FIQ – Entrevista exclusiva com Ig Guara

O desenhista mineiro Ig Guara está solidificando sua carreira a passos largos, graças aos seus trabalhos consecutivos dentro do mainstream da indústria americana de quadrinhos, seja na Marvel (como começou lá fora nesta linha), ou na DC, onde está agora fazendo um dos trabalhos mais queridos dos leitores adolescentes: Besouro Azul.

Painel DC, Ig Guara no canto direito - Foto por Glenio Campregher

Ig já trabalhou na Marvel, co-criou a série Pet Avengers, é fã assumido de Jaime Reyes e tirou um pouquinho do seu tempo lá no 7º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte pra falar conosco sobre o momento atual de sua carreira.

Fin Fang Foom, por Ig Guara

1-) Ig, é natural que perguntemos isso, portanto, como começou sua carreira? Por que você quis fazer quadrinhos e por que super-heróis?
Ig Guara:
Eu sou o que pode-se chamar de terceira geração de desenhistas. Quando era mais novo, eu já tinha alguns ídolos como o Marcelo Campos, por exemplo, então eu sabia que era isso que queria fazer da minha vida. Foi então que tomei este direcionamento, comecei a treinar ilustrações e narrativa, fui desenhando aos poucos – é aquela vida de desenhista brasileiro sofrida que todo mundo conhece, fazendo publicidade e tudo mais. Aqui em Belo Horizonte não havia escolas de desenho, e a Fábrica de Quadrinhos acabou aparecendo um pouco depois – eu já começara na área. Foi então que descobri o esquema de agenciamento, o que me fez correr atrás das possibilidades e conseguir alguns trabalhos em editoras pequenas. A partir daí as coisas foram crescendo aos poucos, até que pintou a oportunidade de desenhar na linha Marvel Adventures, onde fiquei por quatro anos, e então as coisas decolaram – e hoje estou na DC.

Pet Avengers, por ig Guara

2-) Você fez começou lá [na Marvel] em Pet Avengers, correto?
Ig:
Exato, passei por Pet Avengers e sou co-criador da série – embora não tenha realmente inventado nada (risos). Depois disso trabalhei na linha tradicional deles, em revistas como Deadpool e na adaptação em quadrinhos do filme do Thor [Nota: a revista não foi lançada no Brasil].

3-) E quando a DC Comics entrou na jogada, eles te chamaram pra Flashpoint mesmo?
Ig:
Sim, foi pra participar da saga. Inicialmente eu faria a minissérie dos Grayson [Nota: Flashpoint Deadman and the Flying Graysons], mas então fui transferido para o especial one-shot Grodd of War. Achei que fosse por causa de Pet Avengers, já que eu trabalhara com animais, somando alguma experiência nisso, mas o motivo real foi outro – a DC já estava me querendo para começar no vindouro Besouro Azul. Como os roteiros atrasaram um pouquinho, como aconteceu em todas as revistas, acabei ganhando um tempinho de participar de outras revistas de Flashpoint, como Green Arrow Industries, por exemplo.

4-) Vamos falar agora do Besouro, que é seu trabalho atual. Quais são os limites de liberdade que você, como desenhista, possui? Eles te deixam criar personagens e ambientações particulares ou há muitas pré definições?
Ig:
Há bastante liberdade sim, tanto nos vilões como nos coadjuvantes. Mas nos coadjuvantes, até conversei isso com o Tony [Bedard, escritor da revista], foi importante manter os visuais e também mantê-los por perto de ambientes que fazem parte da comunidade latina. Infelizmente é um fato que muitos destes garotos vão pra gangues, eles são das maras (maras é usado para denominar, informalmente, gangues juvenis). Portanto tive um trabalho extenso quanto à pesquisa visual destes ambientes, quanto às tatuagens de cada mara, as roupas que eles usam, carros que dirigem, a própria El Paso, etc. Por isso o Paco insere-se tanto neste contexto.

Já no caso da Brenda, preferi modernizar um pouco o visual criado pelo Rafael Albuquerque pra ter mais a ver com a coisa toda do DC Relaunch, o que fiz também com o Jaime. Para a La Dama estou fazendo algo mais chique, ela será uma mulher que anda sempre com roupas de grife. Mas a família do Jaime ficará como está, ela é ótima.

5-) Você costuma colocar amigos seus nas histórias?
Ig:
(Rindo) Sim, sim, eu uso meus amigos tanto pra referências como pra colocar de coadjuvantes. Também uso atores e gente famosa pra e basear em alguns traços, mas sem copiar suas imagens reais – eu uso apenas a estrutura.

6-) Ig, conversamos com o escritor Tony Bedard recentemente, e da mesma forma que perguntamos isso a ele é inevitável que perguntemos isso a você também: Ted Kord. Tony ainda acha que o Ted vai aparecer num futuro próximo nas revistas do Blue Beetle, então pergunto: você acha que vai desenhá-lo realmente?

Jaime Reyes e Ted Kord

Ig: Olha, acredito que o Ted aparecerá sim, mas não será como sempre imaginamos que ele fosse. Está claro nos roteiros que esta encarnação do Besouro é o Jaime, é dele que a garotada gosta, é ele que está aparecendo nos desenhos e… o Ted que me desculpe, mas o Jaime é um personagem fantástico! Nós gostamos do Ted porque temos aquela coisa do saudosismo, mas o momento agora é do Jaime. Eu espero, claro, como fã, que o Ted apareça, mas ele não é mais o principal.

7-) Blue Beetle tem vendido bem lá fora, não é mesmo? Inclusive no formato digital, em que é uma das principais.
Ig:
Sim, meu editor comentou comigo. Acho ótimo, não só pelo sucesso, mas porque o personagem é bom demais, ele merece isso. Depois de ter se tornado multimídia, era inevitável, e ele é muito carismático também.

Blue Beetle: Endgame, último volume da série anterior

8 -) E você acompanhou a série anterior por completo?
Ig:
Li todo o material. Inclusive foi lá que conheci o trabalho do Albuquerque. Um amigo meu que acabou indicando, e logo em seguida me apaixonei pelo personagem. Claro que gosto do Ted, mas o ar de novidade do Jaime me deu a mesma sensação de quando li Ultimate Spider-Man – eu já estava enjoado daquele Homem-Aranha da linha normal, e a nova série trouxe coisas boas e renovadas. O mesmo aconteceu com o Besouro Azul. Aliás, é importante dizer que nós temos uma memória afetiva muito grande, mas não seremos o mercado pra sempre. Este tipo de renovação é muito importante – não é necessário que se ignore tudo o que foi feito antes, mas os leitores novos precisam de algo que lhes façam se sentir interessados. O Ted não fala pra essa nova geração, ele fala pra gente, que leu Liga da Justiça Internacional.

Ig, no 7º FIQ

9-) Além de Blue Beetle, que outros trabalhos, se tiver chance, você gostaria de fazer na DC Comics?
Ig:
Gosto muito dos Novos Titãs. Não vou mentir, sou fã como todo mundo, adoraria fazer o Batman! Agora estou jogando Batman: Arkham City, e fiquei com muita vontade de desenhar a Mulher-Gato também, além de já gostar da personagem. Adoro a linha jovem da DC Comics.

10-) Como estamos vendo aqui no FIQ, o mercado nacional está se tornando cada vez maior. Você tem vontade de fazer uma história sua?
Ig;
Sim, tenho muita vontade de fazer um projeto meu. É difícil porque sei que não sou um bom escritor, mas a vontade existe. Não por agora, estou gostando do que estou fazendo e o momento resultaria numa aposta arriscada demais. O mercado americano me ensina demais – não significa que eu vá desenhar super-heróis pra sempre, mas é uma grande experiência.

[Nota: O MultiversoDC agradece, imensamente, o tempo cedido por Ig Guara para esta entrevista – bem como agradece pela cópia de Blue Beetle #2, dada de presente :D]

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