[Momento do Renegado] A Sedução do Inocente (A Mãe de Todas as Safadezas)

Pelo o desbravador de bibliotecas, senhor que salva as criancinhas e homem que combate o bigode Renegado Primeiro e Único

Este artigo é uma tradução livre de um artigo escrito por Annalee Newitz para o website io9. Quem quiser ler o artigo original e em inglês, é só vir aqui.

Como as Mentiras de Um Homem Quase Destruíram a Indústria de Quadrinhos

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Por volta de meio século, a indústria de revista em quadrinhos tem sido perseguida pelo trabalho de um homem, o cruzado anti-quadrinhos e psiquiatra Fredric Wertham. Seu livro bestseller de 1954 “The Seduction of the Innocent” (A Sedução do Inocente) convenceu pais e políticos igualmente que revistas em quadrinhos eram uma causa direta de violência, uso de drogas, e homossexualidade entre jovens. Isso levou ao código editorial restritivo escrito pela Comics Magazine Association of America (Associação de Revistas em Quadrinhos da América, se quiser saber mais é só vir aqui), e a um movimento nacional para manter os quadrinhos longe de crianças e adolescentes.

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Apesar de Wertham afirmar que sua evidência veio de milhares de casos estudados, acontece que ele estava mentindo. Uma nova investigação dos registros e anotações de Wertham pela Professora Carol Tilley da disciplina de Estudos da Informação da Universidade de Illinois revelou que o psiquiatra fabricou, exagerou, e editou seletivamente seus dados para corroborar o seu argumento de que revistas em quadrinhos causavam comportamento anti-social. Aqui está o que Tilley descobriu, e por que isso ainda importa atualmente.

Publicado na semana passada em Information & Culture (um jornal online estadunidense, ele pode ser encontrado aqui), o trabalho de Carol Tilley é baseado num acesso sem precedentes a 200 caixotes de papelão com anotações particulares de Wertham na Livraria do Congresso, os quais estavam selados até 2010. Por um período mais ou menos de duas semanas, Tilley examinou cuidadosamente tudo desde a correspondência de Fredric Wertham com colegas até as notas extremamente detalhadas que ele guardava de entrevistas e sessões com os adolescentes que ele trabalhou pela maior parte de sua vida. Foi quando ela começou a ler essas notas que Carol Tilley percebeu discrepâncias muito grandes entre o que Wertham colocou nessas notas, e o que ele escreveu em “The Seduction of the Innocent”.

 

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O que é relevante sobre a situação de Fredric Wertham é que ele ajudou e apoiou crianças pobres e marginalizadas a vida inteira. A maioria da pesquisa que ele realizou para “The Seduction of the Innocent” foi na Clínica Lafargue no Harlem (um bairro na Cidade de Nova York conhecido por ter muitos moradores negros) – a primeira clínica psicológica na área – na qual Wertham conduziu por causa do conceituado escritor afro-americano Richard Wright. Ele acreditava genuinamente que as crianças desprivilegiadas com as quais ele trabalhava estavam sendo manipuladas para o crime por imagens violentas e sexuais nas revistas em quadrinhos.

 

Como muitos de seus companheiros na cruzada contra revistas em quadrinhos, Fredric Wertham estava enfurecido particularmente por revistas em quadrinhos com crimes adultos daquela época, que frequentemente caíam nas mãos de crianças. Lembre-se, no final dos anos 40 e início dos anos 50, quando ele pesquisou para “The Seduction of the Innocent”, veio logo antes da popularização da televisão. Naquele tempo, como Tilley escreve, “mais de 90% das crianças e mais de 80% dos adolescentes nos EUA liam revistas em quadrinhos, com freqüência avidamente”.

 

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Wertham estava feliz demais por culpar essas revistas em quadrinhos por violência e outras problemas que sua clínica tratava, incluindo o que Carol Tilley caracteriza como “hábitos indesejáveis” (ex: masturbação e pesadelos), “traços de personalidade” (ex: sonhar acordado e inquietude), e “comportamento indesejável” (ex: cabular aulas e desobediência). Aquelas crianças eram problemáticas, mas poucas delas sofriam do que nós chamamos hoje em dia de doença mental.

 

Alguns dos casos estudados por Wertham, entretanto, se revelaram ser histórias que ele escutou de segunda mão de colegas. Um relato famoso sobre uma adolescente chamada Dorothy que era obcecada com Sheena na verdade foi montada a partir do que ele ouviu sobre a garota por um outro doutor. Carol Tilley escreveu:

De acordo com o livro e notas do caso, Dorothy lia histórias em quadrinhos de selva com mulheres fortes como Sheena tanto quanto histórias em quadrinhos de crimes, incluindo Penalty (uma revista em quadrinhos de crimes daquele tempo), as quais ela reclamava por nunca ter mostrado os criminosos terem se dado bem com seus crimes. Wertham citou algo que Dorothy disse sobre histórias em quadrinhos de selva, “Eu gosto de ver o modo como eles saltam para o alto e derrubam homens com um chute e os matam!… Sheena tem uma selva enorme onde ela vive e as pessoas por lá a adoram e fazem qualquer coisa por ela.”

Nas notas de casos, Wertham comentou que a imagem de mulheres fortes reforçava “fantasias violentas de vingança contra homens e possivelmente criava essas fantasias violentas anti-homens (consequentemente homossexuais)… Sheena e as outras mulheres das revistas em quadrinho tais como Mulher Maravilha são ideais muito ruins para crianças e adolescentes. “Ainda, Wertham omite de “The Seduction of the Innocent” – e aparentemente de sua análise – uma história reveladora sobre a realidade diária de Dorothy. Nas notas de casos, ela relatou um incidente no qual a tia dela foi abordada por membros de uma gangue, levada até o terraço de um prédio, e lhe roubaram menos de um dolar. Fredric Wertham também deixou de mencionar no seu livro que Dorothy – em adição a ser habitualmente uma cabuladora de aulas – Tinha fugido de casa e fazia parte de uma gangue, era sexualmente ativa, e tinha tanto deficiência em leitura quanto uma inteligência abaixo da mediana. Na página final das notas do caso de Dorothy, Wertham escreveu: “Ela seria boa e não agressiva se a sociedade a permitisse – Revistas em Quadrinhos são parte da sociedade.”

 

Fredric Wertham omitiu constantemente detalhes relevantes sobre as vidas dessa garotada.

 

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Em uma outra passagem famosa de “The Seduction of the Innocent”, Wertham sugere que Batman e Robin inspiram homossexualidade em leitores jovens que se identificam com o Robin. Como evidência, ele oferece a história de um jovem que lê Batman e basicamente se tornou gay após isso. Não surpreendentemente, a realidade foi mais complicada. Carol Tilley escreveu:

 

Como parte de sua evidência para esta identificação, Fredric Wertham compartilhou os pensamentos de um jovem homossexual que afirmou: “Eu acho que eu coloquei a mim mesmo na posição de Robin. Eu quis realmente ter relações com o Batman”.

O jovem desse relato era na verdade dois homens, com idades de dezesseis e dezessete anos, que estiveram numa relação sexual um com o outro por vários anos e perceberam que eram homossexuais quando tinham dez anos de idade. Wertham combinou as afirmações dos dois, falhando em indicar que o de dezessete anos foi aquele que disse, “A única sugestão de homossexualidade talvez seja que eles pareçam estar tão próximos um do outro”, e omitindo a frase que se seguiu, “como meu amigo e eu”.

E mais, Wertham não fez qualquer menção que os dois adolescentes acharam que o Namor e o Tarzan eram alvos melhores do que Batman e Robin para suas tenras fantasias eróticas.

 

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Num outro caso, Fredric Wertham culpou as revistas do Batman pelos crimes “homossexuais” de um garoto que urinou na boca de um outro garoto. O que ele deixou de fora foi que o garoto era na verdade um fã muito maior do Superman do que do Batman.

 

Quando se tratava de violência inspirada em revistas em quadrinhos, o maior informante de Wertham foi um membro de gangue de 15 anos chamado Carlisle. Fredric Wertham transcreveu cuidadosamente pelo menos 15 páginas de uma entrevista com Carlisle, e no processo de escrever seu livro terminou atribuindo as palavras de Carlisle a uma sucessão de jovens ficcionais. Ele se dividiu em dois garotos diferentes numa seção, e depois as palavras de Carlisle foram postas nas bocas de mais dois garotos, com 13 e 14 anos. Portanto um informante se tornou quatro. Isto é parte de um padrão geral onde Wertham exagerou a abrangência de sua pesquisa. Apesar de que ele testemunhou para o senado que ele examinou 500 jovens por ano durante anos, a evidência arquivada mostra que pelos 10 anos que ele trabalhou na clínica do Harlem, só 500 pessoas com até 17 anos foram atendidas.

 

Tilley também encontrou evidência na Biblioteca do Congresso, papéis com observação de Wertham de que ele viu crianças “vomitar sobre revistas em quadrinhos” na verdade foi tirada de um relato do psiquiatra de um amigo, o especialista em folclore Gershon Legman. Fredric Wertham também afirma no seu livro que ele viu revistas em quadrinhos a venda em lojas onde prostitutas ofereciam seus serviços. Isso foi na verdade um relato dado a ele por seu colega Hilde Mosse; Wertham nunca testemunhou qualquer prostituta em lojas que vendiam revistas em quadrinhos.

 

Apesar da extensão das mentiras e exageros de Wertham só agora estarem vendo a luz do dia, o trabalho dele já caiu sob suspeitas antes. Mesmo nos anos 50, críticos questionaram os métodos de pesquisa dele – e o psiquiatra era conhecido por suas réplicas irritantes. Carol Tilley escreveu:

 

Quando o editor executivo de Woman’s Home Companion (uma revista estadunidense que foi publicada mensalmente desde 1873 até 1957) escreveu para interrogar sobre a fonte da evidência de Wertham para um relato em “The Seduction of the Innocent” em que aparecia a revista, a resposta dele foi uma única sentença debochada: “Eu sinto terrivelmente que você não tenha guardado os registros suas informações, porque como você bem sabe, um médico não possui liberdade para divulgar suas fontes”.

 

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O desmascaramento de Fredric Wertham, muitas décadas depois do dano que ele causou com seu livro “The Seduction of the Innocent”, deveria servir como um aviso. Hoje, muitos cruzados fazem as mesmas afirmações sobre videogames que Wertham fez sobre revistas em quadrinhos. Jogar videogames leva a culpa por violência e uso de drogas, em parte por causa da “pesquisa” antiga que Fredric Wertham realizou. Porém agora nós sabemos que Wertham escondeu evidência de que seus estudados eram frequentemente violentos e homossexuais muito antes de lerem revistas em quadrinhos. E o mais importante, eles sofriam de desvantagens sociais e culturais que sem dúvida contribuíram muito mais para os seus problemas do que o Batman.

 

Por e-mail, Tilley me contou que ela espera que mais estudiosos leiam a papelada de Fredric Wertham agora que eles estão disponíveis:

 

Eu encorajaria estudiosos com maior profundidade em psicologia, psiquiatria e trabalhos sociais a examinar o que estiver disponível da papelada de Wertham, pois eu acho que eles ajudarão bastante a esclarecer essas práticas históricas. Minha meta primária a esta altura é usar esses materiais para ajudar a apoiar meu projeto atual de examinar a leitura de revistas em quadrinhos por crianças; particularmente eu espero corroborar algumas das vozes dos milhões de garotos que leram revistas em quadrinhos durante os anos 40 e 50.

 

Olhando para o futuro, vamos esperar que nós não cometamos o mesmo erro que as pessoas cometeram nos EUA dos anos 50. Violência entre os jovens não é causada por revistas em quadrinhos ou videogames; é causada por uma complicada variedade de fatores, entre os quais está a sociedade violenta que os rodeia. E infelizmente, nós não podemos culpar o Batman por isso. Nós mesmos temos que assumir a responsabilidade por isso.

 

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