Por que quadrinhos jamais serão respeitados pela sociedade

Nota Inicial: Este artigo tem base no excelente ensaio sobre a modernidade dos quadrinhos perante a sociedade, escrito em 2011 por Julian Darius para o site Sequart.

Desde a estreia do primeiro Blade, O Caçador de Vampiros (1998), os estúdios de Hollywood caminharam para a ampliação orgânica da produção de blockbusters super-heróicos. Nos dias de hoje, quase 15 anos desde que Wesley Snipes desembainhou sua espada para caçar seus semelhantes, parece que os fãs de quadrinhos e a própria forma de arte adquiriram grande respeito e notoriedade perante a mídia não especializada.

Blade foi o ponto de partida para o início (e reinício) de muitas franquias cinematográficas super-heroicas, tais como Homem-Aranha, Batman, Superman, Vingadores e uma série de outros títulos, bem ou mal sucedidos. Salvo exceções, de modo geral estes filmes são aqueles grandes e imbecis blockbusters e cheios de furos de roteiro. Mas são lindos, coloridos, com efeitos impressionantes e mulheres perfeitas para protagonizar com o herói. [Nota, obviamente filmes como Superman – O Retorno e Batman – O Cavaleiro das Trevas definitivamente não estão nesta categoria, pois se utilizaram de personagens para passar uma mensagem artística na forma audiovisual.]

Fãs aparecem nos noticiários constantemente, geralmente travestidos de seus personagens favoritos, ovacionando anúncios em convenções e fazendo algazarra, tratados como “aqueles nerds esquisitos que gostam de se fantasiar” – o que só faz gerar mais buzz e alguns milhares de dólares nos gordos bolsos da indústria do entretenimento. Francamente, será esta a única forma de “respeito” que um leitor de quadrinhos de verdade vai ganhar? Veja, gostar de super-heróis não é gostar de quadrinhos.

Um fã inveterado de batalhas épicas, crossovers infinitos, reinícios cronológicos anuais e ávido debatedor em fóruns para decidir quem é o mutante mais poderoso da Marvel certamente não é, nem de longe, fã de quadrinhos – é só um adorador de gente fantasiada. O que não é um problema, claro, mas são duas categorias totalmente distintas.

Voltando brevemente a três décadas atrás, é fácil entender a busca por respeito (como forma de arte) dos quadrinhos e seu respaldo pra isso. Foi um tempo em que os artistas não fizeram trabalhos sérios apenas por serem diferentes, mas também por buscarem uma forma de sofisticação em uma mídia calcada na mesmice.

Pouco antes disso, na década de 1970, houve um início de maturação, seja com temáticas adultas e contestadoras inseridas nos contextos super-heroicos (tais como a passagem de Dennis O’Neil e Neal Adams pelo Lanterna Verde junto do Arqueiro Verde, ou com Stan Lee no Homem-Aranha), ou com uma própria busca pela ampliação artística na forma de se fazer gibis.

A partir deste ponto, nomes como Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman e Grant Morrison (e muitos outros) começaram tresloucadamente a experimentar a mídia como forma, consequentemente exibindo estes resultados como arte de verdade. A partir daí editoras, criadores e fãs começaram uma campanha para mostrar que quadrinhos também eram coisa séria. Eram arte. Havia provas para fazer valer este movimento todo com tantas obras seminais surgindo na criativa década de 1980.

Pouco importava se era legal ver o Batman velho e mal humorado agindo com a intensidade de um jovem determinado numa cidade dominada pelo caos – o que importava, na verdade, era a revolução narrativa proposta pela história, tanto em contexto como em visual. Como ninguém tinha pensado em algo tão simples como fazer uma cena quebrada quadro a quadro, sendo que o último (no momento da grande revelação) causa tremores no leitor? Miller fez. E este é só um minúsculo exemplo da quebra de limites da mídia que esta história apresenta, que vão da psicologia ao usa da sátira apurada do próprio momento social do mundo naquele período.

O mesmo pode ser dito de Watchmen e sua forma sofisticada de ser narrada. Minucioso como é, Moore trabalhou incessantemente com Dave Gibbons para fazer da obra não apenas desconstrutora do gênero, mas dividiu seu foco também em cada pedaço de ironia social, cada trecho da podre Nova York da época e alcançou um inédito jogo de justaposição de imagens junto de Gibbons que se tornou referência para o gênero durante os anos seguintes. A utilização de métodos psicológicos reais e a incorporação de citações social e politicamente imortalizadas enriqueceram ainda mais a obra, jogando-a rapidamente no topo das produções sequenciais.

Ainda falando de Moore, se por um lado ele focou na criação super-heroica calcada numa base realista psicológica invejável, por outro o autor mostrou que também consegue discutir política com seriedade em V de Vingança. Independente do foco anarquista do protagonista, o que causa reflexões no leitor são as inúmeras críticas ao regime quase fascista que dominou a Inglaterra sob a mão de ferro de Margaret Thatcher.

Enfim, o ponto é: as obras existiam. O revisionismo da mídia se provou uma maneira real de ter os quadrinhos como forma de arte. E eles mereciam ser reconhecidas assim, tal qual a literatura, a música etc. Mas num momento, infelizmente, isso se perdeu. Vieram os anos 1990 e seu imenso poder de devastação cultural, especialmente nesta mídia. Estes grandes nomes foram utilizar suas qualidades em outras mídias ou selos de menor alcance popular para ampliar a experimentação e libertarem-se das amarras editoriais que permeiam o ciclo natural dos gibis de heróis. De repente, um vácuo tomou conta das revistas mainstream.

Foi então que a superfície dos clássicos supracitados tornou-se a base para uma grande onda de histórias pobres, calcadas apenas no cool e não no conteúdo ou na forma. Havia personagens tão cool quanto Rorschach nas novas histórias, mas nenhum deles estava inserido num contexto tão sério e rico.

No mundo real, as convenções atraíam mais e mais pessoas, dando lugar aos fantasiados de plantão. De repente, o objetivo do movimento para tornar reconhecida uma mídia pela qual todos eram apaixonados, passou por uma bizarra mutação, virando um grande bloco de nerds que não demandavam respeito nenhum pela forma: apenas pela aparência cool e pelo universo fictício e maniqueísta dos super-heróis. Eles, se divertindo nas frentes das câmeras da CNN, tornaram-se um obstáculo para os que levavam a coisa a sério.

Jeff Albertson, o Cara dos Quadrinhos dos Simpsons, é a epítome de tudo isso. Ele é aquele cara gordo, que coleciona quadrinhos como se junta cards de baseball e action figures mal acabados. Um adulto que esqueceu de crescer, mas desenvolveu toda sua arrogância por conhecer detalhes mínimos de cronologias com as quais, na verdade, ninguém se importa. E hoje esse cara é aceito como um “esquisitão” na sociedade. O que, automaticamente, causa a ilusão do “respeito”. Ou seja, a mídia, ao invés de continuar buscando novas formas de se desenvolver e manter sua sofisticação sempre atualizada, preferiu ficar estagnada no “ser cool”. Já a não especializada tem nisso um prato cheio, pois pode mostrar todos esses esquisitões fantasiados. Afinal, o que seria do mundo moderno sem um bando de esquisitos na televisão? O Cara dos Quadrinhos era uma paródia. Hoje ele é o modelo a ser seguido.

Foi então que os quadrinhos se subdividiram e as coisas ficaram esquisitas. De um lado tem-se clássicos utilizando a mídia como forma de expansão cultural, geralmente ficando no nível underground hoje em dia – e são estes, vê só, que podem ficar na sua estante junto de Guerra e Paz. Outros, a maioria e onde gira o dinheiro da indústria, são apenas produtos de sub-cultura nerd visto como “da hora”.

O resultado de tudo isso é um ciclo cada vez menor e mais superficial de duração das revistas. A cada ano as editoras inventam algum “evento” para atrair público. Matam personagens. Ressuscitam-nos logo em seguida. Status quo permanecem inalteráveis  – ou quando são mudados de forma ousado, a grande horda de “comic book guys” protesta para que tudo volta a ser como era antes. Afinal, quem gosta de mudanças? Mas a verdade é que isso é uma farsa comercial que vicia.

Eventos não são Eventos. Apenas para um pequeno nicho de fãs fervorosos histórias como A Noite Mais Densa e O Cerco são considerados eventos. Matar o Capitão América ou jogar o Batman perdido no tempo não são, nem de longe, eventos. Como comparar isso a, por exemplo, encontrar uma obra perdida de William Shakespere ou colocar as mãos no roteiro que Stanley Kubrick tinha para um filme sobre Napoleão Bonaparte?

Entenda, os lançamentos da Vertigo e da Image nos anos 1990 foram eventos, pois abriram novas portas para uma indústria muito acostumada a publicar as mesmas coisas com uniformes diferentes.

Grant Morrison concluir uma série transgressora como Os Invisíveis depois de meses doente e até desaparecido foi um evento, por concluir mais uma obra que experimentou os limites da mídia, tal qual Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller e Klaus Janson) e Sandman (Neil Gaiman e vários artistas) fizeram poucos anos antes. Assim também foi a Crise nas Infinitas Terras, que não foi tão sofisticada, mas apresentou uma possibilidade única: reunir herói para refazer toda a cultura de um universo – consequentemente, de uma das maiores empresas do ramo editorial americano.

Em escalas menores, o surgimento de Alex Ross com Marvels proporcionou um evento, pois trouxe olhos curiosos a uma mídia que mostrava, pela primeira, pinturas realistas em suas páginas – isso sem contar a própria sofisticação narrativa de Kurt Busiek na obra mostrando tudo sob a ótica do mundo real com as mudanças sociais proporcionadas por seres fantasiados.

O reconstrucionismo proposto pelo mesmo Moore no selo America’s Best Comics, sob o guarda-chuva da Wildstorm, foi um evento – além de retrabalhar uma série de idéias super-heroicas, o autor levou a literatura pesada para a mídia, fazendo milhares de fãs buscarem algumas das mais imortais obras da cultura mundial para entenderem melhor a experiência que ele estava oferecendo.

Ao seu lado, no mesmo selo, estavam Warren Ellis, remoldando a cultura super-heróica com base na contracultura e no absurdismo, tal qual seu colega (e amigo pessoal) Grant Morrison fizera anos antes com a Liga da Justiça ao lado de Mark Waid. Não são grandes exemplos literários, mas são histórias espertas, com base em coisas que vão além do universo dos fantasiados.

Crise de Identidade é outro exemplo de eventos contemporâneos. Não pela forma, que é batida, mas por mostrar, pela primeira vez, heróis da DC Comics como seres tridimensionais enfrentando conflitos que a sociedade moderna enfrenta todos os dias. Não importa se houve erros de continuidade ou uma caracterização ou outra que não coube – isso só importa aos comic book guys. Ela virou, notícia, é claro. Foi premiada. Aclamada. Reimpressa. Como obras de outrora ainda são.

O DC Relaunch também foi um grande evento. Além de, mais uma vez, mudar a cultura editorial, pela primeira na história uma editora zerou absolutamente todas as suas revistas a fim de torná-las acessíveis a um mercado novo, reiniciando as contagens de clássicos como Action Comics e Detective Comics; além disso, abriu de vez as portas do desconhecido ao assumir o risco de se colocar disponível no formato digital com a mesma velocidade que no papel, fazendo com que uma série de concorrentes seguissem o mesmo caminho.

Obviamente os “eventos” acontecerão neste novo universo DC (Trinity War), mas eles só podem ser chamados assim na terra da hipérbole. A cultura é essa e qualquer pessoa sabe como é difícil se livrar de maus hábitos. Os editores preferem incentivar este tipo de explosão comercial temporária; os artistas, ao invés de ousarem de suas qualidades e levantarem a bandeira da liberdade criativa preferem acatar tais decisões – afinal, eles também são fãs. E que alegria melhor que brincar com seus personagens em histórias esquecíveis para virarem filme depois? O trabalho de um artista não é prestar um serviço ao fã, mas a si mesmo e suas capacidades.

Enquanto não houver obras vitais para revitalizar a forma, as fórmulas fáceis perdurarão. Há uma grande barreira a ser vencida, e ela não parece estar enfraquecendo. Foi disso que Alan Moore falou ano passado, gerando, como sempre, muita controvérsia. Ele estava certo. Ninguém tenta nada novo – e quando tenta, passa despercebido. É natural que Jason Aaron tenha se sentido ofendido, afinal, ele foi um dos poucos que tentou algo diferente ao mostrar a realidade dos descendentes indígenas na América atual – e Moore falou de uma forma muito generalizada e ácida, condenando todos como paus mandados sem criatividade. Mas, olhando por outro lado, fora Escalpo, o que Aaron fez mesmo? Wolverine? Sério?

O que falta é comprometimento. Não em cumprir prazos, mas em empurrar a mídia pra frente. Torná-la relevante. Colocá-la em círculos literários, como aconteceu há 30 anos atrás. Virar base para filmes artísticos, não para “o novo blockbuster que amanhã todo mundo já esqueceu”.

Por fim, parece existir pouca luz no fim do túnel para a indústria. As revistas continuarão superficiais e sendo reiniciadas de tempos em tempos. Mundos vão morrer. Mas vão renascer amanhã, você sabe. Do jeitinho que você se lembrava. Os comic book guys gritarão em alegria quando isto acontecer. Hollywood fará mais alguns milhões. E você, que quer um quadrinho literário, vai pagar caro por um material underground, pois é a única forma de um artista que sabe de suas capacidades criativas conseguir viver hoje em meio ao produto de massa.

Ou divirta-se com Hollywood. O que poderia ser mais cool?

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