(Análise) O Retorno de Bruce Wayne Parte 2

[Análise do Retorno – Parte 1]

Na época em que falamos da segunda edição de O Retorno de Bruce Wayne (minissérie que no Brasil está saindo em A Sombra do Batman, da editora Panini Comics) o artigo foi feito de forma mais pessoal e menos jornalística, justamente para mostrar o ponto de vista de fã de uma decisão editorial da DC que começou a trazer uma certa decepção. A volta de Bruce Wayne era anunciada, sempre foi, no entanto ter Dick Grayson atuando sob o manto lendário do Homem-Morcego deu tão certo que parecia incabível trazer Bruce para tormar lugar de seu principal pupilo. Um ano depois a opinião não mudou tanto, mesmo com os planos do DC Relaunch colocando Dick num outro ponto.

Grant Morrison poderia, é claro, escrever Batman e Robin por anos e anos, se isso fosse possível, mas não é e sabemos que os planos dele para o Batman, enfim, estão se esgotando. A segunda edição da minissérie originalmente chamada de The Return of Bruce Wayne foi bastante superior à primeira, mas está explícito há a falta de algum elemento nesta narrativa. Bruce Wayne é personagem multidimensional e de fácil empatia com qualquer leitor, mas a dinâmica inserida há um ano atrás na mitologia do Homem-Morcego com B&R é tão fantástica que esta nova minissérie fica apenas à sombra dela.

Com uma arte linda e muito retrativa da Frazer Irving, vemos Bruce ser enviado ao final do século XVII, na época da caça às bruxas que se tornou marco na história da cultura daquele país ocorrida em Salém, Massachusetts, mas claro que desta vez somos levados à Gotham deste período. Todo o ambiente é lindo, e história é sim muito bem contada e a relação de Bruce com suas encarnações começa a fazer mais sentido, bem como suas habilidades de detetive tornam-se mais acentuantes com o desenrolar da trama, que envolve a morte de um cidadão local causada por bruxaria. O que tem de errado aí? Uma coisa crucial: a investigação poderia acontecer em qualquer outra era temporal que não faria diferença. Ela serviu apenas para criar-se o mito do Irmão Mordecai Wayne em Gotham, que iria se tornar um símbolo de Deus contra a força maléfica que pairava sobre a cidade naquela época.

Comentamos em algumas resenhas atrás que Mordecai Wayne é o próprio Bruce. Morrison constrói uma mitologia para a família Wayne somando elementos que muitos escritores deixaram na linha do tempo do herói nas últimas décadas e faz a primeira árvore genealógica completa do Batman. O autor, como veremos abaixo, tenta enriquecer a história com tudo o que pode para fazer valer seu trabalho, no entanto seu cansaço para blockbusters fica claro.

Por outro lado temos a quebra da narrativa com os heróis que procuram por Bruce no passado (Gladiador Dourado, Rip Hunter, Superman e Hal Jordan), que começam a ter uma participação realmente mais ativa nesta edição. Presentes ao final do tempo, eles enfim nos revelam porque Bruce não pode de forma alguma voltar ao século XXI: com a maldição imposta por Darkseid, a presença do herói em nosso período da linha temporal causará um paradoxo que levará à uma catástrofe sem precedentes. Certamente é um conceito que será desenvolvido melhor nas 4 edições restantes, mas sua premissa já passa a ser muito mais interessante que na edição #1.

Ao serem anunciados ao fim da linha temporal momentânea (linha formada pelos momentos em que Bruce é transportado com a radiação ômega, o que dura poucos dias), mais uma vez os heróis ficam presos, a bolha de viagem no tempo de Rip é roubada e eles ficam sem chão! Bruce é transportado para a era da pirataria e terá que enfrentar o terrível Barba Negra – mas desta vez sua memória está mais ativa e ele se lembra que é o “Homem dos Morcegos”.

Até agora a minissérie parece sofrer para convencer o leitor de que Bruce precisa voltar e isso só nos faz chegar a uma conclusão: Grant Morrison está de saco muito cheio de eventos, sejam eles de que tamanho for, mas a DC sabe a lucratividade que seu nome gera e ainda custa a dar sossego pra ele desenvolver projetos mais pessoais. Uma pena que, numa dessas, quem paga caro é o leitor.

ANOTAÇÕES E REFERÊNCIAS (numeração americana)

1-3-A princípio o leitor fará associações deste monstro com a clássica mitologia do Chtulu e H.P. Lovecraft, mas a referência é extremamente rasa e provavelmente Morrison nem quis fazê-la, na verdade. Portanto é apenas um monstro.

4-Muita gente não sabe mas o fim dos tempos das linhas temporais da DC Comics é criação de Dan Jurgens. São inúmeros os leitores que não reconhecem o valor deste artista para a indústria, mas Jurgens tem influência crucial na DC até hoje e ter um escritor como Morrison utilizando uma ideia sua só pode significar que ela é muito boa! O Século 64 é o lar do vilão Abra Kadabra (salvo engano criado por Geoff Johns). A dinâmica de Rip Hunter e Gladiador Dourado também é uma ideia estabelecida por Johns e Morrison fez questão de usar.

5-Geometria básica euclidiana. Morrison é escritor e humanista, mas gosta de cálculos também =)

6-Morrison está fazendo um híbrido da teoria das cordas com o próprio Universo DC. Cada universo é uma corda, somando em teoria 52 cordas – no entanto sabemos que já foram mais, como agora devem ser menos com a destruição dos monitores acontecida no término de Crise Final. Outro detalhe bacana aqui são as definições dos Espaços A e B, teorias já muito comentadas desde nossas primeiras resenhas do Batman de Morrison. Os devoradores de sois singram por estas dimensões bem como servem de alimento cósmico para algumas outras entidades.

O Homem-Animal volta à vida em 52 após singrar pelo Espaço B graças aos aliens amarelos e à energia de um Devorador de Sois. O Bat-Mirim cita os Espaços A e B também quando Batman está perto de tornar-se a violenta encarnação de Zur En Arrh – e vale dizer que a forma como ele age para sobreviver nesta minissérie assemelha-se muito a esta.

7-O Cubo do Tempo somos nós, os leitores. Quebrar o quarto mundo é um processo natural do trabalho de Morrison. A hiperfauna tem muito a ver com o Devorador de Sois que vimos em Grandes Astros Superman, portanto aqui deve ser a mesma coisa.

10-Martin Van Derm certamente é ancestral de Nathan Van Derm, o cara que constrói a primeira Mansão Wayne em Gotham City. Um fato curioso é que Nathaniel Wayne atende pelo nome de Malleus, que significa “martelo” em latin – obviamente é uma referência a “malleus maleficarum”, um tratamento dado a bruxas pela Inquisição Católica traduzido simplesmente como Martelo das Bruxas.

14-Os primeiros rascunhos da obra. Van Rijin, comentado aqui, é o pintor Rembrandt Harmenszoon van Rijn, ou simplesmente Rembrandt. O pintor do século XVII ainda é considerado por especialistas como o melhor do mundo. Não à toa Morrison quis Frazer Irving fazendo esta edição, já que o artista tem muita influência da pintura clássica em seus trabalhos. Mais sobre Rembrandt aqui.

28-Darkseid tem tanta inveja de Batman que tenta colocar uma arma na mão de seu inimigo mais uma vez, mas mesmo assim o herói reconhece o ardil cósmico e toma sua própria solução. Annie também pode ser um fruto de Darkseid, pois Bruce não a salva.

29-Annie amaldiçoa toda a linhagem dos Wayne, como vimos. Ainda não ficou claro se esta madição aplica-se a Bruce, mas sua aparição no final dos tempos pode ter algo a ver justamente com a liberação dele.

31-Muito provavelmente a próxima edição será passada na Guerra da Independência dos Estados Unidos (ou simplesmente Guerra Revolucionária, como eles a chamam). Teremos Darius Wayne, o antepassado de Van Derm e a construção da Mansão Wayne.

32-Barba Negra – não poderia ter outro nome!

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