Filosofando – O Artigo definitivo sobre Crise Final

Chegamos ao fim. A Crise Final alcançou a última edição aqui no Brasil e terminamos com ela uma longa jornada pelo rico universo da DC Comics sob a visão de seu escritor mais criativo e controverso. Este artigo é a maior análise que já fizemos para uma única história, e esperamos que vocês nos acompanhem até o final dele.

Antes de falarmos da última edição e explicar tudo que ela significa para a história, para os leitores e para o próprio escritor vamos comentar sobre Superman Beyond, publicada recentemente aqui no Brasil também em Crise Final Especial nº 6, escrita por Grant Morrison e desenhada por Doug Mahnke. Contextualizando esta história, ela se passa antes de Crise Final #6, e mostra a busca de Clark Kent como seu alter-ego para a cura para sua esposa que jaz num leito de hospital em estado gravíssimo. É uma pena que a publicação nacional não contou com o 3D, isso foi um erro incalculável da Panini Comics, pois este detalhe não é meramente um luxo da revista, mas sim uma forma de entendê-la da mesma forma como o autor a concebeu, para que nós tenhamos todo acesso e entendimento das diferentes dimensões que ele quer nos mostrar. Para quem já viu as edições americanas perceberam como a diferença é crucial e enriquece demais o fator 4D, sobre o qual falaremos mais á frente.

Leitores com um pouco mais de percepção dos roteiros vão perceber que, antes de mais nada, esta minissérie do Superman é uma grande analogia à própria Crise Final: na Terra chegou Darkseid e seus deuses transformando toda a população em “minions” seus. No além dos limites da existência, pelos veias sanguíneas do multiverso, um vampiro transformou outros como seus e eles querem todo o sangue da vida que existe tornando tudo isso uma ode a si mesmos. Mandrakk é o grande vilão da existência científica dos mundos – Darkseid é o vilão mitológico que veio tomar a Terra como seu reino. Sacaram? :D

No fim, Superman Beyond é uma série do herói, apenas isso. Vemos-o triunfar sobre os grandes desafios pelo que mais lhe move: o amor pelo próximo, no caso sua própria esposa. Dentro deste contexto ele é colocado em toda a existência dos universos, carregando mundos como Atlas nas costas e colocando tudo em seu lugar. Bacana, não? Principalmente porque o Superman, em seu núcleo mais profundo, é isso: um deus que caminha entre nós. Por isso, os maiores de seus desafios têm que ser sobre-humanos. Aproveitando-se desses pequenos conceitos, Morrison nos mostra suas criações mais recentes (que certamente serão utilizadas em sua vindoura série Multiversity) e as grandes homenagens à cultura pop e à própria DC Comics e sua mitologia, sem que se precisa saber demais sobre cronologia.

Enfim, vamos entender a estrutura disso tudo? Zillo Valla tirou o Superman da existência normal em Crise Final nº 3, mas sua aventura aconteceu no espaço entre batidas do coração; então ele cura Lois e sai do hospital, a chuva para de cair e o sol sai, e então ele vai para o futuro pela convocação da Legião dos Super-Heróis fazendo parte da minissérie Legião dos 3 Mundos 1000 anos no futuro, de onde ele retorna para Crise Final nº 6. Simples assim =)

A Polêmica das Criações Particulares

Muita gente reclamou que Morrison criou uma série de personagens para esta Crise para utilizá-los as grandes ferramentas da mini. O questionamento principal destes leitores foi: quem ele é para criar esses caras sobre os quais a gente não sabe nada? Chega a ser gozado obter que estes mesmos leitores são aqueles que acham que a Crise nas Infinitas Terras o maior evento de todos. De fato ele é memorável e a pedra fundamental para todos os que vieram depois (inclusive este, é claro). Mas quem se lembrar bem vai se tocar que Monitor e Anti-Monitor eram personagens que apareceram ali (ok, o Monitor apareceu em alguns tie-ins, mas era só um misterioso ser poderoso), bem como são Nix Uotan e Mandrakk, as maiores analogias ao grande clássico de Marv Wolfman e George Pérez – aliás, pra quem não sacou ainda, Nix Uotan É o Monitor clássico, sendo inclusive visto desta forma pelas enciclopédias DC na internet (mais sobre isso aqui). http://www.dcuguide.com/chronology.php?name=nixuotan

Com tudo isso o fator deus ex-machina funciona muito a favor do criador, não sendo compreendido apenas por quem não quis entendê-lo. A série É auto-contida e ninguém precisa saber quem foi Darkseid para ver o potencial maligno que ele possui – os diálogos simples e objetivos colocados no decorrer de toda a série a explicam por conta. Todo o glossário que preparamos há meses aqui no Multiverso DC serve apenas para uma complementação luxuosa da experiência que é ler esta série. Ao final deste artigo, após falarmos de toda a última edição

Ah, e antes que falemos das referências desta minissérie de duas partes do Superman, vamos recapitular a ordem de leitura da série e a prova de que, se feita corretamente pelo leitor, tudo será entendido facilmente:

Anotações e Referências (Capítulo 1)

1-Quem é das antigas vai se lembrar dessa: a Liga da Justiça enfrenta o Vampiro Cósmico em Justice League of America #96, numa imagem idêntica a esta primeira página. Vale destacar que o Superman está vestindo uma espécie de armadura e o rosto não é exatamente o que nós conhecemos, mas isso se deve ao aspecto “Zenith” passado a pedido do escritor. O que pouquíssimas pessoas perceberam ao lerem essa revista é que esta primeira página mostrando este conflito com o splash já em seguida levando-nos de volta ao presente é um estilo bem comum de narrativa dos anos 1970 – a Marvel e Roy Thomas faziam isso de monte. Ótima escola a de Morrison =)

2-6-Isso aconteceu em Crise Final nº 3 para quem não se lembra. Agora percebam como a editoração da DC Comics pode ser muito sem vergonha às vezes: lembram-se da terrível minissérie Contagem Regressiva: Arena, o pior dos tie-ins de Contagem Regressiva? Ela é um fruto literalmente comercial de uma das premissas desta minissérie do Superman, já que o recrutamento dos grandes campeões do multiverso foi o que aconteceu lá, mas para eles darem porrada indefinidamente. Ah, Dan DiDio…

8-”Ultima Thule” (nota: alguém sabe como ficou aqui no Brasil?) basicamente significa mais norte que o norte – há também um poema de Henry Wadsworth Longfellow que talvez seja relevante para a história. A palavra “ultramenstruum” apareceu pela primeira vez em Os Invisíveis #22 de 1999. A Sangria foi citada pela primeira vez em Stormwatch #7 de 1998, conceito criado por Warren Ellis. Aparentemente a menção da Überfraulein sobre céus sangrando na terceira edição da mini principal é uma implicação à menstruação. A sangria, é claro, também pode ser entendida como o espaço além dos limites de uma página de HQ. O “mundo dos vermes” apareceu pela primeira vez num poema de William Cullen Bryant.

A visão 4D também veio dos Invisíveis, numa ideia de representar algo muito maior um construto tridimensional em um plano bidimensional, como uma página de quadrinhos. Uma HQ em 3D dá muito mais facilidade de como representar estas quatro dimensões. Para quem não sabe a quarta dimensão, é claro, é o tempo – com esta visão é possível enxergar múltiplos tempo simultaneamente.

9-O Dr. Manhattan fodão aqui apareceu nos desenhos de Nix Uotan em Crise Final nº 2. o Capitão Marvel é o da Terra-5 (uma variação da antiga Terra-S) em que os personagens da Fawcett vivem em suas encarnações originais.

12- Esse Ultraman é do universo de anti-matéria da minissérie Liga da Justiça – Terra 2, criada por Grant Morrison e Frank Quitely há alguns anos. Ele não deve ser confundido com o do Sindicato do Crime.

14-A Terra-51 é do Kamandi, que foi pro brejo, vista ao final de Crise Final nº 1 (desconsiderem Contagem Regressiva).

15-Olhem aí a Lady Blackhawk e Doc Fate na Terra-20.

18-”Todos estes universos vibram em frequências diferentes” diz o Overman/Übermensch.

19-O Limbo apareceu pela primeira vez em Homem-Animal #25, inclusive com a coisa do macaco com uma máquina de escrever. Para quem não sabe (ou não se lembra :D) é lá que ficam todos os personagens de quadrinhos completamente esquecidos pelos leitores. No painel mais abaixo está o Bobo da Corte (criado em 1966), estão Lâmina da Noite, Ace o Batcão, Balística, Golem e alguns outros – alguém consegue identificar todos?

20-Um pedaço da Pedra da Eternidade. Estaria escrito ali na entrada da biblioteca “facilis discensus averni”? “A estrada para o mal é fácil”.

21-A ideia de páginas infinitas com conteúdo infinito vem de “A Biblioteca de Babel” de 1941, escrito por Jose Luis Borges, um dos maiores nomes da literatura argentina. O conceito foi utilizado novamente em seu livro O Aleph de 1949.

22-“No início” é como uma série como um ponto inicial finito começa; “anteriormente” é como um ponto de um conto em série começa. Este é, claro, um multiverso em série.

23-O último painel desta página se parece muito com cenas da Crise nas Infinitas Terras, não?

24-O Superman dourado aqui pode vir de DC Um Milhão. É possível que o conceito principal dele como herói seja a “falha” original da perfeição dos Monitores.

26-“Quem imaginava que o dia do holocausto chegaria novamente”, uma frase vinda direto da já citada Justice League of America #96.

29-Citação à Balsa do Authority aqui. Ela faz parte da frota dos Monitores.

30-O livro pode conter todo tipo de história possível, incluindo aquelas em que o mal não triunfa.

Anotações e Referências (Capítulo 2)

4-“Eu não gosto de nazistas me dizendo o que fazer” – até porque nos anos da Segunda Guerra Mundial um dos principais vilões do herói era o Capitão Nazi.

5-Salvador ou Majestade, Supremo, Hipérius, Homem da Guarda, Ícone ou Diretor. Estes nomes nada mais são que formas de entender o próprio Superman em suas diversas releituras. Vamos entender de onde eles veem?

  • Salvador é o Samaritano de Astro City;
  • Majestoso / Majestic é a analogia ao Superman do universo Wildstorm, que teve suas próprias revistas algumas vezes;
  • Supremo é o Superman criado por Rob Liefeld, escrito pelo grande Alan Moore;
  • Homem da Guarda / Guardião é o Sentinela da Marvel, criado nos anos 2000 como uma espécie de Superman da editora;
  • Hipérius é Hipérion, também da Marvel, criado para o Esquadrão Supremo;
  • Ícone, do universo Milestone (nós o veremos em breve novamente na vindoura série de Dwayne McDuffie);
  • Diretor (tradução de “Principal”) é Prime ou Primordial do Ultraverso da falecida Malibu Comics.

Faltaram nessa listinha aí: Marvelman/Miracleman, o mais incrível analogia do Homem de Aço já feita e Apollo, do Authority, que sempre foi uma espécie de Superman também. Cronologicamente, a palavra “Shazam” ainda pode ser dita por Billy, já que ela não foi substituída pelos deuses do mal em Crise Final (isso só vai acontecer quando o Homem de Aço desaparece na mini principal).

7-As Sombras criadas por Wolfman e Pérez dão um visual muito maneiro para esta parte da narrativa.

9-Como o Superman é americanizado. “Não existe dualidades”, um dos pontos filosóficos favoritos de Morrison, que também nos remete ao clímax de Os Invisíveis.

10-E o Dr. Manhattan diz “apenas simetrias” numa página oposta à de Watchmen, na qual até vemos o Submarino Amarelo! O Dr. Manhattan (não tem como chamá-lo de outra forma, na boa) comenta algo que dá um perfeito ponto filosófico (ou simetria!), que é o bem/mal contra o além-do-bem-além-do-mal, além da ideia do Dr. Manhattan-como-Capitão Átomo-como-Superman, um jogo de referências multinível que Morrison joga conosco aqui.

11-“Uma dimensão mais alta” – a terceira para nossos padrões ou a quarta para os deles.

12-E aqui vemos dois motes visuais favoritos de Morrison: a) a quebra do quarto muro (Zatanna em Sete Soldados e o Homem-Animal gritando: “estou vendo vocês!” olhando para o leitor) e b) as mudanças de dimensões mais baixas para as mais altas, utilizada mais notavelmente em Sete Soldados: Senhor Milagre. E agora vemos isso com quatro dimensões!

14-15-Para a contagem dos Monitores muito tempo já passou, mesmo que para nós tenha sido muito pouco. Curiosamente Weeja Dell é a monitora da Terra-6 que é, nada mais nada menos que o Universo Marvel 616!

16-“A contagem regressiva do apocalipse alcançou o zero!” – Watchmen total!

17-Não vemos Ogama desde suas safadezas em Crise Final nº 1. Aqui há a abertura de uma questão interessante: seriam os Monitores vampiros uma representação metafórica dos leitores de quadrinhos?

18-“O elixir” que dá vida eterna e juventude é controlado pelos Monitores. Olhem que bacana: se os Monitores são os leitores e o elixir faz tudo isso, temos aqui como deixar Superman e Lois vivos e pra sempre jovens e saudáveis…

20-A página splash do capítulo #1!

21-Pensamentos dentro da existência – que é o poder da Máquina dos Milagres, dos aneis de poder e outras coisas.

26-Como o Ultraman disse na edição anterior, apenas um Superman fica com o prêmio, e esse é Kal-El. Isso significa que os outros campeões falharam em conseguirem o que queriam? Certamente, Overman não consegue resgatar sua prima – mas ela já estava morta (caída da Sangria) quando Zillo Valla levou o Superman embora em Crise Final nº 3. E o Capitão Marvel, como vemos aqui, já encontrou seu tesouro: um pedaço da Pedra.

27-“Eu não ouso falar”. Isso se deve pelo fato de ele ter a Sangria em sua boca. Ao contrário dos vampiros, quem têm sangue em suas bocas mas os consomem.

29-Já vimos um vampiro Superman várias vezes antes. Até por John Byrne e Chris Claremont!

30-Aparentemente Zillo Valla manteve sua palavra. Se o Batman pensa em tudo, o Superman PODE FAZER tudo. Percebam que Clark foi bom o suficiente para manter tudo no lugar antes de acordar Lois com um beijo.

32-Se todas as histórias de super-heróis começam com um “anteriormente”, elas sempre terminam desta forma!

Crise Final nº 7 – O Fim do Evento!

Chegou a hora de falarmos do final absoluto. As primeiras duas coisas a serem ditas sobre esta edição são: a-) sim, ela tem falhas narrativas, principalmente devido à pressa com que Grant Morrison teve que mudá-la faltando menos de um mês para sua publicação já que o editor-chefe da DC, Dan DiDio, não aceitou como as coisas terminariam. A briga se tornou pública pouco antes do lançamento desta edição lá fora, e por motivos óbvios, é negada pelas duas partes até hoje; b-) independente da pressa com que ela foi escrita, tudo é feito de forma fractal, mas num grau muito mais elevado que o autor já fez até hoje – portanto, ela PRECISA ler lida mais de uma vez, de preferência em intervalos de tempo um pouco longos (como 3 ou 4 meses) para que haja um compreendimento mais satisfatório. E agora vamos à história!

O fato de Lois Lane e seus amigos publicarem um jornal em meio a todo este caos pode ser entendido de muitas formas. Primeiro, como coadjuvantes do Superman, eles sempre estarão protegidos por ele enquanto existirem; segundo, publicar material imparcial em meio a uma dominação mental e espiritual das massas é um ato de glória que, se fosse no mundo real, entraria para os livros de história, visto como revolucionários que levaram à liberdade de expressão ao povo que pedia por ela.

Calcular a Equação Vida (ou Equação da Vida) é o mistério mais plausível para tornar todos normais novamente. Com a Máquina dos Milagres (que como vemos aqui não deixa de ser uma Caixa Materna de poder incrivelmente ampliado), decorada circuito a circuito pelo Superman, ele consegue desvendar o inverso do que Darkseid fez e prepara-se para utilizar esta arma contra ele: no fim, tudo não passa de vibrações (sejam objetos, planetas ou galáxias num espaço contido de tamanho finito ou não), como o próprio Superman percebe quando vê todo o multiverso vibrando numa única frequência. Vibrações, que se tornam sons, que se tornam música – a música é a vibração que toca a alma, algo que Darkseid jamais deixou que acontecesse. E é assim que se derrota em definitivo o mal absoluto, desintegrando seu cerne principal, cortando-o pela raiz. De repente, utilizar música para matar o vilão não soa tão ridículo, não é mesmo? =D Aliás, quem gosta do universo criado por J.R.R. Tolkien sabe o quanto a música é importante das mais diversas formas.

Outro detalhe muito legal desta edição é o significado de Mandrakk. Além do vampiro, do monitor e tudo mais, ele é uma forma de Morrison mostrar que divide a opinião dos leitores quanto ao primeiro super-herói de quadrinhos. Como falaremos mais abaixo ele é, na verdade, o mago Mandrake (aquele mesmo, amigo do Flash Gordon), mas todo mundo sempre teve o Superman como tal – e claro, preferimos que continue assim! Não é à toa que o kryptoniano mata-o com todos os outros heróis :D

A forma como tudo acaba é muito poética e bonita: Nix Uotan e Weeja Dell têm o mesmo amor que Jor-El e Lara tinham e veem tudo ser destruído como estes também viram. A escolha é óbvia: os monitores mais importantes homenageiam os pais mais importantes do Universo DC.

Matando Darkseid de Todas as Formas Possíveis

Por que ele não morreu quanto Batman atirou nele? A bala era fatal, mas de efeito prolongado. Percebam que de um homem parrudo feito de pedra da edição anterior aqui ele é um decrépito com capacete – o rádion do vírus moticoccus está corrompendo-o vagarosamente, o que faz com que suas atitudes comecem a soar desesperadas, principalmente após a chegada do Superman no presente: ele começa a jogar os seus sobre o Homem de Aço, fazendo o jogo do “você não vai matar pessoas inocentes”. Mas a força dos heróis da DC foi maior do que ele esperava e a partir daí veremos todas as dominações dele (mentais, espirituais e físicas) serem destruídas uma a uma para que não sobre mais rastro deste Mal. O Batman pode ter pensado nisso, o que faz de seu tiro algo ainda mais poético: o estopim de uma revolução.

A partir daí, começamos a ver a queda total do vilão pela ação de cada um dos heróis mais importantes da editora. Os Flashes ultrapassam o som, a luz e a morte levando o Corredor Negro ao auto-proclamado Senhor da Terra – esta é sua morte física; a Mulher-Maravilha, ao ser libertada de seu domínio, usa o laço da verdade para corromper toda a dominação do vilão às pessoas do mundo e enlaça seu espírito – esta é a morte de sua alma. Por fim, o Superman (só podia ser ele) inverte as vibrações a seu favor e canta a música que faz tudo vibrar ao contrário (como ele girou a Terra ao contrário em seu primeiro filme) do que o vilão havia feito, o que significa a queda absoluta da realidade construída por ele – é o fim de tudo que ele construiu!

A Criação do Quinto Mundo

Finalmente Morrison faz o que Kirby sempre desejou fazer. Na última edição tínhamos visto que a Agência de Paz Global iria transferir todas as pessoas para a Terra-51 para que elas pudessem viver em paz numa Terra que seria construída novamente com a esperança de cada pessoa. Porém, com a intervenção quase divina do Superman tudo mudou, e as pessoas foram conversadas como “cubos de gelo” de forma a serem protegidas do que seria feito para restituir todo o mundo com a máquina dos milagres – sendo que cada pessoa seria restituída depois deste processo, salvando a Terra Principal e deixando a Terra 51 como o Quinto Mundo, comandado pelos deuses BONS do mundo de Kirby.

Anotações e Referências

1-“O fim está próximo.” – Watchmen de novo! O mundo que vemos aqui não foi criado por Morrison, tendo sido mostrado originalmente no “capítulo perdido” da Crise nas Infinitas Terras inédito ainda no Brasil e publicado em Legends of the DCU: Crisis on Infinite Earths #1 sendo a Terra-D – fora o fato coincidentemente bizarro de o presidente ser negro, bem quando Barack Obama foi eleito presidente dos EUA. Vathlo é o nome de uma ilha kryptoniana, citada anteriormente em Superman #239, sendo o lar de uma “raça negra altamente desenvolvido”.

2-3-“Cornucópia Magnífica”. Não deve existir nenhuma referências à própria DC Comics com este nome, mas ela vem de uma antologia de poesias alemãs chamada Des Knaben Wunderhorn. Curiosamente, muitos países de língua inglesa ensinam suas crianças com “Jason and the Wonder Horn” e mais tarde vemos a referência a Argo, a nave, bem como Jason e os Argonautas. (Memso que no conceito do Superman Argo seja relacionada à Argo City) .

A grande e triste música“ é citada pelo Overman em Superman Beyond número 1.

5-Lois começa a narrar. Esta Torre de Vigilância parece ser uma união das várias casas da Liga da Justiça – inclusive da Fortaleza da Solidão e do Hall da Justiça. A Terra-44 ainda era inédita até então, mas um Tornado Vermelho humano criando uma Liga da Justiça robótica é uma ideia bacana.

6-7-Poesia visual =D

10-Novamente uma citação à arma que Darkseid utilizou no começo e depois acabou nas mãos do Batman.

11-Claro que o Superman consegue enxergar rápido o suficiente para identificar Barry Allen. Vejam a bala de rádion voando para outra direção enquanto no outro painel o Corredor chega à Darkseid.

12-Olhem o Aquaman aí, homenageando a lendo do Rei Arthur. “Ele está em todos vocês!” – a grande frase de Órion para Turpin.

13-Aqui os heróis começam a confidenciar acontecimentos e sentimentos como se estivesse falando com o próprio leitor.

14-O exército de OMAC que vimos em RESISTA.

15-Ray fez o símbolo de Metron pra proteger todo o planeta, não que ele tenha conseguido tão bem protegido :D

16-Lois Lane ainda está narrando mas sua história se intersecta com a que a Supergirl está contando á crianças. A última história, como as primeiras: feitas para emocionar as crianças. O truque dos paineis aqui é ótimo e nos leva a um dos vários clímax da edição (se é que isso é possível) – adeus Sr. Incrível, Gavião Negro, Moça-Gavião… vocês não acham que eles morrem mesmo, né? =D

17-Agora Renee está contando a história aos Super-Homens paralelos de como ela e outras pessoas na Torre do Xeque-Mate acabaram no “universo cemitério”, a Terra-51, após o Grande Desastre (na qual a estátua da liberdade está caída). Evidentemente é daquele mundo que Sonny Sumô caiu. Da última vez que vimos a Overgirl ela estava em instrumentos de dissecação no Xeque-Mate. O Overman a trouxe pra fora para recapitular a capa de Crise nas Infinitas Terras #7 em estilo Nazi.

18-Sim, Darkseid atirou aquela bala que matou Órion. Como vimos na última edição, Luthor e Silvana são capazes de controlar qualquer um usando um elmo de Justificador.

19-“Hora de dormir”, afinal, todos serão congelados e miniaturizados. Até o Raiado vai :D

21-A Mulher-Maravilha tem seu grande momento aqui, pegando o espírito de Darkseid dando-lhe o final absoluto que faltava.

22-“Darkseid sempre odiou música”. Isso não é sacanagem do autor, mas sim mais uma das referências extremamente obscuras dele: New Gods #7, desenhada e escrita pelo rei Jack Kirby: “sabe, Izaya, nunca lhe ouvi cantar”.

23-“Elemento X”. Como visto em Mister Miracle #9, este foi o elemento descoberto por Himon que dá poder à Caixa Materna. “Fogo dos deuses”: recapitulando o dom dado por Metron à humanidade na primeira edição. Interessante ver também que o Superman de Morrison narra cada coisinha que faz.

24-Mandrakk! Uma variação de Mandrake, o Mago, o primeiro heróis super-poderoso dos quadrinhos americanos (sim, foi ele). Ele aparece com o vampiro Ultraman.

25-O painel no topo é extremamente significativo. A galáxia em espiral ali é a visão de Krona do início do Universo DC, isso sem mencionar a mesma imagem que a galera perdida no espaço em 52 viu, além de ser muito próxima da visão do Limbo que o Superman teve na minissérie que citamos anteriormente neste artigo. É o Superman como Deus dizendo “faça-se a luz” e fazendo um desejo. As coisas em formas de vermes são o equipamento de Mandrakk.

26-27-Tem mais ou menos 58 Supermen aqui. E agora Nix Uotan começa a narrar um flashback!

28-Tudo nas mãos de Morrison vira cânone. Os animais aqui são o Capitão Cenoura e Sua Trupe Animal, que foram transformados em animais reais em Captain Carrot and the Final Ark #3. A Pax Dei são os soldados de Zauriel, criados por Morrison em sua passagem pela Liga da Justiça.

29-E todas as cavalarias da DC chegam de uma vez só! A palavra “Taaru” foi usada pela primeira vez na série do Povo do Amanhã de Kirby, servindo para que todos os membros da equipe trocassem de lugar com o Homem Infinito – papel que agora é de Nix/Juiz de Todo o Mal.

30-Lois narrando novamente. Os três pequenos paineis inseridos aqui homenageiam os heróis perdidos: Batman, o Caçador de Marte, as penas das asas dos Gaviões (cuja morte não foi respeitada por Geoff Johns em A Noite Mais Densa, na qual ele os matou novamente).

31-Então Zillo Valla e Rox Ogama eram responsáveis pelas Terras 43 e 31. A Terra-43 é o mundo dos vampiros, que é cabível à Ogama. A Terra-31 é do Cavaleiro das Trevas. E ao que parece Barry e Wally estão ok.

32-A primeira flor crescendo num mundo morto é muito simbólico. E ali estão o Sr. Milagre, o Pai Celestial, Magtron e Barda – aparentemente os deuses de Kirby foram restituídos na Terra-51. O mapa vem de Kamandi #1 – aliás, este, aparece novamente próximo do final da história.

33-34-O trágico e romântico final, enquanto os Monitores são reabsorvidos dentro do vácuo absoluto, perdendo sua individualidade. Teria o Superman desejado mesmo que o final fosse feliz (o que é muito a cara dele, claro) já que foi estabelecido que as histórias sempre “Continuam”? Ou teria ele desejado apenas que elas CONTINUEM?

35-Uma recapitulação da última página da primeira edição: os Monitores, ou pelo menos Nix, estão no mesmo plano em que todo o Universo DC. Não seria seu final feliz acabar ao lado de Weeja Dell de alguma forma? Ou é aquela coisa do “continua!” novamente indo para algum lugar?

36-Percebam que o pequeno foguete pousou perto de Anthro, que continuou passando a palavra de Metron colocando seus símbolos em todos os lugares. Além de fazer uma alusão a Moisés.

37-E acontece com o Batman o mesmo que aconteceu a Sonny Sumô e ao Senhor Milagre: ele foi jogado num passado distante.

A Recepção dos Fãs e Mídia Mundial

Controversas à parte, na época em que foi lançada Morrison foi aplaudido de pé ou crucificado, não existindo meio termo entre a opinião dos leitores. Mas o é interessante perceber que, exatamente um ano depois do término desta jornada, o autor é aclamado pela grande maioria das pessoas que não tinham-no entendido a primeiro instante. Quem frequenta fóruns gringos de leitores DC sabem o quanto a versão final e encadernada de Final Crisis é venerada, chegando ao número um de graphic novels do jornal The New York Times, ficando neste lugar por um bom tempo nos EUA.

O site especializado io9 acredita que Final Crisis é a maior história sobre o fim do mundo e homenagem aos heróis que lutaram para defendê-lo, mas acha que a versão encadernada ainda tem alguns falhas editoriais (como a sequência das histórias e a falta da publicação da “versão do diretor” da primeira edição).

No Brasil, até agora, o Universo HQ vem venerando toda a obra a cada uma de suas edições em textos escritor pelo DCNauta e sábio Eduardo Nasi.

O Legado da Crise Final

Até agora ninguém teve coragem de mexer em algo que foi criado por Grant Morrison. Todo o legado da Crise Final é utilizado pela DC Comics atualmente, mas apenas de forma a não atrapalhar o que o autor criou, pois ele mesmo virá a utilizar estes conceitos possivelmente ainda neste ano com Multiversity. A não ser pelos Gaviões… é difícil saber exatamente qual era o destino original deles e como isso foi editorialmente mudado na DC. Talvez jamais saibamos o que aconteceu nos corredores da editora. De qualquer forma, o futuro do maior símbolo que a editora já teve foi decidido nesta minissérie. Vamos analisar em tópicos tudo que aconteceu de mais importante que ficou para sempre?

  • Batman MATOU e foi jogado no passado distante de uma Terra desertada ao pagar o preço de sua atitude;
  • O poder dos Lanternas Verdes da Terra, unidos, foi capaz de matar um DEUS. Nem Geoff Johns faria isso, hein! =D
  • A Mulher-Maravilha foi violentada e corrompida pelo mal como jamais se imaginou que pudesse acontecer com um símbolo tão puritano de uma editora tão tradicionalista;
  • Conseguimos ver, numa saga de 7 partes, tudo que existe de mais incrível na volta do conceito do Multiverso e das múltiplas Terras na DC num verdadeiro exercício criativo do autor e uma rica jornada que pode influenciar uma grande quantidade de futuros escritores na editora;
  • A maior homenagem que Jack Kirby já recebeu dentro de sua própria mídia, além de elevar todos os seus personagens a um nível totalmente novo e conseguir cumprir o que ele mesmo nunca teve chance de fazer por culpa dos editora da época: constituir o Quinto Mundo!
  • Vimos cada Flash agir sozinho e em conjunto de uma forma que nunca tínhamos visto antes, utilizando suas particularidades e forças ao extremo para fazerem sua parte numa batalha que extrapola o limite da própria realidade deles;
  • Tivemos a chance de ver, muito brevemente, que Morrison está preparado para, incrivelmente, escrever qualquer personagem da editora: o Arqueiro Verde e Canário Negro estão muito bem caracterizados, assim como Ray, que passou tanto tempo esquecido pela DC, ou como o Aquaman que homenageia o mito do Rei Arthur, só pra citar alguns;
  • Nos mostrou quem são os grandes vilões do Universo DC e como as contrapartes de cada herói, no fim, acabam aliando-se a eles pois, afinal, ninguém quer perder sua própria vida;
  • O Caçador de Marte foi brutalmente assassinado;
  • Uma das maiores ideias de Marv Wolfman, o Monitor, foi multiplicado exponencialmente e a eles foram colocadas analogias da própria religiosidade, mitologia e crenças humanas – no fim, o que importou foi o amor de um pelo outro e a responsabilidade deles por seus próprios mundos – além, é claro, de colocar o mais simples deles na verdadeira jornada do herói, elevando-o ao grau de maior e mais sábio de todos os monitores: o juiz de todo o mal!E, no fim, ele deu fim a tudo, tornando-o um dos que ajudou a proteger, de uma forma muito poética e já utilizada em muitos filmes em que anjos querem morrer para serem humanos;

Esperamos, de verdade, que cada um dos leitores do site tenham gostado da série tanto quanto eu e o pessoal que me ajuda com o Multiverso DC. Sejam bem-vindos, leitores brasileiros, à um Novo Paraíso, à uma Nova Terra!

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