[Momento do Renegado] Sedução do Inocente (É Queima Total do Estoque!)

Por o defensor dos direitos dos quadrinhos, contra as queimadas de papel e o homem a frente de seu tempo Renegado Primeiro e Único

Este artigo é a tradução de um texto escrito por Joe Sergi e publicado no website do Comic Book Legal Defense Fund (caso queira saber mais sobre isso venha aqui) em 8 de junho de 2012. Caso queira ler o texto em inglês e na íntegra é só vir aqui.

1948: O Ano em que as Revistas em Quadrinhos Foram Queimadas

imagem 1

 

Eu fui convidado recentemente a me juntar a um grupo do Facebook chamado “Comic Book Fans vs. A Bunch of Moms with Nothing else Better to Do…” (Fãs de Revistas em quadrinhos vs. um Bando de Mamães com nada Melhor para Fazer…) Este grupo foi criado em resposta às ações recentes da organização One Million Moms (Um Milhão de Mamães) que pediam para seus apoiadores para mandarem e-mails para as companhias de revistas em quadrinhos Marvel e DC, “…pressionando-os a mudar e cancelar todos os planos de personagens super-heróis homossexuais imediatamente. Peça-os para fazer a coisa certa e reverter a decisão deles para ter orientação sexual mostrada aos leitores.” Aparentemente, One Million Moms acreditavam que se as crianças lessem sobre personagens gays, eles se tornarão gays. A Marvel e a Archie responderam, defendendo suas posições, e vários grupos em mídias sociais começaram a tomar os dois lados da questão. A última notícia que eu ouvi é que a One Million Moms deletou sua página anti-gay no Facebook.

Este tipo de tensão sempre existiu. De um lado, você tem o bem-estar e proteção da comunidade (especialmente crianças, que não podem proteger a si mesmas). Do outro lado, você tem liberdades fundamentais tais como liberdade de expressão. O problema é que ações bem intencionadas de grupos da primeira categoria tende a infringir os direitos da segunda categoria por que essa é a solução mais simples. Isso aconteceu nos anos 40 quando pais com mentalidade cívica decidiram que era do melhor interesse de seus filhos e da comunidade queimar revistas em quadrinhos, o que me leva ao meu primeiro tópico da coluna oficial no CBLDF: queimar livros.

imagem 1.1

A primeira queima de livros feita pelo governo e registrada ocorreu na China em 213 AC sob as ordens do Imperador Qin Shi Huang, que também criou a Muralha da China e o Exército de Terracota. Então, a queima de livros já está por aí há bastante tempo. Os motivos vão desde perseguições religiosas a declarações políticas. Através da história, governos, lideres da igreja, e bibliotecários tomaram parte nas queimas, o mais extremo dos métodos de censura. Os nazistas utilizaram isso na segunda guerra mundial para destruir livros que não correspondiam a sua ideologia. Os nazistas foram impedidos em 1945. Mas, três anos depois, os incendiários de livros estavam de volta, e desta vez eles vieram pelas revistas em quadrinhos.

imagem 2

O ano era 1948 e a mudança estava no ar. A segunda guerra mundial tinha acabado, todavia a guerra fria estava só começando. O presidente Truman conseguiu transformar o Plano Marshall em lei, que autoriza 5 bilhões de dólares em auxílio para 16 países, e ele derrota ambos os candidatos Thomas Dewey e Strom Thurman para continuar na presidência. As Nações Unidas criam a Organização Mundial de Saúde e adotam a declaração de Direitos Humanos. Columbia (onde fica a capital dos EUA) introduz a gravação de 33 1/3 (pergunte aos seus pais). Cientistas publicaram uma notícia anunciando algo chamado “A Teoria do Big Bang”. O filme Hamlet de Olivier e a música The Music Man estão no topo das vendas e são mostradas junto com as primeiras notícias coloridas nos cinemas. Kiss me Kate de Cole Porter estréia na Broadway, e Nat King Cole estava cantando no rádio. Enquanto todo esse progresso e crescimento estavam acontecendo no mundo, pais e cidadãos bem intencionados estavam convencendo seus filhos a queimar todas as suas revistas em quadrinhos nos Estados Unidos.

As forças aliadas derrotaram Hitler três anos antes, e aparentemente as pessoas estavam procurando por um novo inimigo. O Dr. Fredric Wertham lhes deu um. Como a maioria do povo sabia, Wertham, um psiquiatra que nasceu na Alemanha, trabalhou num hospital de caridade no Harlem tratando delinqüentes juvenis. Assim, Wertham concluiu, revistas em quadrinhos inspiravam crianças a se tornarem criminosos. Eu assumo que a maioria dessas crianças também usava sapatos, daí ele poderia ter concluído facilmente que calçados eram a derrocada dos EUA, porém ele limitou seus estudos a revistas em quadrinhos.

imagem 3

Em 1948, Wertham iniciou seu ataque público às revistas em quadrinhos numa entrevista na Collier’s Magazine (revista popular nos EUA naquela época) chamada “Horror in the nursery” (Terror na Enfermaria). Pouco tempo depois, ele apresentou um simpósio intitulado “The Psychopathy of Comic Books” (A Psicopatia das Revistas em Quadrinhos). Em maio de 1948, aquelas mesmas opiniões foram publicadas, com o mesmo nome, no American Journal of Psychoteraphy (Jornal Americano de Psicoterapia) e no Saturday Review of Literature (Crítica de Literatura do Sábado) num artigo intitulado “The Comics… Very Funny” (As Revistas em Quadrinhos… Muito Divertidas, e excertos seriam incluídos mais tarde na edição de agosto do Reader’s Digest [é uma revista mensal sobre interesses gerais familiares]). Wertham considerou os leitores de revistas em quadrinhos como “anormalmente agressivos sexualmente” e achava que ler revistas em quadrinhos levava ao crime. Agora, Wertham não foi a primeira pessoa a ter esta opinião. Contudo o problema era que Wertham era psicólogo altamente conceituado que achava que revistas em quadrinhos era mal para crianças e expôs eloquentemente os seus pensamentos. Na verda, Wertham iria mais tarde em 1954 falar ao Subcomitê de ouvidoria sobre a Delinquência Juvenil do Senado dos EUA, “Eu acho que Hitler era um principiante comparado à indúsria das revistas em quadrinhos”. Com Wertham apontando o dedo e liderando o ataque, os EUA encontraram seu novo inimigo.

Em resposta, várias cidades começaram a criar leis e pressionar livrarias para dar um golpe certeiro na maré de corrupção juvenil causada pela ameaça em quatro cores conhecida como revista em quadrinhos. As coisas degringolaram em 26 de outubro de 1948, na cidade pequena da Virginia Ocidental chamada Spencer, onde crianças – supervisionadas por sacerdotes, professores, e pais – queimaram publicamente várias centenas de revistas em quadrinhos. Por quase um mês, estudantes reuniram revistas em quadrinhos. Aí, eles empilharam as revistas num monte de quase dois metros no quintal da escola. Então, seiscentas crianças rodearam as revistas e um estudante acendeu a capa de uma revista do Superman e a jogou no topo da pilha.

imagem 4

O grande livro de David Hajdu, The Ten Cent Plague (A Praga de Dez Centavos, o preço das revistas em quadrinhos nos EUA naquela época) tem a seguinte descrição da queima em Spencer:

As chamas se ergueram até uma altura de mais de 7 metros enquanto as crianças, seus professores, o diretor, e alguns repórteres e fotógrafos dos jornais da área observaram por mais de uma hora…

Quando a imprensa de fora pegou a história dos registros locais, leitores do jornal The Washington Post, Chicago Tribune, e dúzias de outros jornais pelo país aprenderam que, só três anos após a segunda guerra mundial, cidadãos estadunidenses estavam queimando revistas.

Pouco depois da fogueira em Spencer, residentes de Binghamton no Estado de Nova York conduziram uma coleta de revistas em quadrinhos de casa em casa e fizeram uma queima pública das revistas.

imagem 5

Gerard Jones, no seu livro informativo, Men of Tomorrow: Geeks, Gangsters and the Birth of the Comic Book (Homens do Amanhã: Nerds, Mariosos e o Nascimento da Revista em Quadrinhos) descreveu o evento como segue abaixo.

Uma cruzada improvisada em Binghamton, Nova York, enviou voluntários de porta em porta para pedindo, “Tem qualquer revista em quadrinhos nesta casa?” Quando o moradores das casa conseguiam ser convencidos que médicos, polícia, e pastores estavam certos sobre os perigos das revistas em quadrinhos, os voluntários pegavam as publicações ofensivas e as levavam até o quintal da escola local, onde elas eram empilhadas num monte alto, molhadas com gasolina, e queimadas. A revista Time mostrou fotos da fogueira de revistas, as crianças observando com alguma ambivalência do fundo.

A foto seguinte da fogueira de Binghamton foi tirada na edição de 20 de dezembro da Time.

imagem 6

Na legenda embaixo da foto estava escrito,

Maneira e Morais

Em Binghamton, Nova York, estudantes da Escola Paroquial de São Patrício coletaram 2000 revistas em quadrinhos condenáveis num mutirão de casa em casa, e as queimaram no quintal da escola.

Como um resultado desta cobertura, eventos similares se seguiram em muitas outras cidades. Em Rumson, Nova Jersey, um grupo de jovens escoteiro-mirins realizaram uma andança durante dois dias para coletar revistas em quadrinhos censuráveis que seriam queimadas no Parque Victory em Rumson. O escoteiro que coletou mais revistas ganhou o direito de acender a fogueira. No último minuto uma decisão foi tomada para reciclar em vez de queimar as revistas. Em Cape Girardeau, Missouri, uma tropa de escoteiras coletou revistas em quadrinhos condenáveis e as levaram às estudantes da Escola Católica Santa Maria, onde um julgamento de mentirinha foi realizado e, após as revistas serem condenadas por “levar pessoas jovens para o mau caminho e moldar concepções falsas nas mentes da juventude”, as revistas foram queimadas. Em Chicago, uma fogueira foi organizada por uma diocese católica. Em Vancouver, no Canadá, quase 8000 revistas em quadrinhos foram queimadas pela Liderança da Juventude JayCee.

imagem 7

Numa ironia estranha, a grande maioria das revistas em quadrinhos queimadas era produzida pela EC Comics, que mais tarde publicaria adaptações de histórias de Ray Bradbury, começando em 1952. Um ano depois, em 1953, Bradbury lançaria Farenheight 451, um futuro distópico em que os livros são queimados e proibidos. Contudo, o que algumas pessoas não sabem é que Fahrenheit 451 é baseado numa história chamada “The Fireman” (O Bombeiro), que por sua vez foi baseada numa história chamada “Bright Phoenix” (Fênix Brilhoante). “Bright Phoenix” foi escrita na verdade em 1947, alinhando o momento da história essas queimas iniciais de revistas em quadrinhos (e a agora infame queima nazista de livros na segunda guerra mundial). E enquanto é fato conhecido que o título do livro se refere à temperatura em que o papel queima, eu aposto que levou um ponto de ignição consideravelmente mais baixo para destruir o papel de baixa qualidade usado nas revistas em quadrinhos nos anos 40. Como eu estava dizendo, foi anunciado que o Sr. Bradbury morreu com 91 anos. O mundo literário perdeu um gigante.

imagem 8

Uma coisa interessante, eu encontrei com o Sr. Bradbury numa de suas últimas aparições em público, onde ele contou a história de como ele veio a trabalhar com a EC Comics. Os proprietários da EC copiaram duas de suas histórias, juntando-as como uma única história. Bradbury enviou uma mensagem parabenizando-os, enquanto informando que “inadvertidamente” ele ainda não tinha recebido seu pagamento pelo uso das histórias. A EC Comics enviou um cheque e juntos eles lançaram uma serie de adaptações de Bradbury. Eu também deveria salientar que revistas tanto em quadrinhos quanto o resto sobreviveram no mundo de Fahrenheit 451 porque não valia a pena se preocupar com elas.

É claro, muitas pessoas lendo isto talvez pensem que livros sendo queimados não é nada com o que se preocupar. Elas são uma coisa do passado, relacionadas a um crime de ódio, e que não se escuta sobre algo assim na sociedade atualmente. Entretanto, não vamos nos esquecer que, tão recente quanto 2006, tiveram vários incidentes de livros sendo queimados envolvendo a franquia Harry Potter (Eu creio que o Código DaVinci também foi queimado no começo do ano). Também ocorreram fogueiras de Crepúsculo feitas por fãs irados que queriam demonstrar seu desprazer a Stephanie Meyer (estes leitores compreenderam eventualmente que devolver os livros mandava uma mensagem mais forte).

imagem 9

Livros sendo queimados é a forma mais severa de censura e quem sabe quantos grandes livros foram perdidos na história por causa disso? É claro, também existem formas menores de censura que talvez sejam tão simples quanto, senão mais perigosas. Eu espero explorar essas no futuro porque nas palavras de Ray Bradbury, “Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura. Só fazer as pessoas pararem de lê-los.” Ou se preferir, como Henry Jones, interpretado por Sean Connery em Indiana Jones e a Última Cruzada disse, “Esses idiotas com passo de ganso… Deveriam tentar ler livros em vez de queimá-los!”

E aparentemente, aqui estamos nós de novo, com grupos de pais de um lado e a indústria de revistas em quadrinhos do outro. Eu só espero que quando este debate atual se inflame, que cabeças frias prevaleçam e as coisas não cheguem à censura. Com sorte, ao contrário de 1948, há um acesso melhor à informação e, pela maior parte, uma visão de mente mais aberta do mundo. E mais, existem organizações como o CBLDF para comprar a briga caso as linhas erradas sejam cruzadas.

imagem 10

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com