Batgirl, o Paradoxo do Anúncio e o Sinal dos Tempos

Ontem à noite anunciamos aqui o cancelamento da capa alternativa de Batgirl #41 alusiva aos 75 anos do Coringa. A notícia foi a mais comentada da noite de segunda-feira.

Primeiramente, algumas considerações que não são deste redator ou do Terra Zero, mas de pessoas no Twitter com participação muito mais efetiva na indústria:

Eu não posso perder meu tempo explicando o que é “censura”. Especialmente falando a partir do maldito Twitter. Sim sim, todo mundo de repente é mais esperto que O PRÓPRIO ARTISTA. Cara, eu odeio quadrinhos nesta noite. Mal posso esperar para começar outro dia. (Mark WaidReino do Amanhã, Capitão América, Flash, Irredeemable)

Você não venderia A NOVIÇA REBELDE com um pôster que fosse parecido com O ILUMINADO ou vice-versa. […] Eu não sei se concordo [se isso mata a arte ou não], mas a questão tem se polarizado. Neste momento, acho que muitas pessoas não se importam mais com o que está na capa, desde que a turma deles derrote o outro grupo. (Kurt BusiekAstro City, Conan, Vingadores, Thunderbolts)

É bom notar que os leitores da Batgirl, os autores e a DC estão do mesmo lado. (Fiona StaplesSaga, Archie, North 40, Thunder Agents)

Rafael Albuquerque, se eu OUTRA VEZ pegar você cancelando uma boa arte, eu vou chutar seu traseiro ;) (Rags MoralesAction Comics, Crise de Identidade, Gavião Negro)

Sobre a capa da Batgirl: vendo muitos homens se darem conta de que seus heróis da cultura nerd também banalizam muito a violência contra mulheres. (Ana Luiza KoehlerAwrah)

Pegue um título que representa o que você gosta, com artistas e escritores que você aprecia. Nós precisamos parar de ver a linha toda como uma revista só. (Patrick ZircherCable & Deadpool, Futures End, Green Hornet, Shadowman)

Rafael Albuquerque é um homem incrível. Sua reação compassiva, quando ele poderia apenas ter lavado as mãos, me faz estimá-lo ainda mais. (Marguerite BennettAngela: Asgard’s Assassin, A-Force, Sleepy Hollow, Lois Lane)

Caras, vocês sabem mais sobre o que está acontecendo com a Barbara do que eu. Eu sei principalmente sobre a bunda do Homem-Gato. (Gail SimoneAves de Rapina, Sexteto Secreto, Red Sonja)

Eu ainda vou falar mais sobre isso amanhã [ontem], mas eu nunca fui ameaçado. Só pra deixar claro. (Rafael Albuquerque, desenhista da capa variante)

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O Terra Zero procurou Albuquerque para dar mais detalhes sobre a questão; até o fechamento deste artigo (22h do dia 17/03), no entanto, ele não nos deu retorno que adicionasse informação relevante em relação ao assunto.

Todas as questões que estão em torno desse fato são muito válidas. Inclusive as de vocês, leitores: até o momento, há 19 comentários no post original, muitos dos quais merecem ser respondidos:

Postei isso tem um tempinho em alguma postagem daqui e postarei de novo. Se Watchmen fosse lançada hoje, ela ao invés de ter o status de “uma das obras literarias mais influentes”, ela seria considerada a pior heresia que um ser humano poderia ter feito. – Anderson Viana

Anderson, acho que são momentos diferentes. Há temas e histórias mais valorizadas ou visadas, positiva ou negativamente, a cada momento histórico. Há que se ver sempre o contexto – e isso é um argumento de quem critica o cancelamento da capa, também.

Como o amigo Anderson Vianna citou, sendo muito feliz, ainda bem que obras de verdade (muito além de Batgirl) como Watchmen, TDK, Arkham Asylum, e tantas outras, foram lançadas em outras épocas e não na Bullshit Age pela qual estamos passando. – Lucas Marconi

Mas falo no sentido de que havia bastante sentido que a Piada Mortal, assim como Watchmen, fossem lançadas no final dos anos 80. Ambas foram marcos que fizeram pela primeira vez as pessoas reconhecerem as HQs de super-heróis como narrativas sérias e não apenas coisa de criança e adolescente nerdão. No último, importantes para que hoje a cultura nerd, nas suas mais diferentes subculturas (quadrinhos, games, RPG, etc) chegasse perto do mainstream. Isso era mais importante do que as questões de minorias, que são um problema (ou solução) muito maior em 2015 do que em 1985. Não faz sentido comparar esses momentos, pois as questões tem sim pesos diferentes nessas épocas diferentes.

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Vamos evocar o Graal Cósmico do Terra Zero, por exemplo: e se Grant Morrison fizesse seu Homem Animal hoje? Vocês não acreditam que provavelmente seria criticado a mudança de status quo para ele ser casado, ter dois filhos e ser “ecochato”? Naquela época, a preocupação com o meio ambiente chegava à cultura pop junto com posicionamentos políticos contemporâneos, como a convenção Rio 92 – poucos anos depois, foi criado o Capitão Planeta, desenho animado clássico dos anos 90.

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A questão se liga com o fato de hoje termos redes sociais, que alteraram para sempre a comunicação entre o público e os autores. Nos anos 90, quem poderia ir lá todo dia e dizer pro Rob Liefeld que ele tava fazendo um desenho horroroso?

Ninguém.

Sendo assim, é cada vez mais fácil que desenhistas, escritores e editores conheçam seu público-alvo e entendam seus anseios. E as pessoas que reclamaram da capa (essas sim, foram ameaçadas por fazê-lo) tem todo o direito de fazê-lo, pois compram a bendita história todos os meses.

e mais uma vez a liberdade artística tem que se dobrar a vontade desses censores ridículos, cara é muita falta do que fazer, a capa nem é a capa oficial, é só uma variante, e que presta homenagem a uma das melhores hqs de todos os tempos, mas pra esses idiotas vigilantes do politicamente correto, isso ai é a coisa mais absurda do universo, seria engraçado se não fosse trágico, os quadrinhos demoraram tanto pra conseguir se livrar da censura e se tornar uma forma livre de arte que é muito triste ver o quanto estamos retrocedendo, voltando aos tempos do comics code [sic] – hayden

É complicado falar em censura quando a questão foi decidida pela própria equipe criativa da revista e pelo próprio Rafael Albuquerque. Ninguém impôs essa decisão a eles – que poderiam simplesmente bater o pé e lançar de qualquer modo. O próprio Cameron Stewart, roteirista da Batgirl, falou em sua conta no Twitter que nem estava sabendo da capa até ela ser veiculada na Internet. O cancelamento ocorreu justamente porque a capa não se encaixava na revista e também para manter a integridade narrativa da série.

A capa tem um tom pesado, sim. Mas será que, por conta da reformulação da revista, tudo que se refere a ela vai estar no clima “smatphones, sunshines & rainbows”? Por que não aproveitar a capa e fazer uma campanha falando sobre a violência contra as adolescentes? Por que não incentivar um debate? A violência continua existindo, ela não some se você fecha os olhos. – Ogro da Floresta

A arte é interpretativa e aí poderia ser dito que as pessoas é que leram ela de uma forma equivocada, mas não é este o caso. Histórias em quadrinhos, especialmente as criadas em larga escala, são um produto de mídia, e não prioritariamente arte. Sendo um produto de mídia, ele tem uma mensagem clara, e tem o objetivo de vender para o seu público-alvo. Se esse contingente acha ruim, pouco importa se leram ou não A Piada Mortal – e mesmo que tenham lido, essas pessoas simplesmente podem não gostar da narrativa, o que não a invalida. Se não gostarem dela hoje, insisto novamente que, hoje, a obra não tem mais o impacto que tinha nos anos 80.

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Consideremos que a decisão de retirar a capa de circulação foi do autor, Rafael Albuquerque, e a postura de Cameron Stewart. Isso significa que esse quiprocó todo é da própria DC Comics, que, a partir de seu departamento de marketing, comissionou as capas alternativas comemorativas para junho. Isso torna a situação parecida com a capa alternativa de Milo Manara para Spider Woman #1, na Marvel, meses atrás: a editora é quem deveria ter percebido que o pedido não combina com a revista, pois faz ela passar uma mensagem errada, o que pode, sim, interferir nas vendas. E nada é mais importante que esses números, em última instância, pois são os que determinam a continuidade do título.

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A DC poderia ter respondido diferente? Poderia. A editora, se direcionasse um pedido de desculpa que, apesar de não cancelar a capa, desse uma boa explanação não só sobre capas variantes, mas sobre o problema da violência e das marcas dela, como as que aconteceram, beleza. Algo do tipo: “ninguém esquece, mas todos podemos superar, como a Barbara Gordon fez, saindo até mesmo de uma cadeira de rodas. Olhem, ela mesma deu porrada nele durante Morte da Família, em edições escritas por Gail Simone, cujo encadernado vocês podem comprar.” Mas esperar o artista se mexer e simplesmente concordar com o cancelamento é o mais fácil, não demanda novos custos etc.

O departamento de Comunicação da DC Comics é preguiçoso, e não é de hoje, já que o site que pergunta quanto tempo se passou desde que ela fez algo estúpido existe desde 2012, quando vários criativos saíram reclamando de controle editorial. Um período de 48 horas (que foi o que demorou pra situação ser resolvida) é muito tempo. Essa “crise de comunicação” – é assim que chamamos em Assessoria de Imprensa – não pode demorar tanto tempo, ainda mais quando estamos falando de um ramo do grupo Time Warner. É algo inadmissível no trato com o cliente. Uma resposta lacônica, como a que foi passada pela editora, também é inadmissível.

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Essa estrutura, claro, não é plenamente solucionável – apenas é. Eu chamaria de Paradoxo do Anúncio: se a capa nunca fosse anunciada, nunca saberia a DC se ela era “certa” ou não, porque isso é uma questão de tentativa e erro, já que o desenho (mas não o conteúdo) é passível de interpretação. Ao mesmo tempo, a comunicação interna tem problemas justamente por deixar que uma capa dessas passe batido. Ainda por cima, os leitores não estão educados sobre o que é de fato uma capa variante; só os colecionadores e os jornalistas do meio entendem disso, o que ficou exemplificado com a Batgirl e já tinha sido visto no caso da Mulher-Aranha.

Sejamos francos: as pessoas reclamaram da capa, mas não entendem que a capa não é a de todos os exemplares. Não entendem a questão comemorativa. Não leram A Piada Mortal. Mas não estão erradas. Entretanto, quem reclamou do cancelamento não compraria essa capa alternativa, ou pior: pode nem acompanhar a revista, pelo tom diferenciado, direcionado a mulheres adolescentes. Logo, essas pessoas não têm direito algum de reclamar da DC, sendo que nem sustentar a revista no mercado elas sustentam – são irrelevantes para o produto que é Batgirl hoje.

Ainda existe a campanha #SaveTheCover, com a hashtag no Twitter pedindo que a capa retorne, opondo-se ao #ChangeTheCover, que motivou o cancelamento em primeiro lugar. Sendo uma capa alternativa requisitada pelo departamento de marketing da DC, é óbvio que ainda mais compradores potenciais participarão do movimento nas redes sociais do que o número de exemplares dessa capa alternativa disponíveis (uma para cada dez exemplares pedidos) no mercado de comic shops. Isso pode fazer o preço de colecionador dela (se ela voltar, algo que não deve acontecer) disparar, alimentando ainda mais o mercado especulativo desse item em específico – é para rechear os tesouros praticamente dracônicos dos colecionadores que capas alternativas servem, afinal. Ou pra quebrar a Marvel, mas essa é outra conversa.

Deixo as perguntas:

1) Você lê Batgirl?

2) Você COMPRA Batgirl, pelas publicações da Panini ou versão digital do Comixology, ou vai direto para a Romênia para ler?

Acredito que alguns entenderão assim que lerem as perguntas.

Por fim, dá pra ver que estamos mesmo nos anos 90, assim como a década passada trouxe elementos oitentistas. Substitua o militarismo excessivo, chato, que levou a aqueles uniformes que muitos consideram terríveis, por uma preocupação enorme com a representatividade, e o que você terá? Muita gente vai gostar, outros tantos não. Mas é o sinal dos tempos que vivemos. Ou será que o “Bat-toelho” não é mesmo parecido com o Azrael, pelo menos esteticamente?

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