Entrevistamos Tony Bedard!

O escritor Tony Bedard começou seu trabalho na indústria como estagiário na Valiant Comics, indo para a CrossGen em seguida e fazendo títulos muito importantes para a editora. Depois de passar por uma quantidade de experiências que poucos profissionais da área tiveram chance, desde aprender a fazer quadrinhos como editor, escritor e até letrista, Tony estabeleceu-se na DC Comics no início dos anos 2000. Sendo editor de títulos importantíssimos por lá, Tony se ascendeu como escritor e hoje é um dos mais acompanhados escritores de quadrinhos de super heróis.

Confiram abaixo uma entrevista exclusiva que fizemos com Tony durante estas últimas semanas por email. Aqui ele comenta sobre o início de sua carreira, alguns de seus melhores trabalhos e polêmicas. Muito obrigado, Tony, por dedicar um tempinho para falar conosco

[Nota 1: agradecimentos mais que especiais a Daniel HDR, Delfin e Vlad ‘Focus’, por ajudarem na criação desta entrevista] [Nota 2: esta entrevista será publicada no site em inglês dentro de 30 minutos]

Uma das antigas edições de Turok

1-) Tony, conte-nos um pouco sobre suas primeiras experiências com quadrinhos como leitor, e depois como profissional. Quais foram suas dificuldade quando entrou na indústria? E como conseguiu um emprego na DC Comics?

Tony Bedard: Meu primeiro quadrinho foi uma edição de Turok: Son of Stone, que peguei num mercado em Porto Rico quando eu tinha uns 4 ou 5 anos. Nunca esqueci aquilo, mesmo que não tenha me transformado num comprador regular de gibis até os 15 anos, quando Guerras Secretas (maxi-série da Marvel) saiu. Meus favoritos de todos os tempos são Monstro do Pântano, Demolidor e Nexus (que influenciou muito meus quadrinhos de ficção científica). Quando eu tinha 25 anos, entrei na indústria, trabalhando como estagiário na Valiant Comics. Eles me contrataram oficialmente e desde então me esforcei para me manter como um profissional da área. Consegui um trabalho na DC através de meu amigo Garth Ennis, que estava trabalhando com o editor Dan Raspler na época, e sabia que Dan estava procurando por um editor assistente. Aquela foi a grande mudança pra mim, e meus três anos de editor na DC foram uma grande experiência de aprendizado pra mim.

Harbinger #30, editada por Tony Bedard

2-) Você estava trabalhando na Valiant Comics quando a empresa foi comprada pela Acclaim. Isso aconteceu depois que Jim Shooter (o grande criador daquele universo editorial) foi demitido. Como você se sentiu naquela época? E por que, depois de um tempo, as coisas chegaram a um ponto em que um das mais promissoras editoras dos anos 1990 acabou declarando falência?

Tony Bedard: Eu cheguei na Valiant mais ou menos um mês depois que Shooter tinha ido embora… a empresa estava começando a decolar, lançando revistas de grandes vendas como Blooshot, Ninjak, X-O Manowar e Turok: Dinossaur Hunter. Foi fantástico e divertido naquela época, e eu fui presunçoso o suficiente para achar que ficaria ali pelo resto da minha vida. Mas também a linha rápido demais, tentando pegar uma fatia do mercado. Acabamos por canibalizar nossas próprias vendas e a qualidade caiu. Perdemos o que nos fazia especial, e então a bolha de especulação estourou. Acabei ficando sem nada em 1995, e um dos meus primeiros trabalhos depois disso foi escrever para Jim Shooter na Broadway Comics. Mesmo com todas as histórias horríveis que tinha ouvido sobre ele, ele sempre me tratou bem profissionalmente e gostei do meu curto tempo lá. Foi lá que conheci J.G. Jones, e desde então somos grandes amigos.

Route 666, criado por Bedard para a CrossGen

3-) Falando em empresas falidas, o quão triste você ficou quando teve que “apagar as luzes” do Sigilverse na CrossGen?

Tony Bedard: O mais engraçado é que a Valiant me preparou para lidar com a CrossGen. Quando fui pra lá, percebi que tinha uns 2 anos para contar algumas histórias boas e tentar me alinhar para arrumar trabalho em outros editoras. No fim das contas a CrossGen foi uma experiência incrível – até melhor que a Valiant. Estávamos todos sob o mesmo teto, podíamos trocar ideias, técnicas etc. Acho que todo mundo que trabalhou lá ficou melhor. Os coloristas podiam aprender coisas com gente como Laura Martin e Justin Ponsor. Os desenhistas podiam ver como os trabalhos de Greg Land ou Jimmy Chung ficaram fantásticos. Foi lá que gente como Steve McNiven, Frank D’Armata e Karl Moline floresceram. Veteranos como Steve Epting e Butch Guice revitalizaram suas carreiras. A CrossGen era um ótimo lugar, e eu ainda sinto falta de lá, mas eu a vi se expandir muito rápido, era a história da Valiant acontecendo de novo. Pelo menos os talentos de lá passaram a fazer coisas maiores e melhores.

Hourman de Tom Peyer, editado por Bedard

4-) Aqui no Brasil você é mais conhecido por seu trabalho na DC e na Marvel Comics. Apenas algumas pessoas sabem que você cresceu profissionalmente como um importante editor na Valiant, e logo em seguida na DC Comics. Você editou títulos aclamados, premiados, e completamente diferentes entre si, como Harbinger, DC Um Milhão, Transmetropolitan, Hourman e Fanboy. Você pode nos contar um pouquinho sobre cada experiência?

Tony Bedard: A melhor coisa sobre editar foi ter que ler textos que vinham de Grant Morrison, Brian Azzarello, Garth Ennis, Warren Ellis e todos os outros deste tipo. Foi uma grande educação para um aspirante a escritor ver como se faz textos concisos e limpos. Foi excelente também para criar bons relacionamentos criativos. O melhor exemplo, pra mim, foi Hourman, no qual acredito que Rags Morales tenha realmente brilhado, e Tom Peyer fez algo marcante – provavelmente foi a melhor escrita de sua carreira. Foi muito divertido também editar Transmet, onde tive chance de analisar o trabalho de tantos grandes artistas.

Green Lantern: New Guardians, por Bedard e Tyler Kirkham

5-) Desde seu trabalho como editor assistente da Liga da Justiça de Grant Morrison, você parece ter desenvolvido uma “relação pessoal” com Kyle Rayner. Tendo a chance de trabalhar com ele em New Guardians agora, o que você pretende adicionar ao personagem? Além disso, você diria que o trabalho de Ron Marz é a “pedra angular” para o personagem?

Tony Bedard: Ron definitivamente merece todo o crédito por fazer de Kyle Rayner um dos melhores personagens DC dos últimos 20 anos. É verdade também que eu “peguei” o personagem da Liga da Justiça. A dinâmica que Grant setou entre Kyle e Wally West era uma das melhores coisas que tinha na revista. Agora que posso focar em Kyle em New Guardians, quero mostrar por que ele é especial. Ele ganhou seu anel de lanterna verde de um jeito completamente diferente. Ele ter uma relação mais próxima com um Guardião do que qualquer outro lanterna. E ele terá a capacidade de trabalhar com todo o Espectro Emocional de uma forma inigualável.

6-) A minissérie The Great Ten (Os Dez Grandiosos) foi um fantástico épico multicultural. Você teve que pesquisar muito sobre a cultura chinesa para definir todos aqueles personagens? Como você imaginou encaixar os simbolismos da cultura deles em cada personagem?

Última edição de The Great Ten

Tony Bedard: Eu sempre gostei da história e da cultura chinesa, então quando Dan DiDio me ofereceu o projeto, aproveitei a chance. Além disso, tive chance de trabalhar com notas de personagens feitas todas por Grant Morrison, então eu tinha um material incrível nas mãos. Portanto, foi só uma questão de dar a cada personagem sua própria edição e tentar fazer com que cada uma delas tivesse um gênero diferente, dependendo do que era mais apropriado para cada um deles. A história do Mente de Trovão (Thundermind) foi como um velho gibi do Superman. A do Augusto General de Ferro foi mais como Guerra dos Mundos. Foi muito bom pra mim e para Scott McDaniel, que é um grande artista e um ótimo designer gráfico.

7-) A minissérie teria dez edições, mas acabou tendo apenas nove. Por quê?

Tony Bedard: Acho que foi por causa da queda nas vendas mesmo, eles queriam cortá-la na edição oito. O editor Mike Siglain lutou por uma edição extra, e fez toda a diferença.

Última edição de Renegados, por Bedard

8- ) Há algum tempo atrás, foi confirmado que você escreveria algumas histórias dos Renegados, mas isso nunca aconteceu. Quais seriam os temas de enfoque daquelas histórias e por que eles nunca vieram a ser publicadas?

Tony Bedard: Eu queria que o Batman unisse um time que o público pensasse ser um time de vilões, então eles poderiam interagir com bandidos de verdade e derrubar o submundo por dentro. Como foras-da-lei, eles teriam a habilidade de fazer o que a Liga da Justiça nunca conseguiu. Mas acho que minha visão não combinava com o que a DC queria. Mas ficou tudo bem.

9-) Vamos falar um pouquinho sobre o Besouro Azul. Você é porto riquenho e Jaime Reyes é latino também. Agora você está tendo a chance de contar a história dele para tantos novos leitores. Você vai colocar um pouco de suas experiências pessoais e pensamentos no personagem? Você é Jaime?

O novo Besouro Azul

Tony Bedard: Blue Beetle se tornou um projeto muito pessoal pra mim, definitivamente. Me mudei de Porto Rico com minha família quando tinha 5 anos, e mesmo que tenha crescido em Atlanta, em casa a cultura ainda era porto riquenha. Com Jaime a coisa é um pouco diferente, pois ele é mexicano-americano, mas há certas coisas universais na cultura latina. Eu percebi um certo fervor em algumas resenhas por utilizar muito “spanglish” (Nota: o equivalente ao nosso “portunhol”), mas era assim que a gente conversava em casa, e eu soube que muitos leitores em El Paso disseram que os diálogos soaram verdadeiros pra eles.

10-) Ficou claro em Blue Beetle #1 que você foi muito verdadeiro à origem dele. A DC lhe pediu isso? Você gosta das primeiras histórias de Jaime?

Tony Bedard: A última série do Besouro Azul é uma das publicações que mais gosto da DC, especialmente a fase John Rogers/Rafael Albuquerque. Eu queria honrar o espírito desta série, mas refizemos a origem de Jaime para que fosse um pouco mais simples para novos leitores. Fizemos a relação de Jaime com o Escaravelho mais adversária, e deixei Paco um pouco mais falho (um membro de gangue, e tal), pois queria uma forma de explorar este lado da vida numa cidade que está ao lado de Ciudad Juárez, a mais perigosa cidade do mundo.

REBELS, grande título que Bedard trouxe para a DC nos últimos anos

11-) Já que é um Relaunch, por que não usar Ted Kord? Foi uma decisão sua ou da DC? Ted vai aparecer nas suas histórias em algum momento?

Tony Bedard: Jaime Reyes é o Besouro Azul que queríamos popularizar no momento. Nada contra Ted, mas Jaime é um personagem incrível – o melhor da DC desde Kyle Rayner, eu acho. Jaime é o Besouro Azul aparecendo nos desenhos do Batman (Brave & The Bold) e em Smallville. E Jaime é o melhor personagem hispânico que existe. Portanto vamos utilizá-lo. Acho que Ted Kord vai aparecer em algum momento, ele não foi arrancado da cronologia. Mas por enquanto não tenho planos pra ele.

Tony na Megacon, em 2010

12-) Este é uma pergunta clichê, mas não podemos fugir dela. Quais são suas influências, especialmente fora dos quadrinhos? Aliás, você sempre quis ser um escritor de quadrinhos ou chegou a pensar em outras coisas no começo?

Tony Bedard: Eu sempre gostei de ler e de contar histórias, então acho que sempre quis ser um escritor. Eu sou influenciado por mitos gregos, J.R.R. Tolkien, Michael Moorcock, Robert E. Howard, Carlos Castañeda, Herman Hesse, Star Wars, Ultra Man, Starblazers, Frank Miller, Alan Moore, Mike Baron, Los Bros Hernandez etc. E eu aprendi muito com as pessoas com quem trabalhei, como Bob Layton, Billy Tucci e Dan Raspler, só pra citar alguns.

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