Dossiê Jason Todd

Introdução por Felipe Morcelli

Mais uma vez nosso amigo Luis Alberto nos surpreende com um texto de alta qualidade feito exclusivamente para o Multiverso DC. Numa matéria completa sobre a vida de Jason Todd vamos conhecer tudo sobre este grande bucha que apareceu na vida do Batman e o editor Dan DiDio fez o “favor” de trazer de volta à cronologia vivo.

Para quem acompanhou o especial de 70 anos do Batman que fizemos ano passado entre este site e o Ambrosia sabe que escrevi um texto grande sobre o personagem por lá, que pode ser lido aqui. Mas não deixem de ler o que o Luis escreveu que está sensacional =)

Texto por Luis Alberto

Existem personagens que já “nascem” destinados para o sucesso. Sua evolução ao longo do tempo, e o seu carisma natural, deixam os fãs de quadrinhos de uma tal forma, que se tornam icônicos. Por exemplo, temos o lanterna Kyle Rayner, Gladiador Dourado, o Flash (Wally West) e até mesmo o novo Besouro Azul (Jaime Reyes), está dando certo. Ainda existem aqueles que não são tão excepcionais, mas que funcionam muito bem como coadjuvantes: Ray Palmer (o Eléktron), J’onn J’onnz (o Ajax/Caçador de Marte) e Sr. Incrível (Mr. Terrific) são bons exemplos. Porém, uma pequena parte dos personagens, são taxados desde sua criação como personagens de segundo plano, nascendo apenas para tapar buracos. O maior exemplo desse grupo não poderia ser outro: Jason Todd.

Criado em 1983, Jason era um garoto ruivo, beirando a pré-adolescência. Nascido numa família de acrobatas do circo, teve (convenientemente) seus pais mortos, na cidade do “padrinho” favorito da DC. A origem parece com a de alguém não? É evidente que o personagem havia sido criado apenas para, como dito antes, “tapar o buraco” editorial que estava ocorrendo. Robin estava indo de vento em polpa na mensal dos Novos Titãs, e segundo os entendidos da DC, Batman precisava de um parceiro (entenda isso como quiser). Resolveram então inserir um novo garoto na Bat-Família, mas que não empolgou muito os fãs do morcego, mesmo porque, uma grande maioria deles preferia as histórias do morcego agindo sozinho.

Como Dick Grayson era moreno, Jason foi orientado a tingir o cabelo, para não gerar suspeitas de que havia ocorrido alguma mudança. É meio estranho, admito, mas existem até boas histórias aproveitando o personagem, como por exemplo, o conto de Alan Moore “Para O Homem Que Tinha Tudo”. Mesmo assim, Jason era detestado, pois tinha quebrado um ciclo de histórias muito bem sucedidas do morcego, propagadas por Dennis O’Neil desde a década de 70.

Foi então que em 1985, com o Mega-Evento “Crise nas Infinitas Terras”, muitos dos conceitos da cronologia DC da Era de Prata foram revistos. Um dos exemplos mais clássicos, é a mudança cavalar na mitologia do Superman, proporcionada por John Byrne. Nessa época de novas perspectivas, a cúpula da DC percebeu que esta era uma chance de resgatar Jason Todd. Em sua nova origem, agora mais afastada da origem de Dick Grayson, Jason era um garoto moreno, abandonado pelos pais, que sobrevive como pode nas ruas hostis de Gotham. Lembrando que, nessa época, era cada vez mais “popular” ser um bad-boy, um cara que não seguisse as regras. Crendo ser um bom caminho para Jason, a DC tentou inovar e acabou enfiando os burros n’água.

Em um de seus crimes cotidianos, Jason rouba os pneus do Batmóvel, chamando a atenção do Batman. Contudo, essa história, escrita por Max Allan Collins não tem coerência. Primeiro, porque o plot inicial da história gira em torno da substituição de Dick Grayson, que já era Asa Noturna antes da Crise começar, por Jason Todd. Essa trama então seria meramente para explicar o porquê de Dick ter abandonado o manto de Robin, e ter criado o de Asa Noturna. Para justificar a saída do rapaz, Batman argumenta que o que ele faz não é trabalho para crianças. Se a história parasse por aí, até seria bacana, pois já vemos uma prévia de que Dick se torna no futuro e tudo mais. O problema, e o que realmente incomoda, é que parece que Bruce (ou o escritor, não sei dizer), esqueceu completamente do que havia falado na edição seguinte!

Vários outros pontos foram deixados de lado pelo escritor, como por exemplo, esquecer que ele é o maior detetive do mundo. Isso incomoda muito, quando se é fã do personagem. O Batman entregando um menor infrator, para uma suposta escola de recuperação, onde na verdade se ensinava a arte do crime? E onde ele conseguiu o título de detetive? Comprou com o dinheiro dele? Outra coisa, é o fato dos sujeitos que vivem rondando o famoso “beco do crime”, não terem o menor medo do vigilante, tratando-o como se fosse um brother ou coisa assim. Nas histórias de Dennis O’Neil, o Batman era uma figura que intimidava somente com a impostação da voz! Quando alguém iria tratá-lo de forma tão amigável e pessoal?

E a incoerência não pára por aí. Batman gargalhando igual ao Esqueleto do He-Man por ter sido roubado! Ele ensinando Jason a atirar com um revólver! O Morcego quebrar o juramento e passar a usar uma arma de fogo, já seria uma desconstrução do personagem sem tamanho, visto que ele apenas usou armas de fogo em momentos de enorme estresse psicológico, como em “O Messias” e “Batman Ano Dois”, mas levar uma criança a aprender isso? Que diabo de tutor é esse? Tudo bem que isso foi o final da década de 80, e bem… era a década de 80, mas isso foi exagero! O máximo do estresse que Bruce poderia estar passando, seria o de como contar para Dick, que agora tinha um novo garotinho dormindo em seu antigo quarto…

Jim Starlin, que sucedeu Max Allan Collins na mensal do morcego, tentou dar uma melhorada na trama, mas ela era tão inconsistente, que não conseguiu absolutamente nada, apenas uma cena patética (e bastante duvidosa) com o Batman admitindo para o Asa Noturna, que tinha trazido Jason porque estava se sentindo sozinho. Particularmente, eu sou muito mais a versão de afastamento do Dick, escrita pelo Chuck Dixon, com Bruce expulsando ele por estar se dedicando mais aos Titãs do que a Gotham, mas essa é uma história para outro dia…

A percepção de Starlin até foi interessante, mostrando uma diferença na personalidade de Jason. Enquanto Dick era extrovertido e se divertia no seu “trabalho”, Todd possuía um ódio tremendo dentro de si que não era canalizado, igual a Bruce quando novo. Porém, diferente de Wayne, ele não tinha nenhuma noção do que era limite! Numa história até bacana, publicada em Batman 424 e que se conclui na edição seguinte, a impetuosidade de Jason chega a um ponto em que ele, vendo que não poderia pegar um estuprador por possuir imunidade diplomática, vai visitá-lo no apartamento. O criminoso cai da sacada sem sabermos se Robin o empurrou ou apenas o assustou (tá certo…). Ele estava passando dos limites, mas mesmo assim, havia uma parcela dos fãs que estavam curtindo a fase de Starlin.

Porém, em 1988, Jason participaria de uma história, que segundo a outra parcela insatisfeita dos bat-fãs, seria a melhor que ele já apareceria: sua própria morte. O fato em si teve mais importância para a História dos Quadrinhos e da DC Comics, do que propriamente para o universo do morcego. Tudo porque, pela primeira vez, uma editora havia aberto ao público a decisão sobre o destino de um personagem. Numa época anterior a internet, onde o único contato entre editora e leitor se dava através de cartas, decidir a vida de Jason por um número de telefone foi uma jogada de mestre! Caso sobrevivesse, Jason então se tornaria um rapaz bem comportado e com as pernas raspadas tal qual Dick Grayson. Provavelmente, essa idéia tenha surgido para aproximar a realidade de Batman aos poucos, com o clássico de Frank Miller, “O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight Returns), já que na obra fica claro que Jason havia morrido. Mas segundo o próprio Miller, matar Jason Todd foi uma das coisas mais absurdas que já haviam sido feitas nos quadrinhos (provavelmente porque ele gostava do jeito nervosinho do garoto. Como podemos ver em outras obras suas, seu Batman beira a psicopatia de tão violento e sádico).

Enfim, os leitores decidiram (por uma diferença bem pequena), que Jason Todd precisava morrer. A história em si não é tão boa quanto a expectativa que gerou, porém, deixou sua marca não pela morte do segundo Robin em si, porém como ela foi executada pelo Coringa. O palhaço, que dois anos antes havia aleijado Bárbara Gordon em “A Piada Mortal”, espanca Jason com um pé-de-cabra, esfuziante de prazer enquanto o faz, e como se não bastasse, explode uma bomba na cara dele (e ele não perde nenhum membro, o que é mais impressionante).

Após a morte de seu protegido, o Morcego se torna extremamente agressivo e descuidado, até o surgimento de Tim Drake, que viria a se tornar o terceiro Robin, e segundo a opinião de muitos leitores, o melhor deles. Porém, estamos falando de Jason, e mesmo morto, ainda gerava polêmica. Foi levantada uma hipótese de que a votação para decidir sua morte, na verdade havia sido forjada por um sujeito que programou seu computador para re-discar indefinidamente o número para Jason morrer. “Então o público não queria ele morto? Isso é uma excelente oportunidade para trazermos ele de volta!”, foi o que provavelmente pensaram os editores da DC sobre o assunto. Tento entender até hoje o motivo…

A primeira referência a ressureisção de Jason ocorreu em “Silêncio”, escrito por Jeph Loeb entre 2002 e 2003. Na história, o Cara-de-Barro se camufla como o segundo Robin para mexer com a cabeça do morcego. O Autor, em entrevista, disse que sua intenção não era trazer Jason de volta, até porque a história não era sobre ele. O escritor disse inclusive, que curtia a idéia de Batman ter tido um Robin que morreu no combate ao crime, mas se alguém quisesse trazer o personagem de volta, ficaria contente (ou seja, passou a batata quente para outro). Não sei se foi isso que levou a DC a chamar Judd Winick em 2005, para ressuscitar o impulsivo garoto prodígio, mas a desculpa usada para seu retorno não poderia ser mais idiota…

Após uma trama com mais mortes e piadinhas do que explicações concretas, Jason ressurge em Gotham como Capuz Vermelho. No fundo, a história de Winick não era para explicar absolutamente nada, e sim tentar desenvolver a personalidade de Jason. Para isso, usa algumas vezes de recursos como flashbacks, onde acompanhamos que desde cedo o garoto era mais motivado pelo desejo de vingança do que pela necessidade de justiça. Acreditando ser uma “evolução” do Batman, ele passa a matar vários criminosos da cidade, inclusive destruindo a quadrilha do Máscara Negra. Mas o momento que teve mais destaque não foi nem o jogo psicológico entre Jason e Bruce, e sim a surra de pé de cabra que o novo Capuz Vermelho dá em seu algoz, o Coringa, desenhada pelo excelente Doug Mahnke. A história, aliás, tem seus momentos, contribuídos pela arte de Mahnke, mas está longe de ser algo memorável.

O motivo real do retorno de Jason só seria “explicado” em 2006, na anual do Batman, que fazia parte do evento “Crise Infinita”. Devido a “rachaduras na tessitura da realidade”, causadas pelos golpes do Superboy-Prime (outro bucha) na parede dimensional, Jason acordou dentro do caixão em que estava, e passou por diversas situações irrelevantes, numa história que tenta dar consistência a algo incoerente, aproveitando algumas pontas soltas deixadas por Loeb em “Silêncio”, fazendo apenas com que o leitor perca seu tempo! A única coisa que chama atenção na história é a página alternativa caso Jason sobrevivesse, feita por Jim Aparo.

A partir daí, a coisa descambou de vez. Após a aniquilação de Blüdhaven, e um confronto final entre Batman, Jason e Coringa, o antigo Robin desaparece. A editora, tentando encaixar ele no novo Multiverso DC que estava surgindo, o envia para o novo lar de Dick, Nova York, apenas para ele ser um Asa Noturna “malvadinho”. Não agradou. Depois de também ser chutado de Star City pelo Arqueiro Verde, após tentar aliciar Mia Dearden (a Ricartdita parceira dele no combate ao crime, que veio das ruas como Jason), o rapaz ficou novamente sumido por um tempo.

Tentaram redimi-lo, convertendo-o em anti-herói, enviando ele numa viagem pelo Multiverso, ao lado de Donna Troy e Kyle Rayner, em busca de Ray Palmer no fiasco que foi a série Contagem Regressiva (que pé frio hein?!). Aliás, como já foi comentado em um dos DCCasts, a editora foi extremamente burra, em ter usado o manto de Red Robin nele, pois perderam uma evolução (inevitável) para Tim Drake, esse sim um personagem bacana.

Como comentamos, a série foi um fiasco, e também não deu certo. Ela acaba para Jason do mesmo jeito que começou: sem ele ter lugar exato no Universo DC. Se a editora fosse realmente esperta, poderiam ter aproveitado a série para apagá-lo da existência. Daria até para fazer a suposta “redenção” que eles estavam querendo encaminhar no enredo. Teríamos menos um problema. Mas por que fazer isso quando podemos deixá-lo vivo e pronto para arruinar mais histórias?

Só para se ter uma idéia do nível de “cagadas” sucessivas que fizeram com o personagem: em uma das maiores sagas já feitas para o Homem Morcego (senão a maior), que foi Batman R.I.P., ele nem aparece, sendo citado só de vez em quando! Veja você, Morrison resgatou dezenas de coisas na mitologia do Morcego, e nem ele conseguiu pensar em nada aproveitável para Jason! Sua única aparição “relacionada a saga” foi em “Battle for the Cowl” (ainda inédita no Brasil), escrita por Tony Daniel, onde o personagem veste um traje de infantaria com o emblema e máscara do morcego, se tornando uma espécie de “Bat-Punisher”, no intuito de substituir Bruce. Adivinha o que aconteceu? Só durou o período da série… Aliás, foi criado apenas para ela mesmo, pois Morrison já estava escrevendo “Batman and Robin”, e usaria Jason (!) na história.

Talvez a decisão de Morrison tenha sido correta, em deixar o personagem um pouco na geladeira, para que os fãs se esquecessem dele (falando com relação a saga Batman R.I.P.), e aí futuramente, aproveitá-lo de uma maneira melhor em outra trama, como vem sendo feito em “Batman and Robin”. O autor está inclusive resgatando mais elementos da Era de Prata do universo do morcego, como o fato de Jason ser ruivo. Só o que me deixa curioso, vai ser no que mais Morrison vai alterar no passado do personagem, visto que, segundo o próprio Jason, seu maior inimigo era um assassino sádico e (aparentemente) homossexual. Quando eles se tornaram tão inimigos? Foi depois de Jason ficar adulto, ou quando ainda era criança? Tomara que Morrison também não caia na maldição de Jason Todd e se perca na argumentação!

O fato é que Jason é um fracasso ambulante! Contudo, creio que ele, assim como todos nós leitores, seja uma vítima da falta de criatividade de alguns roteiristas, que na busca por histórias chocantes, no intuito apenas de “vender”, caem na mesmice e no lugar comum, gerando tramas sem profundidade e/ou coesão. O que prova isso é justamente o novo Robin, Damien Wayne, que é tão insubordinado quanto Jason era, porém, funciona ao lado de um Batman “mais suave” como Dick Grayson. Damien é mimado, acha que sabe tudo e detesta ser mandado por qualquer um que ache inferior (ou seja, todos com exceção de Bruce e Talia). Porém, o escritor escocês conseguiu ir progredindo a relação dos dois irmãos, mostrando a evolução individual de cada personagem, como também dos dois enquanto equipe, deixando muitos fãs que haviam torcido o nariz para morte de Bruce Wayne, na expectativa de que ele não volte, pois a dupla está muito boa! O triste mesmo é ver que, mesmo com Jason sendo o perfeito exemplo do que não deve ser copiado, alguns autores continuam seguindo pelo mesmo caminho com certos personagens, como o já citado Superboy-Prime…

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