[FdA] Os Primórdios do Flash

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“Mais rápido que o rastro do relâmpago no céu… Mais ligeiro que a própria velocidade da luz… Mais veloz que a velocidade do pensamento… É o Flash, reencarnação do alado Mercúrio… Sua velocidade é o desespero dos cientistas, a alegria dos oprimidos – e a boca aberta da multidão maravilhada!!”

Bem-vindos a mais uma coluna Força de Aceleração! O trecho publicado no parágrafo anterior é a apresentação da primeira publicação do Flash, em 1940, e é sobre isso que falarei hoje. Analisaremos as três primeiras histórias de Jay Garrick como Flash, focando em sua origem e nas particularidades das histórias da Era de Ouro!

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Flash em Flash Comics #1 (1940)

Roteiro: Gardner Fox
Arte: Harry Lampert

A primeiríssima história do Flash foi publicada em 1940, no número 1 da revista Flash Comics, que era uma revista mix, parecida com as que são publicadas no Brasil. Este primeiro número, por exemplo, tinha 68 páginas e trazia, além do Flash, histórias com o Gavião Negro, Johnny Trovoada, Cliff Cornwall e The Whip (não sei se existe tradução pra este último no Brasil). Todos em suas primeiras aparições nos quadrinhos!

Após o sucesso de Superman e Batman, editados pela National Comics, a editora-irmã All-American Comics decidiu investir em mais super-heróis. O editor Sheldon Mayer, porém, queria heróis que não fossem nem alienígenas superpoderosos como Superman nem vigilantes sem poderes como o Batman. Ele queria algo entre esses dois extremos. Junto com Gardner Fox, seu advogado que acabou virando roteirista, Mayer criou a Flash Comics exatamente com o objetivo de apresentar novos personagens para o público e ver qual deles ia emplacar. E essa primeira edição conseguiu revelar três grandes nomes, que ainda seriam vistos muitas vezes: Flash, Gavião Negro e Johnny Trovoada. A história do Flash é a que abre a revista, e é ela que será nosso objeto de análise aqui.

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Jay Garrick é um típico nerd dos anos 1940 (sim, eles já existiam nessa época) na Universidade do Meio-Oeste (Midwestern University). Ele é um estudante brilhante no laboratório de pesquisas, mas quando tenta convidar Joan, a garota que ele gosta, para o baile, ela o rejeita porque ele é péssimo no Futebol Americano. Mas esperem, ela não é tão fútil assim, ela apenas acha que um cara com o corpo e o cérebro de Jay poderia ser um astro do futebol, se apenas ele se dedicasse a isso!

E Jay até tentou seguir o conselho de Joan, mas isso acabou não adiantando muito. De volta ao laboratório, ele continuou o seu estudo de três anos sobre os gases emanados pela “água pesada”. Toda essa situação, porém, o deixou muito tenso, e ele achou por bem puxar um cigarro do bolso e fumar lá dentro do laboratório mesmo pra dar aquela relaxada. Ele podia ser inteligente, mas não era lá muito esperto, pois é óbvio que isso não podia dar certo. Ele acabou relaxando demais e esbarrando nos frascos que continham a água pesada. Espatifando-se no chão, o produto encheu a sala com os gases que Jay estava estudando, enchendo também o seu pulmão e fazendo-o desmaiar.

Ele permaneceu caído a noite toda inalando aqueles gases, até que, na manhã do dia seguinte, o professor Hughes entrou no laboratório e encontrou Jay desmaiado. Levado para o hospital, ele permaneceu desacordado por semanas, até despertar em ótimo estado. Enquanto isso, o professor havia enviado o material que encontrou no laboratório para análise, e o resultado encontrado foi o que de fato ocorreu: os elementos da água pesada acelerariam os reflexos da pessoa que os inalasse, acelerando o seu andar, o seu falar e o seu pensamento, transformando-o na coisa mais rápida que já caminhou sobre a Terra!

O Ministério da Saúde adverte: fumar pode causar e acidentes e superpoderes
O Ministério da Saúde adverte: fumar pode causar acidentes e superpoderes

Obviamente, a primeira coisa que Jay faz depois que descobre o seu novo estado, como todo garoto apaixonado, é impressionar sua garota. Ele volta ao time de futebol e, com seus poderes, acaba virando a sensação do time, que obviamente consegue uma vitória acachapante sobre o adversário. A vida é boa para Jay até o fim da faculdade, quando ele se muda para Nova York a fim de trabalhar como professor assistente, e Joan permanece para ajudar o pai em suas pesquisas sobre o bombardeiro atômico. Ah se ela soubesse os problemas que isso ia causar cinco anos depois…

Em Nova York, Jay assume a identidade de Flash, com seu uniforme, chapéu metálico e tudo o mais. Algum tempo depois, Joan reaparece para pedir ajuda a Jay para encontrar seu pai, que havia sido raptado pelo Quarteto Infalíveis (The Faultless Four). Os bandidos estavam atrás dos segredos do bombardeiro atômico, mas o Flash consegue derrotá-los facilmente e resgatar o pai de Joan.

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Analisando essa primeira história do Flash, é fácil perceber a sua simplicidade e inocência. Porém, é bom lembrar que naquela época as revistas em quadrinhos, ao contrário de hoje, eram estritamente voltadas para o público infantil. Existiam quadrinhos, sobretudo nas tiras de jornal, que buscavam um público mais juvenil, mas esse não era o caso dessa história.

E antes que os leitores mais novos estranhem o fato do personagem principal estar fumando em uma revista infantil, há de se explicar que isso era completamente normal naquela época. O fumo era um sinal de glamour, e o seu uso era até mesmo aconselhado por alguns médicos como forma de relaxamento. Pode parecer absurdo hoje, mas era a sociedade da época.

Sobre os superpoderes de Jay, é interessante notar que ao recebê-los ele não fez questão nenhuma de escondê-los. Muito pelo contrário, todos o viram no jogo de futebol, os professores sabiam a causa deles e não havia problema nenhum nisso! Até mesmo quando Joan vai procurá-lo em Nova York, depois de ele ter assumido a identidade de Flash, o encontra jogando tênis consigo mesmo ao ar livre, onde qualquer um poderia vê-lo. Pensando bem, os vilões da época não eram tão diabólicos quanto os de hoje, parece que isso trazia mais segurança para os heróis poderem passear por aí sem se importar com coisas bobas como uma identidade secreta. Curiosamente, o pai de Joan é o único de quem eles escondem a identidade de Jay. Acho que, por algum motivo, ele não gostaria que o sogro descobrisse que sua filha namorava com o homem mais rápido do mundo…

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Outro momento interessante é quando o roteirista resolve parar a história por um quadro para explicar a física de como o Flash consegue pegar um bala disparada em pleno ar sem se machucar. Uma aula de física de graça pra garotada!

Assim como na questão do fumo, os valores da época não viam qualquer problema no herói deixar os vilões partirem pra morte certa sem mover um músculo sequer. Aqui, o Flash deixa três deles serem eletrocutados mortalmente e impele o outro a dirigir em direção a um precipício. Todos os quatro morrem, e nosso herói apenas diz: “Aqui estou para ver o seu fim… Sieur Satan!! Aqui termina a ameaça do Quarteto Infalível!!” (assim mesmo, sem economizar nas exclamações duplas). Na mentalidade da época, bandido bom era bandido morto, o que veio a mudar tempos depois, transformando os heróis nos escoteiros da Era de Prata. É interessante notar que esse comportamento sanguinário dos heróis está voltando. Hoje vemos cada vez mais heróis que não veem problemas em matar quando há necessidade, acabando com a era dos escoteiros e voltando um pouco a essa mentalidade dos anos 1940. Mas vamos voltar ao Flash, pois isso é assunto pra outra matéria!

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Flash em Flash Comics #2 e #3 (1940)

Roteiro: Gardner Fox
Arte: Harry Lampert (#2) e Everett E. Hibbard (#3)

Na segunda história, o Flash enfrenta uma ameaça um pouco mais elaborada que na história anterior. Dessa vez, ele precisa impedir um empresário que estava armando atentados a grandes cantoras e dançarinas, com o objetivo de intimidar e desvalorizar o mercado artístico, a fim de baratear os teatros, permitindo assim que ele os comprasse e formasse um monopólio. O Flash tem um pouco mais de trabalho para conseguir chegar até ele, passando por armadilhas, armas escondidas e esconderijos, até que, com a ajuda de Joan, ele consegue prender o vilão (sim, dessa vez o vilão termina vivo).

Essa história é bem melhor do que a primeira. A trama é um pouco mais elaborada (mas não muito) e a ação é frenética, bem como deveria ser para um personagem superveloz. O Flash aqui usa uma arma bastante curiosa: um metal em forma de raio que ele usa pra arremessar nos bandidos.

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Na terceira história, o pai de Joan é o alvo de novo, dessa vez acusado injustamente por um jornalista que queria obter uma nova forma de energia que ele estava pesquisando. O Flash precisa usar suas habilidades de detetive para descobrir a farsa e libertar o sogro. Essa é uma história onde Jay precisou usar um pouco mais o cérebro, e nem tanto seus poderes. Porém, o roteirista usa a velocidade do personagem de uma maneira bastante interessante. Ao invés de ficar só correndo pra todos os lados, como na história anterior, agora ele usa seus poderes com efeitos mais práticos, por exemplo, quando ele leva um informante pro topo de uma torre ao mesmo tempo em que vai na prisão visitar o pai da Joan. Afinal, ele é o homem mais rápido do mundo, ele pode (quase) estar em dois lugares ao mesmo tempo.

A arte das duas primeiras histórias é de Harry Lampert, um desenhista bastante limitado. Seus traços são simples, muitas vezes distorcidos, e ele raramente desenha cenários. Felizmente ele só fez estas duas edições, sendo substituído na terceira por Everett E. Hibbard, que é um artista muito melhor. Hibbard desenha cenários, faz ângulos interessantes e capricha bastante no efeito de deslocamento em supervelocidade do Flash. É ele quem vai cuidar dos desenhos do personagem por um bom tempo a partir daí.

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Nesta primeira coluna sobre o Flash da Era de Ouro, procurei apresentar as três primeiras histórias do personagem, mostrando sua origem e as diferenças e curiosidades das histórias dos anos 1940. Das próximas vezes que voltarmos a esta era, estaremos mais familiarizados e poderemos englobar mais histórias. Espero que tenham gostado.

Até o mês que vem e continuem correndo!

Força de Aceleração:

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Podcasts relacionados:

 Flash é o homem mais rápido do mundo e o primeiro velocista dos quadrinhos. Assim como outros heróis da DC Comics ele tem um grande legado e teve várias identidades através dos anos, sendo que o primeiro deles foi Jay Garrick, batizado de Joel Ciclone no Brasil. Na Era de Prata veio Barry Allen, com o uniforme todo vermelho que passamos a conhecer, tendo sacrificado-se na Crise nas Infinitas Terras e passando sua identidade ao sobrinho Wally West, que ganhou sua própria revista tendo durado por cerca de 20 anos. Bart Allen, ex-Impulso, chegou a ser o Flash por pouco tempo, mas morreu e voltou como Kid Flash. Barry também está de volta e é o novo Flash do UDC em sua nova cronologia.

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