[Estante Empoeirada] Authority – Volume 1: Sem Perdão

Criação de Warren Ellis com desenhos de Bryan Hitch e lançado no final do século XX pelo selo Wildstorm, o Authority é a superequipe que definiu como as superequipes seriam no século XXI. Esse encadernado, lançado pela editora Devir em 2005, reúne as primeiras 8 edições da série original, que contém dois arcos de histórias: “O Círculo” e “Alter-Naves”. Vamos à sinopse:

E se os super-heróis decidissem realmente mudar o mundo? E se começassem a agir do jeito que nós gostaríamos de agir diante de problemas insolúveis? E se nós começássemos a pensar como super-humanos, numa escala que nunca imaginamos antes?
AUTHORITY ousa imaginar um mundo além disso tudo e sem “panos quentes”… Sua diretriz primária é algo do tipo “vilão bom é vilão morto”, algo que, definitivamente vai contra as posturas dos quadrinhos de super-heróis que estamos acostumados a ver…
Das cinzas de um supergrupo financiado pela ONU, surge uma nova equipe de super-heróis que usarão seus incríveis poderes e habilidades para fazer com que o planeta Terra seja um lugar melhor para se viver.
Jenny Sparks, conhecida como o Espírito do Século 20, reuniu Jack Hawksmoor, o Doutor, Swift, a Engenheira, Apolo e Meia-Noite. Eles formam o AUTHORITY e, juntos, irão mudar o mundo… de uma vez por todas!
Este primeiro volume, escrito por Warren Ellis (de Planetary) e desenhado por Bryan Hitch (de Os Supremos) proporciona ao leitor uma viagem alucinante ao lado de uma superequipe cujas ações atingem proporções globais.
192 páginas
Brochura
Editora Devir


O Círculo

Roteiro: Warren Ellis

Desenhos: Bryan Hitch

Logo no início da primeira história já sentimos o clima imediatista do roteiro de Ellis: nada de origens complicadas nem de grandes ameaças que só servem pra forçar os heróis a trabalharem juntos e formar a equipe. O Authority já é uma equipe formada, mas que ainda não se apresentou ao mundo. Jenny Sparks, o espírito do século XX, é a líder da equipe. Com seus poderes baseados em eletricidade, ela fazia parte de outra equipe, o Stormwatch, que existia antes do Authority mas que foi desativada. Ao ver um grupo de terroristas superpoderosos destruir metade da cidade de Moscou, ela leva o Authority para sua primeira missão: encontrar os terroristas e destruí-los antes que ataquem novamente.

Ellis prende seus leitores desde o início com o clima imediatista e frenético que ele monta logo nas primeiras páginas, informando apenas o essencial que precisamos saber e descartando todo o supérfluo. Portanto, a origem da equipe e dos personagens não é relevante no momento, basta saber que existia outro supergrupo antes que se desfez depois de uma série de desastres.

A atitude revolucionária da equipe pode ser vista já nesse primeiro arco. Eles são violentos e inclementes, encontram seu inimigo e o matam sem pensar duas vezes. Alguém que não leu a história poderia comparar essa atitude com a dos personagens da Image nos anos 1990, por causa da violência, mas seria uma comparação injusta. A violência do Authority não é gratuita, ela funciona a favor da história, e não o contrário. O Authority quer impor a sua visão de mundo, não importa o que os outros pensam disso, eles tem o poder, então eles dizem o que é melhor para as pessoas. Esse tipo de atitude ditatorial, de impor a sua visão de bem estar, liberdade e de democracia por meio da força, virou padrão após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos quadrinhos e muito além deles. Podemos ver isso nos X-Men pós-Complexo de Messias, nos Vingadores e até em algumas versões da Liga da Justiça, mas Ellis foi um visionário ao fazer isso no Authority antes dos atentados (essa revista é de 1999).

Resumindo essa primeira história (spoilers à frente), um grupo terrorista conhecido como O Círculo pretende destruir 3 grandes cidades ao redor do mundo para marcar o globo com o seu símbolo. O objetivo é puramente terrorista, eles não querem dinheiro nem nada, apenas o terror puro e simples. Depois de destruir Moscou, o Authority começa a investigar e consegue confrontá-los quando eles atacam Londres. A terceira cidade atacada é Los Angeles, quando o grupo finalmente acha um meio de contra-atacar e destruir completamente os terroristas.

Essa primeira história serve para Ellis mostrar a todos o objetivo da série: destruir os conceitos clássicos e impor novos conceitos. O conceito clássico é representado pelo vilão clichê, um megalomaníaco que quer dominar o mundo. O novo conceito são os heróis inclementes, que vão até as últimas consequências, mas que não deixam de ser heróicos, ou seja, não são anti-heróis. Essa foi a apresentação da série, as próximas histórias se aprofundarão mais nos personagens e no ambiente onde eles vivem.


Alter-Naves

Roteiro: Warren Ellis

Desenhos: Bryan Hitch

Em uma dimensão paralela à nossa, a Terra foi invadida por uma raça alienígena, que utilizou as mulheres humanas para gerar híbridos que dominaram o mundo. Essa dimensão paralela, conhecida como A Volúvel Albion, já havia tentado invadir o nosso mundo antes, mas foi repelida por Jenny Sparks. Agora, eles tentam novamente realizar a invasão, mas dessa vez Jenny está acompanhada do Authority, e não só vai repelir a invasão como vai até o mundo deles destruir o seu comando e impor a sua visão de governo.

Essa história explora mais profundamente dois pontos que foram apresentados no primeiro arco. O primeiro é a Sangria, uma espécie de vaso sanguíneo interdimensional, que conecta todas as realidades existentes. É nesse espaço entre as dimensões que navega a nave que serve de base para o Authority, através dela eles podem ir imediatamente para qualquer parte do mundo, em qualquer dimensão. Atualmente o conceito da Sangria foi expandido para todo o multiverso DC, já que a Wildstorm é um selo da DC, e encontra-se atrás da Muralha da Fonte.

O outro ponto é a atitude ditatorial da equipe, mostrada muito bem quando eles vão até a Volúvel Albion. Lá, eles simplesmente afundam toda a Itália, matando todos os habitantes, e dão para os cidadãos um recado típico de uma ditadura: “Somos o Authority. Comportem-se.” A Engenheira, ao perceber o que eles fizeram, chega a se questionar, dizendo: “Acabamos de fazer algo realmente assustador. Nós mudamos um mundo. Nós chegamos e mudamos as coisas pro jeito que achamos que elas devem ser.

Mesmo que não tivesse sido o objetivo do autor, essa atitude nos leva a questionar muito do que vivemos hoje, quando as grandes potências viram-se pra um país e dizem que o seu sistema de governo é errado, e que deveriam adotar o sistema deles, e quando o pequeno país se recusa, o grande simplesmente o obriga a fazê-lo, seja militarmente, seja economicamente. Com base em que um país pode dizer que o outro está errado e impor a sua visão? Mas, devaneios à parte, voltemos ao Authority.

A arte de Bryan Hitch é outro espetáculo. Os quadros, em sua maioria, são widescreen, seu objetivo principal é dar ao leitor a sensação de estar sobrevoando aquele mundo e vendo as coisas acontecerem de uma perspectiva única. Esse também foi um estilo que influenciou muitos artistas e que se popularizou bastante depois do lançamento desta série.

A edição da Devir é muito boa, porém cara, apesar de valer muito a pena. Fica a expectativa de que a Panini relance esse excelente material a um preço mais acessível.

Nota: 9,5

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