviado aos assinantes e contém ao menos uma revista em quadrinhos. Com 300.000 assinantes, a revista inclusa na caixa do mês têm ocupado o primeiro lugar nos últimos três meses. Todavia, isso não demonstra necessariamente o potencial da franquia.
  • Não há números disponíveis para as vendas digitais.

Fevereiro de 2015 foi um mês atípico para o mercado norte-americano de quadrinhos. Sete revistas ultrapassaram a marca de cem mil exemplares, sendo esta a medida para o sucesso estrondoso e, usualmente, reservada a eventos na última década. Dos dez títulos vendidos mais vendidos, cinco não tratam do tema de super-heróis e três têm protagonistas mulheres, colocando assim em xeque, talvez temporariamente, alguns dos paradigmas pelos quais a indústria tem se guiado – pelo menos, desde o advento do mercado direto no início da década de 70.

Abaixo, a lista das vinte revistas mais vendidas:

  1.   ORPHAN BLACK #1 [*] (IDW): 497,002
  2.   DARTH VADER #1 (MARVEL): 264,399
  3.   SPIDER-GWEN #1 (MARVEL): 254,074
  4.   STAR WARS #2 (MARVEL): 162,042
  5.   BATMAN #39 (DC COMICS): 118,106
  6.   AMAZING SPIDER-MAN #14 (MARVEL): 106,778
  7.   DARTH VADER #2 (MARVEL): 100,010
  8.   AMAZING SPIDER-MAN #15 (MARVEL): 99,660
  9.   SILK #1 (MARVEL): 74,501
  10.  JUSTICE LEAGUE #39 (DC COMICS): 72,904
  11.  THOR #5 (MARVEL): 69,513
  12.  HARLEY QUINN VALENTINES DAY SPECIAL #1 (DC COMICS): 68,611
  13.  WALKING DEAD #137 (MR) (IMAGE): 65,620
  14.  GOTG AND X-MEN BLACK VORTEX ALPHA #1 (MARVEL): 60,412
  15.  SPAWN #250 (IMAGE): 60,357
  16.  GUARDIANS OF GALAXY #2 4 (MARVEL): 60,046
  17.  THOR ANNUAL #1 (MARVEL): 58,664
  18.  ALL NEW X-MEN #38 (MARVEL): 58,037
  19.  SAGA #25 (MR) (IMAGE): 55,972
  20. DETECTIVE COMICS #39 (DC COMICS): 54,698

O mercado, no geral, teve uma alta de impressionantes 20% em relação à fevereiro do ano passado, e esta foi em grande parte impulsionada por quadrinhos baseados em propriedades de outras mídias.  A Marvel emplacou todos os seus títulos da franquia Star Wars nos top 10; Star Wars #1 havia sido a publicação a vender mais em janeiro e continua forte, agora com a adição de duas edições de Darth Vader – sendo que a terceira, vendida em março, esgotou nas comic shops – o que é provavelmente indicação da franquia, de fato, possuir poder para se estabelecer no mercado de quadrinhos, ainda mais se levando em conta os vindouros filmes nos próximos anos.

As surpresas no top 10 se completam com Orphan Black #1, adaptação da série de ficção científica da BBC que vendeu extraordinariamente bem, mesmo se descontada sua participação na Loot Crate, e a estréia de Spider-Gwen, uma revista fora dos padrões para os títulos de maior vendagem. Um conceito simples pode ser aplicado para entendermos tanto a alta do mercado neste mês quanto a divisão de lucros entre as editoras. Para o desagrado de muitos, este conceito chama-se diversidade.

 

grafico 02 2015

Se a diversidade étnica e cultural têm avançado a passos lentos, a diversidade temática e de gênero vem se mostrando uma arma fundamental das editoras de quadrinhos. Star Wars, Guardians of the Galaxy (mesmo que sobreponha gêneros) e o sucesso de Saga – um título da Image com publicação pra lá de irregular – sinalizam uma renascença da ficção científica como gênero lucrativo, uma tendência que vem sendo seguida também por outras mídias; mesmo os universos super-heroicos sendo responsáveis por 90% das publicações, sua hegemonia como produtos mais rentáveis pode estar ameaçada. Além disso, a presença de protagonistas femininas em títulos de sucesso tem se consolidado de forma rápida e constante desde o hit surpresa Harley Quinn. Essa revista, voltada para o humor, serviu como base para a DC na reformulação da Batgirl e, mais a fundo, de grande parte da sua linha, como veremos nas publicações de junho. Spider-Gwen parece ser a resposta (inesperada, vale-se dizer) da Marvel. Seguindo um meio termo entre o super-herói tradicional e as histórias mais leves de Harley Quinn, o título foi idealizado e produzido lado a lado com os leitores, beneficiando-se do contato direto destes com os criadores via redes sociais; um modelo de concepção e criação pouquíssimo explorado até agora, mas que pode vir a lançar tendências. Tem valido a pena para as empresas ficarem atentas ao Twitter.

Esta nova – ou recém percebida – demanda pode explicar a vantagem da Marvel sobre a DC em fevereiro; embora seja corriqueiro que a Marvel venda mais unidades que a DC, a diferença aqui é maior do que a média nos últimos anos. Ambas as grandes editoras têm tentado engajar leitores fora do chamado padrão, mas, enquanto a maioria das tentativas da DC infelizmente ressoaram de forma negativa com grande parcela dos leitores – em parte por conservadorismo destes e em parte por decisões mal planejadas da própria editora -, a Marvel tem sido bem sucedida ao usar de meios não convencionais para algum de seus anúncios, como os novos Capitão América e Thor, além de ter feito apostas certeiras como a já citada Spider-Gwen e a nova Miss Marvel. O filão da diversidade deve continuar sendo explorado ao menos nos próximos meses; a Marvel demonstra comprometimento, alterando o line-up da sua principal equipe por um que claramente tem a diversidade em vista, e a DC com diversas apostas aparentemente melhor pensadas em Divergence.

A mensagem de fevereiro é esta: eventos perderam o fôlego, ficção científica tem relevância renovada e as garotas vieram para ficar. Uma ótima mensagem. Esperemos que não se perca com o tempo.

5 Comentários

Clique para comentar

um × dois =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com