O Batman funcionaria em Smallville?

Quem acompanhou o seriado Smallville, deve se lembrar que toda temporada rolava um boato sobre a aparição de um certo ricaço de Gotham, na pequena cidade do Kansas. Para quem não se lembra, tivemos várias referências ao longo dos anos ao personagem dentro da série, desde a aparição de Adam Knight, que seria um disfarce adotado por Bruce Wayne, até as dezenas de citações a Gotham durante as 10 temporadas da série. O mais próximo no entanto que Smallville chegou a mostrar foi uma sutil citação feita por Chloe Sullivan na última temporada da série mencionado “um bilionário com brinquedos da mais alta tecnologia”.

O que frustrou muitos fãs ao longo dos anos foi que a esperança sempre se mantinha latente, mas nunca se concretizava por conta das divisões existentes dentro da Warner Bros. Por conta dos filmes da trilogia de Chistopher Nolan (que inclusive matou uma outra série que estava sendo produzida, contando a origem de Dick Grayson) e do não alinhamento da divisão de cinema e televisão da empresa, o uso da “imagem” do Batman não era autorizada. Era até cabível a empresa tomar essa precaução para evitar uma possível “confusão” na cabeça do grande público, já que a princípio Smallville e Batman Begins tinham premissas semelhantes (recontar a origem de um herói icônico de um ponto de vista inédito). Porém, a espera dos fãs acabou. Na edição 13 de Smallville Season 11, temos a primeira aparição do Homem Morcego dentro desse universo, nas mãos de Bryan Q. Miller, escritor do seriado e também dos quadrinhos adaptados. Mas será que a inserção do personagem valeu a pena depois de tanta espera?

Antes de tudo, cuidado!

É importante lembrar que é ideal que nos desapeguemos de qualquer imagem idealizada do “Batman”. O Batman de Smallville não é o Batman dos quadrinhos e nem pretende ser ao meu ver, tal qual ocorreu com o Arqueiro Verde e o próprio Clark Kent na série. Smallville depois de um tempo tomou um direcionamento próprio, afastando-se da proposta inicial de contar a história do Superman, para contar uma história do Superman, adotando conceitos próprios, que bons ou não, acabaram tendo algum impacto nos quadrinhos de um modo geral. Veja então essa história como um daqueles Túneis do Tempo/Elseworlds tão famosos nos anos 90 ou alguma das terras não conhecidas do Multiverso DC, em que algumas coisas são muito parecidas e outras nem tanto. Partindo desse pressuposto, podemos dar uma pincelada em quem é esse novo Batman.

Apesar de ser cedo para adentrar mais na construção do personagem, podemos tirar algumas conclusões. Assim como ocorreu com o próprio Superman, que foi direcionado para o que há de mais comum na mente do público geral (ou seja, os filmes de Richard Donner), é compreensível que a imagem que o personagem apresente em Smallville seja um misto do que vimos nos filmes de Chistopher Nolan e no clássico “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, que consolidou a imagem de um Batman atormentado pelo passado, com uma aura mítica, de lenda urbana mesmo. Por conta disso, esqueça toda aquela “divindade” que o personagem possui nos quadrinhos hoje. Esse Batman é bem humano e bem mais urbano do que aquele que estamos acostumados.

Bruce Wayne e Batman

Não podendo fugir muito do conceito clássico, Bruce Wayne é representado como um bilionário órfão de Gotham que não se expõe muito fora de sua cidade. Parece que a dinâmica entre ele e Barbara é de patrão e secretária, deixando em aberto qualquer tipo de relação extra que ambos possam ter. Segundo Bryan Q. Miller, escritor da série, Bruce seria aproximadamente da idade de Oliver e Lex e teria começado sua “carreira” mais ou menos dois anos antes da primeira aparição pública de Clark como “O Borrão” (primeira identidade do Superman no seriado), próximo a época que Oliver começou a carreira como Arqueiro Verde. Em nenhum momento é citado que tipo de treinamento ele se sujeitou, mas como a origem de Oliver é bem semelhante a dos quadrinhos, é provável que a origem de Bruce não tenha fugido muito disso.

Com relação a aparência Bruce não se assemelha em nada com Christian Bale, lembrando a meu ver mais uma versão morena de Simon Baker (o Patrick Jane da série “The Mentalist”), uma decisão que a meu ver foi acertada, para não dar  chance de alguém cogitar que há relação com a trilogia de Christopher Nolan.

Contudo, esse Bruce que vemos já está agindo há alguns anos como Batman. E mais, foi um sujeito que acompanhou eventos globais como intervenções alienígenas e interferências diretas disso na sociedade (o que levou ele a fazer algumas “adaptações” no seu traje, que veremos mais adiante). Nas ruas de Gotham, Bruce conseguiu se consolidar como algo além do humano. A ideia de mostrar que não é um simples homem mostra-se clara na pele cinza que ele pinta e na voz de “cachorro bravo”, representada pelos balões de fala pretos e tremidos, alusão as referências do morcego citadas anteriormente, como também a própria série, pois um recurso semelhante é usado pelo Arqueiro Verde.

Falando na questão da voz, é interessante notar que no instante que o bandido evoca o nome de Joe Chill, assassino dos seus pais, Bruce sai completamente do “personagem” que criou e faz sua voz normal, como se ficasse atônito com a notícia. Momentos depois, quando já recebeu o impacto e está em particular com Asa Noturna, sua voz retorna ao modo de “cachorro bravo”. É aquele papo clássico da dualidade da persona Batman/Bruce Wayne presente também nessa versão.

Por fim, não fica muito claro o nível de “sanidade” desse Batman. Em nenhuma das histórias que saíram até então (que foram 7 de 12 capítulos escritos por Miller), a única referência aos já conhecidos “distúrbios” do Homem Morcego é quando Clark menciona que “Obsessões podem ser bem perigosas”, logo na primeira edição. Seria legal ver uma faceta do Batman um pouco mais louco e não tão amigo do Superman no início, mas parece que o direcionamento que será tomado será justamente o contrário.

Asa Noturna

Assim como ocorreu com o Arqueiro Verde na série, que adotou uma mulher como parceira na luta contra o crime (lembrando da aparição de Mia Dearden no seriado), Batman também o fez. No caso, trata-se de Barbara Gordon no disfarce de “Asa Noturna”. Não teve o passado muito explorado até então, mencionando apenas que ela é uma aluna em treinamento de Bruce, mas mostra que pode rolar umas histórias bacanas entre ela e Supergirl, além de ter rolado uma tensão interessante entre Barbara e Oliver.

Porém, o essencial para se falar da Asa Noturna é que ela talvez seja a prova final da interferência da DC Entertainment nos recentes trabalhos da editora. Asa Noturna originalmente seria Stephanie Brown e não Barbara no universo de Smallville (como pode ser visto na entrevista dada pelo autor ao CBR). O porquê da decisão ter sido tomada ainda é um mistério, mas provavelmente é para tornar a personagem mais aceitável ao público, já que Barbara é a Batgirl clássica. Contudo, questiono se isso seria realmente necessário. A meu ver, inserir Steph ali poderia não só chamar os fãs da personagem a lerem a história, já que os mesmos estão órfãos pelo sumiço dela no Relaunch, como daria uma independência e inovada na cronologia do Universo de Smallville, tal qual ocorreu com Arkham City, que nos mostrou um Tim Drake hooligan, ou Terra-2, que preferiu abrir mão dos Robins clássicos.

A capa e o capuz

Outro diferencial dos personagens são seus uniformes. Sem querer entrar em detalhes de “moda”, o traje de ambos está bem coerente com a série. Se isso é bom, já é outra história… Sempre tive a impressão de que os uniformes dos heróis de Smallville, com exceção do traje do Arqueiro, eram feitos em casa com cola quente e materiais comprados em qualquer papelaria. Apesar do artista Chris Cross não ter optado por um estilo tão simplista, os trajes não destoam com o dos demais heróis do universo do seriado. Asa Noturna veste algo que mistura a roupa de um trapezista com um bobo da corte, e como ela parece ser quem entra primeiro em ação, faz sentido seu uniforme ser mais leve e com maiores chances de mobilidade. Já Batman parece vestir um traje pesado, que a primeira vista lembra muito aquelas jaquetas de motoqueiro que simulam a roupa do Cavaleiro das Trevas, o que não me causou estranheza,  já que basicamente os “uniformes” dos heróis eram jaquetas de alguma cor com uns detalhes a mais para diferenciar uns dos outros.

Brincadeiras a parte, no traje do Batman existem certas peculiaridades que merecem ser levadas em conta, e que podem ser uma explicação para a aparência tão “eclética” (para não dizer carnavalesca) do mesmo:

1-Repare que a máscara não é bem uma máscara, e sim uma espécie de “capacete”, que envolve só a parte de cima da cabeça. As lentes da máscara são alongadas e curvadas, simulando alguma indumentária oriental como a máscara dos samurais. Porém, por serem compridas, devem ter algum objetivo extra, como ser uma lente para realizar suas investigações (partindo do pressuposto de que é um capacete e não uma máscara pura e simplesmente, faz sentido). Além disso, deve ter alguma camada de chumbo (já que em nenhum momento usa sua visão de raio-x para ver quem é o Batman, descobrindo sua identidade apenas porque reconheceu sua voz).

2-A proteção no pescoço, como em outras partes do corpo é visível através dessa malha de kevlar (que mais parece um colchão envolvendo sua roupa). O kevlar realmente tem essa aparência trançada, mas deixou ele mais com cara de soldado medieval do que um soldado de uma guerra urbana.

3-A capa parece mais um reforço a “teatralidade” que o personagem deseja passar, não tendo nenhum efeito prático. Aliás, essa capa em modo “estrela” a meu ver ficou ridícula, ainda mais porque parece ser bem curta. Deixa o personagem com mais cara de bloco de carnaval ainda… Qualquer hora esse Batman vai acabar pagando de Dollar Bill e ficar preso em algum lugar.

4-Os detalhes nos ombros, costas e joelho sugerem um reforço mecânico de força ao personagem, já que como a capa é mera figura alegórica. Só assim para dar um salto como esse.

Porém, como eles só foram colocados depois que ele inseriu esse difusor de ondas de sol vermelho no peito, pode ser parte do dispositivo para transmitir a radiação do  para os punhos.

5-O símbolo do morcego no peito tem uma função especial, que nessa história é simular a emissão de radiação de sol vermelho para o Superman, além de carregar suas luvas com a mesma energia. Ao que parece, toda aquela história do Veritas vista na série, sobre um “messias interestelar” (no caso Clark), que chamou atenção dos Luthor e dos Queen também chamou atenção dos Wayne. Ou quase, já que eles decidiram não participar do grupo. Porém, os eventos que ocorreram ao longo da série, com a chegada de Brainiac causando um blecaute global e a aparição de símbolos kryptonianos em diversos lugares (devido aaparição de Zod), chamou a atenção de Bruce e ele estudou uma maneira de se prevenir. E fica evidente que ele já deixou o traje pronto para um possível embate com kryptonianos, pois quando averiguou os arquivos do Checkmate, sua roupa era diferente.

5-A pele cinza dá a impressão de que sua roupa não é uma roupa e sim parte do seu corpo, como se o kevlar fossem escamas e a capa uma espécie de asa. De certa forma, isso deixa o visual do personagem menos tosco, pois justifica a inserção daquelas peças no traje justamente para tentar simular que ele era um demônio ou alguma criatura sobrenatural. Ainda assim, Paul Pope conseguiu o mesmo em Batman Ano 100 com apenas uma dentadura…

A construção da história e sua razão de ser

O arco “Detective” conta a chegada do Batman nesse universo. Fazendo alusão clara a personagens já conhecidos, como Coringa, Pinguim e Hera Venenosa, Barbara mostra em sua fala que Bruce já tem uma bagagem de anos como vigilante, talvez até maior que Oliver Queen como Arqueiro Verde. Infelizmente, Oliver foi retratado nos últimos dias da serie numa época conturbada para seu personagem, o que talvez tenha contribuído para ele perder um pouco da personalidade que tinha nos quadrinhos e trouxesse para si um pouco de Bruce Wayne. Os conflitos, os distúrbios psicológicos e até mesmo o papel de “contraparte” para as ações de Clark, encaixam muito com o que vemos de Bruce nos quadrinhos. Contudo, sendo ele o “Batman” pessoal do Superman nesse universo, caberia a existência de um outro herói com o mesmo objetivo? Talvez. Tudo irá depender de como o escritor irá conduzir o personagem.

De fato, ficaria repetitivo usar a mesma fórmula anterior num outro personagem, deixando a leitura cansativa e prenderia o fã apenas por conta de que é o Batman ali. Porém, a própria reação de Oliver quando vê o Batwing, em que diz “Eu preciso fazer investimentos melhores”, mostra que Miller está elevando sua história a um outro patamar. Ele dá a abertura a um mundo ainda maior de heróis vindo por aí, e sem as restrições orçamentárias de uma série de televisão, como a necessidade de subtramas para finalizar a temporada, talvez o escritor consiga dar o direcionamento desejado ainda quando a série estava no ar. Pode ser que a DC não obtenha sucesso com essa iniciativa, mas vale lembrar que a série Buffy obteve sucesso numa situação bem parecida. O jeito agora é esperar. As histórias de Miller divertem e tem um ritmo bom, apesar do formato digital first em que elas são vendidas não contribuir muito para isso. Enfim, esperemos a conclusão desse capítulo, e que venha Diana com suas amazonas.

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