Hi-5: Um Bate-papo com Jheremy Raapack

Para a volta de coluna Hi-5 nesta sexta-feira o Terra Zero escolheu falar com mais um gaúcho que vem mostrando seu trabalho para o mundo todo quase semanalmente no quadrinho que adapta o game Injustice: Gods among Us.

Isto mesmo, leitor, na entrevista desta semana o site conversa com Jheremy Raapack, um grande talento nacional que vem trabalhando regularmente em Injustice desde o começo. Confiram este informativo bate-papo a partir de agora!

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Nome completo: Jheremy Raapack
Idade: 31
Profissão: Artista, Quadrinista e Capista
Editora Atual: Artista exclusivo da DC comics
Por que quadrinhos?
Era, e é, uma mídia que você podia, e pode, levar para qualquer lugar e se divertir em qualquer lugar. Outro fator fundamental é que é um ‘universo’ que eu pude penetrar como nenhuma outra mídia havia me proporcionado. Os quadrinhos sempre me levaram para o mundo dentro de minha mente em que tudo era possível, e ela também proporciona isso ao leitor. Não que outras mídias não levem, mas os quadrinhos foram isso para mim e eu sempre gostei de olhar os desenhos.

Se tornar um artista e fazer parte disto tudo foi uma consequência; criar um universo só seu e construir sua próprias regras é algo fabuloso. O “boom” dos anos 1990 e a Image Comics surgindo com seus artistas ‘super stars’ trouxeram uma visão que eu não tinha: que era possível e eu poderia transformar o meu hobby e diversão, que era desenhar, em uma profissão.

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1) Jheremy, você já passou pela DC e pela Marvel e agora é um dos pioneiros na DC em quadrinhos exclusivamente digitais. Como é trabalhar neste formato e que desafios ele lhe traz como profissional?
Jheremy Raapack: Os prazos são o maior desafio nesse momento; foi algo que se tornou alucinante de dezembro do ano passado para cá. Na teoria era um mídia que deveria lhe dar certa maleabilidade nos prazos, e foi totalmente o contrario. Quando comecei na linha digital, os prazos eram mais estendidos e maleáveis – caso alguém atrasasse podia-se mudar as datas e não havia o problemas com gráficas e distribuidoras. Mas, com algumas mudanças, principalmente da comiXology exigir material com antecedência, a situação piorou. Está tudo a nível de produção neste momento, sem muita preocupação com a qualidade.

Outra limitação são as novas páginas e o formato para ‘tablets’ que complicou a  dinâmica de quadros verticais ou quadro no meio da página. Por exemplo, uma página 11×17 e dividida no meio, formando duas páginas e voltando a ser uma página quando é impressa, não há mais possibilidade para isso. O lado bom é que este novo sistema digital/impresso proporciona maior visibilidade, pois ‘duplamente’ o artista está todos o meses nas lojas. Mesmo com vários artistas contribuindo para a série mensal e semanal você consegue manter um fluxo de trabalho e visibilidade.

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Outro desafio é deixar o trabalho com uma qualidade legal, pois agora o defeitos estão completamente visíveis – com apenas um zoom você vê linha tortas. Há também aqueles quadros de 4cm x 4cm que pessoal reclama que está mal desenhado, sendo que não faz menor diferença vendo em um tamanho que deve ser visto ou na versão impressa. Um dos motivos pelos quais comprei uma Cintiq 24 Hd é proporcionar mais qualidade ao produto e um traço mais firme.

2) Você já trabalhou anteriormente com franquias relacionadas a games como Resident Evil e Batman: Arkham Unhinged, estando agora com Injustice: Gods Among Us. Você diria que trabalhar em cima de franquias oriundas de outras mídias é um bom desafio para um profissional de quadrinhos?
JR: Qualquer nova midia é um desafio, e qualquer nova adaptação de alguma franquia tem seu desafios. Alguma menos, outras mais, pois mesmo aquelas que surgem de pequenas ideias começam da estaca zero. Trabalhar com adaptação de jogos pode até ser mais fácil, eu tento não colocar muitos empecilhos, pois já temos tudo pronto – e se o artista for fã do game acaba contribuindo mais ainda, facilitando a visão que será dada a outros fãs.

Eu não gosto de ficar me preocupando demais, tento pegar o espirito do projeto, pois mesmo que eu tenha um estilo diferente eu tento trazer a familiaridade para o jogador que está lendo os quadrinhos da franquia.

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3) Ainda sobre Injustice: Gods Among Us, seu mais recente trabalho, você precisa seguir um manual visual para os personagens para não diferenciar do que está no jogo ou há uma liberdade criativa no seu processo de desenho?
JR: Injustice: Gods Among Us está sendo um tremendo desafio de paciência, tanto com editores como com (e principalmente) o escritor. A liberdade que tive nas outras franquias na forma narrativa e visual eram muito grandes. Em Injustice tenho  que seguir tudo à risca, e com o tempo pode acabar ficando chato, mas isso é parte do negocio e estou lidando com uma franquia que está rendendo e vendendo muito, então acho normal acontecer um certo policiamento. Alguns concepts eu tive a liberdade de construir para a série, outros já chegam prontos para serem seguidos e ficarem o mais próximo possível do jogo.

4) Em uma entrevista você disse que adora Resident Evil e ficou bastante satisfeito em poder trabalhar nas revistas baseadas no game que você curte. O mesmo acontece com Injustice? E quais outras histórias de games você gostaria de desenhar?
JR: Passei muitas horas jogando Resindet Evil, então é uma franquia que amo, mesmo que ela não ande muito bem da pernas ultimamente. Mesmo assim ainda sou muito fã e consumo o que produzem, ainda que tenha migrado para a franquia de Dead Space, pois ela me proporcionou aquilo que eu queria sentir: o terror e a agonia de sobreviver a um caos. Todavia, na época que fui convidado para desenhar Resident Evil foi uma surpresa e uma realização.

Acerca de Injustice e como vim a participar desse projeto, eu já estava vindo de um grande número de adaptações. Então, conversei com meu editor e ele me deu a oportunidade de trabalhar em Batman: Legends of the Dark Knight com o escritor Christos Gage. Senti uma liberdade que durou pouco, mas foi um dos melhores scripts que já tive em mãos. Logo fui convidado a fazer Injustice, e era um título que não queria mesmo desenhar. Fui o primeiro artista a ser convidado para o projeto, e por ser outra adaptação tínhamos poucas informações sobre o jogo – nunca imaginei que seria tudo que foi, tanto que os primeiros scripts eram planejados para fechar uma graphic novel de 40 páginas, mas acabou virando uma série regular. Acabei até tendo certos problemas com scripts e conflitos de ideias.

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Pra finalizar, Jheremy, que outros projetos você tem para 2013? Há uma possibilidade de um quadrinho totalmente autoral nos seus planos?
JR: Vou continuar em Injustice até onde der. Vem material novo por aí (a graphic novel World of Warcraft: Blood Sworn em agosto), e no meio de tudo isso estou trabalhando também para Dead Rising 3, portanto estamos trabalhando em capas promocionais para a San Diego Comic-Con. Meu editor, a Microsoft e a Capcom estamos conversando sobre possibilidades de uma minissérie para esta franquia.

Acerca de quadrinhos autorais, tenho muita vontade sim, mas falta o tempo necessário e calcular quanto vou ter que gastar com isso. Ainda não acho vantajoso, tanto pelo retorno financeiro como pelo fator tempo. Acredito que o trabalho autoral seria apenas para acariciar o ego neste momento.

Não gosto de seguir tendências e considero um efeito bolha o que está acontecendo com material autoral no mercado brasileiro. Espero estar enganado, mas é esse meu pensamento. Não vi um retorno considerável do crowdfunding também. Sou fã, amo quadrinhos, mas tento ver o lado financeiro, já que muitos esquecem que para trabalhar com isso é preciso administração, planejamento de carreira e cuidado. Tudo que for feito é investimento!

Não vi nenhum artista que trabalha com material autoral dizer que está tendo um retorno legal, e estou vendo muitos novatos que estão perdendo oportunidade de trabalhar como artistas profissionais de adquirir experiências por causa dessa onda de trabalho autoral que está invadindo o mercado brasileiro. Artistas aspirantes, movidos pelo sonho, acabam lutando por causas em vão e só confirmam ao seus parentes que quadrinhos não dão dinheiro e nem futuro, que não vão levar a algum lugar. Esta é uma possível frustração futura para estes artistas aspirantes que querem se profissionalizar mais pra frente.

Vou aproveitar o máximo que a DC Comics me proporcionar, especialmente a exclusividade e os bons pages rates, vou apreender o que for para apreender e quando eu achar que a hora certa de produzir algo autoral com certeza o farei!

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