A responsa dos Quadrinhos Mineiros

[O texto abaixo foi escrito por Carol Cunha do blog Marca Rubra. Carol já escreveu sobre quadrinhos e cinema em vários sites, mantendo agora seu blog, estudando Cinema de Animação na UFMG e trabalhar na Escola de Arte Casa dos Quadrinhos]

Creio que não existe data melhor para falar de quadrinhos mineiros que agora, afinal, no próximo dia 25/11 acontece o Pandacon, evento organizado pelo pessoal do coletivo de Quadrinhos Pandemônio.

Pra quem não conhece o Pandemônio, ele é um grupo formado por basicamente por quadrinistas de Belo Horizonte: Vitor Cafaggi (Valente), Lu Cafaggi (Mix Tape), Eduardo Damasceno e Felipe Garrocho – também conhecido como Lipe Gomba (Achados e Perdidos/Quadrinhos Rasos), Ricardo Tokumoto (Ryotiras), Daniel Pinheiro Lima (Oswaldo Augusto), Daniel Werneck (Ovelha Negra), com as participações de Lucas Libânio (Hans Grotz), Felipe Assumpção (Botamem) e o pessoal do Quadrinhos A2 (http://www.quadrinhosa2.com/), que, excepcionalmente, é de Curitiba. Ricardo Tokumoto é de Limeira, São Paulo, mas já o adotamos como mineiro.

Atualmente são eles o grupo que mais se movimenta para a divulgação do quadrinho mineiro independente através do Brasil.

Foto: Pipoca & Nanquim

Isso não quer dizer que as HQs de Minas começaram a se solidificar com o Pandemônio, afinal temos uma longa história de quadrinistas e cartunistas, desde Henfil (Fradim) e Ziraldo (Menino Maluquinho), passando por Chantal (Juventude), Wellington Sberk (Estórias Gerais), Lacarmélio (Celton), Duke (O Tempo), João Marcos (Mendelévio e Telúria), Danilo Soares (Mad), Quinho (Estado de Minas), Mozart Couto e tantos outros. Muitos ainda em plena atividade.

Pessoal do Big Jack no 3º FIQ, em 2003

Não esquecendo as iniciativas de estúdios como Big Jack com seu Farenheit ou do Em Comum ou mesmo revistas coletivas como a recém encerrada Grafitti, cuja última edição foi lançada este ano.

Ainda há o contingente de artistas que exportam seu talento para o exterior, alguns nascidos em Minas, outros adotados pela nossa terrinha, entre eles Eddy Barrows, Eduardo Pansica, Ig Guará, Rodney Buchemi, Cris Bolson, Alexandre Starling, Will Conrad, Eber Ferreira…

Tantas pessoas e tantas histórias que dariam páginas e páginas de um livro sobre os quadrinhos mineiros.

Um parênteses sobre o excelente trabalho que Wellington Sberk e a editora Nemo vem fazendo, dando oportunidade para artistas nacionais em adaptações literárias e resgatando obras clássicas como os trabalhos de Moebius e Enkil Bilal.

O que teria mudado em todos esses anos a ponto de no último Troféu HQ Mix uma enxurrada de mineiros ser indicada para várias categorias? Vários deles saindo vencedores?

Creio que, como apontou André Forastieri em um recente artigo, o Brasil vive um excelente período para os quadrinhos, especialmente para o quadrinho autoral. E os mineiros também estão fazendo parte disso.

Quem esteve no FIQ do ano passado já sentia isso. Uma efervescência, algo vibrando no ar. Acredito que a mudança do formato do evento tenha ajudado, unindo de forma equilibrada o comercial e o independente em um único espaço. Atraindo um público invejável.

O que nos leva novamente a essa nova geração de quadrinistas mineiros, o pessoal do Pandemônio, que viu os frutos de seus esforços serem colhidos avidamente pelos leitores no evento de 2011. Gerando novos frutos recém colhidos, como a segunda parte de Valente: Valente para Todas, o Omnibus de Ryotiras, o álbum de Hans Grotz e a segunda edição de Botamen: O dia que o Bota parou.

Talvez o grande diferencial das gerações anteriores seja mesmo o momento histórico em que vivemos, um mundo de internet, blogs, redes sociais e crowdfunding. Nunca foi tão fácil e rápido divulgar um trabalho artístico que agora. Ao mesmo tempo, isso torna imensamente difícil se destacar na vastidão de tiras e webcomics que existem na internet. Talento, persistência, trabalho duro e experiência acabam sendo o grande diferencial que pode levar esse tipo de publicação ao sucesso, e consequente transposição da mídia digital para o papel impresso.

Quando digo experiência, falo sério. Nenhum dos autores do Pandemônio teve o sucesso caído do céu. Alguns já tentaram publicações antes de se divulgar no mundo digital, como Daniel Lima, alguns trabalharam em áreas de publicidade de empresas, outros tentaram sua própria empresa sem muito sucesso.

Mas creio que essa é uma história praticamente comum entre os artistas brasileiros.

Contudo, foi a internet que trouxe a cada um deles uma janela de maior exposição. Graças a Quadrinhos Rasos foi possível nascer Achados e Perdidos, para citar um exemplo. Talvez o caso mais emblemático seja o de Vitor Cafaggi, que começou com Puny Parker, uma fanfic da infância do Homem-Aranha, e que lhe abriu portas para a participação no Maurício 50 anos e a criação e publicação de Valente no Globo.

Outra grande sacada do pessoal foi usar o sistema de crowdfunding para publicar obras como Achados e Perdidos e Ryotiras Onmibus , como uma forma de não depender apenas de editoras ou leis de incentivo a cultura. Uma terceira possibilidade de colocar o trabalho no mercado, com a vantagem de criar um estreitamento entre autores e público.

Mas se existe uma coisa que me impressiona nos autores do Pandemônio é a amizade que existe entre eles (e a forma como conseguem transformar isso em um sistema administrativo bem gerenciado).

Existe uma solidariedade mútua entre eles, cada um auxiliando o outro em seus projetos, seja divulgando, seja dando uma mãozinha básica, seja fomentando parcerias criativas como Damasceno e Garrocho em Achados e Perdidos, Quadrinhos Rasos e o vindouro Cosmonauta Cosmo, seja o mesmo Garrocho, usando o “nick” Gomba, com Ricardo Tokumoto no RyotGomba ou do Ricardo com Daniel Werneck com Ovelha Negra.

Criatividade compartilhada que eles não restringem apenas ao círculo interno do coletivo, haja vista os saudosos BebeHQs, reuniões mensais em bares, reunindo os quadrinistas e simpatizantes de Belo Horizonte.

Outro ponto que me causa admiração é a autenticidade e sinceridade que permeia todas as suas obras. São boas histórias muito bem contadas nas quais é possível ver reflexos da personalidade e influências de cada um deles em suas histórias. O romantismo do Vitor, a doçura da Lu, a sinceridade extrema do Daniel Lima, a influência acadêmica do Werneck, a bagagem cultural do Damasceno, o sendo de humor sui generis do Garrocho e do Ricardo.

Claro que, como mineira e amiga de muitos deles, sou suspeitíssima nos meus elogios, mas acredito que o retorno de publico, de vendas e os prêmios recebidos comprovam que não se trata de uma questão de bairrismo, mas sim de talento.

E, espero, que esse sucesso continue por muitos anos e ajude a abrir as portas para novos talentos, não apenas mineiros,mas de todo o Brasil.

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