[Especial V20] V de Vingança

Quando a equipe do Terra Zero decidiu que faria um especial comemorando os 20 anos do selo Vertigo, organizamos um calendário para promover, até o fim do ano, um review de uma série emblemática para cada um dos colaboradores. Estava escalado para compor a resenha do mês de junho e parando para refletir, de todas as séries que li do selo, sem dúvida a mais marcante para mim foi V de Vingança. O que me surpreendeu foi que, à medida em que comecei a reler a história, nas últimas semanas, pude perceber o quão viva e atual ela era com a eclosão das manifestações pelo nosso país, trazendo um rosto muito peculiar nas ruas, nas televisões, nas redes sociais: o de Codinome V.

Sem Título-1

 

Origem e pano de fundo

$(KGrHqR,!rYFCMJrsT69BQvQgteCD!~~60_35

A primeira edição de V de Vingança saiu na extinta revista britânica Warrior, publicada pela Quality Comics, entre 1982 e 1983. À época, influenciado pelo clima “repressor” da dama de ferro da Inglaterra, Maraget Thatcher, Alan Moore e David Lloyd construíram uma distopia carregada de dramaticidade, tanto na alcunha teatral do personagem principal, quanto nas direções pelas quais a história leva o leitor. Apesar de ter se tornado um dos títulos mais populares da revista, a Quality cancelou a publicação da Warrior e, consequentemente, da saga escrita por Moore e Lloyd. Porém, em 1988, a DC adquiriu os direitos de publicação da obra e convenceu aos autores a finalizá-la, republicando as edições, desta vez coloridas (já que as edições originais eram em preto e branco), pelos artistas Steve Whitaker e Siobhan Dodds, quase sempre esquecidos, mas que merecem ser mencionados aqui.

0038O enredo, muitos de vocês já conhecem. No ano de 1997 (na época que foi escrita, um futuro relativamente próximo), a Inglaterra vive sob uma ditadura fascista, que emergiu após uma guerra nuclear. Eis então que, no meio de tanta “ordem” e “perfeição”, surge uma “força da natureza” que trará mudanças tão fortes e significativas a aquele povo, de modo que jamais serão os mesmos. Sim, pois a força de arrasto que V traz consigo é tão forte que transforma, verdadeiramente, diversos personagens em criaturas completamente diferentes. Alguns são libertados das amarras do próprio medo, enquanto outros apodrecerão na própria cobiça.

Desenvolvimento

Um dos aspectos que mais me atraiu na narrativa de Moore nessa história é sua visceralidade na hora de exibir a sociedade britânica (e, porque não dizer, o ser humano de modo geral). Desde coisas gritantes, como um padre pedófilo que realmente acredita que serve a Deus ou um comandante do exército que queimou inúmeras pessoas mas que demonstra um zelo enorme por bonecas colecionáveis, até um líder partidário misógino, que tem uma relação de amor com seu computador. Porém, a maior denúncia de Moore é referente ao próprio povo. Segundo as palavras de Moore, transcritas no próprio V:

V de Vingança. Arte: David Lloyd
V de Vingança. Arte: David Lloyd

Você indicou essas pessoas. Deu poder a elas para tomarem decisões em seu lugar… encorajou esses incompetentes… aceitou suas ordens insensatas sem questionar… Você podia ter detido essa gente“. E de fato, a História mostra que, muitas vezes, uma parcela considerável do povo se omite diante de ditadores como  Adam Susan, que prometem “segurança e um mundo melhor” em troca do seu consentimento pleno, sendo necessário alguém para tirá-los da inércia e faze-los perceber que algo não está certo.

É aí que Moore mostra as duas faces da Anarquia. Aliás, mencionei acima que V era o personagem principal da história, mas apenas como “avatar” desse sentimento anarquista. O escritor prega, durante toda a narrativa, mas principalmente do meio para o fim, as ideias e conceitos anarquistas, como a face “destruidora” e a face “construtora” da Anarquia. Contudo, Moore faz isso sem ser panfletário (diferentemente do que fez com Promethea, que é um grande folhetim de suas crenças pessoais). Além de dar ao leitor a chance de expandir seu horizonte político com essa visão mais libertária, Moore consegue ainda construir uma trama cheia de referências a diversas culturas e obras, como quando V diz “as notícias de minha morte foram… exageradas”, referenciando Mark Twain.

V de Vingança. Arte: David Lloyd
V de Vingança. Arte: David Lloyd

Além dos diálogos magníficos e da crítica ferrenha de Moore, o desenvolvimento dos personagens ao longo da trama é surpreendente. Principalmente a evolução de Evey Hammon, que, de uma garotinha assustada perdida no mundo, se tornou uma mulher decidida, com ideais sólidos e a mesma capacidade de mudar o mundo de V. Mas, de todos os personagens,  o que mais gosto é o Detetive Finch. Subordinado ao “nariz” (um dos inúmeros “órgãos” do governo), a transformação de Finch é muito interessante, pois ele era um dos sujeitos que V combatia, um dos partidários que, por medo de ser rechaçado pelo governo, virou as costas para os amigos negros, para os amigos gays e para qualquer um que fosse diferente do ideal proposto pela “chama nórdica”. Uma cena inclusive, me lembrou o Fantasma do Natal passado de Charles Dickens, na qual FInch, entorpecido de LSD, acaba por ver todos aqueles que condenou por omissão, se colocando no lugar do próprio V. Coube justo a ele matar o “terrorista”, mas após o ato, veio a perceber que, na verdade, tudo não passou de um teste e que aquela era sua graduação. Simplesmente sensacional!

O filme e influências na cultura pop

Eis que no ano de 2005, os irmãos Wachowski (junto com o diretor James McTeigue) trouxeram aos cinemas uma adaptação da obra de Moore e Lloyd. Que por sinal, só está creditada a este último. Moore rejeitou veementemente a adaptação, dizendo que transformaram o seu personagem numa espécie de super-herói libertário ao invés de um anarquista, pervertendo completamente a mensagem que queria passar. De fato, concordo com Moore que muitos aspectos acabaram se perdendo na transcrição para as telas, mas diferente dele (e de muitos fãs da obra), não vejo o filme com tão maus olhos.

V-for-Vendetta-poster-2006-4O filme peca, sim, em diversos aspectos, principalmente no que diz respeito a persona de V e sua relação com Evey. No quadrinho, V é de fato uma ideia, um símbolo, completamente despersonificado e que pode facilmente sobreviver e perdurar eras, ainda que os homens que vistam suas máscaras morram. No filme, indo em direção ao caminho oposto, eles aprofundam a relação de V com Evey, esgueirando um amor proibido entre os dois, aprofundando-se em conflitos internos de V que envolvem suas motivações, deixando-as bem turvas por sinal. Em certos momentos, não sabemos se o personagem luta por pura vingança ou se, de fato, ele coloca seus ideais revolucionários acima dos interesses pessoais.

Porém, o que o filme traz de bom? As discussões sobre controle do governo sobre o Estado, o poder que o povo deveria ter sobre seus governantes e diversos outros aspectos que fazem você refletir um pouco mais sobre a situação política e social que vivemos, ainda que sejam apresentados de uma forma mais simplista do que nos quadrinhos. Enquanto que a obra literária discute mais o anarquismo como ferramenta para dar ao povo a chance de fazer suas próprias escolhas, sejam elas boas ou ruins, a partir de uma maturidade do mesmo povo, o filme envereda por discussões mais “fáceis” de se lidar, como a luta por justiça e liberdade. Aliás, o maior mérito do filme é ser a porta de entrada do grande público para a obra literária. Muitos conheceram o quadrinho por conta dessa adaptação cinematográfica e, ao fazerem isso, tiveram uma visão muito maior do que apenas a relação cultural com o filme poderia dar.

v

Conclusões

Quando comentei sobre o enredo, citei que V era uma “força da natureza”. Fiz isso porque reduzi-lo a apenas um homem seria um crime hediondo a obra de Moore e Lloyd. O homem ali representado é apenas um receptáculo de uma gama imensa de emoções, um avatar de toda a energia deliberada por um povo que deseja ser ouvido e respeitado. A obra de Moore consegue dar ao leitor não apenas uma boa trama para provocar a reflexão com entretenimento, mas também consegue estabelecer-se no cenário cultural atual, rompendo a assim chamada “quarta parede”, saindo das páginas dos quadrinhos e assumindo forma no rosto de milhões de cidadãos ao redor do mundo que lutam por um ideal comum. De fato, V quer cumprir sua promessa. Nada será como antes.

v-for-brasil

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Secured By miniOrange