FIQ – Fantástica conversa com Eddy Barrows

Eddy Barrows (ou Edu Barros, como costumamos chamá-lo) deu uma das entrevistas mais divertidas, informativas e simpáticas de toda a história do Multiverso DC. O bate-papo aconteceu na sala de imprensa do VII Festival Internacional de Quadrinhos, durando nada menos que 60 minutos de muitas risadas e informações valiosas sobre a carreira deste aclamado artista brasileiro.

Capa de Nightwing #2

Responsável, atualmente, por Nightwing, o muito bem humorado Eddy Barrows nos concedeu seu tempo para falar não apenas de seu trabalho atual, mas das últimas revistas que desenhou, de seus planos para o futuro e, claro, da sua própria relação com o FIQ.

[Agradecimentos especiais a Joacélio Batista, por acompanhar toda a entrevista e formular algumas perguntas]

Ontem estávamos conversando e você contou que veio ao primeiro FIQ, te despertando para trabalhar pra valer nesta área. Como você compara a situação daquela época para hoje, já que você está no mainstream? Como é ser famoso (risos)?
Eddy Barrows:
É uma coisa engraçada, pois o artista dificilmente se dá conta disso. Nosso trabalho é muito solitário, a única amiga é a prancheta. Só em eventos de quadrinhos é que começamos a ter dimensão e reconhecimento do que é feito. Toda vez que vou pra Nova York, na Comic-Con de lá, é que percebo este reconhecimento, seja conversando com editores ou com os fãs. A capa de Nightwing #1 não quero ver na frente por um bom tempo (risos gerais), de tanto autografá-la. Acabei tendo a chance, nesta última viagem, de visitar a loja Forbidden Planet e não havia mais nenhuma edição da revista. Na convenção até encontrei algumas edições, mas os preços variavam de US$ 8,00 a US$ 15,00 – e se um fã for vender uma que autografei por lá certamente vai colocar a uns US$ 20,00 no eBay (risos).

Eddy em São Paulo - Créditos da Foto: ImpulsoHQ

Outra loja que visitei foi a Midtown, uma das principais de Nova York, e foi lá que aconteceu algo bem engraçado. Os artistas têm um bom desconto para compras em lojas assim, mas acabei não me identificando, a princípio, especialmente por perceber que havia uma movimentação curiosa acerca de Nightwing. Quando entrei, os funcionários estavam colocando Nightwing #2 nas prateleiras. De Nightwing #1 (primeira impressão) só havia duas edições, a US$ 8,00 cada. Quando peguei uma de cada para trazer a um amigo meu [Nota: este aigo é o Émerson, organizador da Multiverso Comic Con, de Porto Alegre], formou-se uma fila imensa atrás de mim para comprar as revistas. Nunca tinha visto nada parecido.

Em seguida comecei a conversar com alguns fãs na fila e perguntei o que estavam achando, ainda sem me identificar. Eles fizeram muitos elogios, tanto ao texto como à minha arte – um fã até disse “olha os painéis que esse cara desenha, estão fantásticos”. “Você vai adorar esta revista”, recomendou um deles (gargalhadas). Somente quando fui ao caixa e o dono da loja me reconheceu é que todos ali entenderam que Eddy Barrows era eu mesmo. Logo o pessoal veio me pedir autógrafos, mas infelizmente eu já estava de saída para ir ao aeroporto e voltar par ao Brasil.

Enfim, esta história ilustra como é dado o reconhecimento a um artista lá fora. Claro que há também a valorização da editora. Quando o DC Relaunch foi confirmado, a DC me ofereceu quatro títulos para escolher, sendo um deles Stormwatch. Um dos outros era Red Hood and the Outlaws. A verdade é que eu não tinha tanto conhecimento dos personagens, e já havia tido uma longa experiência com equipes – queria mudar um pouco de ares. [Nota: Eddy tornou-se bastante conhecido na DC Comics por sua fase nos Novos Titãs]

Página de Nightwing #3

Esta era uma de nossas perguntas, se você estava um pouco cansado de trabalhar com equipes de heróis.
Eddy:
Não necessariamente cansado, mas queria poder desenvolver um único personagem, focar meus esforços artísticos nele. As opções então giraram entre Superboy e Asa Noturna. Como gosto muito de Dick Grayson, e já tinha o desejo de migrar para o universo do Batman (que é totalmente diferente do Superman, onde eu estava), a escolha foi bem natural. Um detalhe curioso é que antes de Nightwing, veio a oferta do próprio título do Batman, mas acabei saindo de férias. Quando voltei, duas semanas depois, a revista já era de Greg Capullo (risos). Mas é recompensador trabalhar em Nightwing, adoro o personagem e posso inovar muito meu estilo.

Ainda aproveitando o assunto, como é trabalhar com Kyle Higgins, escritor da revista? Ele é novato na indústria.
Eddy:
É muito bom trabalhar com Kyle, pois ele é muito aberto a diálogos e ideias. Por ser muito fã do personagem [Nota: Higgins já afirmou em várias entrevistas que Grayson é o seu herói favorito], ele tem muitas ideias e também aceita muitas ideias, dando oportunidades pra eu extrapolar na arte e fazer coisas bacanas. Quando recebo o roteiro, se vejo que algo pode não funcionar no aspecto visual da narrativa, tenho total liberdade de não fazer, explicar o motivo, e sugerir algo mais interessante. É uma relação muito boa.

Mais do que isso, os editores também têm sido bem importantes neste processo, pois eles estão dando muita liberdade visual. Os detalhes do uniforme, as luvas mais parecidas com as do Batman etc foram ideias minhas e, felizmente, foram muito bem aceitas – embora o design já estivesse definido, tive chance de colocar minhas próprias criações ali. Trabalhar em Nightwing está sendo um verdadeiro presente.

Kyle ainda é novo, mas tem excelentes ideias. Estamos preparando coisas fantásticas para o futuro.

Já que você citou a liberdade em trabalhar com Kyle, aquela diagramação única que você está usando – perceptível já nas primeiras páginas da primeira edição – foi uma ideia totalmente sua?
Eddy:
Sim, principalmente pela vantagem do tempo. Tive chance de planejar as coisas mais calmamente, conseguindo assim ter novas ideias. Escolhi, portanto, utilizar um storytelling que não tivesse muitas calhas, unindo e transpondo melhor as cenas. Tudo isso é resultado do planejamento que este trabalho resultou, dando novas oportunidades para novas ideias. Na segunda edição isso fica mais claro, na terceira ainda mais e assim por diante. Na quinta cheguei ao auge… bem, não auge, mas está muito mais explícito (risos).

Inspirado por Will Eisner, Eddy traz ares novos à arte dos super heróis

A quarta edição é feita por outro artista, correto? O Bleeding Cool até levantou uma polêmica de que você estaria deixando o título…
Eddy:
Pois é, queria saber de onde vieram estes boatos (risos). Estas coisas acontecem, mas não faço a quarta edição apenas pra ter um tempo mesmo e não começar a atrasar, o que também facilita na hora de ter novas ideias e manter o ritmo criativo. Posso dizer, sem medo, que a quinta edição é meu melhor trabalho até hoje. E pra chegar neste nível, é muito importante que o roteiro também seja bom, como é o caso dos roteiros do Kyle. Ele cresce a cada edição.

Às vezes os roteiros não são tão legais, e o desenhista acaba sofrendo um pouco para transformar aquilo num bom produto para os leitores. Antes de mais nada, o desenhista também é um fã, e se ele não gostou daquilo, fica mais difícil transformar as palavras em grandes desenhos. Quando há química, tudo cresce mais naturalmente e vale a pena para todos. Posso dizer isso do Kyle: ele está me surpreendendo muito.

Nightwing #1

Você já sabia que Nightwing seria um “reboot”?
Eddy:
Mais ou menos. Quando o Joe voltou de Chicaco, em março, ele me disse um pouco do que aconteceria, pois foi nesta época que os editores lhe informaram. Mas ainda era tudo muito básico, não sabíamos o que ia acontecer de verdade. As primeiras possibilidades giravam em torno do Batman, com Scott Snyder, como disse anteriormente. Logo em seguida, quando estava pra voltar das férias, recebi a proposta da DC de escolher um título pra mim. Foi um pouco depois disso que o DC Relaunch foi confirmado entre os artistas e os editores. Particularmente achei uma sacada excelente, estávamos precisando de algo assim.

Mas uma curiosidade sobre os bastidores da indústria, é que nós artistas nunca temos dimensão real do que vai acontecer até que realmente esteja feito. Quando as primeiras revistas começaram a sair é que vimos o plano se tornando realidade, bem como o sucesso alcançado. A Liga da Justiça (de Goeff Johns e Jim Lee) chegou a quatro tiragens! Foi um grande feito.

Arte promocional de Superman: Grounded

Trazendo o assunto Superman à tona, como foi trabalhar com J. Michael Straczynski?
Eddy:
Não tive chance de conhecê-lo muito, mas nossa relação sempre foi amigável e respeitosa. Pra falar a verdade, ele deu bastante liberdade dentro do que o projeto permitia. Superman foi um grande desafio na minha carreira, pois quando recebi a notícia de que estaria no projeto, imaginava batalhas épicas pelo espaço sideral, lutas incríveis e cheias de superpoderes, mas foi diferente. Acabei pegando uma fase na qual o personagem questionaria a necessidade de sua existência, caminhando (literalmente) de um canto a outro dos Estados Unidos. Os roteiros foram bem desafiadores, pois como artista, eu teria que mostrar todo o meu talento para trabalhar esta situação diferenciada e quase filosófica.

Desenhar batalhas e histórias de ação não é tão difícil, pois é um processo natural para o desenhista de super-heróis – nós nos preparamos para isso. Quando surge um roteiro assim, o desafio é outro: deve-se trabalhar as expressões, as reações dos personagens em meio aos diálogos etc. Foi um pouco estressante fazer Grounded, pois o tempo também foi muito escasso – naquela época, o Straczynski estava começando a ter alguns problemas de saúde e os roteiros chegavam atrasados. Às vezes eu recebia, por exemplo, cinco páginas, e o restante só chegava até minhas mãos quinze dias depois, então muita coisa foi feita às pressas.

Superman caminhando pela América

A própria crítica foi pesada comigo na época do Superman, e agora eles estão adorando meu trabalho Nightwing, a grande maioria tem sido muito positiva. Mesmo as pessoas que não gostavam muito do meu trabalho, acabaram tornando-se fãs meus, graças a este título.

Como se isso não bastasse, os editores estão muito felizes com as vendas. Colocar o Asa Noturna no top 30 é um feito muito raro [Nota: a revista ficou na 21ª posição das revistas mais vendidas de setembro. Pra se ter uma ideia, dadas as últimas edições do título anterior do personagem, o crescimento dele em relação ao mercado foi de 82%].

Pois é, geralmente ela ficava abaixo dos 60 ou 70 mais vendidos, no top 300.
Eddy:
Isso é muito bom. Ele ficou à frente até de muitos títulos importantes da DC, como Monstro do Pântano e Homem-Animal. Aliás, adoro o trabalho de Scott Snyder [Nota: escritor de Batman e Monstro do Pântano, além de Vampiro Americano, na Vertigo], ele é um roteirista esplêndido e que está fazendo por merecer o lugar em que está.

Superman: Grounded

Neste meio tempo entre Superman e Nightwing, você não chegou a finalizar Grounded, correto?
Eddy:
Nesta época, antes de sair definitivamente de Superman, eu já estava começando a trabalhar em Nigthwing, portanto fui fazendo os dois ao mesmo tempo, mas no caso do Asa Noturna tive muito mais tempo e calma.

Você já sabia que assumiria este novo projeto, então?
Eddy:
Sim, e mesmo assim a primeira edição não saiu com a qualidade que eu queria. A segunda foi melhor, e a terceira já está no estilo que eu gosto de verdade. Na quarta edição tive uma folga, e a quinta está perfeita. Agora tenho Paulo Siqueira como meu arte-finalista, dando um estilo muito bom ao meu traço – o produto final que chega ao leitor é a arte passada pelo finalista, portanto ele tem que caber com a arte. Tive muita sorte também em ter o J.P. [Mayer, atualmente em Blue Beetle] também, um dos melhores finalistas da atualidade.

Já que você tocou no assunto da equipe artística, ultimamente seus trabalhos têm sido todos com brasileiros, geralmente com o JP na arte-final (tendo ele passado a tocha para o Paulo) e com o Rod Reis nas cores. A editora deixa você escolher esta equipe? Eles preferem que vocês estejam juntos?
Eddy:
Nós temos um acordo com a editora, que nos permite escolher quem estará conosco. Infelizmente, no passado, já aconteceu do meu trabalho não ter ficado com um resultado final muito satisfatório, até pela falta de contato constante com estas pessoas. Expliquei a situação ao Joe [Prado, artista e agente de vários artistas brasileiros pela Art & Comics], fazendo com que ele conversasse com os editores para que eles pudessem ajudar nesse sentido. Foi então que vieram JP, o Rod e assim por diante.

Falando ainda do aspecto artístico, você chegou a ver seus trabalhos no formato digital? Ele realmente é o futuro?
Eddy:
Acredito que sim. Até por uma questão de acessibilidade. Um fã brasileiro, por exemplo, pode pagar o preço de mercado da revista e lê-la em seguida – se ele resolver importar a revista vai pagar mais caro e esperar mais tempo. Por ser assim, o formato é muito promissor, especialmente porque vendeu 10% do que foi vendido em papel, e alguns sites especialistas nestes cálculos apontavam para, no máximo, 5%. se foram vendidas 5 milhões de revistas no primeiro mês, as vendas digitais mal começaram e já chegaram a 500 mil. É um formato muito promissor. Tive a chance de ver a Liga da Justiça digital e adorei.

Action Comics 875, por Eddy Barrows

Você precisou mudar seu estilo de desenho para que arte “coubesse” no esquema digital?
Eddy:
Conversamos bastante a respeito disso meses atrás, pois houve até uma certa paranoia sobre o “encaixe” da arte nos dois formatos, mas acabei deixando a histeria passar. Para um artista, pensar demais em algo assim é algemar-se. Preferi não pensar mais nisso para não limitar minha própria arte. Vai chegar a hora de eu pensar como fazer arte digitalmente, mas não é minha preocupação neste momento.

Porém, e até conversei isso com o Paulo e o Rod, é importante que aumentemos a quantidade de detalhes das páginas, para enriquecer a experiência digital. Há muitas coisas que estamos colocando agora que passarão despercebidas na versão impressa, mas na versão digital certamente será percebida por todos.

Os editores estão sendo rígidos nestes novos projetos?
Eddy:
Estão rígidos com os prazos. Tornou-se “religioso” o cumprimento dos prazos, é vital que nos dias combinados as páginas estejam entregues. Por isso há artistas fill-in, para que o artista regular de determinada revista consiga entregar tudo nas datas estipuladas.

Há artistas que não balanceiam arte e velocidade, como aconteceu com os Supremos, da Marvel. O Bryan Hitch manteve a qualidade até o fim, mas levou um bom tempo para finalizar várias edições, causando grandes atrasos. A DC não quer ver isso acontecendo lá, portanto está investindo pesado no cumprimento destes prazos.

Superman #686, por Eddy Barrows

E para o futuro Eddy, quer continuar com Nightwing?
Eddy:
É a minha ideia, com certeza. Estou tendo a experiência de um pai vendo o filho crescer – emprestado, mas é um filho (risos)! Espero continuar com a revista sim, e espero que a equipe toda continue comigo também.

Você tem planos para algum projeto autoral?
Eddy:
Tenho. Ainda está no estágio embrionário, mas os planos existem. Por enquanto continuarei com a DC Comics, é claro, o que deixa este projeto mais para o futuro.

E sobre o FIQ deste ano, Eddy, o que pode nos dizer?
Eddy:
Nunca vi tanta gente assim. É interessante notar que tudo foi lapidado ao longo do tempo. Quando começou ainda era uma coisa sem muito planejamento. Na época o evento ainda se chamava Bienal de Quadrinhos, eu tinha um estúdio com o Will Conrad [Nota: hoje na Marvel] e nós fomos a pé para ver como era. Foi quando Marv Wolfman veio ao Brasil. Hoje o FIQ está muito grande e muito diversificado, e isso que é o legal – o evento cresceu.

Lembro-me que, na última edição, em 2009, havia uma fila imensa para pegar autógrafos com você.
Eddy:
É verdade, e neste FIQ está tendo muito mais gente para prestigiar os quadrinhos. Esta edição está me surpreendendo muito. Já vi muita gente do nordeste e outras áreas do país que não costumavam viajar tanto para estarem numa convenção de quadrinhos, e agora elas estão aqui. Tem gente até de outros países da América do Sul que vieram apenas para visitar o evento – conheci argentinos, chilenos e até peruanos. Isto mostra a dimensão que o FIQ tomou, o quanto as pessoas abraçaram a ideia – mais do que isso, há muitas famílias. Uma nova geração de leitores está nascendo aqui dentro e daí a importância de festivais como esse.

Joacélio: Agora há mulheres aqui, o evento está bem “florido” (risos gerais).

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