Batman – Descanse em Paz Parte 6: ZUR-EN-ARRH

[Parte 1: Meia-Noite na Casa da Dor] / [Parte 2: O Morcego no Submundo] / [Parte 3: Zur-En-Arrh!] / [Parte 4: Milagre no Beco do Crime] / [Parte 5: O Pequeno Duque da Morte]

batman-681-capa(…) E então, era tudo uma peça. Era tudo mais simples do que realmente parecia ser. Um chiste, uma enganação, apenas para construir uma realidade descabida em torno de uma mente concentrada, mas com sinais de perturbação. Pois é isso que acontece quando se joga a Mão do Homem-Morto com o Demônio em pessoa – “prazer em conhecê-lo, espero que adivinhe meu nome. Mas o que está te intrigando, é a natureza de meu jogo” (…)

Com esta pequena introdução explicamos alguns conceitos básicos que se fecham nesta edição de Batman (Batman #681 nos EUA e Batman nº 84 no Brasil, pela Panini), e que se assemelham demais aos misticismo que funciona como alicerce para o seriado Lost, provavelmente uma das maiores influências dos trabalhos recentes do escritor Grant Morrison. Nela, durante 5 anos de exibição, vimos muitas teorias e conhecimentos se formarem entre fãs, muitas vezes propagados pelos próprios produtores da série, pelo único e total prazer de ver os fãs exercitando suas mentes para tentarem descobrir os objetivos de determinados personagens ou caminhos da trama. Morrison fez isso também com o Batman, colocando muitas dúvidas na cabeça dos fãs:

  • Quem é a Luva Negra?

  • Quem realmente está por trás dela?

  • Quem é o responsável pelo que acontece ao Batman?

Para a primeira pergunta, já temos a resposta há algumas edições. É uma instituição, comandada pelo misterioso Dr. Hurt e formado pelo seu Clube dos Vilões, todos inspirados no grande nêmesis do Morcego, o Coringa, com o único objetivo de destruir espíritos nobres, como o do protagonista. Já para a segunda pergunta, a resposta é bem mais complexa, e cai numa situação que vimos acontecer muitas vezes com este escritor recentemente dentro da editora – teria ele liberdade total para fazer o que quer com suas histórias, usando apenas alguns chistes para enganar os fãs e dar nós em suas mentes, ou teria ele sido vetado pelos editores a ponto de ter que reverter suas decisões? Vamos explicar melhor o porque desta grande dúvida.

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Em muitos momentos deste arco, o foco do suspeito mudou de cara várias vezes durante as edições, inclusive várias vezes durante uma mesma edição. Dentre os suspeitos estiveram os nomes de Ra’s Al Ghul, do próprio Coringa, de Jezebel Jet e até de Robin. Mas o principal suspeito e mais provável durante um bom tempo era o mordomo Alfred. E é aí que mora o problema, pois Alfred esteve presente em muitos momentos de alta desconfiança, como na foto de Thomas Wayne ao lado da esposa lobotomizada, acompanhados ainda de Hurt e Mangrove Pierce. No fim, o mordomo é deixado de lado e se torna só mais uma vítima dos asseclas do Batman que acabam sendo capturados pela Luva Negra. Proposital ou resolução de última hora? Nunca saberemos de verdade.

hyperspaceDe qualquer forma, tudo isso faz parte de uma coisa que Morrison faz muito com suas histórias e seus leitores, que podemos chamar de “caixa”. A caixa é sempre construída em volta de todos nós com as ideias e conceitos dele, e se escaparmos da caixa ele constrói uma nova à nossa volta novamente. Imagine só, você aparece e desaparece quando quer. Jamais ficaria preso no trânsito, seu carro poderia sumir e reaparecer no seu destino. Agora, imagine-se com visão de raios-x, podendo ver acidentes à distância, vendo quem são as vítimas, descobrindo coisas escondidas e desconhecidas. Não haveria nenhuma obstrução à você. Toda essa proposição quase mágica vem do texto Hiperespaço (Hyperspace) de Michio Kaku e, quando colocada dentro do contexto correto, ela pode nos mostrar um canto muito obscuro da mente humana, que é o conceito de dimensão.

Que ser poderia ter poderes de um Deus? A resposta: um ser de uma dimensão maior”. Finalmente vamos falar de dimensões maiores aqui no Multiverso DC, um conceito que vem sendo utilizado por Morrison em muitos lugares, principalmente com o demônio-duende-alienígena Bat-Mirim, a o veículo de consciência da mente do Batman que, em muitos momentos, parece ter poderes infinitos, mas, na verdade, é sua simples capacidade mental concentrada de uma forma jamais utilizada: sem nenhum freio. Com isso, Morrison aproveita para fazer com que o Batman também seja um ser de uma dimensão mais alta, por ter alcançado sua perfeição mental e corpórea, preparando-se para cada estratagema feito contra sua pessoa. Além disso, temos também vilões com poderes divinos, como Hurt e o Coringa, que são avatares do mal.

De posse desses conceitos, Morrison cria uma série de caixas à nossa volta. Há uma caixa com seus próprios mistérios, que quando cremos ter resolvido todos, somos colocados dentro de uma outra numa dimensão ainda mais alta. Dentro desta, há uma outra caixa formada pela mente de Bruce Wayne/Batman que pode ser originada também de uma dimensão superior, por sua conexão com a razão na forma do Bat-Mirim ou por toda a sua preparação e capacidade de cumprir sua missão mesmo com a identidade “backup”, reassumindo seu verdadeiro manto no final. Há também a caixa do Coringa, esta formada pela apofenia, que é um “fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios” [Wikipédia], e que pode ser originada da psicose, ou seja, ele sente esta conexão com o Batman e vive dentro da caixa do herói, mas também tem sua própria, na qual está toda a sua visão de mundo deturpada e psicótica.

Sabendo que estamos lidando com um mundo de quadrinhos, é como se existisse um mundo 2D dentro de outro 3D. Veja só: nossos olhos operam em três dimensões apenas, fazendo com que possamos visualizar apenas ângulos de uma determinada distância. Quanto mais essa distância se aprofunda, menos podemos ver. Com isso em mente, considere-se sobre um plano de duas dimensões, que pode ser um pedaço de papel. Para aprisionar-se, você pode desenhar uma caixa à sua própria volta e pronto, não há como sair dali. Depois, coloque-se fora da caixa. Se isso fosse uma situação real, você teria experiências inacreditáveis com sua visão de duas dimensões absorvendo rápido demais as mudanças ocorridas. Portanto, a visibilidade de uma pessoa no mundo real, em três dimensões, é impossível de ser observada por você neste mundo bidimensional. Agora vejam como podemos aplicar todos estes conceitos da história de Morrison.

Durante toda a passagem do escocês pelo título mensal do Batman, o herói foi colocado em situações de altas dimensões, enfrentado seres que são quase deuses, como dissemos parágrafos acima. Podemos dizer então que a Luva Negra tem suas raízes em dimensões muito mais altas que a dos quadrinhos. Para exemplificar isso, vejam abaixo uma página do Clube dos Heróis em que o Bat-plano explode.

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Toda a cena fica confinada à uma sombria Luva Negra. Isso pode ser considerado um cruzamento de uma cena 2D numa batalha 3D, num seção muito representativa. Vejam outro exemplo abaixo, também desenhado por J.H. Williams III:

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Williams é um excelente interpretador dos roteiros de Morrison.

No arco de Joe Congela no Inferno, Bruce comenta em vários momentos que percebe olhos o observando que, como já comentamos, são os olhos dos leitores, ou seja, ele percebe que há uma dimensão mais alta que está controlando ou mesmo observando a sua.

O já mencionado aqui “buraco nas coisas” pode significar que Hurt é, acima de tudo, um fã freak de Batman colocando seu herói num desafio que extrapola os limites do possível e real: “e se existisse um inimigo invisível e implacável que calculou todas as minhas fraquezas? Que tivesse acesso a aliados, armas e táticas que jamais poderia imaginar. Um adversário cujos plots seriam tão vastos e elaborados que passariam despercebidos”. O fato do Batman não poder “imaginar” um inimigo assim significa que a origem deste ser se passa fora da realidade dos quadrinhos – numa dimensão mais alta.

O arco do Terceiro Fantasma também mostra a chegada do Bat-Mirim, que Morrison conecta mais explicitamente a dimensões mais altas já que o pequeno personagem alega ser do “Espaço B, numa expansão quíntupla de Zrfff”. Em 52, numa óbvia cena de Morrison, o Homem-Animal teleporta-se para os mais distantes confins do cosmos numa viagem pelo Espaço B – falamos logo no começo do artigo sobre desaparecer e aparecer num lugar.

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Zrfff fica em algum lugar na quinta dimensão e suas formas não podem ser compreendidas por pessoas de dimensões mais baixas.

Observem que, no passar das histórias, o personagem se teleporta de um quadro a outro, mostrando seu poder de cinco dimensões. E mais: ele mostra um conhecimento absoluto da vida do Batman, incluindo informações do Espaço B que que o herói não possui. Isso mostra que o Bat-Mirim é um leitor de quadrinhos muito atento, como é o próprio Dr. Hurt. Sua onisciência é tamanha a ponto dele encontrar o dispositivo de rastreamento no dente do Batman duas edições atrás, o que é uma referência da “visão de raios-x” no texto de Kaku, como dissemos lá em cima.

Na edição anterior a essa, Charlie Calígula desenvolve a habilidade de ver um invisível Bat-Mirim, mas então ele fica totalmente desorientado e, por fim, entra em pânico: “O que é isso atrás de você?! ONDE ESTOU?”. Talvez isto aconteça porque ele conseguiu ter um pouco da visão que o Batman teve mais cedo nesta mesma edição, ou talvez seus sentidos estão sendo bombardeados por tantas cores e formas que ele acaba sendo transportado rapidamente para uma dimensão mais alta.

Há uma edição atrás, quando o Bat-mirim declara “Imaginação é a quinta dimensão”, isso é ligado totalmente a nosso mundo real. Se ele é o leitor atento, os jogadores do Universo DC, ou seja, os contadores das histórias, vivem em quatro dimensões (três de espaço e uma de tempo). Nós, obviamente, vivemos em uma maior dimensionalidade, então, com esta vantagem, temos todos esses conhecimentos e podemos influenciar suas próprias vidas, e a forma como eles fazem suas histórias, através da imaginação. Logo veremos o vilão Mokkari questionar “Que tipo de homem pode transformar até as memórias de sua vida em uma arma?”. Um escritor pode fazer isso numa história.

Há duas edições atrás, o Batman começa a testemunhar a história se tornando realidade em volta dele. Ele começa a ver a cidade como ela realmente é, uma grade numa prancha de de um artista. Ninguém dentro do mundo dos quadrinhos tem imaginação (veja Homem-Animal #26 para mais detalhes) e Bruce começa a descrever aquele lugar como “uma máquina para criar Batman”. Mas esta máquina não consegue replicá-lo, prova disso é o Bat-Bane e os clones da Antivida.

Com o lançamento da última parte de Descanse em Paz, nós pudemos reimaginar Bruce com Morrison como Cristo, sendo enterrado com um Bat-crucifixo sofrendo para mostrar o poder de sua vontade acima disso. Bruce é o fruto da imagem “Corpus Hypercubus” de Salvador Dali.

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Como consequência disso, o Coringa jamais poderá escapar dos olhos que observam tudo. Não importa em qual nível o vilão se coloque, ele é só um homem nos quadrinhos vivendo numa página de quadrinhos, e o Batman sempre estará uma dimensão acima dele.

Enfim, o que queremos dizer com uma texto tão grande como este? Que a Luva Negra tentou criar uma caixa para colocar Batman e Coringa, mas não perceberam que o Coringa já os havia colocado em uma muito antes, e que o Batman, muito mais preparado, colocou todos dentro da sua, e os enfrentou com o renascimento do seu espírito nobre, derrubando a todos com um plano arriscado, mas perfeito. Ou quase.

Sabemos muito bem que uma explosão não mata ninguém na cultura pop, ainda mais nos quadrinhos (até porque veremos o Batman vivinho da silva na edição seguinte), e isso fez com que muitos fãs criticassem o “final clichê” de Morrison. De qualquer forma somos da opinião de que a explosão é muito simbólica, pois é uma tentativa desesperada de matar o mal puro, ou o demônio. É interessante perceber que Bruce não cai no jogo do Dr. Hurt quando este revela que é, na verdade, seu pai, Thomas Wayne. Mais uma vez, isso é um jogo de Hurt, apesar da dúvida ser muito curiosa, pois como bem sabemos, os corpos dos pais de Bruce nunca foram mostrados. Mas este buraco cronológico (“o buraco nas coisas”) pode ser apenas mais uma pegadinha do autor. Mas é curioso perceber que no helicóptero dele está o Terceiro Homem, que já havia afirmado antes que Hurt era uma forma reencarnada do capeta.

Outros detalhes importantíssimos para o fechamento da trama é que os ricaços todos sabem quem é Bruce Wayne, mas não é isso que importa para eles, mas sim ver seu espírito cair. Gordon, quando chega na costa de Gotham onde o helicóptero caiu, está acompanhado de Robin e Alfred, ou seja, é só somar 2+2 e ele sabe quem é Batman.

Mas os destaques mais bonitos ficam para as imagens de Dick Grayson segurando o manto de seu mentor, simbolizando seu próprio futuro, e a última página da história, que fecha todo o ciclo de renascimento do arco de Morrison mostrando o acontecimento fatídico da origem do Batman, que também se torna a origem de sua própria identidade “backup” – Zur em Arrh!

Anotações e Referências

1-Mais uma vez, estamos vendo anotações dos Casos Estranhos do Batman – e atualizados!

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3-“O homem superior pensa no mal que virá e se prepara contra ele.”. O I-Ching citou essa passagem capítulos atrás.

4-O demônio de três olhos evoca o novo visual do Coringa, com um furo na testa e dentes de fora. Vale uma olhada na Wikipédia sobre o “terceiro olho”, que é o significado espiritual para o conhecimento, e agora vemos que o Batman finalmente começa a “entender”. E você não precisa de um terceiro olho para perceber que estas cenas estão em preto, branco e vermelho =D. Veja mais sobre o terceiro olho aqui

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5-O “buraco na mente” do Coringa pode ser o vácuo de sua própria forma de pensamento que já foi comentada anteriormente, como também “o buraco das coisas” que veremos mais à frente nesta edição.

10-O Cardeal Maggi e Jezebel Jet mostram o que quebrou o Batman.

11-Reiki é uma forma de medicina alternativa com poder de cura vindo da palma da mão enquanto a pessoa doente fica deitada. Mais detalhes podem ser vistos aqui

12-Descobrimos para que serve o Bat-Rádio, não? =D

16-Uma simetria bacana: o Batman nasce nas páginas 16 e 32 da história.

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17-A frase do Coringa abandonando o Clube dos Vilões é referência direta de Symphaty for the Devil, dos Rolling Stones.

19-Jezebel disse “Quero que saiba que eu entendo” em Batman #664, para fazer com que Bruce Wayne se abrisse sobre a morte de seus pais.

20-Esta cena tem um problema sério. Grant Morrison arranca o passado de Jezebel Jet e o coloca na cabeça de Batman sem mais nem menos. O “deus ex-machina” não funciona aqui, infelizmente.

21-A relação de Batman e Dick aqui diz tudo. No fundo, ele sempre foi o favorito, mesmo com todos os desentendimentos deles no passar dos anos. Isso nos diz alguma coisa para o futuro, não é mesmo? =)

24-Observem que interessante. Havíamos falado no começo do Batman de Morrison que o crime de Gotham havia sumido e com isso ele foi pra Londres esfriar a cabeça um pouco. Curiosamente, ele vê uma imagem no Bat-computador que ele confunde com o Crocodilo. Talvez, ele já suspeitasse do que estava acontecendo desde lá.

Nós pichamos os muros com a frase gatilho…”. São as pichações que tanto falamos aqui nos arcos anteriores, que foram preparando Bruce para ser atacado.

A frase “Eu devo abandonar meu uniforme de Batman e me aposentar da luta contra o crime” vem diretamente da já citada tantas vezes Robin Morrerá ao Amanhecer.

25-Já falamos sobre isso no arco do Clube dos Heróis, em que a face de uma pessoa sobre a outra também indica possessão espiritual.

“Eu sou o buraco nas coisas, Bruce, o Inimigo…” – os Cristãos geralmente se referem a Satã como o Inimigo também. O Dr. Hurt oferece ao Batman a chance de fazer um trato com ele e se tornar um membro da Luva Negra. O Batman não só nega como ataca Hurt, afinal, ele não é o Homem-Aranha =D

27-Quem está pilotando o helicóptero é o Terceiro Homem, como já bem sabemos.

30-O plano do Batman foi tão bem fundamentado que nem Jezebel escapa.

31-Fechando o ciclo de abertura da saga.

32-E, finalmente, a explicação de “Zur en Arrh”, ou “Zorro em Arkham”, com o ainda criança Bruce Wayne pronunciando a frase da forma como consegue. Enquanto muita gente se preocupou em entender o que acontecia com o Batman e não se ligou na frase propriamente dita, Morrison dedica uma página inteira para explicar sua passagem favorita da Era de Prata.

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Esta capítulo não só fecha quase todas as pontas soltas (as que restaram serão fechadas nas próximas duas edições) como também finaliza, de forma filosófica e complexa todo o avanço deste renascimento interpessoal e espiritual do Batman.

E assim terminamos o maior estudo da mente do Batman, feira por um dos escritores mais populares, amados e odiados no mercado estadunidense de quadrinhos. No mês que vem veremos o Bruce pós-Descanse em Paz, enfrentando seus próprios pensamentos e lembranças ao ser colocado na máquina de tortura dos Novos Deuses na Crise Final.

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