Donnie Darko e Superman: Rápido ensaio sobre heroísmo e sacrifício

Este é um mero e curto ensaio sobre o filme Donnie Darko e sua relação mais crua com o universo dos super-heróis. Donnie Darko é um trabalho cultuado do diretor e roteirista Richard Kelly, focado nas mais diversas teorias de universos tangentes, viagens no tempo e ciência marginal (ciência “fringe”). Segundo Kelly, seu trabalho era uma visão pessoal da ficção científica somada à cultura dos super-heróis. O texto abaixo é uma visão pessoal, deste redator, sobre a simbologia dos super heróis (mais especificamente do Superman) visível em Donnie Darko.

Antes de mais nada vamos ouvir Mad World, clássico do Tears for Fears que foi revisitada pelo músico Gary Jules para o filme. A letra da canção, apesar de escrita sob a ótica de um adolescente que vê as loucuras do mundo, tem milhares de interpretações diferentes, caindo como uma luva para o auto sacrifício que temos no filme. Vale dizer também que este artigo é para quem já conhece o filme de 2001, pois caso contrário a compreensão do texto será bastante vaga.

É duro dizer, mas quando as pessoas andam em círculos, o mundo é louco

Donnie Darko, assim como o maravilhoso Corpo Fechado (1999) de M. Night Shyamalan, é responsável por tratar o mito do herói (ou super herói) de forma a colocá-lo em nosso mundo, e não o contrário como geralmente acontece nas histórias em quadrinhos. A mudança de perspectiva é necessária não apenas pelo uso do veículo cinema, mas também para garantir empatia do espectador em relação àquele herói mundano e sem roupas coloridas. Donnie Darko (Jake Gyllenhaal), David Dunn (Bruce Willis) e Superman são as figuras mais especiais de seus mundos, fazendo deles não apenas símbolos do que é certo, mas também desvios naturais do ser comum para o mito.

Joseph Campbell, conhecido principalmente por suas obras O Herói De Mil Faces e O Poder do Mito, trata estes arquétipos de forma definitiva, e é natural que as diversas culturas da humanidade utilizem seus heróis desta mesma forma, ainda que as obras supracitadas tenham sido feitas muitos séculos depois da imortalização do mito. Superman e Donnie encaixam-se perfeitamente nestes arquétipos por serem altruístas e aceitarem caminhar na jornada do herói até o momento do sacrifício.

Os sonhos em que estou morrendo são os melhores que já tive

Campbell define que o momento do sacrifício do herói é também o momento de seu renascimento. Este sacrifício pode ser originado do altruísmo do herói ou da redenção do vilão / anti-herói. Este elemento da mitologia clássica do herói é que a melhor une Donnie Darko e Superman, pois ambos começam suas trajetórias rumando para a jornada heroica com muitos questionamentos, a ponto de recuarem por diversas vezes até chegarem ao que foram destinados.

Darko, por ter um foco maior no realismo e na humanidade, acaba escolhendo salvar o mundo todo morrendo, o que não tem mais volta. Já o Superman sacrificou-se para salvar a sua cidade (e consequentemente o mundo, dado o tamanho da ameaça do Apocalipse), mas teve uma segunda chance de continuar exercendo seu poderio heroico pelos anos seguintes. O mais interessante destas colocações é que a principal questão formada daí é a martirização destas personalidades. Donnie e Clark estavam destinados a mudar o mundo, e somente com o emocional abalado eles puderam se desenvolver em criaturas mitológicas.

O sorriso estampado no rosto de Donnie quando os restos de um avião caem em seu quarto mostra os elementos da aceitação e do auto sacrifício. Sabendo que voltar no tempo através de um buraco de minhoca era a garantia de sobrevivência do mundo, o garoto preferiu aceitar esta possibilidade para então morrer no lugar de toda a vida no planeta. Este elemento é quase corriqueiro no Superman, pois tornou-se parte de sua personalidade nos anos seguintes à sua criação e funciona como seu grande diferencial até hoje. O clássico Superman – O Filme de 1978, estrelado por Christopher Reeve, trouxe este aspecto do herói para o mundo real ao colocá-lo mais tempo uniformizado e usando seus poderes do que em sua vida “civil”, como um mero repórter. Curiosamente, neste mesmo filme, também viajamos no tempo com o herói, que numa simbologia (até um pouco engraçada hoje em dia) interessante gira a Terra ao contrário para voltar ao ponto exato em que salvaria a vida da amada Lois Lane.

Quase 30 anos depois tivemos a chance de ver o auto sacrifício do Superman elevado aos níveis máximos de simbolismo. Em Superman – O Retorno, de 2006, nosso herói impede a manifestação kryptoniana maligna engajada pelo vilão Lex Luthor, que utilizou os cristais da Fortaleza da Solidão para criar um continente auto expansível através dos oceanos terrestres. Superman consegue, de forma incrível e divina, carregar este continente nas costas até o espaço, eliminando-o de nosso planeta (clique aqui para ver a cena). Portanto, assim como aconteceu com Jesus Cristo, o Superman fez o sacrifício máximo pelo bem de todos e voltou à vida (mas de forma carnal, e não espiritual) dias depois. Darko também renasceu, mas em memória nas mentes de seus entes queridos – mas o filme deixa uma sensação estranha e familiar na menina Gretchen, interpretada por Jenna Malone. Gretchen era sua namorada no universo tangente, mas não teve chance de conhecê-lo neste universo.

O bem comum através da morte é o ponto mais elementar entre estes dois heróis e ambos foram estampados com maestria em suas aparições mais importantes.

Lugares desgastados, faces desgastadas

Mesmo tendo sido feito há dez anos, Donnie Darko provou que ainda é possível renovar o mito super heroico. Com a expansão hollywoodiana atual neste âmbito de fantasiados e superpoderosos, parece que perdeu-se um pouco da filosofia que estes filmes poderiam passar. O vindouro Superman, que sai em 2013, tem chances de trazer um pouco de mensagem e esperamos que isso aconteça. Obviamente o herói não vai morrer como Darko, nem queremos isso e ele nem precisa disso para provar suas capacidades altruístas, mas é muito importante que isso não seja esquecido.

Não há problema em ficarmos fadados a termos filmes como Corpo Fechado e Donnie Darko para mostrarem como os super-heróis são um lado crucial na cultura popular e como eles podem ser analisados com tanta profundidade se retratados da maneira correta, mas com tantos filmes do gênero pipocando pelas telonas, não seria nada ruim termos as mensagens anexadas aos heróis originais e não apenas às suas homenagens.

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