Os Novos 52 até aqui

Por Pablo Sarmento (com consultoria de Luís Alberto)

Estamos nos aproximando dos 3 anos de “reboot” da DC e seus “Novos 52” e depois de todo esse tempo podemos fazer um balanço dessa nova empreitada da DC Entertainment. Entre erros e acertos, vou buscar uma análise mais profissional, tentando não deixar meu coração “DCnauta” se sobressair neste texto. Tentarei elucidar decisões administrativas corretas e também acontecimentos negativos.

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Vamos partir do princípio. Diane Nelson sobe à presidência da DC Entertainment com a meta de maximizar seus lucros e transformar esse nicho em algo mais importante, aproveitando sua experiência com marcas para criar uma estratégia forte e coesa, fortificando a empresa no mercado e transportando seus ricos personagens para outras mídias, como filmes, séries de TV, jogos de vídeo game, animações e etc. Nelson tinha em mãos a árdua tarefa de transformar essa empresa num braço forte do conglomerado Time Warner. Para tal, ela coloca profissionais de confiança como Bob Harras, Bobbie Chase, Dan DiDio, Geoff Johns e Jim Lee encabeçando altos cargos dentro da recém erguida DC Entertainment e ditar esses novos rumos.

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Logo após a última saga do universo anterior, nasceu “Os Novos 52”, trazendo para grande parte dos leitores muitas novidades e mudanças que foram bem recebidas. Claro, algumas coisas deixaram de ser atraentes logo nos primeiros meses, dando início ao “machado de cortes”, que até agora contabiliza 42 títulos cancelados. Novas fórmulas com potencial foram destruídas, sem terem sido devidamente desenvolvidas e iniciativas mais fracas chegaram ao fim para outras mais atraentes tomarem seu lugar. Ao longo desses quase 36 meses, vimos no primeiro semestre a DC Entertainment vender cerca de 20 milhões de HQs, coisa que forçou sua maior concorrente a tomar decisões para adequar-se as novas tendências. O duelo das “duas grandes” por audiência tornou as coisas muito interessante para os leitores, que viam sua atenção dividida por propostas muito diferentes.

No embate editorial e resultados a curto prazo a DC Entertainment atingiu seus objetivos e fez uma guinada até agora pouco vista no mercado de quadrinhos. Não satisfeita, conseguiu com seu “reboot” revitalizar um mercado que até então tinha seu número de consumidores diminuindo, mudando o panorama da empresa no diz respeito a amarga 2ª posição de vendas, tendo inclusive no passado adotado a abordagem de “somos a segunda em vendas e isso não é problema nenhum para nós”. Porém, um demérito da mudança trazida foi sua total falta de planejamento no que diz respeito a cronologia das histórias. Parece, a princípio, somente mais uma ação publicitária, que tantas outras empresas realizam.

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Essa reformulação a “toque de caixa” dentro da DC trouxe alguns elementos novos para editora. Dentre eles uma política de prazos bastante forte, a pouca utilização de profissionais “fill-in” (substitutos), o número mensal de 52 revistas mensais nas bancas e a promessa de não fazer “mega sagas”, prática que já havia se tornado recorrente da empresa e que tinha perdido o impacto que deveria ter. Contudo, a novidade que mais causou problemas foi a forte linha editorial, que ainda estava definindo o que seria feito e divergindo criativamente com os autores. Um exemplo que ilustra isso é a reação de George Perez no FIQ 2013, reclamando que não conseguia manter a qualidade de seu trabalho, pois o editorial não conseguia traçar um plano para o Superman ao mesmo tempo que cobrava prazos severamente.  Ainda assim, creio que essa mudança dentro da DC era o incentivo que o mercado precisava. Foi revolucionário, mostrando que algumas coisas podem ser reescritas ou recontadas de forma diferente, sem perder a qualidade.

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Claro que a DC amarga erros editoriais. O limbo onde WildStorm e Millestone são um dos mais graves. Outros Elementos que dividem os leitores vão desde a falta do legado dos heróis até mesmo as mudanças ocorridas no Superman. Porém, essa nova abordagem tem coisas muito boas, como a união de alguns personagens da Vertigo, um multiverso para ser explorado e um novo fôlego para personagens e títulos que até então estavam fora dos holofotes. Apenas citado alguns, temos o Arqueiro Verde, Monstro do Pântano, Homem Animal, Aquaman, Terra 2, Mulher Maravilha e Batwoman.

Em uma conversa com o Luís Alberto, ele trouxe uma análise interessante sobre o atual cenário da editora, comparando-a com a Apple no fim dos anos 80 e início dos 90. Na época, John Sculley, antigo executivo de marketing e vendas da Pepsi, era o presidente da empresa de tecnologia. Sua estratégia se baseou mais em maximizar o lucro do que na concepção de produtos, até então característica mais marcante da empresa, fazendo a Apple aos poucos perder força.

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Essa análise é bastante pertinente e podem sim ser vistas semelhanças nos dois casos. Porém, em um mercado de entretenimento, a política de posicionamento acaba não sendo a mais correta, que no caso é: adequar sua marca de forma que ela fica estática no mercado, ou seja, vende-se sempre a mesma quantidade e não se busca brigar com empresas de maior porte que o seu. Na minha opinião, no setor entretenimento, as fórmulas se desgastam e o público se cansa. Além disso, há uma competição imensa e um cenário bastante instável, onde num período curto de um mês você pode acabar perdendo grande parcela dos seus “clientes”.

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Apenas para exemplificar, uma empresa que resolveu atualizar muito pouco seu estilo de trabalho e teve um grande prejuízo foi a Nintendo, que mais uma vez errou o público alvo de seu console, Wii U, e acabou tendo uma perda de quase meio bilhão de dólares. Explicando rapidamente, a Nintendo resolveu buscar um novo grupo de consumidores, no caso jogadores de vídeo-game casuais e o entretenimento em família. Sua estratégia em primeira instância foi muito bem sucedida, porém ela acabou esquecendo a manutenção do seu antigo cliente, o “hard gamer”, dando espaço para suas concorrentes Sony e Microsoft conquistarem a parcela de mercado que pertencia a empresa japonesa. Além das empresas que emergiram neste viés inovarem muito em seus consoles, incorporando as novas tecnologias usadas pela Nintendo, esta não se atualizou diante das mudanças do mercado.

Obviamente, o mercado de games é diferente do de quadrinhos, mas o exemplo é válido por mostrar que de vez em quando devemos alterar um pouco a mecânica com a atualização da mídia para melhor se adequar, não deixando seu consumidor perdido no tempo. Entretanto, só o tempo vai poder dizer se essa nova abordagem da DC vai dar frutos ou se vamos ter que voltar as antigas formas de trabalho. Na minha visão, ainda acho que a mescla das estratégias são a melhor saída. Tornar quadrinhos agradáveis para novos e antigos leitores é importante. Claro que com o “reboot” devemos entender algumas mudanças de personagens, sejam elas étnica, sexualidade, gênero e etc. Afinal, se quiser ler histórias antigas e nostálgicas, vou até minha estante e não a uma banca ou “comic-shop“.

Alguns leitores mais antigos estão dizendo que não gostam das mudanças pois não reconhecem mais seus heróis preferidos. Vale ressaltar que se você chegar a pensar nisso, procure compreender que as histórias precisam se renovar. Faça um exercício e tente enxerga-las como uma nova história, com coisas diferentes a serem exploradas, sem julgamento de valor sobre o que já ocorreu no passado. Se de tudo não funcionar, você sempre poderá procurar materiais alternativos para explorar e espairecer as ideias, até que surja uma nova história que lhe chame a atenção. Neste atual panorama quem dita os acontecimentos na DC são números e eles estão bastante favoráveis para seus administradores, ainda que existam algumas quedas de vendas, em virtude da Marvel utilizar em excesso políticas de renumeração de revistas, ter maior número de lançamentos mensais, várias revistas quinzenais e faz cerca de 3 mega sagas por ano.

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Enfim, neste balanço de tempo, depois de muitas turbulências e resultados financeiros positivos, consigo ver que agora a DC Entertainment começa a encontrar coesão dentro da política da empresa. A mudança para Burbank facilitará a comunicação de cada uma das áreas (quadrinhos, jogos, cinema, animações) dentro da editora e deixará o conglomerado mais forte. Algumas práticas que causaram estranheza no início dos Novos 52 já foram abandonadas e estão deixando o editorial mais leve. Já temos histórias com alguma liberdade criativa em algumas revistas e a política de prazos parece ter aliviado um pouco. Claro que existem elementos que podem melhorar. Porém, depois de todo esse tempo, vejo esse “respiro editorial” de forma muito positiva, e com a possibilidade para termos boas histórias e um universo vasto para ser explorado com personagens que amamos, pois afinal… Tudo não se passa disso.

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