EXCLUSIVO: Editor da HQM fala sobre novos rumos da Valiant no Brasil

Durante toda esta semana, tem repercutido nas redes sociais a decisão da editora HQM de descontinuar a publicação mensal dos personagens da Valiant. Na verdade, a repercussão aumentou quando a editora voltou atrás, menos de 24 horas após o anúncio do cancelamento, e afirmou que estava disposta a seguir a publicação até a conclusão dos arcos correntes. Esta publicação, no entanto, se daria através de venda direta aos leitores, com entrega pelos Correios e, para se confirmar, dependeria do número de pessoas que se cadastrassem junto à editora.

O anúncio de cancelamento, seguido por uma volta atrás em público em tão pouco tempo, mostra a boa vontade dos editores que, depois da decisão tomada e divulgada, buscaram uma alternativa. Vale ressaltar que, em momento algum, a HQM falou em abandonar a publicação da Valiant. Segundo a editora, o cancelamento da publicação mensal poderia transportar as séries para o formato de encadernado.

Mesmo que tenha sido uma medida extrema da editora para tentar salvar o modelo de publicação da Valiant no formato de revista mix, o novo sistema de publicação e distribuição proposto, se vingar, pode ser um divisor de águas no país. A alternativa se assemelha, de certa forma, ao formato de distribuição que é utilizado nos Estados Unidos: lá as revistas também são impressas levando-se em conta a demanda, embora os pedidos sejam feitos através das lojas especializadas e retirados nelas.

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Considerando o significado que esta atitude da editora, ainda que não intencionalmente, pode ter no mercado, conversamos com Artur Tavares, um dos editores da HQM. Na entrevista, Artur não apenas explica o que levou a editora a replanejar os lançamentos da Valiant, como também aproveita para reclamar da imprensa especializada, que, segundo ele, não dá atenção devida às publicações da editora no país.

Terra Zero – Nas postagens de Facebook da HQM, chegou a ser comentado que o motivo da decisão inicial, de cancelamento da estratégia de lançamento mensal, seria a baixa venda e que os números não chegavam nem a 2.300 exemplares vendidos por mês. Para que nosso leitor possa entender melhor a situação, você teria como revelar qual é a tiragem e quantos exemplares estavam sendo vendidos, em média?

Artur Tavares – Na verdade utilizamos o número de fãs na página como uma explicação retórica do que estava acontecendo. As revistas vendiam, sim, menos de 2.300 exemplares. Não queremos dizer que vender 2.300 exemplares seria a solução dos nossos problemas, mas talvez com este número fosse possível preservar as publicações.

Há diversos fatores envolvidos neste caso, como o fato de que a distribuição no Brasil é muito onerosa (como você deve ter visto em recente matéria veiculada pelo Judão). O que dá para dizer, nesse sentido, é que se tivéssemos um sistema de assinatura com 2.300 pessoas, seria extremamente possível continuar a publicar as HQs.

Infelizmente, não é possível revelar números publicamente, mas posso te garantir que havia um déficit enorme entre o valor total da impressão e o valor de licenciamento com a Valiant, e o quanto era obtido após a distribuidora ficar com sua parcela das vendas. E, para que ninguém me entenda errado, não estou botando a culpa na distribuidora. Ainda que a política deles fosse mais justa, digamos, reduzindo pela metade o valor cobrado, ainda assim teríamos prejuízo. É claro que ele seria menor, e talvez manejável, mas não é esse o ponto principal.

A respeito do modelo proposto por vocês para impressão e distribuição, você acredita que ele possa ser uma alternativa para que mais títulos de menor apelo comercial cheguem ao Brasil por diversas editoras, se a iniciativa da HQM der certo?

Para ser bem sincero contigo, não acho que a adesão mínima de fãs para continuar a publicação via assinaturas vá acontecer. Nós juntamos, em quase 48 horas de proposta, pouco mais 200 interessados. Não acho que isso vá se multiplicar em dez vezes ao longo dos próximos dias. E, mesmo que tenhamos sucesso, duvido que outras editoras menores estejam interessadas no mesmo modelo de negócios, porque ele funcionaria basicamente com revistas de linha e mixes, e não com encadernados. No entanto, estamos fazendo nossa parte e tentando, não por pioneirismo, mas por respeito aos leitores. Cabe a eles entenderem isso.

A repercussão desta ideia que vocês lançaram está sendo muito grande. Os leitores enxergam semelhanças com os financiamentos coletivos ao estilo Catarse, e, principalmente, com o modelo de venda direta norte-americano. Vocês esperavam que a ideia fosse tão bem recebida?

A repercussão foi bem maior do que a adesão. Muitos leitores continuaram fazendo aquilo que sempre fizeram e sempre vão fazer. Reclamar e não comprar. O que nós, da indústria, percebemos é que muitas pessoas pedem variedade, alternativas e por aí vai… mas, na hora do lançamento, eles não compram o material. Preferem ficar com publicações já existentes, ainda que de menor qualidade gráfica ou mesmo qualidade das histórias.

Quanto a isso, já fiz essa crítica pública e pretendo continuar fazendo quantas vezes forem. A imprensa tem muita culpa nisso. Não só vocês do Terra Zero, mas todos os grandes veículos voltados aos quadrinhos sempre renegaram as histórias da Valiant no Brasil. Não há resenhas, não há notícias, não há interesse algum. Todos preferem replicar as mesmas notícias batidas sobre seriados de televisão, cinema e quadrinhos das duas grandes editoras. E, veja, não é como se conteúdo não existisse. Nós éramos a única editora que divulgava previews mensalmente das histórias publicadas. Alguém mostrou isso? Não! Mas qual o problema, já que mostra-se previews de outras editoras?

Há um comodismo entre os produtores de conteúdo, porque não há profissionalização. Quem faz sites de quadrinhos, por exemplo, são fãs. E fãs falam daquilo que gostam. Isso não é idoneidade. Isso não é buscar um mercado nacional sólido. Isso não é falar de arte. Isso é querer mais cliques no final do dia.

E não estou falando só pela HQM, e sim pelo mercado como um todo. Uma breve busca no Terra Zero, por exemplo, mostra que os mais recentes lançamentos fora do eixo Marvel/DC aqui no Brasil não foram noticiados. Nada de “O Muro”, nada de “Olhos do Gato”, nada de “Cripta” ou “Creepy”, nada sobre “Harmatã”, nada sobre o anúncio de publicação de “Ghost in the Shell” ou “Eden”.

E isso está em toda a imprensa especializada, não é um problema isolado de vocês. Então, há de se refletir a quem vocês da imprensa servem. Ao mercado, ou aos seus interesses próprios? Porque só estamos debatendo a Valiant na hora que deu a merda? Tivemos quase dois anos pra debater a qualidade das edições, e ninguém falou nada. Ninguém quis dar atenção para os dois brasileiros que trabalham na editora. Eles só serão bons o suficiente quando atingirem a Marvel e a DC, mesmo ambos deles sendo excelentes atualmente? Por que ninguém foi entrevistar os caras?

Entendemos também que, embora a HQM esteja se mostrando empenhada em completar os arcos no formato corrente e em tentar viabilizar o novo modelo de distribuição, existe também a possibilidade, já anunciada por vocês, de que a Valiant continue apenas em encadernados. Você já pode adiantar alguma coisa sobre como funcionaria esta segunda possibilidade de cenário? Eles seguirão o padrão de Os Mortos Vivos, por exemplo?

Sim. Na verdade os encadernados vão continuar de qualquer maneira. Temos um compromisso entre nós da editora de não deixar de lançar o material no Brasil. Os encadernados são viáveis, porque mesmo as baixas vendas zeram os custos gráficos. Além disso, temos um compromisso contratual com a Valiant, e não só econômico, mas moral também. Nos sentimos abençoados por trabalhar com eles. Há uma proximidade muito grande. Eles sempre nos apoiaram em nossas decisões. Nós amamos o material, e vamos continuar produzindo ele.

Há de se lembrar que um encadernado de X-O Manowar já foi lançado no ano passado. Ele tem o padrão comum de todas nossas publicações. A diferença para Os Mortos-Vivos é apenas o formato, já que este último é menor que o formato americano. As HQs da Valiant já são e continuarão no formato americano.

Agora lançaremos X-O Manowar #2 e Harbinger #1, seguido de Bloodshot #1 e Quantum & Woody #1, este um material inédito nas nossas revistas mensais. Todos eles terão desconto para aqueles que já colecionavam as HQs. Como prometemos, quem nos enviar as fotos da coleção toda com um documento de identidade terá um desconto de 40% em todos os volumes até atingirmos o material totalmente inédito. Quantum & Woody, embora seja inédito, merece ser tratado da mesma forma como agradecimento aos nossos leitores fiéis.

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