30 anos de Crise: Mundos morrem e ela vive. Para sempre?

Heróis morrem. Mundos morrem. Universos morrem. Lendas vivem para sempre.

A chamada é famosa. A história, todos conhecem: até a década de 1980, o universo ficcional da DC Comics na verdade era um Multiverso composto de infinitas Terras paralelas com milhares de versões de um mesmo personagem. Havia espaço para tudo: versões das Eras de Ouro e Prata, histórias imaginárias, mundos ocasionados por distorções e viagens no tempo, versões malignas de seus super-heróis favoritas, paródias, animais superpoderosos, personagens de outras editoras cujos direitos a DC havia comprado etc…

A confusão começou com o surgimento do Multiverso na Era de Prata. A trama de Terras paralelas foi abordada pela primeira vez em Wonder Woman #59 (Maio de 1953), onde a Amazona era transportada para um “mundo espelho”. Entretanto, o conceito de Multiverso surgiu de fato com a história Flash of Two Worlds, publicada em Flash #123 (1961). Nela foi explicada que a Terra 2 era o lar dos heróis da Era de Ouro.

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Após o primeiro encontro entre Sociedade da Justiça e Liga da Justiça mais Terras foram estabelecidas. Para cada editora adquirida, uma nova Terra surgia para seus personagens; para cada personagem criado que não se encaixava com os demais, uma nova Terra era criada para ele. A confusão era tão grande que muitos leitores desistiam da DC, além de afastar o interesse de possíveis novos leitores, enquanto alguns mandavam muitas cartas para a editora pedindo para que se resolvesse a confusão.

Foi justamente devido ao apelo de fãs que Marv Wolfman decidiu arrumar a casa. O ano era 1985, a editora comemorava 50 anos de sua fundação. Foram propostos grandes eventos para a celebração: uma enciclopédia (Who’s Who) e um crossover que retratava a editora ao longo dos tempos, com a aparição de todos os personagens e mundos do Multiverso DC. Crise foi originalmente concebida para celebrar o 50º aniversário da DC, porém Marv Wolfman e Len Wein viram isso como uma oportunidade para limpar e organizar a complexa continuidade do Multiverso DC em uma saga que unificasse todo o Multiverso em um único universo, coeso, reformulado e moderno. George Pérez foi o encarregado da difícil missão de desenhar 50 anos de história em 12 edições, tarefa que ele magistralmente completou.

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No início de planejamento, uma lista dos personagens que faziam parte do Multiverso DC foi feita. Como dito na seção de cartas de Crisis On Infinite Earths # 1, a pesquisa para a formulação da saga começou no final dos anos 70, onde tornaram-se evidentes as muitas falhas na continuidade. A forma utilizada para contornar alguns desses erros, como dito acima, foi o estabelecimento de múltiplas Terras, o que também mostrou uma natureza caótica e trouxe ainda mais problemas de continuidade que não foram facilmente explicadas ou simplesmente foram deixadas sem explicação. O crossover foi concretizado e coordenado em uma reunião com a presença dos chefões da editora na época: Jenette Kahn, Paul Levitz, Dick Giordano e outros editores. A base para Crise foi lançada no ano anterior a sua publicação, com a introdução do Monitor como um suposto vilão em diversas revistas. O resto é história… E que história!

A saga completa 30 anos e permanece imbatível entre as preferidas de leitores e nas listas das melhores histórias. Por todos esses anos, nós olhamos Crise nas Infinitas Terras em muitos aspectos. Nós examinamos os efeitos dela, tanto quanto as causas, como os problemas que ela resolveu como os que ela ocasionou. E são nessas discussões que percebemos que é fácil esquecer a história em si. Quando você olha para ela, você percebe que, ao contrário de tantos outros “eventos épicos”, Crise ainda mantém-se de forma brilhante. Apesar de toda complexidade por trás de seu enredo, a saga é de fácil entendimento, apesar de muitas pontas soltas deixadas para se desenrolarem em tie-ins (algumas histórias jamais foram publicadas no Brasil porque a Abril adiantou a cronologia, já que elas não valeriam mais nada para o cânone), você consegue entender o que se passa ali. E não são apenas os grandes momentos da Crise, como as mortes de Barry Allen e Kara Zor-El e a primeira aparição do Antimonitor, os momentos mais marcantes, como também os pequenos, como Batman e Robin impotentes diante da ameaça do Antimonitor na Aurora dos Tempos e a morte da Companhia Moleza. Sem contar aos personagens ao quais fomos apresentados, como Precursora, Pária e o próprio vilão da série.

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Heróis e vilões morreram. Universos morreram. Mais do que isso, 50 anos de história foram apagadas e redefinidas numa “junção” das Terras 1, 2, 4, X e S, que se fundiram numa nova Terra, realinhando e criando uma nova e coesa (até o momento) linha do tempo. Tudo isso finalizado com o soco que derrotou o Antimonitor definitivamente, desferido pelo Superman da Era de Ouro, o primeiro e maior super-herói de todos os tempos.

Como prometido, o Universo DC nunca mais foi o mesmo, passando a ser separado em dois períodos: Pré-Crise e Pós-Crise. Era hora de reformular todos os personagens e assim fomos apresentados a obras-primas como o Superman de John Byrne, o Batman de Frank Miller, a Mulher Maravilha de George Pérez, o Homem-Animal de Grant Morrison e o Novo Flash, Wally West, que conquistaram o coração dos leitores. Apesar de todo o esforço (Marv e Pérez chegaram a lançar A História do Universo DC, contando toda a trajetória do Universo desde sua criação até o fim dos tempos), Crise também trouxe problemas, mesmo tendo resolvido muitos: afinal, quem se lembrava da Crise? Como a Legião dos Super-Heróis surgiu sem um Superboy? Ou talvez o mais complexo de todos: Gavião Negro e sua cronologia. E muitos outros detalhes que nem Zero Hora, que prometia revisitar e responder todas essas questões, conseguiu resolver. Crise foi um sucesso e fez com que todas as editoras aderissem a onda de reiniciar seus universos ficcionais na época.

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Como viram, falamos muito dos efeitos da Crise, “esquecendo” da história em si. Mas é incrível como quando você a relê e não a sente datada, pelo contrário, é atemporal. O encontro de tantos heróis e vilões, as voltas no tempo, a ameaça maciça, os conflitos e as mortes, continua a ser o épico para acabar com todas as epopeias cômicas. Wolfman ao retratar uma luta entre Espectro e Antimonitor e a reação de um casal da Terra 2 ao ver a versão de sua filha da Terra 1, da mesma maneira natural e coesa, é um exemplo de humanização, o que te faz com que se sinta parte da história, a ponto de sentir o drama dos personagens. E a arte… quem mais além de George Pérez, à época, poderia fazer isso? Sem palavras para as emoções e quadros com milhares de personagens detalhados.

Cenas de Crise são referenciadas em diversas histórias, notadamente em grandes eventos da DC (incluindo aí a recém-encerrada Multiversity, com pelo menos uma página dupla de Ivan Reis que certamente deixou Pérez orgulhoso).

Mais uma vez, deixando de lado todos os efeitos e debates, três décadas depois, após tantos reboots e histórias decadentes, Crise nas Infinitas das Terras ainda é brilhante e, pode apostar, ainda irá resistir ao teste do tempo por muitos anos.