Desespero foi a responsável pela criação e destruição de Krypton?

Bem, sim. Ou não? Bom, leia…

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Por muito tempo carro-chefe da Vertigo e uma das melhores séries já publicadas pelo selo, a premiada Sandman, a fantástica obra de Neil Gaiman, apresentou aos leitores diversos personagens marcantes e introduziu ao Universo DC os irmãos Perpétuos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desespero, Desejo e Delirium (outrora Deleite). Apesar de ter tomado um rumo isolado em relação ao resto do UDC ao longo de sua publicação, Sandman é de fato um elemento cânone na complexa continuidade da editora, afinal, Morfeus e seus irmãos se relacionaram direto ou indiretamente com diversos personagens. A Liga da Justiça Internacional foi visitada por Sonho em sua busca por seu rubi, utilizado por muitos anos pelo vilão Doutor Destino. Morte já visitou muitos heróis e vilões, até mesmo fazendo uma pontinha em uma das insaciáveis buscas de Lex Luthor por poder. Isso sem contar que o aprisionamento de Oneiros foi responsável pelo surgimento de três outros sandmen: Wesley Dodds, Garrett Sanford e Hector Hall. Este último acabou por ser de grande importância: afinal, sua esposa, Lyta Hall, a Fúria, foi responsável pela morte de Morfeus e o filho do casal se tornou o substituto do aspecto do Sonho. Além disso, a série continha o conceito de Multiverso: teve as participações de personagens de antigas séries de terror da DC e de John Constantine; mostrou a SJA em sua luta no infinito Ragnarok; reuniu heróis e vilões no enterro do Lorde Moldador; encaixou histórias pré-Crise e os filmes e seriados na continuidade como sonhos; etc, etc…

Após 75 números e uma edição especial contada em prosa, Neil Gaiman parecia ter se despedido de Sandman (hoje Gaiman escreve Sandman: Overture), até que no início dos anos 2000, atendendo ao apelo da DC e dos fãs, o especial Noites Sem Fim (Endless Nights) foi produzido, em homenagem aos . Reunindo um grande panteão de artistas, a graphic novel mostrava histórias de cada Perpétuo em diferentes fases. Todas merecem destaque, porém, a história de Sonho apresenta algumas curiosidades. Uma história do Sol contada para sua ‘filha’ Terra…

Ambientada num passado muito distante, quando as estrelas eram jovens e personificadas em corpos, conhecemos Killalla do Fulgor, uma habitante do jovem planeta Oa que pode transformar sua força de vontade numa chama verde controlável. Ela é o mais novo interesse romântico de Sonho e os dois comparecem a uma reunião de fenômenos astronômicos, onde a mortal é surpreendida ao saber que os seres com os quais ela está se relacionando são, de fato, as próprias estrelas, galáxias e dimensões que compõem o seu universo, personificadas como mortais. Depois de um encontro com o sol de seu próprio mundo, Sto-Oa, Killalla acaba se apaixonando por ele, possivelmente graças aos poderes de Desejo, que começava naquela época a querer provocar Sonho. O que consegue, já que Morfeus fica de coração partido ao verem os dois se beijando. Ali começava a inimizade entre os irmãos Desejo e Sonho….

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Entretanto, o que nos atrai o interesse aqui são dois quadros em particular, onde vemos pela primeira vez a personificação original de Desespero (vale lembrar que assim como Sonho, Desespero foi destruída e substituída). Neles há um curioso diálogo entre ela e ninguém menos que a personificação do gigante vermelho de Krypton, Rao.

– Pense nisso, Rao. Não seria dar vida a um planeta inerentemente instável adicionar a beleza da vida? Se a qualquer momento ele poderia explodir…

– Eu não tinha pensado nisso.

– Não? Só seria mesmo uma beleza absolutamente perfeita, uma obra de arte, se uma única forma de vida escapasse para se recordar, para se lamentar, para se desesperar.

– Sim, senhora.

– É bom.

Fica implícito que a conversa é uma alusão a história do Superman. Aponoia questiona Rao sobre a manutenção da vida em um mundo instável e a possibilidade de um sobrevivente solitário para que este chore continuamente a destruição desse mundo, com o simples objetivo dela se deleitar de todo o desespero resultante do ocorrido.

Krypton foi destruído, assim como a primeira personificação de Desespero, mas, até onde podemos ver, devido a sua criação na Terra, Superman nunca foi muito de chorar por seu planeta natal.

Pode ter sido uma pequena referência, mas uma daquelas bem sacadas e que, mesmo que não seja levada em conta, acrescenta demais a mitologia do Universo DC.

Nota: Morfeus, Oneiros e Lorde Moldador = Sandman; Aponoia = Desespero


Sandman é considerada, até hoje, a maior obra do escritor inglês Neil Gaiman. Escrita no final dos anos 1980, com 75 edições regulares (além de edições especiais), conta a trajetória de Morfeus, o Senhor dos Sonhos, e dos outros Perpétuos, seres imortais que representam diferentes facetas da vida humana, como Morte, Desespero, Desejo e Destino. Foi premiada inúmeras vezes, virou referências de quadrinhos literários e obras de arte sequenciais e deve virar série de TV em breve.

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