O estica-e-puxa do Superman nos cinemas

Faz quase dois meses que a primeira crítica de O Homem de Aço saiu no Terra Zero. Passado todo o alarde da nova película do Superman e a ovação ao subsequente anúncio de que a continuação da obra seria Superman/Batman, é hora de analisar algo importante: se transformarmos o personagem num elástico, o quanto ele foi esticado pelo bem de uma trama política como a vista neste último filme? E, por consequência, o quanto ele foi esticado em detrimento de sua própria essência? Ainda mais: quantas vezes isso aconteceu nos cinemas?

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O Superman não mata. Mas este é o menor dos problemas. Dada a situação em que ele foi colocado, ou ele matava o General Zod (o cara de turbante, que quer impor suas regras ao coletivo sem questionamentos), ou o planeta inteiro virava uma zona de guerra apocalíptica. Logo, nem é um problema matar um invasor se ele está arriscando todo o bem estar de uma sociedade, de sua fauna e de sua flora. Em teoria, o que se tem é a proteção, não assassinato. Mas percebam: o personagem foi esticado de sua forma natural para poder servir a este propósito duvidoso. Ainda que faça sentido, é uma baita rasteira no cara que adotou os humanos como seus iguais mesmo sendo um estrangeiro super poderoso. E este tipo de mutação da personalidade do Homem de Aço é a mais preocupante que a de qualquer outro super-herói que vai parar no cinema. Ele é o primeiro, o maior, o de coração cheio de bondade.

Pierre Spengler, Mario Puzo, Richard Donner e Christopher Reeve
Pierre Spengler, Mario Puzo, Richard Donner e Christopher Reeve

Esta coisa começou lá na década de 1970, quando Ilya Salkind pegou nas mãos o personagem que adorava para produzir no cinema. Mario Puzo se juntou a ele, mas não sabia nada. Não era quadrinheiro. Chamou dois desta turma para lhe ajudar a entender: Cary Bates e Elliot S! Maggin, as duas sensações do momento nas “revistas de aço”. Eles explicaram. Deram suas próprias versões, contaram o propósito original. Puzo resumiu à sua forma: “uma grande tragédia grega”. Tragédia que iria pro buraco. Richard Donner foi escolhido como diretor. Levou dois roteiristas a tiracolo para a produção. Esticaram e puxaram o personagem no trabalho de Puzo. Mas ficou bom.

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A mensagem era perfeita: o herói de ouro teria coração de ouro e atitudes de ouro. Seria um campeão da vida, enviado aos humanos perdidos para mostrar a luz. Então vem Gene Hackman sendo Gene Hackman. Ned Beatty sendo Otis (ou Otis sendo Ned Beatty, tanto faz) e aquela galhofada toda destoa do Superman. A divindade estava no planeta para impedir um palhaço metido a psicopata. Na época foi um clássico. Ainda é, para os saudosistas e nostálgicos. Afinal, aquele era o Superman. E era mesmo. O problema estava à sua volta.

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Então veio o segundo filme. Desta vez Superman teria ameaças a seu nível de poder. General Zod, condenado à Zona Fantasma no filme anterior como Lúcifer foi condenado ao reino dos infernos após tentar um golpe nos Céus, tinha poder e soberba de sobra para se marcar como vilão. Mas Gene Hackman apareceu de novo. E Otis. O presidente dos EUA se ajoelhou para Zod. Superman pegou a bandeira. Um sorvete voou na testa de um transeunte e um homem de guarda-chuva viu seu acessório se destruir na guerra de ventos de Zod e seus capangas. Mas não tinha problema. Não estava chovendo. E o Superman? Ah, o Superman. Quis perder os poderes para viver como um humano e namorar Lois. Mas Lois gostava mais da outra persona de Clark, e ela fez falta quando Zod chegou. O sacrifício máximo de uma divindade é perder suas características para ser igual aos que adotou? Tudo bem. Era o Superman. Ele tem mais humildade que qualquer ser humano. Se tornaria um deles, não fosse um cara de seu próprio planeta; megalomaníaco, queria jogar caminhões nas pessoas e ônibus escolares em prédios. Superman voltava ao estado de divindade ao proteger o mundo deste cara que queria todos se ajoelhando pra ele. (Loki conseguiu. Ou quase. Pelo menos uma galera numa praça na Alemanha.)

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Era meio de 2006 quando Superman – O Retorno estreou no mundo todo (ok, a gente sabe que existem Superman III e IV, mas é melhor deixá-los onde estão). O personagem seria agora comandado por um diretor que não tinha lido uma revista sequer do herói. Mas ele amava aquele Superman com coração de ouro de Richard Donner. Seu Homem de Aço seguiria os passos imortalizados por Chris Reeve. Seria abobado quando de óculos, e confiante quando vestia o colante e a capa. Salvou um avião e um ônibus espacial numa cena de cair os queixos. Era o Superman Cristão Plus, uma versão ainda mais trabalhada nos conceitos de proteção e divindade. Esse Superman fazia justiça ao que o personagem significava. Salvou pessoas ao redor do globo, impediu atiradores, pegou gente caindo dos prédios. Eliminou uma ilha de kryptonita da vida marinha e salvou o mundo inteiro.

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A crítica aplaudiu. Mas o dinheiro não entrou. Fãs torceram o nariz. Kevin Spacey fez papel de Gene Hackman (sempre Gene Hackman). Superman ganhou um filho. Ciclope ganhou um filho. Lois Lane ganhou um filho. Todo mundo ganhou um filho! E Lois Lane era apática. E Superman virou stalker da amada e da criança que não sabia se era sua ou não. Na sequência teria que tirar o atraso daquela pelada com o moleque. A Warner precisava de enfoque nos quadrinhos. Ação. Explosão. Rios de dinheiro. E chamou um cara das revistinhas pra trabalhar no reboot do super-homem.

David Goyer é dos quadrinhos. Manja dos personagens. E, sacana, manja de como remodelar suas características básicas para fazer caber em suas propostas tresloucadas. Seu Batman não é detetive. Age por impulso, não se planeja totalmente, cai em armadilhas emocionais. Mas é um Batman bem-sucedido. As pessoas se identificam com o milionário que quer fazer o bem, mesmo que ele troque os pés pelas mãos uma vez ou outra. Não era “O” Batman, mas era um bom Batman. Um bom Batman com vilões surpreendentes que mostraram sua capacidade de ir além dos limites do herói clássico. E o Superman?

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Goyer foi mais longe que os escritores e diretores anteriores do personagem. O esticou bastante. Ele precisava ter o complexo de Cristo, mas também agiria por impulso e emoção. Havia descoberto quem era há menos de 24 horas da chegada de Zod e toda uma invasão kryptoniana para acabar com um planeta inteiro. Mal tinha aprendido a voar. Passou anos, criança ou adolescente ou adulto, impedindo catástrofes, se importando com a vida. Até que descobrisse quem era, fez valer a esperança que carregaria estampada no peito mais tarde. Depois, mudou. Mesmo sem querer, destruiu uma cidadezinha. Depois uma “Metrópolis”. Não foi culpa dele. Mas dava pra impedir um pouco. Dava pra pegar o Zod em Smallville e não voar em direção à refinaria. Dava pra não explodir um posto de gasolina, uma loja da Seers. Mas ok, a conta alta é culpa dos invasores ou das Forças Armadas Americanas (provavelmente o exército mais irresponsável do mundo, segundo o filme).

Goyer estica mais um pouco e faz o personagem escolher destruir uma máquina no meio do Pacífico enquanto a que estava em Metrópolis transformava a população em patê. Era cabível que o herói acabasse primeiro com a nave terrestre, pois ela cortaria o mal pela raiz. Mas perceba, leitor: novamente foi uma rasteira no personagem. De repente a divindade estava confusa. Tinha ainda menos estratégia que sua contraparte sombria de Gotham City. Ele salvou tudo, no fim, mas a um custo muito alto. Foi como prender a divindade numa caixa cheia de surpresas malignas. Depois de chacoalhá-la bastante, Goyer tirou o que saiu daquilo e fez o roteiro.

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No fim das contas todo mundo gosta de alguma coisa de todos os filmes do Superman. Sempre há algo que se salva, e “salvação” é a palavra-chave do personagem. Mesmo com toda a desgraça à sua volta, ele se sobrepõe, graças a ternura que lhe foi ensinada pelos humanos. Ele sempre será o “Super Homem”. O maior de todos. E sem pedir nada em troca. Só dói ver em que situações ele acaba jogado, como um rato de laboratório. Logo ele, que é o mais bem definido de todos os super-heróis. Todos.

Estica mais um pouquinho!
Estica mais um pouquinho!

Superman foi o primeiro super-herói dos quadrinhos e hoje é considerado um símbolo da cultura americana. O herói foi criado em 1938 pelos judeus Joe Shuster e Jerry Siegel, mas tem uma origem messiânica e cristã: Kal-El, o último filho do moribundo planeta Krypton, foi enviado à Terra por seu pai Jor-El para ser o único sobrevivente de seu povo. Na Terra ele foi criado por um maravilhoso casal de fazendeiros, Jonathan e Martha Kent, recebendo o nome de Clark Kent. Hoje um repórter renomado no Planeta Diário, ele também age como Superman graças aos incríveis poderes que possui sob a radiação do sol amarelo. Inspirador, o Superman é o maior símbolo heroico da DC Comics, dentro e fora do universo fictício.

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