Desconstruindo a Patrulha do Destino – Saindo dos Escombros

Por Gilgamesh

O fim da década de 1980 foi uma época promissora para os quadrinhos americanos do gênero “sobrenatural” e adulto, como as reformulações de Monstro do Pântano e Sandman, por escritores britânicos. Grant Morrison foi um desses escritores com seu trabalho em Asilo Arkham, sucesso de crítica e de público. Isso abriu as portas para esse escocês reformular o esquecido Homem Animal. Com roteiros no mínimo inusitados, Morrison transformou um herói de segunda em um pai de família carismático envolvido com seus poderes nada comuns e bizarras encarnações de vilões. Um sucesso instantâneo. E antes mesmo que Homem Animal completasse um ano, Morrison foi escalado para dar nova vida a uma super-equipe de esquisitices que estava sob a batuta de Paul Kupperberg: a Patrulha do Destino.

À época, a Saga Invasão abrangia praticamente todos os títulos do universo DC, a deixa perfeita para que Morrison pedisse para que Kupperberg mutilasse ou matasse os componentes da equipe e assim pudesse compor o novo grupo. E assim foi feito: Celsius (Arani Desai Caulder) estava morta, Mulher Negativa (Valentina Volstok) perdeu sua conexão com o Espírito Negativo, Blaze (Scotth Fisher) morreu de leucemia, Lobestone (Rhea Jones) ficou em coma, Karma (Wayne Hawkins) deixou a equipe, o Homem Robô (Cliff Steele) se internou em um hospital psiquiátrico, Larry Trainor (ex-Homem Negativo) estava vivo, mas internado, e Joshua Clay (Vendaval) decidiu abandonar a carreira de super-herói.

Os componentes da nova Patrulha do Destino foram apresentados: personagens destruídos interna e externamente, e dos escombros veio a reformulação. Cliff atormentado por sonhos recorrentes do acidente que o prendeu para sempre em um corpo robótico decide se isolar em um hospital psiquiátrico. Ao afastar-se do mundo procura sua autoafirmação. Cliff convive uma das mais terríveis e fascinantes das síndromes clínicas de dor crônica: a dor fantasma de membros amputados. Segundo consta nos anais médicos, os pacientes se queixem amargamente, por vários meses após a amputação, de ainda sentirem uma dor excessivamente forte no membro já amputado. Cliff descarrega “eu sou uma amputação total (…) sou assombrado pelo fantasma de todo o meu corpo”. Seu desespero é crescente, mas seu tormento só não é maior que o de  Jane Maluca.

Kay Chalis, a Jane Maluca, sofre de distúrbios de Personalidade Múltipla. Segundo Morrison, uma das mais fortes influências para a criação da personagem veio do livro When Rabbits Howls, a surpreendente autobiografia de Truddi Chase, vítima de Personalidade Múltipla, e que assim com Jane Maluca, foi repetidamente violentada sexual e fisicamente por seu padrastro, e depois neglicenciada por sua mãe durante toda infância e adolescência. “Se estiverem mesmo a fim de detonar a cabeça, comprem ou roubem esse livro e tenham um lampejo de como a realidade se parece vista do outro lado”, diz Morrison. Jane Maluca é o contraponto de sanidade de Cliff, e vice versa, “O que as pessoas normais tem na vida?”, se pergunta Jane. Aliás, Jane Maluca é o nome para se referir a todas 64 diferentes personalidades, pois “Kay está no subterrâneo, onde não chove”. Para Jane, essa questão é amis profunda ainda, “personalidades não, nós somos pessoas”, diz ela para Cliff.  Em dado momento Jane pinta um retrato qeu ela batiza de “As trevas brancas, um retrato de Maya Deren, morrendo e possuída por Maǐtresse Erzulie”. Deren foi uma realizadora e teórica cinematrográfica dos anos 1940-1950, cuja visão cinematográfica continua a influenciar cineastas por todo o mundo, tendo o seu trabalho sido estudado nas mais prestigiadas escolas de cinema do mundo. Deren morreu em 1961 de um derrame cerebral, aos quarenta e quatro anos de idade.

Naquela época especulou-se sobre as causas reais desse derrame, tendo os boatos referidos a uma maldição Vodu, o uso de “concentrados de vitaminas” (que continham anfetaminas). Em seu livro Divine Horsemen, the Living Gods of Haiti (1953), que trata da estória das origens africanas do vodu, há um capítulo intitulado The White Darkness em que Daren afirma que sua viagem não é uma ‘experiência’ pessoal, mas uma jornada a serviço de um Loa, ou divindade vodu, possivelmente Erzulie ou Ezili, um dos Loas do panteão da religião vodu praticados no Haiti.

Joshua Clay e Dr. Niles Caulder, o Chefe, desempenham papeis análogos nessa trama. Caulder é um homem preso a uma cadeira de rodas, o cérebro da equipe, malicioso e maniqueista, que superará sua deficiencia conduzindo a Patrulha do Destino a um futuro incerto através de tramas maquiavélicas. Joshua é um homem reticente, amargurado e cansado da vida de herói que decide aceitar o pedido do chefe em contribuir com seus conhecimentos médicos para o bem da equipe. É exatamente entre estes dois personagens que se desenvolve um dos pontos altos do trabalho de Morrison à frente desse primeiro arco de estórias: o diálogo com o leitor. O contraponto em que Morrison surpreende o leitor incauto. Para entender melhor todo esse jogo de metalinguagem, analisemos a justaposição dos personagens personificados como Chefe/autor e Joshua/leitor, observando seus olhares e feiçoes faciais quando falam: “já considerou minha oferta, Joshua?”, “nao foi pra isso que vim aqui, so passei para ver como estava todo mundo, e para me despedir desse lugar”, responde Joshua. Observe que Joshua olha para o vazio, para fora da página. Percebemos o convite de Morrison para que o leitor também seja parte da estória. “O tempo todo em que estive fora, eu estudei relatórios, pedi informações, fiz preparativos!”. “Nem precisa dizer, quer queira, quer não, eu faço parte do seu grande plano, certo?”. “oh, sim! Todos vocês fazem!”. Novamente o olhar para fora da página, agora de Caulder. O diálogo aqui se dá metalinguisticamente entre autor/personagens/leitor, “voce deveria ler mais, Joshua”, diz Chefe para Joshua diante da ignorância dele, provoca Morrison.

Rebis por outro lado não é um ser com múltiplas personalidades, pelo contrário, é a justaposicao de três personalidades em um só corpo. Isso ocorreu quando o Espírito Negativo procurou Larry Traynor e atraiu a doutora Eleanor Poole para provocar a fusão dos três, o matrimônio alquímico. Rebis é uma entidade mitológica, similar ao ser humano, porém hermafrodita. Aparece frequentemente nos textos obscuros de alquimia, simbolizando a dualidade, perfeição e o ideal inalcançável. Em um de seus últimos trabalhos em vida, Carl Jung focou em alquimia, tendo sua obra Mysterium Coniunctionis, tratado dos arquitetipos do casamento sagrado ou alquímico entre Sol e Luna, o Hierosgamos ou união dos opostos. Desse casamento nasceria Rebis, o Hermafrodita Alquímico, o produto final, que agiria poderosamente em nosso mundo em uma Era Dourada. Quando o casamento sagrado alquimico acontece, a essência masculina representando Deus/Pai/Espírito conjura com a Deusa/Mãe/Matéria, dessa união tântrica nasce Rebis. Em DP #20, pg 05, vemos um quadro acima de Rebis a representação da união de seres, Adão e Eva, macho e fêmea, parte e contraparte, dualidades. Metaforicamente Rebis é a união perfeita de carne e espírito, coabitando em um unico ser.

Assim, Morrison reconstrói dos escombros o que sobrou da Patrulha do Destino, ou melhor, desconstrói. Aliás, Grant Morrison é um dos poucos escritores da Era de Bronze que sabe explorar os conceitos de linguagem pós-modernista com uma genialidade incomum, fugindo do simples e normal, recheando seus trabalhos com argumentos peculiares, com alegorias e referências do caldo cultural de sua longa experiência em trabalhos fantásticos beirando o surreal. Morrison, em um texto publicado em Doom Patrol #20, cita algumas das várias influências em seu trabalho, que vai de cineastas como o checo Jan Švankmajer, conhecido por animações surreais e características, que influenciaram outros artistas como Tim Burton e Terry Gilliam, passando por Maya Deren e matemáticos como Douglas Hofstadter. Morrison extrapola os limites entre realidade/ficção de tal forma que em certos momentos a linha que separa ambos universos se torna por demais tênues, a ponto de inexistir. Os limites da razão se decompõem, “Foi sorte essa crise ter sido criada por homens e fundamentada em lógica humana!”, diz Chefe ao desfecho da aventura ao mundo de Orkwith. Mas como separar o real de ficção?

Para Morrison, há a justaposição de ambos, não há separação. Orkwith é uma cidade fictícia criada na intersecção das realidades, imaginada em um Livro Negro em sequência de Feignbaum, que é uma constante universal para equações que se aproxima do caos onde cada região periódica é menor que a anterior. Isso falando matematicamente, e em termos práticos, as chances de algo acontecer duplica à medida que nos aproximamos do caos. A Teoria do Caos é outro conceito amplamente abordado nesse trabalho. A ideia central da Teoria do Caos é que uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso, tais eventos seriam praticamente imprevisíveis – caóticos, portanto. Esse tipo de imprevisibilidade ganhou ares de estudo científicos sério no início da década de 1960, quando o meteorologista americano Edward Lorenz descobriu que fenômenos aparentemente simples têm um comportamento tão caótico quanto a vida. Ele chegou a essa conclusão ao testar um programa de computador que simulava o movimento de massas de ar. Um dia, Lorenz teclou um dos números que alimentava os cálculos da máquina com algumas casas decimais a menos, esperando que o resultado mudasse pouco. Mas a alteração insignificante transformou completamente o padrão das massas de ar. Para Lorenz, era como se “o bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas“. Com base nessas observações, ele formulou equações que mostravam o tal “efeito borboleta”.

Falando de um trabalho de Morrison, estamos falando de metaficção, a identidade consciente dos mecanismos da produção para que o leitor não esqueça de que está diante de uma obra de ficção. Morrison lembra-nos que entre as muitas teorias conspiratórias que abundam o mundo real escondido no irreal, temos a teoria mimética. Assim, pelos criadores do Livro Negro, vemos uma fração do que Richard Dawkins escreveu em seu livro ”The Selfish Gene”, que diz que “nós – habitantes pensantes de Gaia – somos apenas seus hospedeiros e a ideia de termos o controle sobre nossas ideias torna-se ilusória, pois na realidade são as ideias quem tem o controle sobre nós.” Assim, eis o desafio humano pós-moderno, eis o maior desafio da Patrulha do Destino, combater as memes do projeto global, fugir das informações recebidas diariamente pelas microfendas sinápticas do cérebro humano, pois só assim haverá multiplicidade, criatividade, e articulação. Caso contrário, a humanidade está fadada ao limbo existencial de mórbidas realidades reproduzidas e impedidas de utilizar a mais sublime característica da espécie humana: a criatividade. Orkwith é a reprodução fictícia dessa tentativa global de dominação, o Livro Negro, a reprodução dessa ferramenta autodestrutiva, “no fim eles são devorados pela própria criação”. Interessante como Cliff em certos momentos representa o pensamento do leitor naïve, ingênuo e incrédulo, que olha para fora da página e diz “sei, mas isso um é livro ou é de verdade?” – ficção ou realidade (DP #21).

Nem verdade nem ficção: um paradoxo, pois nem o Livro Negro tem título, ele simplesmente é, não necessariamente existe. Os Homens Tesoura são a resposta de Orkwith à inquisição, seres baseados no vilão do livro Der Struwwellpeter (1945) de Heinrich Hoffman, cujo personagem “The taylor” (o costureiro) do conto The Story of Little Suck-a-Thumb serviu de inspiração para a sua criação, uma espécie de bicho-papão, e cujo trechos foram reproduzidos ipsis litteris ao final de DP#20, juntamente com uma reprodução de Richard Case  da gravura original para esse conto, “The door flew open, in he ran, The great, long, red-legged scissorman.” E novamente temos a intromissão de Cliff (leitor), “Eles são reais ou não?” “As duas coisas. Não vê?” responde Jane. E mais adiante, após o grupo se deparar com um dos Homens Tesoura capturados por Rebis, “Isso é real ou não?”, pergunta Cliff, “A realidade e a irrealidade não tem distinção clara em nossa circunstância atual”, responde Chefe.  Considere que “primeiro, há a montanha, depois não há a montanha, depois há”, diz Chefe para a equipe. Temos nessa passagem uma koan Zen, uma narrativa ou afirmação no Zen-Budismo que contém aspectos que são inacessíveis à razão, o sumário dos estágios da iluminação: antes, durante e após, uma metáfora do processo de mudança, assim como “Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?

Ao final da trama, Caulder pergunta a Joshua, “como está se sentindo depois de sua experiencia?”. “Foi como um sonho! Ficam vindo imagens e sentimentos, mas eu nao me lembro do que aconteceu depois que fui raptado esta manhã! Melhor assim, eu acho!” responde Joshua. A montanha russa pela qual os leitores são levados com os personagens chega ao final da jornada. Se não chega a ser veloz, é fatal, pois se o leitor piscar por um momento, perderá sua chance de saber mais, e se chegar ao final da corrida, irá ansiar por mais. E no final de tudo saberemos que esse grupo está disposto a não abandonar esse trem desgovernado na qual subiram por força da natureza de sua extranheza, pois no fim, o mundo que os negligencia pelas suas esquisitices, os convocarão: “o mundo precisa da Patrulha do Destino (…) quando o mundo racional desaba, nós damos conta… porque já estivemos lá! Nós conhecemos a loucura… o delirium… e nao temos medo!” Todos esses conceitos e muitos outros seriam amplamente abordados em The Invisibles e extrapolados em The Filth.

Vida longa à nova Patrulha do Destino.

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