Encantos e Cartas de Xanadu – Parte 2: Viajando pelo mundo místico e real

Começa a viagem pela vida de Madame Xanadu. Conhecida ainda como Nimuë Inwudu, a jovem praticante de feitiços e magias é definida como irmã mais nova de Morgana – que viria a se tornar Morgana Le Fey – e de Vivienne, a Dama do Lago. Já neste início de história o escritor Matt Wagner define Nimue e as suas como descendentes do povo sobrevivente da extinta Atlântida, aqueles que viriam a se tornar os homo magi.

Esta parte do especial proposto pelo Terra Zero reunirá uma análise das quatro primeiras edições, mas todas foram reunidas no volume Disenchanted junto dos próximos seis números. Logo, este artigo e o próximo resumem o que foi publicado como o primeiro encadernado de Madame Xanadu pela Vertigo.

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Ficha Técnica (publicado em):
Madame Xanadu #1-4 (Volume Madame Xanadu: Disenchanted)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Amy Reeder-Hadley
Arte-Final: Richard Friend
Cores: Guy Major
DC Comics
240 Páginas
Lançamento Original: 2009
US$ 12,99

Wagner, apoiado pelo traço fluido e atemporal de Amy Reeder, aproveita o início da série para fazer um trabalho equiparável ao que o trio britânico mais importante dos anos 1980 fez naquela época: o autor traz uma bagagem cultural que enriquece o pano de fundo que escolheu para ilustrar a personalidade desta complexa e apaixonante jovem feiticeira.

O trio referido acima é, obviamente, Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, responsáveis respectivamente por Monstro do Pântano, Sandman e Homem-Animal. Não deve ser esquecido também o que Jack Kirby fez com Etrigan – com a diferença de que o demônio é sua própria criação – especialmente pela temática semelhante ao trabalho que Wagner faz aqui.

De início o leitor é levado às belas florestas de Camelot, envolvendo-se de cara pela magia de um mundo místico de duas facetas: as belezas da feitiçaria e daqueles de bom coração e da maldade daqueles que praticam o ocultismo ou seguem, de forma errônea, líderes espiritualmente superiores. Na faixa cinza entre esta divisão preta e branca está o mago Merlin, com quem Nimue tem uma relação de interesse mútuo – incluindo sexo, é claro.

Nimuë e Merlin mantiveram um caso durante anos
Nimuë e Merlin mantiveram um caso durante anos

O sexo na vida Xanadu, aliás, é um tema recorrente na série, tratado com seriedade e sem os naturais tabus dos quadrinhos americanos. Com o passar das histórias o leitor verá que a Madame é livre e aberta (com o perdão do trocadilho) ao prazer de todas as formas, mantendo relações com homens e mulheres que lhe marquem a vida de forma positiva. Isto, todavia, será discutido mais detalhadamente em outros artigos deste especial.

Nestas primeiras quatro partes da série, divididas em 2 arcos de 2 capítulos cada, o leitor pode conhecer Xanadu jovem e depois mais adulta. No primeiro arco ela é obrigada a manipular Merlin a fim de derrubá-lo para sempre, já que este planejava um esquema maligno para tornar Camelot um reinado sombrio junto com Morgana e os seus. Nimue consegue, mas o último riso é do mago, que lhe tira boa parte dos poderes e a obriga a criar poções regularmente para manter sua imortalidade – ainda que isto apenas atrase seu envelhecimento em alguns séculos.

Camelot cai, mas não sem mais um fator importantíssimo e que vai se tornar parte integrante de toda a série: a participação do Vingador Fantasma. Ainda jovem, o misterioso ser aparece nos momentos mais aleatórios para Nimue, criando no coração dela dúvidas, amores e ódios, servindo como observador e, ao mesmo tempo – ainda que de forma um pouco torta e dúbia – um conselheiro.

O primeiro de muitos encontros entre o Vingador Fantasma e Madame Xanadu
O primeiro de muitos encontros entre o Vingador Fantasma e Madame Xanadu

Dada a relação original dos personagens antes desta migração para a Vertigo, Matt Wagner faz bem em conectar os dois como seres que sempre se encontram em momentos de crise, podendo então gerar uma relação de confidência, necessidade, ódio e amor entre eles.

Já no segundo arco a “visionária do oeste” está em Xanadu, tendo que salvar Marco Pólo de um esquema preparado pelos dissidentes do governo de Kublai Khan para matá-lo e criarem uma grande guerra entre o reino da Mongólia e o continente Europeu e religioso.

Madame Xanadu passa a servir Kublai Khan como vidente
Madame Xanadu passa a servir Kublai Khan como vidente

É neste ponto que Nimue adota o nome de Madame Xanadu, passando a ler cartas e a olhar as estrelas com o objetivo de dar respostas a perguntas de pessoas que não possuem seus dons.

Aspecto Biográfico

Nimue ainda é bem jovem neste início de publicação e em todo o pequeno arco da queda de Camelot e de seu primeiro encontro com o Vingador Fantasma (chamado apenas de “Estranho” por ela em vários momentos). Estes eventos passam-se no que seria considerada sua juventude – ainda que esta esteja associada a pequenas centenas de anos, muito diferente da juventude dos meros mortais.

O leitor perceberá que Nimue é fascinada com a magia – além de ser uma homo magi naturalmente ela pratica a coisa com uma seriedade que outros jovens não praticariam, estudando o jogo de cartas e feitiços em contato direto com as forças da natureza. Tais habilidades lhe garantiram a confiança do povo de Camelot, que lhe pedem proteção a todo instante.

Isto é muito interessante, pois quando Nimue e o Estranho se encontram pela primeira vez o misterioso ser pergunta o que a motiva a se envolver nas questões políticas daquelas terras. Nimue mostra a paz de uma família campestre, explicando que já vira outros reinos caírem, mas que a soberania de Camelot era pacífica. No segundo seguinte, soldados de Morgana aparecem a assassinam a família – a guerra começou e Nimue é incapaz de impedi-la.

O reino de Camelot começa a cair
O reino de Camelot começa a cair

Camelot cai, o Estranho observa enquanto profetiza o fim daquele reinado soberano. Nimue procura ajuda nas runas, impede soldados de a estuprarem e vê-se frente a frente com as maquinações de sua mesquinha irmã para colocar seu filho Mordred no comando de uma Era das Trevas na Inglaterra. Nimue, então taxada como bruxa por aqueles a quem protegia, vê sua imagem de protetora de destruir, e logo após a batalha pessoal com Merlin é obrigada a deixar os campos não mais tão verdejantes da Inglaterra.

Este primeiro surto de desespero em Nimue a leva para terras distantes, fazendo o leitor a ver séculos depois em Xanadu, sob o poderoso império de Kublai Khan. Mais madura, a personagem – que ainda se encontra com o Vingador nos momentos de crise – sabe lidar melhor com o inesperado e utiliza a magia como algo mais transcendental.

Esta lâmpada verde será importante no futuro
Esta lâmpada verde será importante no futuro

A partir daqui ela se torna verdadeiramente a Madame Xanadu e passa a seguir os passos da jornada que lhe transformarão em uma das maiores magas da cultura pop.

Aspecto Histórico

Nestas quatro primeiras edições há dois cenários fantásticos pelos quais os leitores são convidados a viajar: o mundo fantástico do reinado de Camelot, na Inglaterra e a incrível Xanadu. Por estes dois cenários o crescimento da personagem é notável, mas não é este o foco deste ponto do artigo, e sim a retratação histórica dos locais sugeridos.

Primeiramente vale dizer que Camelot, pelo menos comprovadamente, nunca existiu. Pesquisas indicam que o reino no meio dos campos verdejantes da Inglaterra teria como base o Castelo Cadbury em Someset (sul do país). Esta pesquisa deriva do poeta e pesquisador John Leland, que estipulou o local como influência direta para a criação do mito arturiano em 1542 por seu aspecto e sua proximidade com as cidades de Queen Camel e West Camel, locais importantíssimos para o reinado. Os argumentos de Leland perduraram tanto que no século XX arqueólogos começaram a escavar o local em busca de provas.

Castelo Cadbury atualmente
Castelo Cadbury atualmente

Leslie Alcock passou quatro anos descobrindo artefatos mediterrâneos e saxões no local, chamando sua descoberta de “o encontro com Camelot” e atraindo atenção da mídia mundial. Pouco tempo depois, no entanto, Alcock acabou se evergonhando ao perceber que os artefatos eram mais recentes que o mito de Camelot, mantendo então o nome de Forte Cadbury ao local. Mesmo assim, escritores de fantasia preferem continuar usando o Forte como base para Camelot, o que é repetido, ainda que em escala menor, na arte de Amy Reeder para esta revista.

Vale dizer ainda que o termo Camelot (ou Camaalot, como foi originalmente grafada) surgiu originalmente no romance francês Lancelote, o Cavaleiro da Carreta, do poeta Chrétien de Troyes e escrito no ano de 1177. A base ilustrativa para o castelo desde então foi a pintura de Gustave Doré (1832-1883) feita para a obra O Idílio do Rei, do grande escritor Alfred Tennyson (1809-1892), um dos maiores escritores dos romances arturianos de todos os tempos.

O Idílio do Rei, de Gustave Doré
O Idílio do Rei, de Gustave Doré

Em seguida, anos mais tarde, a protagonista vaga pelas areias da Mongólia e torna-se conselheira do lendário Kublai Khan (neto de Gengis Khan) ainda com seu reinado de situado em Xanadu. Para quem não sabe, o local ficava a 350km de distância de Pequim – que à época era chamada de Dadu pela pronúncia mongol – e foi onde Kublai governou a Mongólia durante algum tempo, recebendo lá a visita do explorador Marco Pólo.

Pólo teria sido o primeiro europeu a conhecer o grande reinado da Mongólia – que se estendeu a 1/5 do mundo habito àquela época – espalhando posteriormente a lenda do poder mongol por todo seu continente. Ambos são vistos regularmente no segundo arco de histórias de Madame Xanadu, pois Matt Wagner quis mixar o conceito mágico de sua personagem com o misticismo envolvendo o império mongol, especialmente sob o poder de Kublai.

Mosaico de Marco Polo na China
Mosaico de Marco Polo na China

Visivelmente o cenário é muito fiel ao que se tem de material da época. Amy Reeder fez um trabalho de pesquisa magnífico para emular a arquitetura complexa que Liu Bingzhong planejou para a grande cidade, que em pouco tempo tornou-se a vida para mais de 100 mil pessoas. Como o império mongol era visto com grandiosidade, são muitas as ilustrações e pinturas que retratam o auge deste reinado, servindo de base para que a ilustradora da revista fizesse o leitor se sentir em meio àquele mundo tão antigo e tão interessante.

E em duas semanas…

Ufa! A primeira parte da análise de Madame Xanadu na Vertigo acabou, mas não pense que é o fim: na semana que vem a feiticeira vagará pela Revolução Francesa, visitará a Inglaterra Vitoriana e começará a viver na Nova York de início do século XX. Não perca!

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