Além do Multiverso: Por que estes vovôs não se aposentam?

Por: Émerson Vasconcelos

Sabe aquele sentimento ruim de quando você vê o avô do seu amigo, aquele velhinho que sempre foi camarada, querido por todos, roubando na padaria? Você sabe que não é culpa dele, o comportamento possivelmente foi causado por alguma senilidade, mas mesmo assim se sente mal. Pior ainda, você sabe que terá que contar para o seu amigo e isso é muito chato. Pois foi justamente assim que me senti quando precisei contar ao meu amigo, o desenhista Daniel HDR, o que o seu grande ídolo, John Byrne, tinha aprontado nas páginas de Gerações 3.

O velhinho, tão admirado pelo Daniel, montou um boneco sentado em uma poltrona em um software de modelagem 3D, e, ao contrário do comum nesses casos, não utilizou o construto como referência para desenhar um personagem. Ele simplesmente jogou na página, e considerou que os leitores deveriam aceitar que aquele boneco em CG era o Metron. É o tipo de coisa que não se pode chamar de outra coisa que não seja preguiça, ou de perda do senso de certo e errado. Como Byrne é considerado um grande mestre dos quadrinhos, creio que chamá-lo de preguiçoso seria desrespeitoso. Sobra então acreditar que seu senso está afetado pela idade ou por algum fator externo.

Seja o motivo qual for, na hora que um grande artista começa a derrapar desta forma, não seria hora de parar? E Byrne é apenas um exemplo. Outros nomes como George Pérez, Chris Claremont e Frank Miller também poderiam ter entrado para os livros de história sem as manchas conseguidas recentemente em seus currículos.

Fator Nelson

Embora na década de 1980 o traço de Byrne fosse considerado refinado, confesso que nunca simpatizei muito com sua arte. Mesmo assim, respeito toda a sua produção até a década de 1990. Até mesmo a tão criticada fase da Mulher-Maravilha. Gostando ou não do estilo de desenho e roteiro dele, não havia brecha para dizer que ele não sabia muito bem o que estava fazendo. No entanto, isto mudaria de forma cruel nos anos seguintes. O projeto Gerações não significou apenas um tropeço para o experiente artista. Se Byrne não passou ainda mais vergonha no começo dos anos 2000, foi graças ao trabalho da equipe editorial do DC Comics e de um artista conhecido como Nelson, creditado como arte-finalista de Action Comics em 2006, quando Byrne (teoricamente) desenhava a publicação.

Foram meses de edições elogiadas pelos fãs. Parecia que Byrne havia voltado à sua velha forma. Aliás, melhor do que isso, o desenhista estava melhor do que nunca. Algo inacreditável se comparado ao já citado projeto Gerações, lançado pouco tempo antes. Só que o próprio quadrinista acabou com a boa imagem que vinha recuperando, ao denunciar que a editora estava pedindo a Nelson para redesenhar várias páginas, emulando o estilo de Byrne. Ou seja, os bons desenhos eram justamente aqueles refeitos pelo arte-finalista.

Prazo de validade

Falar da atual fase de Chris Claremont chega a ser constrangedor. Se Byrne ainda brilhou no seu primeiro volume de Gerações, e Miller chocou o mercado de quadrinhos com 300 na década de 1990, o velho Chris já terminou os anos 80 em plena decadência. Sua forma de contar histórias não poderia funcionar na época em que “o jeito Image” de contar histórias imperava.

Da mesma forma, quando os X-Men passaram a buscar um maior realismo, desde a fase de Grant Morrison, já nos anos 2000, a Marvel continuou insistindo em expor o roteirista ao ridículo. Não faz sentido o número de títulos mutantes que passaram pelas mãos de Claremont na última década. Pior ainda foi a criação da série X-Men Forever, na qual o autor tenta dar uma sequência à sua fase apresentada nos anos 90. Se já parecia datado naquela época, atualmente seu estilo é praticamente intragável.

Santo Terror

Quem teve a oportunidade de folhear, ou mesmo de ver a versão digital (seja ela lícita ou ilícita) de Holy Terror, escrita e desenhada por Frank Miller para a editora Virgin, certamente concorda comigo: Frank Miller perdeu a mão e não tem mais volta. Se O Cavaleiro das Trevas 2 podia ser justificado como um protesto contra a indústria, e o filme de Spirit ganhava certo desconto pela inexperiência de Miller nos cinemas, não o que justificar depois de analisar a qualidade destas obras juntamente com o absolutamente horrendo resultado de Holy Terror. Felizmente Miller foi vetado na DC Comics nos últimos anos.

Além de não conseguir terminar seu Grandes Astros: Batman e Robin, teve sua ideia original para Holy Terror (que teria o homem-morcego como personagem principal) vetada pela editora por ser extremista, racista e preconceituosa. Embora Jim Lee tenha assumido a culpa pelos atrasos da série Grandes Astros, não é difícil imaginar que o quadro editorial tenha vetado as absurdas ideias de Miller, considerando as atrocidades que ele cometia naquele título. Ao que parece, pelo menos, as grandes editoras estão entendendo que o velho Frank deve ficar longe de qualquer personagem/título/coisa que ele possa sujar ou estragar. Só o que me tira o sono são os boatos sobre o envolvimento dele em um possível filme da Liga da Justiça.

Aposentadoria já!

É fácil entender que quando uma pessoa chega em uma certa idade, depois de anos no topo, ela comece a decair profissionalmente. Por isso, o ideal sempre é parar no auge. Só que, na prática, o que se vê no meio artístico é muito diferente. Muitos não percebem que decaíram e ainda culpam os leitores atuais por não entenderem seus trabalhos. Outros percebem e tentam desesperadamente emplacar mais algum sucesso para poderem “sair por cima”. Tem ainda aqueles que sabem que não fazem mais nada parecido do que faziam antes, mas temem perder a fama ou precisam desesperadamente do dinheiro para pagar suas contas. Infelizmente Miller, Byrne ou Claremont se tornando caricaturas deles mesmos.

Creio que, para quem gosta de futebol, o sentimento deve ter sido parecido no final da carreira de Ronaldo Nazário no Corinthians. É triste ver um ídolo de milhões tornar-se motivo de piada internacional.

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