Grupo extremista ameaça quadrinista de assassinato

Esta é uma notícia delicada, pois além de se tratar de um tema muito sério, também é envolto de situações sociais e religiosas delicadas e um pouco além da realidade do Ocidente. Foi noticiado na última sexta-feira que o Dr. Nayef Al-Mutawa, criador dos super-heróis islâmicos “The 99“, se tornou um alvo do EIIL (“Estado Islâmico do Iraque e do Levante”), uma milícia jihadista formada em 2004 alegando ser um “movimento social com braço armado”. Obviamente trata-se de um grupo extremista e as opiniões sobre determinados usos da cultura islâmica certamente é vista com desconfiança ou até ódio.

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Nayef Al-Mutawa é um psicólogo formado nos Estados Unidos, com PHD em Psicologia Clínica e Mestre em Psicologia Organizacional. Com o objetivo de deixar a juventude mais aberta à cultura islâmica, em especial para formar adultos que reflitam mais sobre esta forma de vida e sua religiosidade, Al-Mutawa criou estes super-heróis que representam 99 países unidos através da cultura islâmica. Os personagens se tornaram bem conhecidos nos Estados Unidos e até ganharma um crossover com a Liga da Justiça numa minissérie que teve capas do brasileiro Felipe Massafera.

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Em carta aberta aos seus filhos em 2009, Al-Mutawa disse:

Estou voltando às mesmas fontes das quais pessoas tiraram mensagens de ódio e violência e oferecer mensagens de tolerância e paz no lugar destas. Eu daria aos meus heróis um Cavalo de Tróia na forma de THE 99. O Islã foi minha Helena. Eu queria ela de volta.

THE 99 referencia os 99 atributos de Alá – generosidade, perdão, sabedoria e dúzias de outras não usados para descrever o Islã na mídia quando a gente está crescendo. Mas, se eu conseguir, quando você estiver lendo isso você não acreditá que tal era sequer existiu.

Na semana passada, ofendido pela forma como Al-Mutawa retratou os 99 nomes de Alá, o grupo EIIL – que é dissidente da organização terrorista Al-Qaeda – ofereceu uma recompensa pela morte do autor. “Quem pode matar Nayef Al-Mutawa, que tira sarro dos nomes de Alá?” dizia uma mensagem no Twitter oficial dos jihadistas. “Quem quer que o encontre e o mate será recompensado” dizia um outro tuíte.

Al-Mutawa respondeu dizendo que tomará ações legais contra quem quer que esteja por trás desta conta, além de se defender de forma oficial dizendo: “Meu trabalho glorificou o Islã dos Estados Unidos à China nos últimos dez anos. Eu realmente não acredito no EIIL e na Qaeda – não me importo com eles.

Não é de se duvidar que as ameaças ao autor e psicólogo não fossem bravatas, mas é improvável que ele de fato seja assassinado. De qualquer forma, ele conseguiu atingir seu objetivo: mostrou mensagens pacíficas de uma cultura e, infelizmente, se tornou perseguido por isso. É louvável como ele conseguiu reunir sua cultura e contá-la de forma sequencial na mídia que o Terra Zero tanto adora, os quadrinhos. Se alguém precisava de prova de que as revistas servem como fonte cultural como qualquer outra forma de arte, aqui está ela. Mais do que isso, o esforço para que o combate ao mal feito por estes super-heróis seja narrado através da reversão da imagem distorcida que o Ocidente tem do islamismo é singular e deveria servir de exemplo para muitos outros temas tratados com recorrência no gênero.

Que surjam outros como Al-Mutawa no futuro. E que ele não seja morto, mesmo que tal ato o transformasse num mártir.

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