Multiverso Segundo Grant Morrison – Estudo Aprofundado Parte 2

Houve um alto nível de surpresa com o lançamento de “The Multiversity: The Society of Super-Heroes: Conquerors of the Counter-World” pois ela acrescentou poucos elementos à história principal e ficou bem contida em seu próprio universo, diferente da expansora edição de estreia lançada no mês passado. Isso, no entanto, não tira os méritos desta empreitada de Grant Morrison em explorar o lado pulp do Multiverso DC. As principais raízes da fantasia e da ficção científica do século XX surgiram nestas revistas publicadas em papel vagabundo por diversas editoras estadunidenses e delas surgiram personagens imortais, como Doc Savage, o Sombra e tantos outros que influenciaram diretamente a criação dos primeiros super-heróis DC. Aliás, se o tema da primeira edição de “The Multiversity” foi uma análise sobre tudo que a indústria de HQs passou pela década de 1990 e a virada do século, esta mergulha fundo nas raízes desta cultura, encorpando o Multiverso com uma exploração singular num universo pulp criado pelo próprio Morrison e pelo desenhista Chris Sprouse (de “Tom Strong”, título que resgatou a cultura pulp nos quadrinhos da virada do século na DC). Estão a bordo Karl Story e Walden Wong (arte-final) e o grande colorista Dave McCaig.

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Se “The Multiversity” é, além de uma grande aventura pelo Multiverso, uma obra que referencia tudo que Morrison fez anteriormente em sua carreira na DC, esta edição é prova desta afirmação, já que ela resolve a contenda entre Anthro (que aqui evoluiu para o Homem-Imortal – que também mistura conceitos do Ressurreição -, um personagem antigo da DC que teve ligações com o Homem-Animal no passado, herói que Morrison redefiniu nos anos 1980) e Vandal Savage, que cronologicamente se iniciou na saga “Crise Final” e durou até o alternativo futuro de “DC Um Milhão”, outra saga, ambas criadas pelo autor escocês. O uso destes dois personagens como fio condutores da narrativa desta edição é fundamental pois ambos representam o passado, o início das coisas: Anthro e Savage estão para o passado da DC – e da raça humana indo do neandertal para o homo sapiens – como o universo pulp está para o início da fantasia do século XX.

E falando em pulp, toda a ambientação desta Terra (a número 20 no Multiverso) merece uma análise à parte. Primeiramente, o visual: Chris Sprouse disse numa entrevista ao Newsarama que a história se passa no presente, no ano de 2014. Logo, pelo visual distópico deste universo, é notável que muita coisa permaneceu intacta, inclusive os personagens, que representam suas primeiras iterações reais no Universo DC misturadas e elementos pulp clássicos. Aqui tecnologia, magia e personificações são tratadas de forma mais pura e primordial. A sala principal da Torre do Doc Fate é envolta de elementos egípcios, que geralmente sustentam uma ostentação por parte de seus donos. Isso indica também que Fate é um desbravador, um Indiana Jones deste universo que pratica também magia arcaica e a mistura com ciência além do conhecimento daquela sociedade. A mistura de ficção científica com magia é algo muito típico dos quadrinhos desde o começo e Morrison representa este elemento aqui através de Fate. Outra forma de analisar a presença destes artefatos egípcios é como o país e os antigos faraós influenciaram a produção cultural no cinema, na literatura e, claro, nos quadrinhos no início do século XX. Muitas foram as histórias de múmias que voltavam à vida e de faraós que ressuscitavam em pessoas que caíam em alguma maldição destes seres nesta época. Como a história aborda, dentre outras coisas, o início da narrativa fantástica do século passado, nada mais justo que decorar a casa de Fate com tudo isso. Há também menção a um membro da família al Ghul, cuja origem é árabe e há certa proximidade entre a Arábia Saudita e o Egito.

Aliás, Doc Fate e Átomo são os grandes protagonistas da aventura. Esta nova encarnação de Al Pratt é tão fascinante quanto de Fate, que será explicada em seguida. Em termos visuais, Morrison pediu que ele permanecesse com sua estatura baixa como originalmente proposto na Era de Ouro, fora que sua máscara contém o átomo hidrogênio visto na testa do Doutor Manhattan, o que indica que este Al Pratt pode se tornar o Capitão Allen Adam visto em “Crise Final – Superman ao Infinito” e previsto para reaparecer em “The Multiversity: Pax Americana“. O símbolo também indica a existência de apenas uma Terra naquela órbita multiversal, o que é comprovado pela relação binária entre as Terras 20 e 40, ambas retratadas na história. Independente disso, antes de alcançar uma possível evolução em Allen Adam, Pratt tem os poderes do Iron Munro, a reformulação DC do clássico personagem Aarn Munro, que apareceu mais recentemente na fase de J. Michael Straczynski no Superman pré-Novos 52. Além disso, o personagem foi retratado desta forma para fazer analogia a outra grande obra de Morrison, “Flex Mentallo“.

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Doc Fate é realmente impressionante. Ele incorpora todas as nuances desta Terra em sua personalidade. Suas habilidades incluem uso avançado da magia, conhecimento científico acima da média, características de liderança ímpares e humildade e companheirismo ao lidar com seus parceiros super-heróis. Fate é a incorporação perfeita do original Doc Savage neste universo com todas as referências possíveis ao início da DC Comics como editora a que Morrison teve direito de usar. O personagem também é negro, o que mantém a teoria da edição anterior comentada no ComicPod One-Shot 4 de que para o autor os negros são os verdadeiros vencedores do Multiverso, quebrando tabus quanto à discriminação étnica nos quadrinhos de super-heróis. Fate também é um adorador de Nix Uotan, chamado aqui de Niczhuotan, cujo templo é a própria Torre do Doc. Além disso, seu elmo ecoa a voz de Novu, não de Nabu, o que referencia o Monitor primordial – faz todo o sentido, já que esta série lida com Monitores e Multiverso e esta edição trata justamente de inícios. Morrison deu a dica de que Fate pode ser ou da linhagem direta de Nix Uotan ou alguém que o venera como Fausto venera a força maligna descrita aqui como Makara, transformando-lhe uma espécie de Libra 2.0. Makara, aliás, nada mais é que Parallax, a personificação do medo em luz amarela comandada pelo terrível Conde Sinestro (que nome fantástico para um vilão pulp!). Em termos de significado, “makara” é um deus aquático da mitologia hindu. Verdade seja dita, o nome em si não faz muito sentido com a entidade representada na revista. É de se imaginar que Morrison utilizou a nomenclatura apenas para reafirmar sua constante utilização de mitologias orientais.

Os personagens coadjuvantes são quase tão fantásticos quanto Fate. As Lady Blackhawks, por exemplo, além de serem uma nova versão da clássica equipe da Era de Ouro, também batalham com a Lady Shiva no melhor estilo Tarzan. Ela, aliás, pode representar uma encarnação de Queen Killer Shark, a identidade que Zinda Blake, a primeira Lady Falcão Negro, assumiu ao se tornar uma vilã na Era de Ouro. Isso pode ser corroborado por Lady Shiva (oriunda da Terra-40) ser uma contraparte das Falcões Negros da Terra-20. Há também Abin Sur, o Lanterna Verde alienígena com aparência peculiar. Ele mesmo brinca com sua aparência, tida como demoníaca pelos olhos dos que foram criados sob preceitos religiosos. Como se sabe, a religião católica adotou esta forma para o demônio muito tempo depois de sua religião ter sido instaurada nos primeiros séculos depois de Cristo. A origem desta imagem é pagã, mas maiores detalhamentos podem ser oferecidos pelos leitores ali embaixo nos comentários. Ele é o badass motherfucker da história e rouba a cena sempre que aparece.

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Todo o grupo formato por Doc Fate é chamado de Society of Super-Heroes (“Sociedade dos Super-Heróis”), cuja sigla é nada menos que S.O.S., o chamado universal de ajuda. Em muitas obras de Morrison o chamado por ajuda é citado de alguma forma e aqui não seria diferente. Este chamado, aliás, é citado na primeira edição da série quando todo o pessoal da House of Heroes pede ajuda ao Multiverso para deter a ameaça dos Gentry. Falando neles, parece que Fausto é um de seus seguidores, assim como o Libra era um seguidor de Darkseid em “Crise Final”, como citado acima.

Pra finalizar, vale mencionar os significados da história em si. Mais do que examinar toda a cultura pop de forma detalhada e rica, Morrison também aproveita para oferecer uma evolução muito natural às Terras citadas na narrativa (20 e 40). Como existe uma relação binária entre elas, fica claro que a primeira é a mais pura, como já citado no texto. Já sua contraparte é vil, tomada de seres malignos e corruptores, que destroem a pureza de sua Terra alvo ao fazer com que seus grandes heróis sejam obrigados a assassinar seus inimigos. Nas palavras do camarada artista Marcio Fiorito, “os heróis pulp são puros, intocados, e ao fim da história todos eles viraram assassinos como o Vandal Savage (que seria o assassino primordial). O Átomo mata o Fausto, as Blackhawks matam a Lady Shiva, o Homem-Imortal mata o Savage (fazendo uma referência a Caim e Abel) e o Abin Sur mata o Conde Sinestro. No fim das contas, o Morrison está contando sobre o fim da era pulp e o fim da pureza desses heróis na tentativa de ‘‘vencer’’ no mundo moderno“. O amigo não poderia ter resumido melhor o que houve nesta edição. A partir de agora cabe aos heróis restantes torcerem para que o chamado de S.O.S., já citado na outra edição, dê os frutos esperados. O lanterna verde Abin Sur aparece em “The Multiversity #1” na House of Heroes, indicando que a edição anterior se passa um pouco no futuro em relação a este segundo capítulo. Portanto, é de se esperar que haja uma solução para esta Terra em algum momento da série.

PS: Morrison parece estar dando uma bela zoada em J. Michael Straczynski. Além de citá-lo na edição anterior como um fã extremista e de mente fechada num fórum online de quadrinhos, agora fica claro que a revista “Ultra Comics” é a maldição deste Multiverso e ela faz referência direta ao “Poder Supremo”, obra que Strazza fez na Marvel. Fora a citação a Iron Munro, cuja última aparição nas revistas DC se deu justamente num quadrinho do autor. Parece que aquela história de ele fazer o Superman caminhar pela América ficou entalada na garganta de Morrison….

Referências e Anotações

1-A Torre do Doc Fate, uma versão da Torre do Destino pertencente ao Sr. Destino original. Esta mesma imagem será espelhada na última página da história, mas de forma totalmente diferente após os trágicos eventos da revista.

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4-Morrison tirou um sarro das Spice Girls durante sua passagem pelos X-Men ao criar as Irmãs Stepford. Ele repete a dose de zoeira aqui ao fazer com que as Lady Blackhawks sejam uma versão super-heroica do grupo musical, composta exatamente por 5 membros. Giaour, como em Olho de Giaour, é uma gíria turca que indica não-muçulmanos ou estrangeiros, mas também referencia um poema do Lorde Byron (autor gótico romântico do século XIX), de onde o autor tira muita de sua influência. O artefato também é uma referência ao Olho do Tigre de “As Aventuras de Sinbad”, o clássico explorador do Oriente Médio, área referenciada na revista em vários momentos.

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6-Ultra Comics, a revista que está conectando o Multiverso, é mostrada aqui como um artefato maldito, tal qual se acreditava que muitos artefatos egípcios fossem.

7-8-Este Lanterna Verde também pertence a uma tropa, mas ele responde à influência de magia, como o lanterna original Alan Scott. Um fato curioso é que aqui é mostrado como o pensamento pode transformar a realidade, um mote visto também na “Crise Final” com a Máquina dos milagres e com a apresentação do fogo a Anthro pelo novo deus Metron.

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10-11-Como afirmado anteriormente, os vilões da Terra-40 são contrapartes aos heróis da Terra-20. O contato entre eles acontece através da Sangria, como já era de se imaginar. É perceptível que o Homem-Imortal e Vandal Savage sejam opostos e representem os bíblicos Caim e Abel; Félix Fausto é o mago do mal, venerador dos Gentry, como o Doc Fate é o venerador de Nix Uotan. A conexão deste mundo é semelhante à da Terra-0 com a Terra-3: Liga da Justiça vs Sindicato do Crime.

15-Nesta página há uma ligação entre o medo, representado por Parallax, e a maldição do quadrinho “Ultra Comics”. Estaria Morrison oferecendo uma visão de que os quadrinhos de super-heróis de hoje estão amaldiçoados? Ou mais ainda: que o JMS escreve é amaldiçoado?

17-Uma teoria importante aqui: os Gentry parecem ter vindo da Fonte para preencher o espaço deixado pela morte dos Monitores. Metaforicamente falando, se na primeira edição entendemos os Gentry como os editores malditos e os fãs extremistas e de mente fechada, os Monitores eram os bons editores e os bons fãs, aqueles de mente aberta às maravilhas dos quadrinhos. Mais uma vez o autor é pago para ridicularizar aqueles que o contratam, o que é hilário. outra coisa interessante de se notar aqui é que o Átomo pode ser uma representação do Superman nesta Terra. Pelo menos justificaria os créditos a Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Homem de Aço, estarem nesta edição. Ou será que não?

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26-“Zumbis! Esperava algo mais original.” Parece que Morrison também está de saco cheio de zumbis.

32-As pedras utilizadas na batalha entre Savage e o Homem-Imortal podem ter ligação com a Pedra da Eternidade. A princípio parece uma especulação vazia, mas levando-se em conta que Morrison escreveu uma arco da Liga da Justiça com este nome e que a prévia da edição “The Multiversity: Thunderworld” mostra o Dr. Silvana construindo uma Pedra da Eternidade mecânica, é possível que de alguma forma a original tenha explodido e seus fragmentos se espalharam pelo Multiverso.

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34-Doc Fate fala de seus pais adotivos aqui. Seria ele a versão do Superman desta Terra?

36-Tecnologia é mais que mitologia: o poder do anel destrói a criatura.

37-Aqui é mostrado como Abin Sur foi parar na House of Heroes: ele utiliza o dispositivo de trans matéria e se voluntaria para atravessar o portal com o cadáver do Parallax.

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40-O Templo de Niczhuotan/Nix Uotan!

Fontes para as referências: “Crise nas Infinitas Terras” (DC), “Crise Final” (DC), “First Wave” (DC), “Poder Supremo” (Marvel), sites Comics Alliance e Wikipedia.

[Análise da Primeira Edição]

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