[FdA] O Flash da Era de Prata – Parte 1: The Flash #105-109

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Sejam bem-vindos à Força de Aceleração! Nesta coluna, voltamos à Era de Prata, e dessa vez vamos acompanhar Barry Allen, o segundo Flash, na retomada da sua revista própria, que continua a numeração que havia sido interrompida 10 anos antes, na última edição de Jay Garrick.

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Roteiro: John Broome
Desenhos: Carmine Infantino
Arte-final: Joe Giella e Frank Giacoia (na primeira história da edição #108)
Editor original: Julius Schwartz
Publicação original: The Flash #105-109 (março a novembro de 1959)
Publicação nacional: Superboy-Bi (Editora Ebal – 1967-1977) – A edição #107 saiu no número #23 de Superboy-Bi, segundo o Guia dos Quadrinhos, mas talvez tenham saído outras edições também, a confirmar.

Nove meses depois da última publicação do Flash na revista “Showcase Presents Vol. 1”, o personagem ganhou sua revista própria. Nos roteiros, Robert Kanigher sai de cena, deixando John Broome seguir sozinho, mas mantendo Carmine Infantino (o artista mais clássico do Flash) nos desenhos. Assim como era em Showcase, duas histórias de mais ou menos 12 páginas são publicadas por edição, mas a revista não conta com histórias de outros personagens, como antes. Os temas recorrentes continuam sendo os mesmos da época da Showcase: ficção científica e super-vilões, portanto vou dividir as seções entre temas para facilitar a leitura.

Intraterrenos, alienígenas e outras dimensões

FdA-017_texto-3A teoria da Terra Oca, onde viveriam os intraterrenos, é bastante conhecida no meio da ufologia, mas poucos de fato acreditam nela. Não sei se era o caso de John Broome, mas ele com certeza gostava muito dela, tanto que a utilizou na história de estreia e em mais duas histórias apenas nestes 5 números. Segundo essa teoria, abaixo da crosta terrestre existiria uma grande caverna, onde viveriam seres bastante diferentes de nós.

Na primeira história (#105.1), um arqueólogo encontra uma passagem até este lugar, sendo guiado por uma estranha vontade em sua mente. Lá, ele encontra um ser com corpo de metal, preso em uma redoma. Ele era o rei de uma civilização que viveu na Terra há 8 milhões de anos e que foi destruída por um meteoro. Este ser torna-se o vilão da história, obviamente, mas a história traz conceitos de ficção científica bem interessantes para a época: civilização antiga com seres baseados em metal, ao invés de carbono, técnica de animação suspensa, máquina ativada pelo sol que aumenta a densidade, o Flash criando pressão através de suas vibrações para fazer a cápsula onde ele estava preso decolar e uma arma de raios de controle mental.

Na edição #109.2, um amigo de Barry, que é astronauta, volta do espaço contando a ele uma história surreal. A cápsula que o trouxe de volta caiu no fundo do oceano, onde ele foi recolhido por uma civilização de telepatas que mora nas cavernas abaixo da água, em FdA-017_texto-4Sareme. Eles o mandaram de volta pedindo que ele buscasse e enviasse ajuda para eles, pois estavam prestes a serem destruídos por seus inimigos, os maugitas, seres com forma de peixes, mas com braços e pernas, empunhando armas de fogo (sim, é tão louco quanto parece). O Flash acredita nele, e parte para o fundo do oceano, encontrando a cidade de Sareme e ajudando-os a se defenderem.

Outros temas explorados por Broome são alienígenas e seres de outras dimensões. Na edição #107.2, por exemplo, temos um ciborgue que foi enviado por alienígenas para consertar uma falha na barreira que separa a nossa dimensão de outra, antes que os seres dessa outra dimensão invadam a nossa. Mas ele acidentalmente caiu na Terra antes de completar a missão, e precisa que o Flash o ajude. O interessante dessa história é que ele fica com amnésia ao cair no nosso planeta, e esquece tudo sobre ele mesmo (um robô com amnésia é novo pra mim…). Mas, como ele parece um ser humano e possui uma supervelocidade maior até mesmo que a do Flash, Íris West arranja com o seu editor no Picture News para organizar uma corrida beneficente entre os dois! Pior ainda, na corrida, o ciborgue ganha do Flash mesmo correndo de costas! No final, quando descobrem que ele é um robô alienígena, o Flash pode continuar sendo o homem mais rápido do mundo. Ufa!

FdA-017_texto-6Outra com temática parecida é a edição #108.1, onde Barry e Íris vão fazer um picnic no Central City Park em baixo de uma árvore que foi atingida por um raio, coisa que eles sempre fazem no feriado de 4 de Julho para lembrar seu primeiro encontro, que foi sob as mesmas circunstâncias. Porém, dessa vez a árvore não estava mais lá, o que faz Barry se lembrar de sua última aventura, contra seres de outra dimensão que estavam vindo para a Terra roubar objetos atingidos por raios, pois eles conseguiam extrair a energia residual e usá-la para se moverem tão rápido quanto o Flash e cometer roubos em seu próprio mundo. No final, o Flash descobre como ir até a dimensão deles e os entrega para as autoridades de lá.

Interessante essa predileção de Broome por seres intraterrenos e interdimensionais. Talvez seja para fugir do óbvio com alienígenas propriamente ditos, coisa que ele só usa em uma edição. Mas essas histórias “viajadas” são bem interessantes, e carregam muito da ficção científica maluca que seria usada principalmente nos anos 1960 por vários heróis da DC, e não somente pelo Flash. Basta dar uma olhada nas histórias do Superman e do Batman dessa época para entender isso.

Gorila Grodd

FdA-017_texto-7O Gorila Grodd foi apresentado pela primeira vez na primeira história de The Flash #106. Nela, Grodd vai até Central City atrás de Solovar, que estava preso em um zoológico, fingindo ser um gorila normal para não revelar nada sobre a Cidade Gorila. Grodd rouba dele o poder de controlar mentes, pois apesar de ser telepata, o controle mental é tratado aqui como um atributo que apenas um pode possuir por vez. Solovar pede ajuda ao Flash e ambos vão até a Cidade Gorila, no coração da África. Eles derrotam Grodd e Solovar toma o poder de controle mental dele, prendendo-o.

A história mostra conceitos muito bons, como a Cidade Gorila e os próprios gorilas telepatas superevoluídos. Alguém gostou muito dela, não sei ao certo se os leitores, o roteirista ou os editores, mas o fato é que já na edição seguinte Grodd volta a aparecer, trazendo novos conceitos, como o mecanismo de ocultação da Cidade Gorila e uma arma que evolui e involui os gorilas. Ah, Solovar ganha sua mecha de cabelo branco e Broome também coloca o vilão em contato com sua obsessão: os intraterrenos!

FdA-017_texto-8Nessa história (#107.1), Grodd foge da prisão, e Solovar pede ajuda ao Flash através do registro de sua aura vibracional, um incrível meio de comunicação intercontinental! É explicado que Grodd não tinha perdido seu poder de controle mental, apenas fingiu ter perdido (ok, a gente finge que acredita) e recruta criaturas aladas que vivem nos subterrâneos da Terra para deterem o Flash. Mais uma vez seu plano é frustrado e ele volta para a prisão na Cidade Gorila, mas uma promessa editorial do retorno do Grodd é incluída ao final da história, o que acontece já na edição seguinte.

Na edição #108.2, Grodd foge novamente de sua prisão na Cidade Gorila, dessa vez contatando mentalmente sua escavadeira, que voa até lá e destrói a prisão. Ele usa sua máquina evolucionária em si mesmo, evoluindo ainda mais que os outros gorilas. Algum tempo depois, o Picture News começa a eleição do homem do ano, e a disputa está entre o Flash e o milionário Drew Drowden, que construiu uma fábrica nos arredores de Central City, empregando centenas de pessoas. O que ninguém sabe é que Drowden está usando a fábrica para criar pílulas para si mesmo, que concedem a ele o poder da telecinese. Quando o Flash o confronta, ele revela ser o próprio Grodd evoluído, mas quando ele volta à sua forma de gorila seu poder telecinético some, e o Flash o prende novamente na Cidade Gorila, ganhando o concurso de homem do ano.

FdA-017_texto-9Talvez essa obsessão por Grodd venha daquela máxima de que ter macacos na história ajuda a vender a revista, mas essas três histórias seguidas do vilão símio não chegaram a ser cansativas, pois cada uma apresenta um elemento diferente. Essa última em especial é bastante interessante, por mostrá-lo em forma humana, passando-se por um benfeitor da cidade, além da história ser muito bem desenvolvida, não dando a entender no início que Drowden é Grodd. E os meios de comunicação dos gorilas são realmente muito inventivos: transmissão por aura vibracional e comunicação mental com máquinas foram caprichados!

Flautista e Mestre dos Espelhos

Dois novos supervilões têm suas primeiras aparições nessas edições: o Flautista e o primeiro Mestre dos Espelhos. O Flautista aparece em The Flash #106.2, usando sua flauta mágica para controlar todos os ladrões da cidade, a fim de organizar uma onda de FdA-017_texto-2saques conjuntos. Mas antes disso ele resolve se livrar do Flash, o único que poderia frustrar seus planos. Os poderes de sua flauta são bastante variados nesse início, criando uma aura vibratória que congela o Flash na mesma posição, transformando a água do rio em uma onda gigante e até mesmo causando pequenos terremotos. O Flash o derrota com um truque novo: girando rapidamente os seus braços, ele cria um pequeno tufão. O Flautista é apresentado bem como um vilão genérico mesmo nesse início, sem nenhuma das complexidades que foram introduzidas posteriormente no personagem.

O Mestre dos Espelhos (Sam Scudder) é apresentado pela primeira vez na edição #105.2. Sua origem é contada aqui, e descobrimos que, na fábrica de espelhos da prisão, ele descobriu uma forma de armazenar permanentemente uma imagem em um espelho. Ao sair da prisão, ele evoluiu essa técnica para reproduzir essa imagem em 3D, conseguindo também controlar a cópia remotamente. Exato, nada de mundo dos espelhos nem arma espelhada, originalmente Scudder apenas fazia cópias espelhadas de pessoas e animais! Barry Allen desconfia da cópia ao perceber que ela estava com o cabelo repartido para o outro lado, e com a aliança na mão direita (espelhos possuem imagens invertidas, sacou?). O Flash segue a cópia até o esconderijo do Mestre dos Espelhos, e descobre que as cópias são feitas de luz. Assim, ele usa a velocidade da luz para destruir um mosquito gigante e simplesmente apaga a luz para destruir um minotauro.

O Mestre dos Espelhos volta na edição #109.1, mas o modo de utilização dos espelhos muda radicalmente. Nada mais de imagens espelhadas, ele agora usa seus espelhos para diminuir e aumentar de tamanho. A lógica disso é que você pode fazer um espelho que reflita uma imagem maior ou menor do que o original, e é assim que ele foge da prisão. O Mestre dos Espelhos reduz o Flash ao tamanho de uma formiga, e o Flash consegue reverter a transformação em seu laboratório e capturar o bandido enrolando-o em um tapete, pra que ele não possa usar espelhos. Porém, o principal ponto dessa história não é esse, mas o relacionamento entre Barry e Íris.

FdA-017_texto-5Em praticamente todas as histórias até aqui, Barry tinha que ir a um encontro com Íris, mas sempre era atrasado por algum compromisso do Flash, e Íris dizia que ele era o homem mais lento do mundo. Pois bem, nesta edição ela perde a paciência com os constantes atrasos e resolve terminar o namoro.

Precisamos lembrar, porém, que nessa época o status quo dos personagens precisava ser mantido a todo custo. Portanto, Barry precisava arranjar uma maneira de manter o seu namoro pelo bem da continuidade. Aproveitando o confronto com o Mestre dos Espelhos, Barry utiliza um aparelho dele para projetar imagens suas por onde Íris ia passar, fazendo com que ela pense que é um truque da sua mente, que não consegue esquecer o amado, e reate o namoro com ele. Logicamente, Barry não conta a verdade pra ela, tornando este o primeiro truque sujo de Barry Allen com Íris. Lembrem-se: o bom moço era Jay Garrick, Barry é apenas um cara comum, que comete erros e acertos.

Conclusões

Analisar essa época é muito legal, pois vemos a gênese de personagens que se tornaram extremamente importantes para a história do Flash. E, muitas vezes, sua origem difere bastante do que eles vieram a se tornar, como é o caso do Flautista. Então, vamos relembrar as aparições dos vilões até aqui:

  • Dr. Alquimia: Showcase Vol.1 #13.2, 14.2
  • Capitão Frio: Showcase Vol.1 #8.2
  • Gorila Grodd: The Flash Vol. 1 #106.1, 107.1, 108.2
  • Mestre dos Espelhos: The Flash Vol. 1 #105.2, 109.1
  • Flautista: The Flash Vol. 1 #106.2

Até o mês que vem e continuem correndo!

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Flash é o homem mais rápido do mundo e o primeiro velocista dos quadrinhos. Assim como outros heróis da DC Comics ele tem um grande legado e teve várias identidades através dos anos, sendo que o primeiro deles foi Jay Garrick, batizado de Joel Ciclone no Brasil. Na Era de Prata veio Barry Allen, com o uniforme todo vermelho que passamos a conhecer, tendo sacrificado-se na Crise nas Infinitas Terras e passando sua identidade ao sobrinho Wally West, que ganhou sua própria revista tendo durado por cerca de 20 anos. Bart Allen, ex-Impulso, chegou a ser o Flash por pouco tempo, mas morreu e voltou como Kid Flash. Barry também está de volta e é o novo Flash do UDC em sua nova cronologia.

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