Encantos e Cartas de Xanadu – Parte 3: O Velho e o Novo Mundo

A Europa que eu conhecia não existe mais. (…) Agora cada reino goza de um orgulho nacional cada qual em sua própria soberania. ‘Patriotismo’ é como eles chamam (…)”.

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Assim começa a segunda fase do primeiro volume de Madame Xanadu. A visionária do velho continente agora caminha novamente pela Europa, mas em tempos um pouco diferentes. Na era das monarquias, Xanadu agora é uma convidada especial da Rainha da França, com quem parece ter uma espécie de relação extra amizade implícita.
 
E é exatamente neste país em que ela se encontra, entre as damas da alta sociedade prevendo seus futuros e fazendo jogos baratos para se ocupar enquanto sua mente se preocupa com questões mais existenciais e importantes. A França está muito perto de começar sua revolução! Ao voltar para Londres depois de séculos de ausência a Madame se depara com Jack, o Estripador! Mudando-se para a América nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial a heroína libera um poder incontrolável sobre o planeta Terra: a Ira de Deus!
 
Ficha Técnica (publicado em):
Madame Xanadu #5-10 (Volume Madame Xanadu: Disenchanted)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Amy Reeder-Hadley
Arte-Final: Richard Friend
Cores: Guy Major
DC Comics
240 Páginas
Lançamento Original: 2009
US$ 12,99
 
Mantendo o padrão das histórias anteriores, Matt Wagner compõe cada arco com apenas duas edições cada, avançando no tempo a cada um deles. Colocar a Madame em mais eventos históricos importantes é saudável para a narrativa de várias formas, tais como situar uma personagem imortal pelas mazelas da humanidade, mostrar como ela lida com o ciclo da vida e como é observar o avanço de uma raça que, apesar dos pesares, não desiste de progredir.

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 Mais do que isso, Wagner mostra um grande conhecimento de eventos históricos fora dos Estados Unidos, o que é uma raridade dentro da extremamente patriótica sociedade estadunidense. O mais interessante disso é mostrar a evolução e o aprendizado da Madame em cada um desses lugares:

  • Na França ela entende quanto custa sua própria imortalidade e, através de suas próprias habilidades, consegue uma segunda chance com a Morte (aquela mesma, de Neil Gaiman). Além disso, ela vê o desejo de um povo sedento por justiça se tornar realidade ao assistir, impotente, à ida da ex-rainha da França e sua amiga, Maria Antonieta, à guilhotina;

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  • Ao voltar pra Londres a Madame enxerga a evolução da sociedade sob os olhos de quem não esperava uma revolução industrial tão grande, mas ao ver as atrocidades do serial killer da cidade a maga nada pode fazer ao ser impedida pelo Vingador Fantasma. É a partir deste ponto que a relação dos dois começa a deteriorar completamente, o que dá respaldo para tudo que foi permeado durante décadas de cronologia DC, conforme explicado no primeiro artigo deste especial.

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  • À primeira instância as motivações do Vingador parecem dúbias, já que muitas vidas teriam sido poupadas caso ele revelasse à Madame a identidade do assassino. Todavia, há uma guerra pessoal entre estes seres poderosos, especialmente porque o Vingador quer mostrar um ponto do ciclo da vida que sua “parceria” não está enxergando. Isso leva os leitores à…
  • …Grande Maçã! No início da década de 1940 a Madame está desfrutando das belezas do novo continente enquanto, do outro lado do mundo, a maior guerra de todos os tempos está em andamento.

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Aspecto Biográfico
 
Matt Wagner usa os poderes de independência editorial e cronológica da Vertigo para criar uma versão de início do Universo DC até então não imaginada. Segundo ele nestas seis histórias, os seres mágicos são convocados pelo Vingador Fantasma para que sirvam de apoio – ainda que nas sombras – para o início de uma verdadeira (e literal) Era de Ouro de seres com poderes até então inimagináveis.
 
Tudo começa com o embate fantástico entre Xanadu, envelhecendo rapidamente na masmorra francesa, e a Morte. A luta por sua própria vida é feita através das cartas, os maiores recursos que ela tem. Com uma leitura subliminar de determinadas cartas do tarô, Xanadu faz o impossível e convence a Morte a não levá-la. Ao fazer isso, a maga consegue que a Perpétua lhe dê todos os seus poderes de volta, aqueles que ela tinha perdida em sua tramóia contra o Mago Merlin séculos atrás na Queda de Camelot.

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Com isso ela consegue sair da prisão, adquirir os ingredientes necessários para sua poção rejuvenescedora e volta a ter a aparência jovial e sensual que tivera antes.
 
Já na Inglaterra, tempos depois, ela vê como seu mundo de origem mudou graças a revolução industrial. Xanadu acaba voltando a Londres bem na época que Jack, o Estripador, assassinava as pessoas na cidade, e então oferece ajuda ao inspetor de polícia Frederick Abberline para descobrir e prender o macabro assassino de prostitutas que tomava as capas de jornais de todo o país.

No entanto, o Vingador Fantasma, como dito acima, entra na história e impede que a Madame descubra quem é o brutal assassino. O objetivo do ser cósmico é fazer a Madame engolir uma série de tragédias que a leve a confrontá-lo, o que acontece anos depois em Nova York nos anos 1940.

Vivendo um tórrido romance com John Zatara, Xanadu descobre que os poderes do mago foram canalizados e apoiados pelos ensinamentos do Vingador, o que a deixa transtornada para preparar uma grande vingança contra ele depois de tantas frustrações por tantos séculos.

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Conjurando forças além de seu controle, Xanadu deixa que um certo policial Jim Corrigan seja assassinado e retorno como a Ira de Deus encarnada. É ela quem dá motivos para o nascimento do Espectro e é aí que começa a complexa relação entre eles explorada com maestria por John Ostrander e Tom Mandrake na revista The Spectre durante os anos 1990.

O Vingador explica que ele e muitos outros magos, inclusive Zatara, estão se unindo para dar apoio ao nascimento de uma era super-heroica no mundo. Wagner, na verdade, deixa claro que é graças aos magos e suas conjurações que o nascimento dos primeiros super-heróis da Era de Ouro é possível. Ele explica também que a implicância pessoal, o aprendizado pessoal de Xanadu como maga e a trapaça que ela fez com a Morte causaram outros grandes sofrimentos para o mundo – incluindo aí o nascimento do Espectro.

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Xanadu então compreende então seus erros. Ela está certa de que é culpa sua uma série de eventos trágicos que testemunhou, começando com a Queda de Camelot e liberação do demônio Etrigan naquela época, o que se repetiu séculos depois com o Espectro. Graças a ela forças malignas e/ou incontroláveis foram liberadas na Terra e agora o planeta pagará o preço disso.

Xanadu abre um escritório de revelações do futuro para pessoas comuns. E assim se inicia uma nova fase na vida da Maga, exatamente aquela que os leitores passaram a conhecer com Michael Kaluta nos anos 1970. o ciclo se fecha e uma nova fase se iniciará na vida da personagem e dos leitores.

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Aspecto Histórico
 
Este final de primeiro volume de histórias é o que mais tem respaldo histórico para ser comentado. Ao passar por dois continentes e três países diferentes neste período todo, Madame Xanadu dá mais sentido à sua tortuosa jornada em busca de um sentido para a evolução do mundo ao mesmo tempo em que leva o leitor, seu fiel acompanhante, para conhecer a França Revolucionária, a Inglaterra Vitoriana e os Estados Unidos no início do Século XX.
 
O início da Revolução Francesa e seu clímax (a Queda da Bastilha) são mostrados apenas como pano de fundo para o crescimento da personagem, mas nem por isso Wagner poupa alguns detalhes importantíssimos para o evento. Desde o estopim da revolução (em especial a crise econômica francesa em uma sociedade movida pelo poder absoluto da monarquia há mais de cinqüenta gerações), passando pela formação da junta revolucionária e a declaração de seus princípios universais “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité), a Madame vê de perto, durante os dez anos de revolução, a demolição do Antigo Regime (ancien regime), um país se debatendo para definir novos poderes e a definição de uma nova constituição, instituída na França em 1791.

Pintura representando a Queda da Bastilha
Pintura representando a Queda da Bastilha

 
A Queda da Bastilha é mostrada muito rapidamente, não permitindo que o leitor tenha contato com outros fatos cruciais para o término da revolução, em especial o 18 de Brumário, quando a burguesia francesa definiu que os ideais de nacionalismo que tanto fascinavam o povo daquele país deveria ser o símbolo do novo poder. Logo, foi instituído que três cônsules comandassem o país: o líder de guerra Napoleão Bonaparte, Roger Ducos e Emmanuel Joseph Sieyès.

O general Bonaparte no Conselho dos Quinhentos, por Bouchot.
O general Bonaparte no Conselho dos Quinhentos, por Bouchot.


Na Inglaterra Vitoriana (Pax Brittanica – período em que o país gozava de paz e prosperidade graças à expansão do império após a Batalha de Trafalgar), governada pela Rainha Vitória, a narrativa se concentra num dos fatos mais curiosos sobre esta período: o assassino serial Jack, o Estripador. Semente de várias criações literárias e cinematográficas, o assassino de fato existiu, mas sua identidade nunca foi descoberta (a não ser pelo Vingador Fantasma, que o eliminou, mas isto fica só na ficção da Vertigo mesmo).

A Batalha de Trafalgar, de Turner (1806)
A Batalha de Trafalgar, de Turner (1806)

 Wagner recheia a história com personagens reais, como o inspetor de polícia Frederick Abberline, o inglês que mais se dedicou a descobrir a identidade de “Jack”. Apesar de, editorialmente falando, esta ser uma das histórias mais prazerosas de se ler no primeiro volume da Madame Xanadu, ela é que menos tem respaldo histórico. O mesmo se repete no arco seguinte, mas por um motivo muito especial: a criação do Espectro!

A Nova York retratada por Wagner e Reeder tem a estilo dourado dos anos 1930 e 1940, sombreada pelo aspecto noir e bem característico da ficção nessa época. Todavia, assim como no arco anterior, muito do que poderia ser contato sobre a história da cidade, especialmente nesta época, acaba sendo deixado de lado em favor dos personagens. Levando-se em conta que os Estados Unidos ainda não tinham entrado na Guerra, não sobra muito para ser analisado neste período.

Foto de Mary Jane Kelly, uma das principais vítimas de Jack. Na história ela é amiga da Madame Xanadu.
Foto de Mary Jane Kelly, uma das principais vítimas de Jack. Na história ela é amiga da Madame Xanadu.

 
E daqui duas semanas…

Voltaremos ao passado para ver como a Madame Xanadu lidou com a Inquisição Católica vivendo um romance lésbico em plena Espanha!

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