[FdA] O Flash da Era de Ouro – Parte 1

 

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Bem-vindos a mais uma coluna Força de Aceleração! Um pouco atrasado dessa vez, mas o importante é que estamos de volta à Era de Ouro, agora para falar sobre as edições 4 a 17 da revista Flash Comics (1940/1941), estrelando o primeiro Flash: Jay Garrick! Essas 14 histórias fecham o primeiro volume da série “Golden Age Flash Archives”, que republica os primórdios do Flash e nos ajuda a entender a formação deste personagem. Novamente nos roteiros, o criador do Flash: Gardner Fox!

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Flash em Flash Comics #4 a #17 (Abril de 1940 a Maio de 1941)

Roteiro: Gardner Fox
Arte: Everett E. Hibbard

FdA-008_texto-2Antes de qualquer coisa, é preciso relembrar que, em 1940, os quadrinhos de super-heróis ainda estavam se formando, se adaptando e tentando encontrar o seu próprio caminho. O Superman havia surgido apenas 2 anos antes, inaugurado assim a Era Heroica. Os super-heróis eram um gênero novo, cuja única identidade própria por enquanto era possuir um personagem principal vestindo um uniforme espalhafatoso que lutava contra o crime e possuía uma identidade secreta. Ainda não existiam os supervilões como os conhecemos hoje, portanto os heróis lutavam contra o crime comum, os assaltantes, sequestradores, fraudadores e bandidos em geral.

O Flash, por sua vez, também estava inserido nesse mundo, com histórias que o mostravam impedindo assaltos, salvando inocentes e desbaratando o crime organizado. Como seus poderes faziam com que ele pudesse fazer qualquer uma dessas coisas de maneira muito rápida (o que levaria a história a acabar em 3 páginas), o roteirista optava, na maioria das vezes, por inserir uma trama de detetive no meio, obrigando o Flash a investigar o caso mais a fundo, a fim de descobrir quem era o mandante por trás dos crimes, para poder prendê-lo. Nas histórias analisadas aqui, essa estrutura de roteiro se repete nas edições 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 14, 16 e 17.

FdA-008_texto-3Como o roteirista optou por esta pegada de investigação, ele acabou usando exaustivamente o poder do Flash de uma maneira que não se vê mais hoje em dia, que é fazê-lo mover o seu corpo tão rapidamente a ponto de ficar invisível a olhos humanos. Em todas as histórias analisadas aqui o Flash fica invisível para investigar alguma coisa, tornando este um recurso ainda mais importante do que o de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Isso é usado de maneira tão exaustiva que, na história da edição 11, um bandido desenvolve um óculos com lentes adaptadas e coloridas, que o permite ver objetos que se movem a grandes velocidades, acabando com a vantagem de invisibilidade do Flash. Este óculos, aliás, é o primeiro souvenir de um vilão que o Flash guarda para si.

Ainda sobre a utilização dos poderes de supervelocidade, a edição 8 mostra pela primeira vez uma explicação sobre o soco superveloz. Segundo esta edição, o Flash consegue dar um soco de 800 milhas por hora (1287 km/h), o que causa um enorme impacto. Porém, nessas histórias ainda não havia a ideia de que a velocidade poderia fazê-lo correr sobre a água. Sempre que era necessário, Jay Garrick nadava em supervelocidade, mas jamais corria. Outro efeito colateral do seu poder era que ele não podia carregar outra pessoa junto consigo ao correr, pois ela não conseguiria respirar em velocidades muito altas.

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Outro ponto interessante de se notar é a questão da identidade secreta do Flash. A importância que Jay Garrick dá a sua identidade muda com o passar das histórias. Nas primeiras, até a edição 12, ele não se preocupa de maneira nenhuma em guardar sua identidade. Nas edições 4 e 5, por exemplo, ele encaminha as vítimas dos crimes a se refugiarem em sua própria casa; nas edições 7 e 9 ele se revela para antigos amigos de colégio; e ainda na edição 9 ele conta sua origem para um cientista que havia sido raptado. Porém, depois disso dá a impressão de que Gardner Fox percebeu a importância da identidade secreta para a mitologia do herói, e isso começou a mudar. Por exemplo, nas edições 13 e 16, novamente Jay encontra antigos amigos, mas dessa vez ele se preocupa em manter sua identidade de Flash em segredo, e na edição 14 ele precisa ficar alternando entre suas duas identidades para não levantar suspeitas.

FdA-008_texto-4Assim como a identidade, a participação de sua namorada nas histórias muda ao longo das edições. No início, Joan aparece pouco (apenas nas edições 4 e 6) e a partir da edição 14 começa a ser presença constante em todas as histórias, assumindo inclusive o papel de mocinha em perigo nas edições 14 e 16.

Um aspecto que permanece sempre o mesmo, entretanto, é o caráter de Jay Garrick. Ao contrário do Batman e de alguns outros heróis da Era de Ouro, o Flash jamais mata nem deixa ninguém morrer quando ele pode evitar. Na edição 10, por exemplo, ele salva o bandido de ser linchado pela população, que estava enfurecida com seus crimes de desvio de dinheiro da educação, preferindo levá-lo para ser julgado corretamente. E não apenas o direito a vida, mas também a honestidade de Jay é inquestionável. Na edição 4, por exemplo, ele pega 1 dólar da carteira de um bandido para poder entrar em um cassino, mas faz questão de devolver o dinheiro para ele ao sair. Ainda nesse cassino, ele usa sua supervelocidade para ganhar seguidamente e chamar a atenção dos donos, mas entrega todas as suas fichas ao sair, rejeitando todo o dinheiro que ele poderia ter ganhado. Mesmo nos esportes ele não compete por não achar justo. Apenas em duas situações aqui ele é obrigado a competir e usar seu poder para vencer, nas edições 6 e 17. Nas duas situações, ele faz isso para desmascarar apostadores desonestos, a primeira em corridas de velocidade e a segunda em baseball.

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Além da sua honestidade, Jay Garrick algumas vezes também usa sua velocidade para ajudar pessoas necessitadas, como ocorre em duas situações nestas histórias. A primeira é na edição 14, onde ele se oferece para terminar a construção de um túnel depois que os trabalhadores se recusam a continuar trabalhando por causa das ameaças feitas pelo bandido da história. E a segunda é na edição 15, onde ele se oferece para ser a principal atração de um circo que estava a beira da falência.

Apesar de não existirem supervilões, em duas edições é possível perceber uma tentativa de fugir do comum, flertando com o que viria a ser o futuro dos heróis. Na edição 5 vemos pela primeira vez um vilão que utiliza um codinome “vilanesco”: Vandal (nenhuma relação com Vandal Savage, o nome vem de “vândalo”), e na edição 9 são apresentados pela primeira vez alguns monstros, no caso, lagartos gigantes.

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As histórias desse período são sempre simples, primeiro para poder atingir um público mais infantil e segundo para poder caber em apenas 11 páginas, o tamanho padrão nesse caso. Uma trama que merece destaque, porém, é a da edição 12. Nela, um embaixador de uma nação fictícia pede ao Flash que ajude o seu país a encerrar uma guerra com outro. Sozinho, sem disparar um tiro e sem ferir ninguém, o Flash encerra a guerra e promove a paz entre os dois países. Esta história foi publicada em dezembro de 1940, época em que a II Guerra Mundial já estava tomando toda a Europa, mas os EUA ainda permaneciam neutros. Ela soa como uma crítica aos países em guerra do outro lado do Atlântico, dando a entender que, se os EUA entrarem na guerra com seu poder superior, ela acabaria rapidamente.

FdA-008_texto-9Podemos listar as tramas das edições analisadas, resumidamente, como:

  • Flash Comics #4: Donos de um cassino sequestram o filho de um político que era a favor da proibição dos cassinos.
  • Flash Comics #5: Colecionador de arte mata pintores para tornar sua coleção mais valiosa.
  • Flash Comics #6: Apostador desonesto droga corredores para sabotar corridas de velocidade.
  • Flash Comics #7: Apostador desonesto sequestra um cientista para força-lo a criar uma máquina para sabotar corridas de carro.
  • Flash Comics #8: Empresário desonesto constrói prédios com material ruim para ganhar mais lucro.
  • Flash Comics #9: Bandido sequestra cientista que criou uma fórmula para tornar animais em gigantes, para ajuda-lo a cometer crimes.
  • Flash Comics #10: Mafioso desvia dinheiro da educação em benefício próprio.
  • FdA-008_texto-7Flash Comics #11: Bandido tenta se livrar do Flash utilizando óculos especiais para poder ver seus movimentos.
  • Flash Comics #12: Embaixador da Kurtávia pede ao Flash que ajude a encerrar uma guerra pela qual seu país está passando.
  • Flash Comics #13: Bandidos tentam roubar uma mina de prata.
  • Flash Comics #14: Mafioso sabota a construção de um túnel para prejudicar seu rival político.
  • Flash Comics #15: Filha do dono de um circo é raptada.
  • Flash Comics #16: Joan é raptada por bandidos que pretendem tomar uma mina de prata de um amigo dela.
  • Flash Comics #17: Apostador desonesto tenta sabotar um time de baseball.

Apesar das tramas em sua maioria simples e da inocência presente, essas histórias merecem ser lidas. Porém, essa leitura deve ser feita sob a ótica da época em que foi publicada originalmente, e não procurando roteiros complexos e cheios de ação como os de hoje. Jay Garrick foi um desbravador, o primeiro Flash, e merece ser reconhecido por isso.

Até o mês que vem e continuem correndo!

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Flash é o homem mais rápido do mundo e o primeiro velocista dos quadrinhos. Assim como outros heróis da DC Comics ele tem um grande legado e teve várias identidades através dos anos, sendo que o primeiro deles foi Jay Garrick, batizado de Joel Ciclone no Brasil. Na Era de Prata veio Barry Allen, com o uniforme todo vermelho que passamos a conhecer, tendo sacrificado-se na Crise nas Infinitas Terras e passando sua identidade ao sobrinho Wally West, que ganhou sua própria revista tendo durado por cerca de 20 anos. Bart Allen, ex-Impulso, chegou a ser o Flash por pouco tempo, mas morreu e voltou como Kid Flash. Barry também está de volta e é o novo Flash do UDC em sua nova cronologia.

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