Resenha (filosófica) de Crise Final nº 5

Por acaso a gente parece o tipo de pessoas que não têm planos pro dia em que os super-heróis falharem em salvar o mundo?” – Amanda Waller

A partir de hoje começamos a falar da segunda fase de Crise Final, movimento da história que se inicia com esta quinta edição do evento. Os acontecimentos deste ponto em diante passam a ter mais significados diretos ao invés de filosóficos e preparativos, ou seja, não lidaremos mais com a tomada da Terra por um mal absoluto mas sim veremos os bilhões restantes da raça humana que conseguiram escapar da antivida e o que eles estão fazendo para tentar sobrepujá-la.

Dentre as várias entrevistas que Grant Morrison deu ao longo dos meses que se seguiram durante o evento lá fora, várias vezes foi comentado que os Lanternas Verdes teriam grande participação na saga, o que vemos logo no início desta edição com três dos membros terrestres da tropa se preparando para, como o próprio Hal Jordan diz, “acabar com a raça deles”! Curiosamente, Morrison escolhe caracterizações que estavam na base de cada personagem o tempo todo mas ninguém soube usar: se Hal era o babaca que sempre via o mundo como um lugar “preto e branco” aqui é necessário que ele veja desta forma, pois a invasão maligna de Darkseid tornou tudo claro e bidimensional, ou seja, é necessário que se tenha essa visão para pegar quem precisa ser derrotado. Ele também brinca com os fatos mais atuais dos Lanternas propostos por Geoff Johns (que como bem sabemos é um dos maiores fãs e amigos pessoais do escriba escocês) e Peter Tomasi, mostrando um Guy Gardner líder e decisivo na hora de derrubar a Vovó Bondade e salvar seu amigo da condenação, bem como Kyle Rayner não deixa de mostrar que ainda tem muito a aprender sobre protocolos e conhecimentos mais antigos da Tropa, mas ainda é um membro de muito valor. Enquanto isso, John Stewart participa dos poucos que restaram dentro do planeta como um dos grandes ativos ao lado de Supergirl, Sociedade da Justiça e Homens-Metálicos. Ou seja, em cinco edições de uma minissérie vimos os Lanternas da Terra como eles não aparecem nem mesmo em suas revistas mensais, o que não deixa de ser uma alegoria: na história de Morrison, todos são coadjuvantes de extrema importância, ao invés de serem os protagonistas. E aproveitando esta posição, o autor faz com que os diálogos de cada um aqui nos mostrem mais da relação da força de vontade de cada lanterna com a própria manifestação terrestre desse sentimento. E mais: ainda se conecta com a primeira edição do evento, quando Metron dá o fogo a Anthro, a “última tecnologia”, afinal, a pura força de vontade é simbolizada por uma chama verde.

Se muitos leitores acharam que nas edições anteriores a narrativa estava rápida demais, agora é melhor que todos realmente prendam seus cintos, pois a dinâmica é exponenciada aqui, já que finalmente veremos todos os pontos do Universo DC reunidos numa única parte da história, cada qual com seu devido espaço e importância, principalmente devido a uma troca proposta por Morrison como narrador que caiu como uma luva aqui: na necessidade de contar um épico monstruoso em apenas 7 edições, por claras decisões editoriais, o autor enfoca-se em diálogos ágeis, desesperadores e muito adultos, mostrando as melhores caracterizações de cada personagem da DC que ele teve chance de mostrar aqui. Com cada linha de fala ele nos faz perceber o tamanho da Crise que tomou a vida de heróis, vilões e pessoas comuns que agora vestem o Ômega como se fossem a santíssima trindade da crença Cristã. Mais ainda do que isso, ele homenageia o legado do rei Jack Kirby com um cuidado sem igual, mas sem deixar de lado suas próprias peculiaridades e reversões/subversões de valores (o que ele mais gosta de fazer). Vejam: a primeira coisa a se fazer com o mundo, para ser tomado por um mal incalculável, é eliminar o bem por completo. Tivemos a chance de ver as reencarnações mais inesperadas do quarto mundo de Kirby, mas não vimos ninguém do “lado bom” da história, o que nos implica na preparação que Darkseid teve para fazer essa grande investida contra a Terra e criar nela um mundo à sua própria imagem. Tudo isso, claro, é omitido aqui, pois com os próprios diálogos dos personagens, Morrison já nos dá esse entendimento sem precisar que o acontecimento seja, de fato, mostrado.

Entretanto, do lado do bem, vemos que as soluções mais simples são as que mais nos aproximam da bondade divina. Morrison usa a alegoria clássica do “bem e mal” ao caracterizar os resistentes mais poderosos como as pessoas mais simples possíveis e sem nenhuma ideia de quem eles realmente serão em meio a esse grande evento. Os exemplos mais claros disso veem de Nix Uotan e Metron, que passaram propositalmente despercebidos durante boa parte da história, para que, no momento mais correto, eles fossem utilizados como as chaves que são: os salvadores, por terem o poder mais simples e completo de todos, o conhecimento.

O corrompimento de Mary Marvel já foi comentado aqui em resenhas anteriores mas ganha importância maior neste momento, pois ela se torna um símbolo de contaminação para outra heroína pura do Universo DC: a Supergirl. A escolha de Morrison é óbvia pois um dos grandes desejos de Darkseid quando criado por Jack Kirby era corromper o kryptoniano Superman e trazê-lo ao seu lado – com isso, o autor escocês apenas inverte os personagens e coloca a dinâmica exatamente onde queria, nos próprios heróis sendo corrompidos. A quebra da pureza é tratada com total indiscrição para que o leitor enxergue que, quando o mundo vira do avesso, a pureza não existe mais e cada um age com seus instintos mais básicos na necessidade de cumprirem seus objetivos mais mesquinhos. Aliás, isso nos leva à Mulher-Maravilha novamente, que aparece com as costas cheias de cicatrizes e marcas de violência, nos levando a crer que ela não é apenas a líder das Fúrias Femininas mas também uma escrava do poder e das vontades mais sombrias do vilão maior.

E, para fechar, o discurso à la Hitler de Darkseid unindo os seus, simbolizados pelo Ômega. É curioso também notar que o discurso é religioso e satânico, colocando a si mesmo como o próprio símbolo máximo de sua crença: “Este poderoso corpo é minha igreja”. No quesito narrativo este momento é fantástico, pois vemos, ao mesmo tempo o nascimento absoluto do Quinto Mundo, como o próprio Metron diz, enquanto o vilão faz seu discurso e a própria ascensão dele, que até então enfrentava uma dura batalha para reencarnar no corpo de Dan Turpin em definitivo.

Vamos analisar o saldo final da revista?

-Nossos queridos Lanternas Verdes partem para a Terra

-A marca da salvação proposta pelo Sr. Milagre será pintada em todos os membros da resistência da borda da Suíça a todos os outros cantos do mundo

-E os fodões militares da DC, mais precisamente do Xeque-Mate, também preparam os seus

-Mais uma série de elementos da criação de Kirby se fazem presentes, cada uma com sua própria importância

-O Adão Negro chega com tudo para a batalha assumindo seu posto de poderoso – mas percebe que mesmo seus deuses não conseguem sobrepujar a força do Quarto Mundo

-Nix Uotan desperta para a realidade – e agora, o juíz de todo o mal chegou!

-Darkseid finalmente fala aos seus

Referências e Anotações

1-Malet Dasim, para quem não conhece, já existe no universo dos Lanternas Verdes há anos, e sempre teve aspecto de advogado, seja de defesa ou acusação.

4-Isso também vale para o Protocolo Krona, criado em 1965. Vejam que

6-Se você ainda estava confuso com toda a maluquice temporal em volta de Crise Final, aqui a explicação é clara. Morrison deixou todas as amarras cronológicas da DC para se concentrar na forma como contaria a história – aliás, para quem se lembra da primeira edição, vimos uma mistura de passado e presente quando Anthro e Kamandi se encontram.

Ah, sim, precisamos falar de Pedra da Eternidade da Liga da Justiça aqui. A máquina que lhes permite reescrever leis do universo deve ser a própria Caixa Gênese, mostrada nessa história (publicada em Melhores do Mundo da Editora Abril) – enquanto as palavras-arma que são a própria Equação Antivida.

A Terra é o ponto focal de uma singularidade apocalíptica”. Ok, vamos falar de um pouco de física aqui. Uma singularidade é o centro de um buraco negro, um objeto de densidade infinita (ou seja, muita massa em quase espaço nenhum), que causa tamanha gravidade que viaja pelo espaço e pelo tempo. É isso que está acontecendo com Darkseid na Terra. Vale uma releitura em 7 Soldados da Vitória: Sr. Milagre para entender isso melhor.

7-A Teoria das Cordas é também conhecida como Teoria-M, que parte dos significados mais diversos, e até divertidos, dependendo do que você acredita: mestre, matemática, mãe, mistério, magia ou MORRISON =D. Lembrem-se dar uma passadinha aqui para entenderem melhor o conceito científico acerca dela. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_cordas. Com isso podemos entender muito do Multiverso da DC neste momento: os OMACs, claro, são os originais de Kirby, dando também uma referência ao “Mundo que está por vir” apresentado na própria série escrita pelo rei, especialmente da Agência Global de Paz e seus agentes sem rosto, exatamente como a máscara de Questão =)

13-Lembram-se quando falamos que a arma definitiva contra os deuses estava na cara? Estes padrões são explicados pelo próprio Sr. Milagre para que todos entendam o que isso significa. Será que o grande presente de Metron não teria sido a imaginação ao invés do fogo?

14-15-O povo tigre aí vem diretamente da série original de Kamandi, que se passa numa Terra após o Grande Desastre, como também já falamos aqui no site.

16-17-Página dupla fantástica, não? Carlos Pacheco devia ter ficado na DC! Alguns dos grandes personagens da DC que estão em pé contra o mal sobre os Homens-Metálicos em formas de veículos.

18-O carinha falando em espanhol é Iman, que apareceu em Superman Anual #12. E Frankenstein está citando alguns trechos de Paraíso Perdido de John Milton, como ele sempre faz =)

“Aguardem o relâmpago para atacar”. Isso deve ser o relâmpago da própria Família Marvel, mas esse fenômeno natural tem uma ligação muito especial com a DC e o evento em si: o trovão do Flash, da Legião dos Super-Heróis =)

20-A Mary Marvel está possuída por Sakker-Masokk, conhecido também como Desaad =)

21-E a DC aprova uma cena sadomasoquista f#[email protected] da Mary Marvel! Mais uma vitória para nosso querido escritor =D

22-Sim, este cubo mágico é o mesmo de Sete Soldados: Senhor Milagre. “Os loucos… os muito diferentes…”, são auto-referências de Metron como feito em New Gods #7, do próprio Kirby, pois ele nunca se colocou como alguém nem dos Velhos Deuses e nem dos Novos. E vamos entender melhor a coisa da solução em 17 giros: ele é o número de Deus não por ser o mínimo número da resolução do cubo (já que isso seria 0), mas sim o mínimo número possível para um cubo completamente zoado – ou seja, apenas o poder de um deus para resolver o mal de outro deus =)

23-”Se não existe, use sua imaginação. Faça com que se torne real”. Esse é o macaco de Homem-Animal, fazendo o que fazia lá: brincando com o Limbo e personagens em uma história em quadrinhos. Este é um mundo de quadrinhos, é só imaginar que se torna “realidade” =).

24-O carinha da cara amarela não é Mokkari, mas certamente tem relação com o culto proposto por ele no começo da edição. E Metron finalmente se revela resolvendo o cubo mágico com um número de giros menor que o mínimo conseguido pelo ser humano. E então vemos os desenhos de de Uotan se tornarem realidade.

25-Estava na cara, não é mesmo? Luthor é o grande traidor responsável pela permissão dos heróis de utilizarem a ünternet. Mas vejam que conceito interessante: a traição para Darkseid é a lealdade à humanidade, e se tem uma coisa que Lex Luthor é, isto é humano! É por isso que ele odeia tanto o Superman.

O Libra aqui já assumiu sua posição: ele está aquietado agora, pois o mundo de seu Deus chegou, e seu propósito está cumprido. Agora só lhe resta executar os traidores e continuar a espalhar a palavra do seu senhor reencarnado.

26-Leiam a edição deste mês de Batman, da Panini! Ela explica o porque de Mokkari e Godfrey estão sendo mortos aqui.

27-A fala do Frankenstein aqui tem muito a ver com a própria Supergirl, não?

29-O presidente, de acordo com o que foi mostrado em Decisões, seria Jonathan Horne.

30-31-Este discuso Hitlerista de Darkseid é mais que esperado, já que esse aspecto de dominação sendo semelhante ao falecido líder germânico é comentado até hoje na cultura estadunidense. O bacana é que o artista Marco Rudy consegue emular bem a arte de J.G. Jones mostrando um vilão muito bem visualmente.

32-E esse é Nix Uotan, finalmente vestido como um super-herói. É interessante perceber que seu visual agora lembra um bocado o Povo do Amanhã, mais especificamente com Vykin o Negro, que tinha um conexão muito especial com a Caixa-Materna.

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