X-Men – Deus Ama, o Homem Mata (ou: Leitor Ama, o Fanboy Mata)

Deus Ama, o Homem Mata é uma graphic novel dos X-Men, lançada em 1982, com roteiros de Chris Claremont, clássico autor do grupo de mutantes, e arte de Brent Anderson (Vingador Fantasma, Strikeforce Morituri, Astro City). A história já foi publicada no Brasil em três oportunidades: em 1988, pela Abril. com o título de O Conflito de Uma Raça; e pela Panini, primeiro em 2003, e recentemente, no final de 2014, com uma republicação em capa dura. A narrativa influenciou, entre outros pontos da historiografia mutante nas HQs, o filme X-Men 2, no qual um William Stryker com muitos pontos em comum com o original é o principal vilão.

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Na graphic novel, o religioso e ex-militar Stryker é introduzido como um oponente não apenas físico como também moral, controlando os Purificadores e operando a Cruzada Stryker como um instrumento de perseguição aos mutantes, o que leva o grupo, que conta com Ciclope, Colossus, Noturno, Tempestade, Ariel (Kitty Pryde) e Wolverine, sem Jean Grey (que passava por uma série de imbróglios narrativos nessa época), a ser procurado até por Magneto, após o desaparecimento de alguns de seus membros. Esse é um dos primeiros pontos que aproximam os X-Men e um de seus principais vilões durante a história dos mutantes da Marvel, delineando de forma muito próxima as estratégias de Charles e Erik em suas relações com os homo sapiens.

Antes de falar da narrativa e do título desta resenha (há muitas razões para me demorar com isso, acreditem), falo rapidamente sobre a questão técnica. O roteiro de Claremont é bem construído, apesar de ter o problema de sempre: mesmo as cenas que não precisam de texto têm recordatórios desnecessários, por demais pedagógicos, como se o leitor não fosse capaz de interpretar as imagens, como se desmerecesse a aplicação da arte interpretativa em uma mídia como os quadrinhos. Falando nela arte, Brent Anderson, na época um iniciante, desenha expressões marcadas por linhas externas grossas, vincos e rugas de expressão. Apesar de algumas cenas pecarem pela falta de detalhes – especialmente em quadros de menores dimensões – as cenas mais marcantes têm boa dinâmica e construção de layout.

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Os extras da publicação mais recente são muito satisfatórios, também. A introdução do próprio Chris Claremont, escrita em 2003, 20 anos após a publicação original, dá uma boa ideia da atemporalidade da graphic novel. Ao final da história, entrevistas com o escritor, com o desenhista e com o artista que foi o primeiro indicado, mas que não assumiu a obra, Neal Adams – contando, inclusive, com as seis páginas que ele havia finalizado antes de deixar o projeto, mostrando diferenças entre aquela versão e o que foi publicado realmente.

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Uma das páginas não utilizadas de Neal Adams para a graphic novel.

Enfim, alguns de vocês mal devem ter aberto o site e visto uma resenha de um clássico da Marvel, e ficado possessos. Eu entendo. Mas observem: assim como entrar num discurso polarizado, como mutantes x humanos, é muito fácil, assim é com DC e Marvel. Há uma série de motivos pra isso.

Untitled 4Primeiro, há uma lavagem cerebral, assim como a que Stryker usa com Xavier: as pessoas que já defendem uma ideia (ou, no caso, um universo compartilhado de quadrinhos pertencente à determinada editora) a protegem com tanto zelo e fanatismo que ou você concorda com elas integralmente, ou não pode estar ao lado delas. Não há relativismo; “tudo da (insira o nome da editora aqui) é lixo”. É uma estratégia de marketing do fandom, da comunidade de fãs de alguma obra ou publicador, muito semelhante aos recantos políticos na extrema esquerda ou direita – se você não está do nosso lado, está contra nós.

Depois disso, há também os argumentos de “no meu tempo”, tais como:

– “eu parei de ler (insira nome de série aqui) porque não é mais o que era”;

– “aquele não é o (insira nome de personagem aqui) que eu conheço, não leio mais”;

– “nunca li, mas (insira revista e/ou personagem aqui) é uma merda, nem vou me incomodar de ler”;

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Essas são apenas algumas, dentre outras tantas frases que eu já li. Posso até criticar o visual novo do Batman que parece um coelho robô, mas e daí? Vou odiá-lo por isso? Torcer pra dar errado? Pra quê? No que isso realmente torna a minha vida melhor ou pior? Esse tipo de ódio cego da mudança é outro dos argumentos de Stryker, que usa muitas citações da Bíblia, como se elas servissem de parâmetro para guiar as ações das pessoas em um mundo mais de dois mil anos mais civilizado (créditos ao Claremont, um cristão convicto, mas consciente). E palavras, como as narrativas, sempre são manipuláveis: cada um faz o que quiser com elas, incluindo o novo roteirista da sua HQ favorita, goste você dele ou não. E, no caso de você nem querer conhecer uma obra… Por que você critica sem saber? Isso é ignorância. Pra sua informação.

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E ainda há a questão de similaridades entre os polos, algo que Scott Summers exemplifica muito bem perto do final da história: há muito poucas similaridades entre os dois lados da discussão e os rótulos não são suficientes, apenas reduzindo o que a pessoa é a alguma faceta percebida pela comunidade. Um X-Men não é apenas um mutante: Wolverine é canadense, ex-militar; Kurt Wagner é um católico; Kitty é judia; Colossus tem tendências disfarçadas de esquerda, chamando inclusive os companheiros de tovarisch – “camaradas”, em russo.

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Pense bem: quantos heróis da Marvel e da DC você consegue lembrar que tem contrapartes bem parecidas – sem contar o Morrison colocando os Vingadores em Multiversity e o Jonathan Hickman colocando a Liga da Justiça em Novos Vingadores? Você realmente acha que aquele cara que te irrita por defender determinado personagem/escritor/editora que você detesta é só um fã daquele cara na vida? Acha que é só isso que ele passa o dia inteiro fazendo? Pense.

Finalmente, em mais um ponto a religião e os grupos de fanboys se encontram: o cânone. As linhas temporais, defendidas principalmente pelos mais adeptos da DC, compõem esse construto chamado cânone. A palavra vem do grego kanon, que designa uma vara usada como instrumento de medida, ou também, principalmente na Igreja Católica, determina um conjunto de regras ou modelos sobre um determinado assunto. No caso da religião, sobre o Deus cristão e sobre as regras que consideram as pessoas santos ou não, chamado de canonização… Só substitua a religião pela comunidade de fãs, e as pessoas por autores e/ou desenhistas, e você terá o mesmo procedimento.

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Talvez caras que reflitam como este redator sejam como os guardas do culto de Stryker, ou mesmo o senador que assiste à cerimônia/confronto. Caras como nós convivem com estas coisas, sem necessariamente estarem tão atrelados aos ideais professados quanto o pregador que ali divulga, seja por política, religião ou o escambau. Eu mesmo não sou exatamente católico, mesmo sendo cristão, e só cheguei a essa conclusão após participar de muitas atividades ligadas ao catolicismo.

Portanto, também não sou exatamente um fanboy, só um leitor. Gosto de boas histórias, e acompanho o que tiver que acompanhar para deixar as histórias me alterarem e se tornarem parte de mim. Somos todos ficção de nós mesmos, da auto-imagem até o que pensamos serem as questões mais importantes. Sobre esse ponto em específico, deixo a recomendação de leitura da introdução do Livro da Metaficção, de Gustavo Bernardo, professor de Letras da UERJ.


Se você não gosta que o Terra Zero tenha Marvel entre suas editorias, seja pelo menos tolerante. Aqui, ninguém vai obrigar ninguém a ler quadrinhos da Marvel, mas a editora existe e merece ser tratada com respeito, como qualquer site de quadrinhos que almeja ser abrangente faria – o que é um dos objetivos do Terra Zero nessa nova fase, mas não vou me estender porque não sou editor. Estamos lendo vocês também, mas não podemos deixar de fazer o que acreditamos que precisa ser feito. Caso só queira ver as notícias sobre DC Comics, basta acessar http://www.terrazero.com.br/category/dccomics/. Mas você, literalmente, não sabe o que estará perdendo.

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