[Vertigo] Cuba: Uma revolução vista de dentro por quem esteve lá

Em tempos em que Estados Unidos e Cuba finalmente voltam a se conversar diplomaticamente depois de tantas décadas, é imprescindível recordar um dos lançamentos mais importantes da história da Vertigo no âmbito político: “Cuba: Minha Revolução“, lançada neste ano no Brasil pela Panini Comics. Esta matéria do Terra Zero é de 2010, mas nunca esteve tão atual. Confiram:

Do momento que Fidel Castro captura Havana em 1959, a garota de 17 anos chamada Sonya acredita na promessa da Revolução Cubana. Uma estudante de medicina com sonhos de se tornar pintora, ela acaba unindo-se à milícia e se encontra entre o idealismo e a ideologia. Como voluntária médica na Baía dos Porcos ela acaba aprisionada e torturada por seus próprios companheiros. Psicológica e emocionalmente acabada ao voltar pra casa Sonya procura felicidade na arte. Mas quando ela percebe que nenhum de seus esforços, seja com arma ou pincel, funcionam contra o regime de Castro ela começa a pensar em escolhas agonizantes entre sua família, seu amado e seu adorado país.

Esta graphic novel é inspirada pelas verdadeiras experiências da artista/pintora, e agora escritora, cubana Inverna Lockpez, com a belíssima arte do indicado aos prêmio Eisner Dean Haspiel, além das belas cores da paleta preta e vermelha do colorista José Villarrubia.

É com esta sinopse que a Vertigo apresenta uma de suas obras histórias e auto-biográficas mais importantes de seus quase 20 anos de vida: Cuba: My Revolution. Através de um conto auto-biográfico da cubana Inverna Lockpez o leitor tem a chance de conhecer a Revolução Cubana de uma forma interina, com imagens, muita emoção e autenticidade. A visão de Inverna dentro de sua própria alma e suas experiências são muito bem exibidas pelo conjunto trabalho de Dean Haspiel e José Villarubia apresenta uma Cuba antiga e nostálgica, ao mesmo tempo trágica pelas coisas esquecidas ou deixadas pra trás na história daquela nação.

Por um lado Inverna conta um thriller político que se passa nos primeiros anos do regime de Fidel Castro através de seus próprios olhos de mulher idealista que tinha na época, que acaba se apaixonando por um comunista soviético. Por outro lado é também uma história com a luz do Caribe nos anos 1960 preservando as cores nostálgicas desta época. As cores dos idealistas. Com estas cores o trio de artistas fez uma história para aqueles que não tiveram um contato tão forte com a história da revolução, ainda que com uma noção um pouco mais romantizada mas muito real. A família de Inverna acabou enviada para os Estados Unidos enquanto ela enfrentou racionamento de comida e censura artística pelo que acreditava até entrar em conflitos psicológicos e emocionais jamais imaginados. Desde então a cubana sonhou em se tornar uma artista para externar cada experiência pela qual passou, ao mesmo tempo em que queria agir como médica na Cuba pós tomada de Fidel, o que só a fez cair numa espiral de falta de esperança, em especial pelo sumiço dos amigos e a perda de seu próprio orgulho. Consequências de ser um soldado.

Uma coisa fantástica da obra Cuba: My Revolution é que Inverna não parte para arquétipos clássicos e nem tenta construir idealizações ou slogans de guerrilha, mas sim aprofunda-se em caracterizações honestas e reais mostrando o futuro de sua amada nação como vista por alguém que sobreviveu à revolução naquela época e examinando muitos aspectos da sociedade cubana, seja pela carreira militar, ambições pessoais, laços familiares e a experiência militar sob muitos aspectos e dimensões diferentes.

A obra, que soma em sua totalidade 144 páginas e um acabamento muito luxuoso, faz parte de uma iniciativa da Vertigo, selo adulto da DC Comics, de publicar histórias de artistas de outros países sejam elas biográficas ou visionárias sobre suas nações e experiências de vida para a cultura americana conhecer. Dentre elas estão a já esgotada e muito elogiada Day Tripper dos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon e Israel da jornalista, escritora e artista Sarah Glidden, que viveu nas cidades de Tel Aviv, Masada, Jerusalém e muitos outros locais históricos. São projetos tentadores que não possuem tanta viabilidade comercial mas um reconhecimento artístico e um prestígio quase imensurável para a editora que desde então vem virando notícia constantemente em jornais internacionais e outras mídias que até então não cobriam a área dos quadrinhos.

A própria obra de Inverna e Dean está em exibição no Espaço Internacional de Desenho Kentler, no Brooklyn em Nova York, com páginas originais, conceitos de arte e roteiros à mão e deve ficar lá até dezembro. Os dois estiveram presentes no dia de abertura e receberam muitos fãs e curiosos falando sobre a concepção da obra, a antiga amizade dos dois e, principalmente, sobre as experiências reais de Inverna e como foi duro relembrar certos momentos. Na narrativa da graphic novel existem 11 páginas seguidas mostrando de forma dramática as torturas pelas quais Inverna passou e esta foi uma das lembranças mais duras para ela. Havia nas mesas de torturas coisas como serras e martelos. Muitas pinturas dela da época, feitas para externar estas situações, ficaram retidas por anos em Cuba depois que ela se mudou para os Estados Unidos e só foram recuperadas poucos anos atrás – algumas delas estão presentes nesta exibição.

Num bate-papo honesto com os fãs e jornalista, Inverna contou sobre como Fidel conquistou a confiança dos cubanos naquela época e sobre o futuro de seu país de hoje em diante. Para ela um guerrilheiro barbudo que lutava nas montanhas e apareceu no horizonte prometendo acabar com as injustiças, acabar com a pobreza e dar edução gratuita para todos foi marcante, convergendo toda Cuba a apoiar a revolução. Por outro lado, hoje, os atuais líderes cubanos estão perto de morrer então para ela uma nova Cuba vai se ascender e o que ela conta na graphic novel são ilusões do passado, ilusões de pessoas que ela acreditava que fossem maravilhosas. “O potencial para uma Cuba melhor existia desde o começo. Revoluções, por natureza, destróem as estruturas políticas existentes, mas executar suas ideias e construir um novo país sem abuso de poder é uma tarefa bem difícil“, disse a autora.

Para finalizar Inverna acredita que nem americanos, nem europeus, nem ninguém no mundo consegue entender de verdade a situação de Cuba. “Para muitos indivíduos, Fidel foi aquele que enfrentou os americanos. Eles nem imaginam o custo, nem as pessoas que perderam tudo, até seus direitos constitucionais, enquanto estrangeiros veem e fazem a festa na ilha“, conclui.

O Multiverso DC recomenda muito esta leitura a pessoas curiosas sobre Cuba, sobre revoluções históricas, e claro, em busca de ótimos quadrinhos para se ler. Cuba: My Revolution saiu há pouco mais de um mês lá fora e foi um acerto fantástico na trajetória perfeita da Vertigo.

Fotos da exibição cortesia de NY Graphic Novelists

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