Rio Comicon 2011 – Análise

Entre os dias 20 e 23 de Outubro de 2011, o Rio de Janeiro recebeu a 2ª Rio Comicon, novamente realizada na antiga estação de trens da Leopoldina. Esse ano, ao contrário do ano passado, a organização do evento procurou abordar diversos estilos de quadrinhos. Tivemos exposições baseadas em HQs de super-heróis, mangás e erótico, uma grande exposição em homenagem ao mestre Will Eisner, diversos stands de quadrinhos independentes e palestras com convidados bastante variados.

Assim como no ano passado, o único stand vendendo quadrinhos de banca/livraria era o da Livraria da Travessa, porém seus títulos estavam muito mais diversificados que na última edição. A novidade em relação a vendas ficou com um stand de sebo, que levou vários gibis usados para vender à preços baixos. Quem não pudesse comprar as revistas caras da Travessa não teria porque sair de lá de mãos vazias. A nota negativa vai, como sempre, para a Panini, que levou novamente apenas um stand de assinaturas, perdendo a oportunidade de vender suas HQs.

Outros stands também fizeram bastante sucesso, vendendo camisetas, action figures e outros derivados. Os artistas independentes também compareceram em peso, realizando diversos lançamentos e divulgando seu trabalho. Outros artistas mais pops, como Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Albuquerque, Rafael Coutinho e Rafael Grampá também estavam lá. Os destaques destes foram as compilações impressas de “Tune 8” (Albuquerque) e “O Beijo Adolescente” (Coutinho), ambas tiras semanais publicadas no site do Ig Jovem. Aproveitei para conseguir um autógrafo dos gêmeos na minha edição de Daytripper!

A exposição em homenagem aos 75 anos da DC Comics, a mais importante aqui pro site, foi feita com base no livro “75 Years of DC Comics: The Art of Modern Mythmaking”, organizado pelo ex-vice-presidente da companhia, Paul Levitz. A exposição foi localizada na antiga plataforma dos trens, e a organização soube aproveitar bem o espaço, integrando os painéis com a parede da plataforma, que estavam separados entre Superman, Sociedade da Justiça, Mulher Maravilha e Batman. Nesses painéis foram colocadas reproduções de capas de revistas históricas em tamanho grande e páginas internas à lápis (Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal, entre outros). Dentre as capas expostas, podemos destacar Batman – Ano Um, Detective Comics 27 (a estreia do Batman), Batman 1, The Flash 123 (Flash de Dois Mundos), Green Lantern/Green Arrow, Superman 75 (A Morte do Superman), Superman vs. Muhammad Ali, Action Comics 1 e Superman 1. Também havia painéis luminosos enormes, de quase 3 metros de altura, com algumas capas marcantes.

Crianças lendo quadrinhos da DC Comics em Nova York em 1943, durante a II Guerra Mundial
Painel gigante com uma capa clássica da mini-série Crise de Identidade

A exposição estava muito boa, mas senti falta de mais textos, pois só havia um de introdução. A organização fez apenas uma mostra de arte, quando poderia ter contado boa parte da história da DC através dessas capas. Eles poderiam, por exemplo, colocar abaixo de cada capa uma descrição, para explicar a sua importância histórica. Quem não conhecia continuou sem saber o seu significado para a DC e para a indústria de quadrinhos.

 

Ao contrário da exposição da DC, a dos mangás do CLAMP estava muito bem explicada, com vários textos acompanhando os painéis. Aliás, estes painéis ficaram muito bonitos. Feitos de madeira com vidro e acompanhados por pequenos bambus, evocaram bem o espírito japonês.

A exposição de Guido Crepax estava péssima, apesar de ter sido a mais divulgada. Ambiente pequeno, poucos quadros, uma luz rosa irritante e absolutamente nenhuma descrição. Desinformados poderiam achar que era apenas uma exposição de desenhos pornográficos.

Mas a melhor exposição de todas era a do grande mestre Will Eisner. Em um espaço grande e muito bem montado, estavam várias páginas das obras de Eisner, acompanhadas de comentários do próprio autor. Nestas páginas, o visitante pôde apreciar todas as fantásticas expressões corporais e diagramação inovadora que fizeram dele o maior artista de quadrinhos de todos os tempos. Em um dos ambientes estava a tão divulgada estátua do Spirit, exibida pela primeira vez no mundo. Ela é realmente muito bonita, e o cenário urbano montado em volta dela estava perfeito, trazendo um dos elementos mais importantes das histórias de Eisner: a cidade. O único demérito da exposição fica para a exibição do péssimo filme do Spirit (feito por Frank Miller) em um dos ambientes. O nome de Will Eisner não precisava ser manchado com esta aberração…

Um pensamento que muitos artistas precisavam ter atualmente, inclusive um dos convidados desta edição do evento

Além das grandes exposições, a Comicon ainda contava com vários painéis espalhados, como no ano passado, enfocando vários quadrinistas brasileiros e estrangeiros.

As palestras tiveram alguns convidados interessantes, mas continuam (como no ano passado) muito underground. O evento precisava trazer convidados mais populares, até pra levar mais pessoas pra assistir os undergrounds de tabela. Um dos poucos artistas populares foi o Chris Claremont, e é a única palestra que eu vou comentar, pois foi a única que consegui assistir.

A fila pra entrar no auditório começou a se formar uma hora antes do início, e poucos minutos depois já estava dando voltas no interior da estação Leopoldina. E isso porque houve distribuição de senhas duas horas antes! Para muitos ali, era como ver uma lenda caminhando no mundo dos mortais. A maioria havia crescido lendo suas HQs, sobretudo os seus X-Men, então era como se aquele velhinho de barba branca fosse uma parte da sua própria infância e adolescência. Os aplausos iniciais foram tão intensos que o mediador teve que pedir para as pessoas pararem de aplaudir. Uma loucura nerd tomou conta do auditório. O mediador, aliás, era outro grande fã: Rodrigo Fonseca, ex-editor da Ediouro Quadrinhos. Ele esteve perfeito, não roubou a atenção para si mesmo e fez perguntas descontraídas e incrivelmente nerds.

Porém, o convidado em si foi decepcionante. De poucas palavras, Claremont respondia quase todas as perguntas com uma ou duas frases. As perguntas mais polêmicas, como a popularidade de Wolverine, as brigas com John Byrne e o seu desentendimento com Jim Lee e com a direção da Marvel, na época da sua saída dos X-Men, ele simplesmente não quis responder. As únicas coisas que ele quis falar foram as que ele já tinha falado várias vezes em outras situações, como o motivo da morte de Jean Grey e a sua opinião sobre a ressurreição da personagem. Na verdade, o podcast que fizemos sobre a fase de Chris Claremont nos X-Men conta muito mais sobre os bastidores daquela época do que a palestra da Rio Comicon. No final, ficou a impressão de que ainda há um rancor muito grande entre ele e as grandes editoras. Apesar de tudo, quem foi à palestra ficou satisfeito em poder vê-lo de perto e ouvi-lo, mesmo que ele não tenha satisfeito as expectativas.

No saldo geral, o evento foi muito melhor do que o do ano passado, com exposições e convidados mais interessantes. Mas a Rio Comicon ainda tem muito o que aprender e muito o que crescer. Esperemos que eles sigam este caminho de crescimento e não fiquem parados na mesma.

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