[Especial V20] O bom e velho John

[Nota do editor: É com muita honra que o Terra Zero recebe o nosso amigo King do site Baile dos Enxutos para dar mais brilho ao Especial V20. Espero que gostem do seu depoimento e depois passem a visitar as resenhas dele lá no BdE]

O público em geral acredita que quadrinhos são coisas de criança, ou que somente contam histórias de super-heróis em roupas multicoloridas. No início da década de 1990, eu também pensava assim. Isso durou até eu me deparar com “Hellblazer” – e logo com uma história de Garth Ennis! Viaje conosco nas memórias de um jovem/velho adulto e suas primeiras impressões neste magnífico ‘universo’ chamado “Vertigo”.

Antes das impressões propriamente ditas, um breve relato sobre o convite do Terra Zero para escrever neste especial 20 anos da Vertigo e a escolha do tema. Apesar de ser um veterano em blogs, sempre há aquele frio na barriga e a ânsia de não sair escrevendo besteiras.

Juro que pensei em algo diferente para relatar, mas não teve jeito: “Hellblazer” não saiu da minha mente de jeito nenhum e tive que apelar ao clichê. Mais especificamente o arco “Hábitos Perigosos” (“Hellblazer Vol.1 #41-46“) de Garth Ennis, logo a minha estreia neste universo. Caso ainda não tenha lido, fique tranquilo que não teremos spoilers aqui, afinal, para maior fidedignidade as minhas impressões da época, não reli a história com os olhos de agora e os detalhes acabarão me escapando.

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Pra quem não conhece (alguém?), “Hellblazer” foi uma série publicada pela Vertigo a partir de 1988 que durou 300 edições (fora especiais e anuais). A história acompanhava as desventuras de John Constantine em um mundo sombrio, onde a magia existe e, em geral, não é usada de forma, digamos assim, amigável.

O fato é que o protagonista é um cara irônico, enganador e arrogante, conhecedor das artes profanas do ocultismo e assuntos deste naipe.  Portanto, não é uma HQ ‘leve’, podendo até mesmo impressionar algumas pessoas mais suscetíveis. Uma curiosidade sobre o personagem: o escritor britânico Alan Moore, no prefácio da primeira “Hellblazer“, confessa que John fora inspirado em Sting, famoso cantor das décadas de 1970 e 1980. Enfim, como tudo na vida tem um fim (menos as HQs “mainstream“), acabou cancelada ao final de 2012, justamente por causa do advento dos Novos 52 (o reboot da DC) e o surgimento de uma versão mais jovem do seu protagonista e integrada ao universo habitual da editora. Assim, Hellblazer deu lugar a Constantine, mas isso é papo para outro post.

Como escrevi antes, meu primeiro contato foi entre 1993-1995. Na época, os (desculpem falar isso, ainda mais aqui no T0, mas…) X-Men de Jim Lee bombavam e um bem mais jovem King passava por uma fase migrando dos livros do escritor J.R.R. Tolkien para os RPGs medievais (D&D, especificamente). E foi em um dia que jogava na casa de um colega que me deparei com o primeiro capítulo de “Hábitos Perigosos”. Obviamente um choque grande. Lembro que comecei a ler, muito mais pela curiosidade de ver um quadrinho menos “colorido”, no traço de William Simpson, do que pela história em si. Olhei e vi a capa bacana, não reconheci a tal ‘Vertigo’ e muito menos me ligava nos nomes dos autores e o tal de Garth Ennis não me dizia nada. Em verdade vos digo que logo quando vi Constantine vomitando um pedaço do pulmão e confessando que estava morrendo de câncer percebi algo muito diferente do habitual.

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Este meu amigo apresentou as demais edições e li como o Flash, ‘degustando’ cada momento com voracidade. A angústia do protagonista e a forma como encarava a morte certa, misturado a um clima decadente e pessoas com problemas reais (dentro do possível, claro, dentro daquele universo), realmente me cativou. O câncer em si não chegava a ser uma novidade nos quadrinhos, mas a forma como foi representada chocou a minha percepção desta mídia. Como habitual nos trabalhos do Ennis, o autor é bem explícito e não mede esforços para isso. Assim, para quem ainda não leu, o epílogo do arco apresenta a forma como alguém morre por câncer. Claro que há uma dramatização para ‘enriquecer a história’, no entanto ao ver/ler aquilo e saber que é uma possibilidade real… Jamais havia colocado um cigarro na boca. Depois daquilo então…

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Além desta visão mais real e próxima do leitor, outra coisa que realmente me impressionou foi a abordagem acerca dos demônios e o submundo da magia. Lembro agora do espanto ao saber do Primeiro, Segundo e Terceiro, como Gabriel era ‘marrento’ e a forma sacana em que Constantine enfrentou o Primeiro, quando salvou a alma de um amigo bebum, usando magia, água benta e… cerveja. Sem falar, é claro, da forma como conseguiu se safar do câncer, impondo uma trégua forçada no Inferno ente os Três. Mais Constantine do que aquilo, impossível…

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E impossível também imaginar que os quadrinhos habituais pudessem em algum grau fazer algo deste tipo. Só um selo especial como Vertigo poderia. E por causa desta história em específico, abriu-se em minha mente um admirável mundo novo de possibilidades, mostrando que há muito mais para se ler do que apenas heróis multicoloridos. É óbvio que gosto deles e ainda leio suas histórias. Entretanto, não há como negar que a mídia quadrinhos tem uma ampla gama de assuntos que podem ser abordados, com temas mais sérios ou até mesmo mais escrachados.

Enfim, Hellblazer se foi, mas deixou um legado importante na minha vida quadrinística. A partir dela descobri autores como Garth Ennis, Jamie Delano, Paul Jenkins, Warren Ellis; descobri que é possível termos temas mais adultos, sérios e sinistros em HQs. Não entrarei no mérito se a DC acertou ou não em rejuvenescer Constantine, deixando-o mais palatável ao grande público. O que posso escrever-lhe é o seguinte: as histórias ficarão para sempre na minha memória e por isso sou grato à Vertigo por estes momentos marcantes, principalmente este com “Hábitos Perigosos”. Caso ainda não tenha lido, faça um favor a si mesmo e leia. Caso já tenha, releia.

Vale a pena. É imperdível!

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