[Especial V20] Sebastian O de Grant Morrison

Falar qualquer coisa sobre os 20 anos  de Vertigo e não falar do momento mais instigante do selo no Brasil (que foi a revista de mesmo nome lançada pela Editora Abril lançou com lombada quadrada na década de 1990) seria sacanagem. Foram 12 edições inesquecíveis. Como não coube a mim falar dos clássicos que preencheram as paginas do almanaque, como Hellblazer, Livros da Magia e Sandman: Máscara Mistério, optei por apelar à minha memória afetiva pra pra escolher a mais obscura das histórias impressas nas paginas do último número: Sebastian O.

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Me lembro de curtir muito a história época, mas quando reli descobri que todas as impressões que tinha na memória eram pura invenção da minha cabeça. Nem se quer lembrava que a história era de Grant Morrisson! Putz, o escocês é meu escritor predileto de quadrinhos de todos os tempos e não me lembrava da única história dele publicado na revista. Confissões à parte, vamos ao que interessa!

Como toda história do escocês, as três edições de Sebastian O estão recheadas de referências culturais.  Na busca por vingança de Sebastian O contra seus velhos amigos, membros do Clube Paradis Artificiel, que conspiraram e o  trancafiaram na prisão com o seu jovem amante Arnold Truro. Todos membros do clube se encaixam perfeitamente na descrição de um Dândi, que encontramos no livro de Baudelaire “O Homem Moderno“.  No livro o poeta francês descreve que Sr. G, ou Constantine Guy, é um homem do mundo; um artista dotado de uma imaginação ativa que tem por objetivo usufruir dos prazeres da vida.

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A diferença fica por conta do Sr. O ser uma artista de fuga, que aprendeu seus truques com faquires indianos em uma de suas viagens pelo mundo, enquanto o Sr G era um desenhista corresponde de guerra que adorava retratar em seus desenhos o cotidiano da vida moderna que surgiu sob a sombra da revolução industrial.

O traço ligeiro da arte de Steve Yeowell inspirada em desenhos de artistas modernistas ingleses do século XIX, como Aubrey Beardsley e o próprio Constantine Guy, dando credibilidade a recriação de uma atmosfera burguesa situada em uma  Londres vitoriana recheada de tecnologia  steampunk, que serve de pano de fundo para a série.

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A lista de membros do club de de Paradis Artificel, incluia além do jovem assassino místico Sebastian O, a lésbica George Harkness, o Abade pedófilo , o poeta adolescente gay Arnold Truro e o traidor moralista Sir Theo Lavender. Esse grupo de depravados causava asco na sociedade britância regida pelos altos valores morais da era vitoriana.  Para a elite da alta sociedade de Londres o sexo era uma força que precisava ser dominada  a maioria das praticas sexuais  abomináveis.

Não por acaso, Sebastian O e acusado e condenado pelo de escrever um livro que pregava uma conduta sexual pervertida. Aqui encontramos outra personagem controversa que viveu esse período e que também foi vítima desse tipo de acusação e que provavelmente inspirou o personagem central da trama Oscar Wilde. Considerando o conjunto da obra de Morrisson, ele também não teria uma vida fácil se vivesse no fim do século XIX.

Após a dissolução do clube, o conspirador Theo Lavander se torna um influente conselheiro da rainha Vitória e seu principal agente. O antagonista usa de todo seu poder junto a coroa para caçar o depravado fugitivo. Com isso, Morrisson cria um contraponto perfeito ao que o degenerado Sebastian O representa. Dando como missão ao dândi protagonista, destruir com muita liberdade sexual os tabus e alicerces morais que edificam a sociedade britânica do século XIX.

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Como essa resenha não tem a pretensão de se aprofundar num artigo de literatura comparada, a busca pelas referências citadas é só para dar um gostinho e mostrar o quanto o selo Vertigo contribuiu desde sua fundação, ao criar historias que vão muito além do mero entretenimento.  HQs densas que desde sua gênese ainda dentro do DCU com histórias de Alan Moore no Monstro do Pântano, passando aos mais diversos autores, como Morrisson, Neil Gaiman e Warren Ellis, dentre outros, que contribuíram para a criação de uma coleção única de quadrinhos. Marcando história por seu teor adulto e profundidade.

Escrever esse texto também valeu e muito por resgatar as 12 edições de Vertigo do fundo do meu baú. Fica minha torcida para que a reestruturação da Vertigo possa trazer mais 20 anos de grandes e instigantes histórias como Sebastian O.

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