Multiverso Segundo Grant Morrison – Estudo Aprofundado Parte 1

Anos se passaram até que Grant Morrison conseguisse ter toda sua jornada pelo Multiverso DC reunido de forma coesa numa narrativa recheada de camadas com signfiicados diversos, variando do filosófico ao curioso. “The Multiversity” foi prometida ainda em 2009, quando sua controversa e explosiva minissérie “Crise Final” chegou ao fim prometendo uma viagem por mundos alternativos e ricos em significado nas últimas páginas desta publicação anterior, a qual deu um pequeno gostinho do que existia lá fora bem no final da história. Neste meio tempo a DC Comics/DC Entertainment passou por uma quantidade imensa de mudanças em seu universo ficcional e também em sua linha editorial, principalmente em 2011 quando resolveu reiniciar todo seu universo e sua linha de publicações na jogada conhecida como “DC Relaunch” ou “Novos 52”.

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O estabelecimento de um universo ficcional mais jovem e com novas histórias obrigou Morrison a reescrever boa parte do que estava pronto para que se adequasse a esta nova gama de possibilidades oferecidas pela editora. Pequenas fagulhas do que “The Multiversity” seria apareceram em “Action Comics Vol.2“, a qual Morrison escreveu mais com o desejo de explorar as possibilidades deste novo e jovem universo através de diferentes versões do Superman do que propriamente estabelecer uma versão atualizada do mito para toda uma nova geração de leitores em potencial. Sendo assim, Calvin Ellis, o Superman Negro da Terra-23, surgido em “Crise Final” melhor explorado em “Action Comics Vol.2”, retorna para servir de fio condutor desta aventura. Ele tem um rosto conhecido pelo leitor, servindo de primeiro ponto de familiarização necessário para que o observador encare a aventura com olhos e mente abertos às infinitas possibilidades que se darão à sua frente. Isso também acontece com a aparição de Nix Uotan, o Monitor criado por Morrison em sua “Crise”, personagem que claramente é importante para a trama toda.

Assim, então, se estabelece o que é “The Multiversity“: uma aventura pelo desconhecido, pelos múltiplos pontos terrestres e interpretativos de um Multiverso infinito em possibilidades. Seu objetivo? Salvar todos os universos da destruição iminente. A fim de dar mais sentido filosófico ao seu mais novo trabalho na DC, Morrison utiliza a primeira edição da publicação – e muito provavelmente às próximas também – para passar uma mensagem, uma visão pessoal sua sobre a indústria de quadrinhos como um todo através de uma narrativa sequencial metafórica e metalingüística. Em “The Multiversity #1” o tema escolhido foi o fracasso da indústria nos anos 1990, o que quase levou a Marvel Comics a fechar as portas e deixou a DC à mercê de adaptações de seus personagens par aoutras mídias, fato que a beneficiou muito ao oferecer animações seriadas de altíssima qualidade aos fãs.

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Isso tudo aconteceu após a explosão da bolha criada pela Image com seus super-heróis bombados, sombrios e sinistros, que são referenciados nesta série através do Dino-Cop, uma versão alternativa do clássico personagem Savage Dragon do quadrinista Erik Larsen. Outras crias desta época também se fazem presentes, como os heróis negros Bloodwynd e Aço, representações afro-descendentes de diversos outros super-personagens (o que pode ser uma alusão ao Universo Milestone criado pelo finado Dwayne McDuffie no início da década de 1990) e outros detalhes espalhados pela narrativa. Este alto coeficiente de personagens negros, aliás, prova algo que já levantava discussões pela internet há algum tempo: o título “Multiversity” é oriundo da mistura de multiverse com diversity, ou seja, um multiverso de diversidade étnica entre os personagens. Demora bastante até que um caucasiano fale algo durante a história, o que é muito interessante.

Falando ainda da Marvel e de seus percalços dos anos 1990, eles são referenciados aqui através de duas Terras. Em uma delas a Future Family e outros heróis que fazem alusão ao Universo Ultimate são mortos – como no evento “Ultimatum“, de Jeph Loeb e David Finch – restando apenas o herói negro Thunderer, que referencia ao mesmo Thor e Vulcão-Negro (do desenho “Superamigos”). Os Retaliators, da Terra-8, são os Vingadores desta Terra, assim como os G-Men são uma versão dos X-Men, Lord Havok é o Doutor Destino etc. Morrison revelou em seu livro “Superdeuses” que é um fanático pelos primeiros anos da Casa das Ideias, quando era comandada por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko e outros grandes nomes da indústria. Logo, nada mais natural que dar sua própria versão dos fatos nesta história, utilizando-se ainda de balões narrativos para quebrar o quarto muro tal qual Lee fazia com suas primeiras histórias na Marvel. Há referências claras a artefatos cósmicos da editora, sendo eles:

– Mjolnir (Martelo do Thor)
– Cubo Cósmico
– Manopla do Infinito
– Doutor Destino
– Quarteto Fantástico
– Capitão América

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Como não podia deixar de ser, todo este emaranhado de referências à Marvel é apenas uma parte de um todo muito maior. Morrison fará sua própria “Crise nas Infinitas Terras” com “The Multiversity” e isto fica escancarado para o leitor no momento em que ele se depara com a House of Heroes, uma versão da Torre de Vigilância da LJA cheia de heróis do Multiverso, tal qual foi feito na obra original de Marv Wolfman e George Pérez. Este momento é importantíssimo para entender tudo que virá depois na série. Como dito anteriormente, o objetivo básico de “Multiversity” é uma exploração sem limites pelo Multiverso que mostrará heróis diversificados unindo esforços para impedir que monstros destruam toda a vida habitante destes mundos alternativos. E, obviamente, esta é a camada mais superficial da história – as mais profundas são alcançadas através do maior entendimento do leitor de que este conto é filosófico, significativo e provavelmente o mais rico já feito por Morrison em toda sua carreira.

A House of Heroes apresenta heróis como o Capitão Cenoura numa versão inesperada e surpreendente, com o carisma e potencial suficiente para comandar aventuras próprias. Ao seu lado estão outros heróis nas versões mais inusitadas possíveis, mas todas referenciandos os anos 1990. Muitos deles possuem ligação direta (ou indireta) com o evento noventista “Zero Hora“, uma tentativa da DC de repetir o sucesso da “Crise” original com uma história cósmica envolvendo artefatos, viagens temporais e Terras alternativas. A fim de fazer uma conexão entre todos os presentes neste lugar – que por sinal referencia a Estrela da Morte de “Star Wars” – Morrison utiliza-se da metalinguagem, o que será detalhado mais abaixo. Estes personagens também são uma quebra do tradicionalismo nos quadrinhos americanos, pois os personagens principais são negros e alguns dos caucasianos são homossexuais. Morrison quis quebrar os tabus da indústria mostrando protagonistas da maior diversidade possível.

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Pra finalizar, vale destacar a camada por trás da que aplica a indústria de quadrinhos nos anos 1990 sob um microscópio, a camada mais profunda, que apareceu em “Crise Final” e que deve espalhar-se por toda esta nova série: a crítica dura à indústria e aos fãs mais extremistas dos personagens. Editores e executivos que só pensam em diluir a arte em favor do dinheiro e leitores que entendem personagens como suas propriedades, que verbalizam em tons exagerados protestos contra autores e editoras que fazem algo de diferente e estranho se comparado com o escopo cravado na mente destes fãs, foram alvo do autor na representação de Nix Uotan – a arte, a criatividade, a liberdade – sendo atacado pelo Gentry [Nota: “gentry” é uma gíria britânica para alta classe, ou grupo de pessoas financeiramente bem favorecido], um aglomerado de monstros lovecraftianos – os criticados pelo autor – que sugam a energia vital do Monitor.

Outra crítica obtida nesta representação do autor é direcionada à própria DC e seu estilo pós-reboot. Nix Uotan nota que os monstruosos membros do Gentry não possuem perspectiva. Esta perspectiva à qual o autor se refere é a artística, do ponto de vista do desenho – é como se aqueles personagens não tivesse como aparecer naquelas posições, assim também como na opinião do autor a editora não está mais fazendo seu melhor em termos de arte visual. Segundo Morrison, o chamado housestyle da DC caiu em completo desrespeito em favor de produtos mais vendáveis e superficiais.

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The Multiversity” começou muito bem. Foi tudo que Morrison prometeu neste 5 anos e um pouco mais do que o esperado pelos fãs. Se esta é de fato a última obra do autor na DC, sua carreira por lá se fecha com chave de ouro.

Nota: 10/10.

Referências e Anotações

1-2-3-Morrison, Reis e Prado mostram, de cara, a técnica narrativa utilizada na série: 8 painéis e um plano geral como fundo. A técnica clássica de 9 painéis também fará parte da publicação, mais exatamente em “The Multiversity: Pax Americana“, agendada para Novembro. O autor apresenta o conceito da vida segundo os Monitores e logo em seguida mostra Nix Uotan, que ainda vive no mesmo apartamento mostrado na “Crise Final”. Lá estão mais gibis, um computador ligado num fórum de quadrinhos (onde o personagem está conversando com um certo JMS) e outros itens já mostrados anteriormente, como o cubo mágico etc.

4-5-Stubbs, o querido macaco que aparecia na casa de Uotan em “Crise Final”, está de volta, e desta vez com vida! Sua aparência é uma mistura do detetive Chimp com o clássico Pirata Psíquico, personagem importantíssimo para a “Crise” original e para o Homem-Animal de Morrison. O visual de Uotan também é atualizado: Reis e Prado se basearam nos “Novos 52”, onde ajudaram a criar conceitos visuais juntos de Cully Hamner e Jim Lee, para criar o visual gótico do alter-ego do personagem. Junto deles também está de volta o submarino-amarelo Ultima Thule, que navega pelos multiversos através de freqüências sonoras.

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6-A Terra-7 é a primeira das duas Terras que prestam homenagem à Marvel Comics. Aliás, ela referencia o universo Amálgama dos anos 1990. Como dito acima, esta década é o foco principal da primeira edição de “The Multiversity“.

7-8-Thunderer é uma versão de Thor, Wandjina (que por sua vez é uma versão do Deus do Trovão na DC pré-CNIT), Vulcão Negro (dos “Superamigos”) e recheado de referências visuais ao deus aborígene do trovão.

9-O relógio de Stubbs é uma versão do que Jimmy Olsen usava para chamar o Superman nos quadrinhos da Era de Prata.

10-Morrison brinca, novamente, com a gramática do inglês ao resumir palavras e frases em fonemas, como “We Want U 2 Give Up Yr Dreams”.

11-Aqui Uotan deixa claro que a Ultima Thule navega pelo multiverso tal qual a Balsa do Stormwatch/Authority. Outra coisa muito importante para a história é o entendimento por trás da House of Heroes: ela funciona como um “Disque H Para Herói” cósmico. O “H” é a oitava letra do alfabeta – 8 painéis de narração. A discagem telefônica envolve tons – sons –, conceito fundamental para o transporte pelo Multiverso com a Ultima Thule ou com os Cubos de Matéria.

12-13-Os nomes dos monstros são revelados aqui. Morrison, como fã do autor Jonathan Hickman que é, inventou nomes bem caprichados para suas criações: Dame Merciless, Hellmachine, Lord Broken, Demogorgunn e Intellectron. Hickman tem inventado seres com nomes malucos também em sua recente passagem pelos Vingadores. É importante notar a revelação de Uotan de que os entry não possuem perspectiva e nem escala, o que os conecta diretamente aos monstros inomináveis de H.P. Lovecraft.

14-15-16-Calvin Ellis parece ser o Superman favorito de Morrison. Versão negra do herói clássico e presidente dos Estados Unidos na Terra-23, o personagem apareceu em “Crise Final” e “Action Comics Vol.2 #9”.

17-18-Este versão da Liga da Justiça é bem conhecida dos leitores, já que ela é apresentada rapidamente em “Crise Final” e “Action Comics Vol.2 #9“. Importante notar que o Guardião da série “Sete Soldados da Vitória” e a Vixen também fazem parte deste grupo. O Cubo de Matéria criado por Lex Luthor para navegar por outras Terras aparece aqui, e leva os heróis para a House of Heroes.

19-Crise nas Infinitas Terras na veia, com direito inclusive a Precursora.

20-21-22-23-O Capitão Cenoura faz sua entrada triunfal na história. Morrison adora personagens antropomórficos e este é um de seus favoritos. Outros ícones curiosos marcam presença aqui, como Dino-Cop, Bloodwynd, Lady Quark, Aço etc. É aqui também que fica clara a conexão entre mundos do Multiverso através da metalinguagem: um quadrinho referente a um universo inspira o universo super-heróico “real” de outro universo.

24-Precursora é retratada aqui como uma Inteligência Artificial um pouco mais evoluída que o Brainiac de Calvin Ellis. Morrison parte do princípio que ela permaneceu adormecida desde 1986, quando a “Crise” original acabou, e ela entende que a morte do Monitor (no singular mesmo) pode causar uma devastação no Multiverso. Detalhe importante: as Terras referenciadas por ela são justamente as que serão exploradas na série.

26-O Red Racer pertence à Terra-36 e ele é influenciado pelos eventos de “Action #9“, exatamente a revista que está em suas mãos no momento em que ele vai conversar com Calvin Ellis. Aqui Morrison escancara a influẽncia da clássica história “Flash de Dois Mundos“, na qual Barry Allen vai parar num universo em que Jay Garrick, um personagem de quadrinhos, existia de verdade.

27-28-O Capitão Cenoura se lembra dos eventos da “Crise Final”, mas Calvin Ellis não. De qualquer forma o divertido super-herói não sofreu dos eventos de “Flashpoint“.

29-Morrison revisita sua versão da Sangria, criada pelo autor Warren Ellis em Stormwatch nos anos 1990, apresentada com detalhes na minissérie “Crise Final: Superman ao Infinito“.

30-Doutor Destino representado na forma de Lord Havock. O vilão é provavelmente o mais icônico de todo o Universo Marvel e foi escolhido de forma acertada por Morrison para representar o lado maligno de suas alusões à ficção da Casa das Ideias. Os brasileiros Ivan Reis e Joe Prado, fanáticos como são por super-heróis, certamente ficaram muito felizes por trabalharem, de certa forma, com ambos os universos de uma vez só.

32-33-Heróis DC comandados pelo Superman Negro encaram os Retaliators/Vingadores. Destaque para a frase “Retaliators Ready!“, uma versão de “Avante Vingadores!” criada por Morrison. Importante destacar que o líder do grupo, uma versão do Capitão América, possui uma armadura medieval que parece representar a época das Cruzadas, o que faz dele um europeu. O outro destaque fica para a sensacional expressão de desconfiado do Capitão Cenoura feita por Ivan Reis. O carismático herói é de longe o personagem de maior empatia da revista.

34-Major Comics/Marvel Comics; Future Family/Quarteto Fantástico; Bug/Homem-Aranha; G-Men/X-Men; Stuntmaster/Demolidor; Behemoth/Hulk. Importante notar que a representação do gigante esmeralda aqui é azul e com trejeitos de bebê. Isso é muito importante, pois referencia diretamente o início do personagem nas mãos de Stan Lee, quando sua versão monstruosa era tida de fato como um bebê raivoso, um infante de poder quase ilimitado.

35-Sério, o Capitão Cenoura devia ter uma revista própria. Pra ontem!

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36-O Genesis Egg é muito similar ao Ovo de Krona no final do grande crossover LJA/Vingadores, de Kurt Busiek e George Pérez.

37-38-O descontrole do Lord Havock pode referenciar a primeira grande saga da Marvel, “Guerras Secretas“, feita sob encomenda dos executivos da editora que souberam da criação da “Crise” original na concorrência. No evento, que reuniu diversos heróis e vilões Marvel, o Dr. Destino se apossa de um poder incontrolável e paga um preço bem alto por isso: sua face, antes restaurada, é novamente desfigurada a níveis desumanos. Isto pode estar relacionado com o termo “their faces” falado por Lord Havock na história.

39-De alguma forma o Genesis Egg parece ter ligação com outro conceito pelo qual Morrison tem fixação: a Equação Anti-Vida. O ovo representaria a inversão desta equação, uma espécie de Equação Anti-Morte.

40-Tal qual os Monitores Vampiros da “Crise Final”, Nix Uotan e Stubbs tiveram suas energias vitais sugadas e suas mentes deterioradas pelo mal dos lovecraftianos Gentry.

Fontes para as referências: “Guerras Secretas” (Marvel), “Ultimatum” (Marvel), “Crise nas Infinitas Terras” (DC), “Zero hora” (DC”), “Crise Final” e “Sete Soldados da Vitória” (DC), sites Comics Alliance e ComicBook.com.

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