[Especial V20] 100 Balas

[Nota do Editor: É com muita honra que recebemos Emanuel “Mano” Cantanhêde como nosso convidado para mais uma semana de especial da Vertigo. Ilustrador, historiador e marvete que escreve regularmente para o blog http://profundesenho.blogspot.com.br/]

100BalasHQ

[…] o poder não é da ordem do consentimento; ele não é, em si mesmo, renúncia a uma liberdade, transferência de direito, poder de todos e de cada um delegado a alguns (o que não impede que o consentimento possa ser uma condição para que a relação de poder exista e se mantenha); a relação de poder pode ser o efeito de um consentimento anterior ou permanente; ela não é, em sua própria natureza, a manifestação de um consenso.[i]

Não queria começar apelando assim, mas, com uma frase dessas, como não associar tanta violência, crime, sexo e, obviamente, poder com os escritos de Foucault? Brian Azzarello e Eduardo Risso criaram, simplesmente, a “terrível simetria” de todos esses aspectos em um mosaico de 100 Balas.

Era Uma Vez Um Crime

Para quem curte quadrinhos, o selo da Vertigo Comics sempre foi uma garantia de inteligência e boas histórias. Pessoalmente, desde que tenho contato com o selo – nas primeiras Sandman e Monstro do Pântano que li –, foram raríssimas as vezes que li algo que não agradasse. Contudo, naquela época e por alguns anos seguidos, como os títulos supracitados indicam, a coisa tendia mais para o terror do sobrenatural. Depois, em idos dos anos 1990, isso mudou um pouco, com Transmetropolitan, V de Vingança e especiais como Como Matar seu Namorado, mesmo que o sobrenatural continuasse muito presente, como em Preacher e Os Livros da Magia

Sem título

 Enfim, todas envolviam violência e crime em alguma instância, mas nada como 100 Balas. Desses títulos supracitados, é possível dizer que o conto do Cartel e dos Minutemen foi o último da leva; lançado em 1999, nos EUA, logo chamou grande atenção pelo seu estilo e proposta – o que não era muito difícil, considerando o que era publicado em larga escala, nessa época… E, provavelmente, nas primeiras edições, o mistério por atrás das ações do Agente Graves – havia, naquele tempo, quem suspeitasse que se tratasse, literalmente, do Diabo – garantiram o interesse e a continuidade da publicação.

Atire Primeiro

Quando comecei este texto, pensei em descrever cada arco, personagem e coisa assim. Contudo, a Wikipedia está aí pra isso. Por isso, aqui, a coisa será um pouco diferente…

Antes de tudo, é impossível não mencionar o valor da “coesão criativa” do título. Sim, Azzarello e Risso não precisam de apresentações prolongadas. Porém, isso não é um trabalho de, apenas, “quatro mãos”: com as cores de Patricia Mulvihill e as capas de Dave Johnson, ao longo de suas cem edições, 100 Balas adquiriu essa “coesão”, um nível de “experiência sensorial” que só pode ser comparado, por exemplo, àquele seriado televisivo impecável que você tanto gosta ou… Ou ao seu cotidiano. Sim, soa meio romanceado, mas acompanhar esses personagens, nesse “mundinho” de Cartel, Minutemen e intrigas, é como as experiências que você tem diariamente. Claro, elas não envolvem um revólver e 100 cartuchos de munição irrastreável, mas é quase lá.

Sem título 1

Vidas Dizimadas

Certamente, você acompanha 100 Balas querendo saber qual será a conclusão para Graves, Victor Ray, Lono, Dizzy, Megan Dietrich e todos os outros. Contudo, se Azzarello tivesse tratado apenas desse pessoal, o título teria, sei lá, apenas 50 edições (?). A riqueza toda que a história possui ficou nos pequenos e longos contos paralelos que acontecem enquanto a trama principal rola. E mesmo que você tenha uma vida bem tranquila e distante de “tretas brabas”, deve conhecer alguém que conhece alguém que, lido no jornal que ou, de longe, presenciado algo que poderia ser um desses contos… E, infelizmente, muitos deles não tiveram a chance que o Agente Graves propicia.

Sem título2

Para reforçar essa ideia, basta citar duas histórias que, pessoalmente, marcam muito essa experiência de leitura – além de envolverem certas crenças pessoais: “No Frigir dos Ovo Quebrado” e em “Chove Chuva”.

Na primeira, não temos envolvimento algum dos Minutemen e do Cartel, assim como Graves fica em segundo plano; é apenas uma ferramenta narrativa para promover aquela “catarse” típica da boa literatura… Quer dizer, você conhece histórias reais muito parecidas com essa. Tristemente. Contudo, em muitas delas, as vítimas são esquecidas e os culpados não são punidos. Aqui, por outro lado, vemos uma mulher tendo o direito de mudar tudo isso e, assim, representar todas as mães enlutadas e filhos perdidos. Aqui, a maleta, felizmente, serviu para um, ao meu ver, propósito maior do que a agenda pessoal de Graves. E, aqui, sobretudo, humaniza-se essa proposta.

Na outra, temos o meu favorito um dos Minutemen seguindo a mesma ideia. Nessa edição, Victor Ray – que, até então, só tinha se mostrado um assassino frio e ameaçador – toma as dores de desconhecidos e promove um pouco de vingança justa. Na verdade, isso tem muito a ver com sua origem, mas não entregarei spoilers na cara alheia…

Sem título3

Além disso, um dos pontos altos da narrativa fica para o pequeno diálogo das duas últimas páginas. Ao mesmo tempo que mostra muito da personalidade de Victor e de suas crenças pessoais, desmitifica muito sobre Graves, suas ações e, até mesmo, o o seu papel em “No Frigir dos Ovos…”:

Vá se foder… E foda-se sua maleta

A bem da verdade, qual Minutemen precisa da maleta? Nenhum. Por isso, ela é dada aos desamparados…

…Pessoas como nós.

Samurai(s)

Embora nem todos sejam como nós, entretanto, é possível se identificar com Victor Ray e os demais Minutemen muito facilmente. Todos possuem histórias e experiências que não só moldaram os assassinos, mas demonstram que eles são muito mais que meras peças no jogo. Principalmente, se levarmos em conta as resoluções que caras como Milo Garret e Wylie Times tomaram… A importância que Dizzy Cordoba e Loppy Hughes possuem para o atual cenário… Ou as repercussões de atos pregressos e recentes de Jack Daw, Remi Rome e Lono. Apesar de alguns possuírem características quase super-humanas, todos são tão verossímeis quanto qualquer outra pessoa. E sofrem, também.

É curioso notar que, para esse título, Azzarello fez tanta questão de aprofundar o conhecimento de leitor sobre cada personagem – alguns, desde a primeira edição; outros, mais gradativamente. Nesse sentido, Jack Daw é, praticamente, um ícone: repleto de problemas pessoais, familiares e… Com um alvo pouco comum, definido por um desconhecido e uma maleta “milagrosa”. Jack é, como tudo indica, um “Peixe Estragado” e, ainda assim, um dos personagens mais carismáticos desse meio todo.

Sem título4

Bom, até Lono consegue ser carismático.

 Sem título5

E, o mais notório, é que a vida dessas pessoas foi moldada pela violência – assim como muitos dos “coadjuvantes” dos plots secundários. Na maioria dos casos, não sabemos o que levou cada um a ser um Minutemen de fato, mas podemos seguir o  exemplo do senhor Sheperd: ela sabia o que era a violência de verdade e descobriu muito bem o que é o poder. Aliás, quando seu passado e homossexualidade são apresentados, muito dessas “relações de poder” que enfrentamos, no cotidiano, ficam esclarecidas. A questão é, então, saber como lutar com ou contra elas.

Inevitável Amanhã

Este texto podia continuar indefinidamente, falando sobre o Cartel, sobre aspectos históricos e sociais e, até mesmo, muito mais sobre as pessoas – ou o que nos faz, de fato, pessoas. Contudo, é desnecessário. A experiência de leitura de cada um pode atingir esses e outros significados, facilmente. Porém, é importante destacar como uma história sobre “violência, crime, sexo e poder” se tornou, ao mesmo tempo, uma história sobre a vida. Novamente, exceto por alguém que, supostamente, tem uma situação de vida quase utópica, é quase inviável que nada, em 100 Balas, tenha uma referência a experiências do mundo real. O Cartel, por exemplo! Dadas às proporções, quem nunca teve um patrão autoritário, unilateral e inescrupuloso? Ou quem nunca viu alguém agindo exatamente assim para, exclusivamente, proveito próprio?

Em nosso país, nem precisamos ir muito longe para responder.

Por fim, é evidente que Azzarello, Risso, Mulvihill e Johnson criaram algo único e, sem querer desmerecer outros autores do selo, à altura da proposta da Vertigo. Ao longo de 100 edições – embora a publicação não tenha terminado, ainda, no Brasil –, vimos discussões de situações que, muito dificilmente, vemos nos quadrinhos e em muitas outras mídias. E, cada uma delas, abordadas em realidades que todos conhecem, mas poucos realizam a “incursão”.

Na maioria das edições, temos “Introduções” ou, na verdade, prefácios de outros autores para esta obra. Ali, normalmente, há uma sequência de elogios apaixonados ao título e seus autores, assim como uma definição, variando apenas em algumas palavras: “Está é a maior obra de literatura policial dos últimos tempos”. Porém, ao se profundar tanto em 100 Balas, fica claro que o que menos importa é a “história policial”.

100 Balas é sobre famílias, laços de sangue, noites de jazz, tigres, papagaios, vingança, amor, dor e…

Sem título6

…Tortas de maçã.


[i] FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, Hubert L. e RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 231-249.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com