[Editorial] A estética do confronto

A ideia deste editorial partiu da premissa de que a discussão que tomou a terceira semana de março no mundo dos quadrinhos (e que também o extrapolou), envolvendo a capa variante da revista Batgirl desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque, valia palavras oficiais do Terra Zero sobre o assunto, que repercutiu a matéria em quatro momentos diferentes, sendo este assunto um dos mais comentados da  história de nosso site.

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O portal UOL foi o veículo escolhido pelo desenhista da DC para se pronunciar sobre a capa e os procedimentos adotados pelos envolvidos após a rejeição da temática explicitada na capa por parte do roteirista de Batgirl, Cameron Stewart. A imagem (acima) foi solicitada pelo departamento de marketing da editora americana e é uma homenagem de Albuquerque, aos 75 anos do vilão mais emblemático do Batman, o Coringa, fazendo alusão aos fatos ocorridos em A Piada Mortal, graphic novel de Alan Moore, Brian Bolland e John Higgins.

No entanto, à medida em que a semana foi passando, foi ficando claro que a polêmica, que culminou numa guerra de hashtags que se opõem agressivamente, é apenas um reflexo de algo muito maior, que poderia ser batizado como estética do confronto. E que este, sim, é verdadeiro mote a ser analisado e exposto.

Basicamente, o fenômeno acontece quando dois pontos de vista divergentes entram em conflito direto, de modo agressivo e irracional, apesar do véu de aparente racionalidade de argumentos envolvidos. São embates que se resumem a grandes bandeiras, como esquerda versus direita, direitos de minorias versus liberdade de expressão, ocidente versus oriente, Corinthians versus Palmeiras e, por que não, Batman versus Superman, Star Trek versus Star Wars e DC versus Marvel?

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A paixão envolvida faz com que a grande maioria dos envolvidos caia nos velhos clichês, como somos nós contra eles, quem não está conosco está contra nós, o inimigo do meu inimigo é meu amigo e outros do mesmo quilate. Aqueles que não se alinham às verdades absolutas e que costumam ser os mais ponderados são, invariavelmente, atacados por ambos os grupos ou ignorados solenemente por eles.

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Então, a panela de pressão em que as opiniões são escaldadas vai aquecendo e, quando a válvula de escape é liberada, é bom não estar por perto. Pois é aí que vemos manifestações de intolerância, de ressentimento, de desrespeito e de falta de educação que, bem, transformam tudo em guerras particulares, que acirram os nervos de toda e qualquer pessoa que se envolva com elas.

Não é exagero dizer que relações pessoais foram rompidas desde que essas intempéries tiveram início. Difícil é precisar o momento deste século em que tudo começou. Alguns teorizam que foi no 11 de setembro. Outros, que foi na crise financeira de 2008. Localizadamente, no Brasil, há quem diga que foi em períodos eleitorais, quando Lula foi eleito para seu primeiro mandato presidencial ou, então, no famoso caso da bolinha do papel de José Serra, quando as redes sociais já influenciavam decisivamente na polinização de boatos e inverdades, muitas vezes mais rapidamente do que os fatos reais.

Em verdade, o ambiente social eletrônico, sem contato físico entre pessoas, propiciou o aumento exponencial na exposição daquilo que há de pior nas pessoas. O fato é que, como você deve imaginar, a maioria das pessoas não faria ao vivo o que elas fazem na internet, onde uma suposta condição de anonimato permeia todas as ações, notadamente em redes sociais e contatos digitais.

Por outro lado, o ambiente que a internet proporciona também traz à tona novas relações que seriam impossíveis, o contato antes inimaginável com pessoas alinhadas às suas atividades, pensamentos, credos e interesses.

Tal ambiente, em si, é puro, podendo ser utilizado da forma como os usuários o desejam. Ainda que tenha sido criado para um uso proativo e para fins benéficos à evolução da sociedade, o que mais chama a atenção de todos é o uso reativo, que faz com que muitos debates infrutíferos se baseiem em premissas erráticas, tomem uma dimensão enorme e acabem gerando ainda mais reação. Basicamente, é disso que a estética do confronto se alimenta. Ela está no seu dia a dia, na provocação do futebol, no posicionamento político em relação à presidência, na indignação monocromática dos apresentadores de programas sensacionalistas e populares, na relação entre patrões e empregados e, não se isente disso, naqueles cutucões ácidos que são dados em fãs de outra editora.

O Terra Zero não pode concordar com a alimentação de tal estética. Mas compreende que, a partir do momento em que noticia, da forma mais responsável possível, a existência de dicotomias aguerridas, como foi o caso da discussão entre os blocos #SaveTheCover e #ChangeTheCover em relação à capa de Batgirl #41, no twitter, ele faz parte de uma cadeia alimentar.

O que fazer, então, com este pequeno dilema?

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Deixar de informar o leitor não é uma opção. Bloquear comentários é algo que pode ser visto, sim, como cerceamento da liberdade opinativa. Eliminar o sistema de comentários seria regredir a tempos em que uma das maiores conquistas da internet, a interatividade em tempo real, ainda era ficção científica.

A opção do Terra Zero, jornalisticamente, se torna clara: noticiar os fatos, de modo responsável e ético, procurando ouvir todos os lados envolvidos em uma questão (ainda que, às vezes, nem todos os lados queiram ou possam falar conosco, vamos atrás da voz de todos para dar ao leitor o panorama mais completo dos fatos). Aquilo que, nas faculdades de jornalismo, é a lição número um sobre a missão do profissional desta área: informar para formar.

A opção do site em relação ao seu leitor, assim, se torna ainda mais clara: é a opção pela confiança.

Confiamos que nosso leitores sejam sábios, que não alimentem a estética do confronto, que não provoquem, que não agridam, que compreendam que o mundo não se divide entre Marvel e DC, brancos e pretos, cegos e visionários, petistas e tucanos, flamenguistas e fluminenses. Há nuances em todos os espectros, nada é dicotômico no âmbito das opiniões humanas.

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Confiamos na sabedoria dos leitores e também na dos não-leitores. Acreditamos que a insanidade temporária que leva, de tempos em tempos, as pessoas a se digladiarem por quaisquer motivos seja apenas isso, temporária, e que, no final, prevalecerá a razão e o bom senso.

Haverá quem possa dizer que essa opção é de uma inocência bravia e, também, tola. Contudo, talvez seja preciso justamente isso: a recuperação de alguma inocência. A compreensão de que nem toda opinião que pareça ofensiva foi emitida para ofender, de que nem toda arte que não agrada foi feita para ser desagradável, de que nem tudo que você não gosta foi criado para que você tivesse um engulho.

Nós, narcisos, temos de parar de achar feio o que não é espelho.

 

 

Felipe Morcelli, Delfin e Pablo Sarmento

Conselho editorial Terra Zero

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