FIQ – Papo exclusivo com Ivan Reis e Rod Reis

Ivan Reis dispensa apresentações. Mesmo brincando que em sua carreira ele seja um astro “sem sexo, sem drogas e sem rock n’ roll”, Ivan não precisou disso para estabelecer-se como um dos desenhistas mais premiados, acompanhados, elogiados e queridos da DC Comics. Paulista, Rodrigo Ivan dos Reis, de 35 anos, tem passado por momentos de constante alegria em seu trabalho com a editora, atualmente fazendo uma revista que ele mesmo insistiu em assumir: Aquaman.

Capa de Aquaman #3

Ao lado de Ivan está também um outro Rodrigo Reis – Rod Reis, amigo de longa data do Multiverso DC e colorista da DC Comics, participou do bate-papo com Ivan e aproveitou para responder algumas perguntas sobre sua carreira junto do amigo (e não irmão, como muitos acreditam) – tudo isto, é claro, aconteceu no 7º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o VII FIQ. Com vocês, “the Reis guys”!

[Agradecimentos especiais a Joacélio Batista por bolar algumas perguntas da entrevista]

Aquaman e Mera, por Reis e Prado

1-) Ivan, há uma lenda urbana na internet afirmando que você escolheu fazer a revista do Aquaman. Existe alguma verdade nisso?
Ivan Reis:
É totalmente verdade, foi uma opção minha. A editora ainda não sabia que se lançava ou não uma mensal do personagem, havia muita dúvida no ar. Quando me deram a a possibilidade de desenhá-la, insisti que queria fazê-la, pois já vinha trabalhando com o personagem em O Dia Mais Claro [Nota: maxi saga quinzenal de 26 edições, publicada atualmente no Brasil pela Panini Comics em formato mensal], e eu tenho uma longa tradição de desenhar herói por muito tempo – geralmente fico três ou quatro anos com um único personagem, portanto foi uma escolha natural. Outra coisa que me levou a ele foi vê-lo largado, sozinho e triste há tantos anos (risos), ele precisava de atenção.

Ivan no VII FIQ - Foto de Glenio Campregher

2-) Depois de tanto tempo com a DC e do sucesso que você alcançou, escolher o Aquaman foi um sinal de liberdade total sua lá dentro?
Ivan:
Isso é engraçado, porque o Dan [DiDio, co-publisher da DC Comics] ficava perguntando se eu tinha certeza se queria fazer isso (risos). Ele me dizia “Ivan, escolha qualquer personagem, faça o que você quiser”, e eu rebatia “mas eu quero o Aquaman”.

Rod Reis: A coisa foi tão engraçada que o Ivan entrou na equipe da revista antes mesmo do Geoff [Johns, escritor] ser confirmado como autor dela.

Ivan: É verdade. Como eu disse anteriormente, não havia certeza em torno da revista. Quando o Geoff ficou sabendo que eu estava confirmado, e que o Joe Prado estava comigo na arte-final, ele fez questão de escrever, até pra manter a tradição de nossos trabalhos conjuntos.

3-) E como Rod entrou na jogada? Ele já coloriu alguns trabalhos seus, mas não de forma regular, como é o caso de Aquaman.
Ivan:
Exato, o Rod chegou a colorir o final de O Dia Mais Claro, portanto fiz questão que ele viesse a bordo pra colorir este trabalho. Eu queria ter uma equipe brasileira na arte do título, pra facilitar as discussões e as ideias.

Aquaman #1

4-) Quando surgiu esta possibilidade de escolher Aquaman, você já sabia que seria um Reboot das revistas?
Ivan:
Acredito que isto já estava definido sim. Lembro-me que chegamos a ver os primeiros passos dos novos projetos. Sabíamos que haveria uma grande reformulação, só não tínhamos ideia ainda de qual seria o nível dela e quais personagens seriam abrangidos.

5-) O Aquaman tem lidado bastante com piadinhas sobre a “não importância” dele dentro do Universo DC. Isso tem um pouco a ver com você? Você tem que lidar com piadinhas por ter assumido um “projeto que ninguém queria”?
Ivan:
Temos um pouco a ver sim. Quando alguém me sacaneia, acabo reagindo como ele. Não sabia que o Geoff daria esta abordagem, e acabou funcionando muito. Na época que o Jim Lee começou a refazer o design do personagem, ele estava partindo para aquela coisa dos anos 1990, barbudo, com cara de mau e tal, e eu insisti que fosse o visual clássico, para dar esta entonação propositalmente. Este Aquaman é bem clássico, tem até um quê meio Flash Gordon. Foi totalmente proposital, para que fosse o herói mais à moda antiga dentro da DC Comics mesmo, e ainda assim há uma certa modernidade.

6-) E o feedback do título tem sido muito positivo, correto?
Ivan:
Está sendo ótimo, todos estão gostando, tanto de fazer como de ler.

Flashpoint: Abin Sur #3, por Felipe Massafera e Rod Reis

7-) Rod, acompanhando seus últimos trabalhos desde Action Comics, passando por Superman e pela mini Flashpoint: Abin Sur, fica claro que houve uma evolução muito grande na sua forma de colorir, em especial nesta minissérie. A partir dali você mudou por completo seu jeito de completar as páginas com cores. Você também percebeu isso? Como se deu essa mudança?
Rod:
Eu comecei a perceber que havia uma certa acomodação no que eu estava fazendo, usando sempre cores parecidas com as que eu sempre utilizei. Quando veio a minissérie do Abin Sur eu percebi que havia possibilidades de fazer coisas muito mais artísticas e foi aí que redescobri formas de trabalhar novas pinturas. Em Nightwing, por exemplo [Nota: Asa Noturna, na qual ele colore a arte de Eddy Barrows], gosto de utilizar muitas texturas, borrões e coisas obscuras que enriquecem aquele visual. Já no Aquaman, eu parto para um caminho totalmente oposto, pois ele é um personagem que deve brilhar – quando a luz do sol bate nele, por exemplo, faço com que ele seja magnânimo, faz parte de sua natureza isso. Como você disse, a minissérie foi um divisor de águas para meus trabalhos atuais e futuros.

8-) Por trabalharem juntos no mesmo projeto, vocês têm uma rotina de reuniões para discutir como o farão, ou dividem um estúdio para facilitar a comunicação?
Ivan:
Nós não dividimos, mas estamos em contato constante, é algo muito importante para que todos estejam felizes com o resultado. Às vezes o que eu penso como arte pode não funcionar para as cores do Rod e assim por diante – principalmente o que pode funcionar numa tela de iPad ou outros dispositivos. Aquaman é um dos primeiros trabalhos em que tenho uma interação bem grande com a equipe criativa.

Clímax da Guerra dos Anéis, por Ivan Reis

9 -) A liberdade que você conquistou se reflete também no roteiro? Você dá algumas ideias ao Johns?
Ivan:
Tudo que eu puder fazer e sugerir em termos de narrativa sempre acabo fazendo, mas não é nada que interfira no roteiro do Johns. No entanto, por eu ter acreditado e liderado ente projeto há uma comunicação mais aberta sim. Normalmente vê-se artistas crescendo na carreira e indo para personagens cada vez mais importantes, e eu escolhi o caminho inverso, fui para um personagem que estava sendo deixado de lado.

Rod: Até porque você é um dos responsáveis por fazer do Lanterna Verde o sucesso que ele é hoje.

Ivan: Sim, é verdade. Tudo que é feito com o Lanterna hoje carrega o meu trabalho de alguma forma. O mais interessante é que ele foi crescendo de popularidade no boca a boca mesmo, as pessoas não sabiam o que estava acontecendo, foram sabendo aos poucos. Tanto que quando fiz a Guerra dos Anéis (Sinestro Corps War), a coisa foi se expandindo por culpa dos próprios fãs, já que aquele não era o evento do ano – e deu mais certo que ele. O caso de A Noite Mais Densa é um bom exemplo dessa popularidade, pois ele se passaria apenas no universo dos Lanternas Verdes, mas a coisa estava dando tão certo que a história se expandiu para algo ainda maior.

Capa de A Noite Mais Densa #6

10-) Aproveitando que você puxou o assunto de A Noite Mais Densa, como foram os prazos para o evento? Já fazia anos que a DC Comics estava com problemas de atrasar edições e ela foi a primeira, em muito tempo, que não atrasou e não precisou de mudanças de equipe. Como foi isso?
Ivan:
Quando peguei o projeto havia este grande problema de atrasos, tanto em histórias normais como em grandes sagas. Fazia anos que um artista não começava a saga e ia até o fim com ela. Eu estava preocupado sim, pois a saga já estava atrasada antes mesmo de ser publicada. Quando perguntei se teria ajuda de um fill-in, a editora disse que não, então assumi que faria por merecer minha estada ali, bem como faria com que ela não atrasasse – assumi a responsabilidade da saga. Foi então que entendi a pressão que um artista mais conhecido sofre ao ser incluído em algo deste calibre. Quando a DC percebeu como eu estava, ofereceu ajuda, mas eu não quis – assumi aquela responsabilidade e iria com ela até o fim. Comecei a trabalhar de tal forma que o próprio arte-finalista teve que pedir ajuda. Minha média é de 17 a 18 páginas por mês, e neste evento eu estava fazendo mais de 20 páginas por mês. Foi estressante, principalmente quando veio a edição #6, pois ela seria a única que sairia no mercado dia 31 de dezembro, então houve uma pressão altíssima. Mas valeu a pena sentir o peso desta importância. Acabamos não precisando de um novo desenhista, mas colocamos um novo arte-finalista para ajudar o Oclair Albert, que foi o próprio Joe Prado.

11-) Falando sobre seu futuro profissional com o Aquaman, podemos supor que haverá algo semelhante à Guerra dos Anéis pra ele?
Ivan:
Não sei dizer. Não costumo planejar meu futuro profissional de uma forma tão longínqua assim. Sinceramente não sei o que vai acontecer com o Aquaman ano que vem, nem comigo pra falar a verdade (risos), portanto é algo em que não pensei. Tenho sim uma ideia básica do raciocínio que o Geoff tem, o que é uma coisa, mas não é uma linha tão abrangente assim, pelo menos não agora. E ame-o, ou odeio-o, mas o Aquaman é um dos personagens mais conhecidos da cultura pop.

Aquawar, por Ivan Reis e Joe Prado

Rod: O Aquaman acabou ficando conhecido com os Superamigos, indo para o desenho da Liga da Justiça e depois para The Brave and The Bold, portanto é claro que ele é conhecido do grande público. Dependendo da idade das pessoas, elas terão alguma lembrança dele.

LJA por Ivan Reis - Promo da NYCC 2011

12-) Ivan, outra lenda urbana da internet, e esta perdurou por alguns anos, é a de que você desenharia a Liga da Justiça do Johns. Há algum fundo de verdade nisso ou foi só boataria?
Ivan:
(Risos) Como eu disse, não planejo meu futuro não. Se tiver uma chance de fazer este projeto, com certeza aceitarei, sem pestanejar. E levarei o Aquatime junto, sem dúvida.

13-) (Rod Reis) Aproveitando que estamos todos aqui, o que estão achanado do FIQ?
Felipe Morcelli:
Este é o melhor FIQ em que estivemos, nunca vi tanto material nacional e de qualidade sendo exposto por tanta gente diferente. Além da quantidade de pessoas que estão visitante, que é muito maior.

Joacélio Batista: Do penúltimo FIQ pra cá as coisas mudaram muito. Antes era um evento de nicho, e agora passou a ser uma exposição artística com visão para o mercado. Antigamente o pessoal vinha com seu trabalho na mochila e te dava ou te vendia. Hoje este pessoal estão com uma vitrine muito melhor, o mercado ficou muito forte.

14-) Pra fechar, algum de vocês planeja algo autoral?
Ivan:
Sinceramente, não. Estou muito satisfeito com o que faço hoje, e se fizesse algo autoral seria na linha de super-heróis. No fim das constas não compensaria, pois já trabalho com ótimos super-heróis que já existem. Já tive propostas, ainda tenho algumas e as portas estão abertas, mas no momento não há interesse.

Rod: Minha resposta é a mesma do Ivan, acabaria em algo deste tipo. Claro que se ele fizer algo autoral espero que me leve junto para colorir (risos gerais)! Tenho meus desenhos, pratico um pouco, mas não é o momento.

[O Multiverso DC agradece o tempo que Ivan Reis e Rod Reis nos concederam para este divertido bate-papo no VII FIQ]

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